Entre Belchior, Racionais e Don L: A experiência de tornar-se Estrangeiro em seu próprio território
- Ryan Augusto

- há 22 horas
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Seria uma tarefa difícil encontrar jovens periféricos que não conheçam um ensinamento que aprendemos desde criança: leve sempre sua identidade ao sair de casa!
Muitas vezes isso não foi o suficiente para as autoridades policiais. As cicatrizes que marcam corpos e territórios marginalizados dizem mais do que os dados impressos nos documentos oficiais. São formas de identificação, por meio das quais nos reconhecemos e os outros nos reconhecem, que fixam hierarquias através de processos de segregação social.
A construção de um Outro desumanizado pode assumir rostos distintos: um favelado, nordestino, imigrante… Porém, como um efeito colateral do sistema, também pode provocar diferentes práticas de resistência política-cultural. E podemos ver essa potência criativa para traçar rotas de fuga em dois símbolos da música brasileira: Belchior e Racionais MC’s, em seus contextos históricos específicos, expressam diferentes momentos de uma vivência periférica nos espaços urbanos.
O migrante regional – em Belchior – e o sujeito racializado – em Racionais MC’s – compartilham a experiência de serem identificados como estrangeiros na própria cidade que construíram. Expropriados e deslocados para as margens da metrópole, se tornam corpos estranhos no território onde circulam, submetidos à vigilância permanente dos aparatos estatais.
Por toda autoridade o preconceito eterno
E de repente o nosso espaço se transforma/ Num verdadeiro inferno
(...) Eles circulam na rua com uma descrição
Que é parecida com a sua/ Cabelo cor e feição
Será que eles veem em nós um marginal padrão
[Racionais, Racistas Otários]
A experiência afro-diaspórica e o êxodo nordestino, em solo brasileiro, se entrelaçam no processo de urbanização e produção de zonas periféricas. E apesar dos cursos transgeracionais particulares, ambos se encontram na condição de subalternização, precarização das relações de trabalho, salários abaixo da média, acesso desigual à infraestrutura urbana, entre outros efeitos derivados da exigência de superexploração em sociedades de capitalismo dependente.
Esse paralelo entre a trajetória do migrante nordestino e o sujeito racializado aparece em um trecho da música Periferia é Periferia, onde Edi Rock escancara os dilemas cotidianos dos indivíduos que (sobre)vivem nestes espaços: “O ódio toma conta de um trabalhador/ Escravo urbano/ Um simples nordestino”.
Se, por um lado, os anos 90 foram um período de intensa violência policial e precarização das margens dos centros urbanos brasileiros, por outro lado, também representaram uma abertura para a afirmação de resistências periféricas culturais.
O Hip Hop ilustra bem a insurgência desses novos movimentos que questionavam o “mito da democracia racial” e a idealização de uma suposta integração nacional harmônica.
50 anos agora se completam/ Da lei antirracismo na constituição
Infalível na teoria/ Inútil no dia a dia
Então que fodam-se eles com sua demagogia
No meu país o preconceito é eficaz
Te cumprimentam na frente/ E te dão um tiro por trás
[Racionais, Racistas Otários]
O sistema é a causa/ E nós somos a consequência....Maior
Da chamada violência/ Por que na real
Com nossa vida ninguém se importa/ E ainda querem que sejamos patriotas
[Racionais, Hey Boy]
Porém, mesmo com suas insuficiências, o processo de redemocratização no Brasil abriu margens para o Rap circular nas ruas por meios alternativos. Projetos independentes como Holocausto Urbano (1990) e Sobrevivendo no Inferno (1997), ambos do Racionais MC’s, carregam uma sonoridade atravessada por ruídos que refletem o cotidiano frenético das periferias urbanas: sirenes, tiros, diálogos sobrepostos, orações, gritos … Tudo isso acompanhado de versos explícitos que denunciam a violência policial nas favelas, o descaso sistemático com as vidas periféricas, as propagandas sensacionalistas que rotulavam negros como “ameaças em potencial”, além de outros temas até então invisibilizados ou abordados de maneira implícita.
