Jéz in CENA: Como o R&B de São João de Meriti Criou um Movimento Coletivo
- Pivete

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Cria da Vila Ruth, em São João de Meriti, Jéz é um daqueles artistas que foram construindo caminho no corre e na escuta. Cantor, compositor e produtor, ele vem desenhando uma sonoridade própria dentro do R&B e da soul music feita na Baixada - música com clima de noite quente, voz próxima e letra que parece conversa.
Antes mesmo de virar produtor cultural e articulador de cena, Jéz já estava ali, fazendo o que sempre fez: música.
Foi em 2021 que o primeiro grande movimento aconteceu. O single “Senti Sua Falta” começou a circular nas plataformas e, de repente, o som saiu da bolha. A faixa chegou ao TOP 1 de R&B no aplicativo Palco MP3 em agosto daquele ano, colocando o nome do artista de Meriti no radar da cena independente.
No mesmo embalo veio “Te Ver Partir”, também lançada em 2021, aprofundando esse clima de R&B sentimental que já começava a virar assinatura.
De lá pra cá, Jéz foi construindo uma discografia que cresce no ritmo das conexões que faz pelo caminho. Vieram “Boa Noite” (2022), “Retrato” (2023) - parceria com Duda Teodoro - e “Nesse Ritmo” (2024). Todas com produção de FESANT, produtor que acompanha de perto essa fase de consolidação do artista.
Mas quem acompanha o corre dele sabe que a música de Jéz sempre anda junto com o encontro.
Não por acaso, muitas dessas conexões que começam no estúdio acabam virando palco, projeto, coletivo. Foi desse espírito que nasceu o “Jéz Convida”, série de apresentações intimistas criada em 2022, com direção musical de Filipe Lobo.
A ideia era simples: abrir espaço para dividir repertório com outros artistas da cena. O palco virou ponto de troca.
Jéz valoriza os músicos da Baixada Fluminense. Ao longo de quatro anos apresentando o show JÉZ & BANDA, reuniu mais de dez músicos em diferentes formações. Desse processo nasceu um “álbum clandestino”, intitulado JÉZ & BANDA (ENSAIOS).
Gravado de forma independente, com registros feitos no celular ou por microfone ambiente durante os ensaios, o projeto reúne dez faixas e documenta a energia coletiva dessas sessões.
Pelo Jéz Convida passaram mais de trinta artistas da Baixada e do Rio, nomes como Kalebe, Dayô, Afrodite, Maui, Cayuma, Ceejay, Jay Emme, Lavínia, Lorac e Kings Saints. Gente que às vezes circulava pelos mesmos territórios, mas ainda não tinha se cruzado musicalmente.
Mais do que show, o projeto acabou ajudando a revelar uma cena.
E foi justamente dessa movimentação que nasceu algo maior: o BXD IN CENA.

No começo era quase guerrilha cultural - um celular, um microfone e três pessoas acreditando que a Baixada precisava contar suas próprias histórias: Jéz, Fijó e Bea Domingos. Primeiro veio o blog, registrando eventos e dando visibilidade para artistas que raramente apareciam nos grandes portais culturais.
Depois vieram os eventos. Depois veio o espaço.
Hoje o Espaço BiC, em Coelho da Rocha, funciona como uma extensão dessa visão: um lugar onde música, poesia, audiovisual e performance se encontram sem pedir autorização para nenhum centro cultural oficial.

Por ali circulam shows, saraus, slams, rodas de rima e encontros formativos. E também surgem iniciativas que ampliam a presença de diferentes vozes dentro da cena. Uma delas é o BXDELAS, que nasceu em conjunto com Laura Gonna e hoje é produzido por Lohanna Alves - evento que coloca mulheres no centro da programação e da curadoria, ajudando a fortalecer redes femininas dentro da música e da produção cultural da Baixada.
Mas, mesmo com o crescimento do projeto, a música continua sendo o coração do caminho.
Em 2026, Jéz lançou “Obra de Arte”, single que traz participação de Ceejay e produção de FELL. Mais uma faixa que reforça essa mistura entre R&B contemporâneo e identidade periférica que atravessa sua obra.
Ao mesmo tempo, a presença dele começou a atravessar outras linguagens. Em 2025, uma de suas músicas foi escolhida para integrar a trilha sonora do filme Entre o Bem e o Mar, dirigido por Dalton, marcando sua entrada no audiovisual.
No mesmo ano, seu nome também apareceu na publicação Transforma São João de Meriti (UNIRIO, 2025), livro que reúne os resultados da pesquisa Cartografia Cultural de São João de Meriti e do I Simpósio de Agentes Culturais. Ali, Jéz é citado como um dos agentes que vêm ajudando a transformar a paisagem cultural da cidade.

No fundo, a caminhada dele parece seguir uma lógica simples: primeiro vem a música. Depois vem o encontro. E quando muita gente começa a se encontrar no mesmo som, a cena nasce.
O trabalho de Jéz carrega justamente essa visão - a de que a arte pode ser ferramenta de emancipação, orgulho territorial e construção coletiva. Da rua à universidade, do improviso à produção cultural, ele segue reafirmando todos os dias que a Baixada não é margem.
É centro de criação.
Como ele mesmo costuma dizer:
"A Baixada não quer favor. Quer chão pra pisar."

Hoje, à frente do Espaço Cultural BXD IN CENA, Jéz continua fazendo da cultura um ato político, do palco um ponto de encontro e da Baixada uma vanguarda que por muito tempo foi invisibilizada - mas que já não pode mais ser ignorada.
E se depender dos próximos passos, essa história ainda tem muito capítulo pela frente. Jéz já está trabalhando em um novo álbum que carrega a Baixada Fluminense no centro do processo criativo.
Como ele mesmo explica:
“Sobre visão de futuro, nesse meu álbum eu tô colocando muito Baixada Fluminense. Tanto que o nome tem Baixada. E os músicos que eu estou chamando são todos que participaram comigo no JÉZ & BANDA e alguns outros que fizeram parte desse caminho. Mas a grande maioria - 99% - é da Baixada Fluminense. Então nessa parte do álbum que eu estou construindo, a produção é da Baixada, os compositores, a banda… 100% baixadense.”
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Marginalia é a nova coluna do Pivete na Revista Menó. Inspirada nas anotações feitas nas margens dos livros - e no espírito transgressor da Marginália brasileira dos anos 60 - a seção olha para quem cria cultura fora do centro. Um espaço para registrar artistas, movimentos e histórias que nascem nas vielas, nos morros e nas bordas do mapa, transformando as margens em lugar de memória, criação e protagonismo.





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