Coruja: o rap não pode perder a coragem de incomodar
Entre as memórias da quebrada, as dificuldades de viver de música e um novo disco com Tropkillaz, Coruja troca ideia com o Menó sobre renascimento, política, indústria musical e a importância de seguir fazendo arte sem abaixar a cabeça.

Antes do rap, veio o repente. Antes de conhecer os Racionais, Coruja já crescia cercado de música. O avô pernambucano tocava sanfona, violão, improvisava versos e dizia para a mãe do garoto que ele ainda seria músico. Chegou a dar um pandeiro e um cavaquinho para o neto, que, naquela época, nem imaginava que um dia viveria de rap. Na verdade, a influência do avô apontava para outro caminho: o samba.
Do outro lado, o pai colocava Tim Maia, Cassiano, forró e brega pra tocar. E, na quebrada, cada vizinho tinha seu próprio som. Era possível passar por uma casa ouvindo rock, outra tocando música romântica e encontrar até Elton John no meio da favela. Foi nesse caldeirão de referências que Coruja começou a construir sua identidade musical.

“A favela tem um ouvido muito aguçado para o que é música”, conta, lembrando da diversidade que encontrou crescendo na periferia de São Paulo.
O rap chegou com força nos anos 90, num momento em que a violência policial atravessava o cotidiano das periferias e grupos como Racionais MC's, Consciência Humana e outros transformavam essas vivências em música. Coruja lembra de uma época em que o hip-hop e o movimento negro caminhavam juntos, e em que ser rapper também significava ter uma posição diante do mundo.
Foi assistindo à MTV com a irmã, ainda criança, dentro de um barraco de madeira, que viu Mano Brown rimando e decidiu o que queria fazer da vida.
“Quando eu vi o Brown, eu falei: mano, eu quero ser igual a esse cara, mano, eu quero fazer o que esse cara faz.”
Para ele, aquele som parecia uma mistura do repente que conhecia através do avô com as batidas de Tim Maia que escutava em casa. A conexão foi imediata. O hip-hop virou escola, formação e parte da sua vida. Coruja também passou pelo breaking, influenciado pelos primos, e até hoje faz questão de se reconhecer como b-boy.
Essa bagagem ajuda a entender o artista que, anos depois, continua enxergando o rap como algo que vai muito além de lançar música e acumular números.
O tempo de cada corre
Depois de três anos sem lançar um novo projeto, Coruja voltou com “Pássaro de Fogo”, faixa produzida em parceria com Tropkillaz. Mas, quando o assunto é esse período longe dos lançamentos, ele faz questão de explicar que nunca deixou de fazer rap. O que mudou foi a maneira de lidar com a carreira e com a própria vida.
Na conversa, ele relembrou um afastamento anterior, marcado por situações difíceis. A morte de um fã, que enfrentava depressão e havia deixado uma carta falando da importância das músicas de Coruja e Rashid em sua vida, mexeu profundamente com o rapper. Na mesma época, ele também perdeu um amigo próximo, Fernando Bola, vítima de câncer. Tudo isso aconteceu em meio às dificuldades financeiras de seguir vivendo de música.