Já o ambiente do jovem Belchior era outro. Em uma época marcada pela forte censura e repressão da ditadura militar, sua angústia existencial era transmitida em uma sonoridade mais solitária, em descompasso com o ritmo acelerado da cidade, e com versos que expressavam o sentimento de vulnerabilidade de quem vinha do interior sem o amparo de parentes importantes. Em contrapartida, a ironia e a consciência histórica-geográfica aparecem como críticas que continuam reverberando.
Mas sei que tudo é proibido/ Aliás, eu queria dizer/ Que tudo é permitido (...)
Sons, palavras, são navalhas/ E eu não posso cantar como convém/ Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo/ Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção/ A vida realmente é diferente/ Quer dizer/ Ao vivo é muito pior (...)
Mas se depois de cantar/ Você ainda quiser me atirar/ Mate-me logo à tarde, às três
Que à noite tenho um compromisso e não posso faltar/ Por causa de vocês
[Belchior, Apenas um Rapaz Latino Americano]
Um entre tantos nômades que vieram ao sudeste em busca de melhores condições de vida, Belchior compartilhava uma história “comum do seu tempo”, um estrangeiro na cidade grande, considerado imigrante em sua própria nação, e que sabia os perigos de sair sem o documento de identidade, como diz na faixa Fotografia 3 x 4:
Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3X4 da fotografia/ E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha
[Belchior, Fotografia 3 x 4]
As faixas do álbum Alucinação (1976) transitam entre a frustração com o presente e a esperança em um futuro porvir. E mesmo desnorteado e desapontado pela frieza das noites urbanas, Belchior encerra desejando amar a vida e os delírios das coisas reais.
Exilado de si, tomado por uma sensação de não pertencimento, ainda assim (ou exatamente por isso) evoca uma força para além de uma identidade idealizada restrita aos limites territoriais brasileiros. Aliás, nem mesmo procura uma fuga na ilusão de um regresso: “nordeste é uma ficção, nunca houve” (Belchior, Conheço o meu lugar).
Nessa encruzilhada, o modo como Mano Brown reivindica Belchior na faixa Capítulo 4, Versículo 3 nos lembra dessas experiências em comum: excluídos de uma cidadania efetiva, ambos conseguem afirmar sua existência enquanto latino-americanos, cada qual sobrevivendo e lidando com formas de violência que ainda assombram os dias atuais.
Décadas depois, como uma fúria negra que ressuscita outra vez, o rapper Don L insurge como um acontecimento nesse fluxo geracional: um fantasma que retorna e expressa os paradoxos do sujeito transformado em estranho por seu deslocamento espacial e simbólico.
Em Roteiro Pra Aïnouz vol. III (2017) – primeiro álbum de sua trilogia inversa ainda não finalizada – vemos ecoar as angústias de Belchior. Ao migrarem para São Paulo em busca de seus sonhos, ambos se encontram à deriva: não se reconhecem como pertencentes à metrópole, mas também se percebem como estrangeiros no território de onde vieram.
Quando 'cê só aceita o sonho/
(Quando eu era mais estrangeiro aqui/ Do que ainda sou)
E já sentia que não pertencia ali, também, saca?
(Procurando a liberdade com o que tinha em mãos)
[Don L, Eu Não Te Amo]
O estrangeiro não é apenas o estatuto de quem atravessa uma fronteira geográfica delimitada artificialmente. Torna-se esse Outro estranho por seu modo de existir não corresponder ao socialmente reconhecido como legítimo. E esse estranhamento reflete no interior de quem vive nessa condição liminar da existência: um dissidente, um forasteiro, um imigrante.
Entretanto, essa sensação de não pertencimento que esvazia nossas formas de identificação, também traz uma abertura para anunciar algo de novo.