Essas experiências fizeram Coruja repensar o que queria comunicar através da arte e como poderia continuar sua caminhada sem se perder no processo.
Agora, o cenário é outro, mas algumas questões continuam parecidas. Nos últimos três anos, Coruja virou pai, amadureceu e decidiu que precisava de tempo para construir um disco com a qualidade que imaginava. Não queria simplesmente alimentar as plataformas com lançamentos feitos às pressas.
“Eu quero fazer o bagulho do meu jeito, mano. Pode demorar três anos de novo.”
E essa escolha tem um preço. Coruja fala abertamente sobre o quanto custa produzir música no Brasil. Não basta gravar uma faixa e colocar na internet. Tem produção, audiovisual, divulgação, assessoria, estratégia e uma série de gastos que nem sempre cabem no bolso de quem vem da periferia.
“A galera romantiza, a galera correlaciona com o fato de você ter um milhão de views, dois milhões de views, cinco milhões de views, com você ter cinco milhões de reais. Isso não é uma verdade.”
É uma realidade que muita gente de fora não enxerga. O artista pode ter milhões de reproduções e ainda assim enfrentar dificuldades para pagar as contas, manter uma equipe ou financiar o próximo trabalho. Coruja lembra que, durante a pandemia, o setor cultural foi um dos primeiros a parar e um dos últimos a voltar, deixando ainda mais evidente a fragilidade de quem vive de arte.
Para ele, o problema também passa por uma indústria que exige investimentos cada vez maiores e acaba afastando artistas que não têm dinheiro para sustentar esse jogo.
O resultado é um mercado em que muitas vezes o número de seguidores vale mais do que o que está sendo dito na música. O conceito de um disco, sua proposta e sua sonoridade vão ficando em segundo plano diante das exigências de desempenho das plataformas.
Coruja não esconde o incômodo com essa lógica. Se antes a discussão era sobre o que um artista queria comunicar, hoje parece que a primeira pergunta é quantos números ele consegue entregar.

E é justamente por não querer entrar nessa corrida de qualquer jeito que decidiu esperar.
“Hoje eu sei o meu valor. Eu sei o quanto vale a minha arte e, tipo, eu não aceito menos pra ela.”
A favela não precisa passar pelo inferno para ser vista
Esse incômodo atravessa “Pássaro de Fogo”, primeiro single da nova fase. A música fala de renascimento, mas não daquele discurso pronto de superação que costuma transformar qualquer sofrimento em uma história bonita.
Coruja questiona a romantização da dor de jovens pretos e periféricos. A ideia de que, para alcançar algum reconhecimento, quem vem da favela precisa primeiro enfrentar uma sequência de tragédias, sobreviver a tudo e ainda agradecer pela oportunidade de estar ali.
Na visão dele, existe uma cobrança para que o artista periférico transforme sua própria dor em produto. E, muitas vezes, quem lucra com essa narrativa não é quem viveu a história.
O rapper também aponta para marcas e empresas que levantam bandeiras antirracistas enquanto, segundo sua crítica, mantêm práticas que prejudicam trabalhadores negros. O mesmo vale para agentes da indústria que se apresentam como representantes da favela, mas oferecem contratos abusivos e acabam interrompendo as carreiras.
É nesse ponto que ele questiona o discurso de que “a favela venceu”. Afinal, quem venceu? E quantos artistas talentosos continuam passando necessidade, mesmo depois de dedicar anos da vida à música?
“Eu acho que a música precisa incomodar, tá ligado? Eu acho que eu sinto falta de músicas que incomodam.”
Para Coruja, não basta falar de política ou de problemas sociais quando isso não interfere nas próprias oportunidades. Ele critica a postura de artistas que questionam determinadas estruturas, mas evitam tocar em assuntos que possam comprometer suas relações com plataformas, marcas ou empresas.
A liberdade de falar o que pensa, inclusive quando isso incomoda quem controla o mercado, é uma característica que ele não quer perder.
E essa discussão tem tudo a ver com a história do rap que conheceu ainda criança. Um rap que denunciava a violência policial, falava da vida nas periferias e não tinha medo de apontar os responsáveis pelas desigualdades.
O nome que a rua deu
A ideia de renascimento também aparece numa mudança que pode parecer pequena, mas carrega um significado importante. O artista deixou de usar o BC1 e passou a se apresentar apenas como Coruja.
Durante a entrevista, ele contou que já vinha pensando nessa mudança havia algum tempo. BC1 fazia referência à expressão “Buscando Conhecimento”, mas, com os anos, o complemento deixou de fazer tanto sentido. Afinal, a própria coruja já é um símbolo associado à sabedoria.
Mais do que uma questão estética, a decisão também representa uma renovação de energia. Coruja se considera uma pessoa mística e viu nessa mudança a oportunidade de se reconectar com algo que vem de muito antes da carreira musical.