Em Roteiro Pra Aïnouz vol. II (2021), segunda parte do projeto, vemos um duplo movimento: ao resgatar o passado sangrento do colonialismo e recontar a história na perspectiva dos povos oprimidos, ao mesmo tempo, também evoca as lutas de libertação latino-americanas como fonte criativa para propor alternativas. A desilusão do nordestino em êxodo no centro de São Paulo, visto no RPAIII (2017), dá lugar ao guerrilheiro utópico que mobiliza uma solidariedade que transcende sua vivência imediata.
A manutenção e reprodução da acumulação de Capital impõem uma política sacrificial: classificam sujeitos como possíveis alvos, inimigos internos ou externos que passam a ter sua existência negada, inferiorizada e – levada às últimas consequências – exterminada em nome de um suposto “bem maior” ou “dever patriótico”. Seja em nível regional ou internacional, os discursos nacionalistas que consideram a diversidade uma ameaça, criando imagens de inimigos públicos desumanizados, continuam operando como formas de justificação de genocídios e guerras expropriatórias.
Somos latino-americanos em nossa experiência compartilhada de opressão colonial e imperialista. E entre a revolta no presente e a esperança em uma mudança que em breve irá acontecer, há a força de uma fluência que permite a imaginação de futuros não colonizados. E talvez seja isso que nos permita um certo senso de pertencimento, por mais precário que seja, mesmo com todas as diferenças e apesar de toda (in)diferença.
Lutar do lado errado é já perder a guerra
Do lado certo a gente vence mesmo quando perde
E quando vence, vence duas vezes
[Don L, volta da vitória]
A possibilidade de transformar os rumos do nosso período histórico depende do poder de nos situarmos, estrategicamente, para além das fronteiras nacionais e marcadores estáticos de identificação. Esse é um dos principais desafios no atual estágio do processo de globalização capitalista e seus efeitos destrutivos para a continuidade da vida. Nossas esperanças não vêm acontecendo, mas da dor de quem vive pelas fronteiras podem renascer futuros não realizados. Retomando as palavras de Belchior na faixa Vellha Roupa Colorida:
Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/
Que uma nova mudança em breve vai acontecer/
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo/ E precisamos todos rejuvenescer
[Belchior, Velha Roupa Colorida]
Sejamos o que transforma o antigo em novo! Entre Belchior e Racionais MC’s … ainda procurando formas para (re)existir: “para que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. E finalmente podermos cantar sobre viver e não apenas sobrevivência.
Referências Bibliográficas
BELCHIOR. Alucinação. YouTube, 1976. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sk6JRsz6ErQ&list=PLMxy067kbpQgA-wdHMgYm9_7NmoKyatBM. Acesso em: 5 mar. 2026.
BELCHIOR. Conheço o meu lugar. YouTube, 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F99-ddMTHX0. Acesso em: 11 mar. 2026.
DON L. Roteiro Pra Aïnouz, vol. III. YouTube, 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FmXIiQBmW18&list=PLpmpNbqyfcHogeZBhcm3nd_JqB_cWbf-v. Acesso em: 11 mar. 2026.
DON L. Roteiro pra Aïnouz, vol. II. YouTube, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2S0nG_uMUrY&list=PLpmpNbqyfcHrGNuGXwiLbWBOuqD9FTrSD&index=1. Acesso em: 11 mar. 2026.
EMICIDA. AmarElo. YouTube, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU. Acesso em: 5 mar. 2026.
RACIONAIS MC'S. Holocausto Urbano. YouTube, 1990. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U9zN_HPDInM&list=PLcbqoj6PmK65LGmHmYLTJ_CB4ranl9nbE. Acesso em: 11 mar. 2026.
RACIONAIS MC'S. Sobrevivendo no Inferno. YouTube, 1997. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W4I3wm7vMTo&list=PLcbqoj6PmK64QJxqeNpO4CVN5ROB-5Jvb. Acesso em: 5 mar. 2026.





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