O nome Coruja não foi inventado para o rap. É um apelido de infância, recebido na rua.
“A rua me deu. Então eu queria ficar com esse batismo.”
No meio de tantas transformações, permanecer com o nome que ganhou na quebrada também é uma maneira de reafirmar de onde veio. Sem complemento, sem personagem novo, sem precisar se reinventar para agradar ao mercado.
Só Coruja.
A música brasileira também está nesse rap
Se o nome aponta para as origens, a sonoridade do novo trabalho também segue por esse caminho.
Em “Pássaro de Fogo”, a produção de Tropkillaz utiliza um sample de “Luta e Brinca”, do capoeirista Mestre Barrão. A escolha aproxima a capoeira do rap contemporâneo e coloca a cultura afro-brasileira dentro de uma faixa que também fala de resistência.
Durante o papo, voltamos a essa relação entre música, ancestralidade e identidade. Algo que já aparecia quando Coruja contava sobre o avô, o repente, o samba e a black music que ouvia na infância.
Não são referências distantes ou escolhidas apenas para construir uma estética. São sons que fazem parte da formação do artista e ajudam a explicar a maneira como ele entende o hip-hop.
O trabalho com Tropkillaz também segue nessa direção. A ideia é construir uma sonoridade que misture as referências brasileiras de Coruja com a bagagem musical dos produtores, sem ficar presa a uma fórmula.
E, pelo que o rapper contou, essa mistura vai muito além do primeiro single.
Não dá pra ficar em cima do muro
Outro ponto forte da conversa foi o posicionamento político dos artistas. Para Coruja, fazer rap e não olhar para o que acontece ao redor é uma contradição com a própria história do movimento.
O rapper falou sobre o avanço da extrema direita, os ataques à cultura e a importância de defender os espaços de produção artística. Na visão dele, a arte tem um papel fundamental na construção do pensamento crítico, justamente porque provoca perguntas e coloca ideias em circulação.

“A cultura é o que liberta, né, cara?”, afirmou, ao defender a importância da música, da literatura e de outras expressões artísticas.
Coruja também não tenta esconder suas posições para alcançar mais público. Durante a entrevista, se definiu como um rapper de esquerda e socialista, deixando claro que não pretende adaptar suas ideias para evitar conflitos.
Isso não significa negar a importância de ganhar dinheiro com o próprio trabalho. Pelo contrário. Ele fala sobre a necessidade de ser remunerado, sustentar a família e garantir condições dignas para quem trabalha ao seu lado.
Mas existe uma diferença entre viver da própria arte e abrir mão do que acredita para conseguir espaço.
“Eu não sou um artista isento, mano. Eu não sou um artista em cima do muro.”
Coruja também faz questão de se reconhecer como parte da classe trabalhadora. Fala das preocupações com a aposentadoria da mãe, dos sogros e com a situação financeira dos parceiros e colaboradores.
Essa consciência, segundo ele, vem tanto da experiência de crescer na periferia quanto dos desafios que enfrentou ao longo da carreira.
É por isso que, para Coruja, o posicionamento político não aparece como uma obrigação externa à música. Faz parte de quem ele é, da realidade que conhece e das pessoas com quem divide a caminhada.
E se o sambista pudesse vencer?
Uma das partes mais interessantes da conversa veio quando Coruja começou a explicar o conceito do próximo álbum.
O projeto é inspirado em Rio, Zona Norte, filme brasileiro de 1957, protagonizado por Grande Otelo. Na história, o personagem Espírito da Luz é um sambista e compositor que tenta viver de música, mas enfrenta exploração, dificuldades financeiras e uma série de situações que acabam interrompendo sua trajetória.
Coruja enxergou naquele personagem uma realidade que continua presente na vida de muitos artistas negros e periféricos. Mesmo décadas depois, as dificuldades de sobreviver da própria arte, a exploração e a falta de oportunidades seguem fazendo parte do cotidiano de quem tenta construir uma carreira sem grandes recursos.
Mas uma coisa chamou sua atenção: no filme, Espírito da Luz não consegue reagir às violências que sofre.
Foi daí que surgiu a ideia de reconstruir essa história.
No novo disco, Coruja quer imaginar outro destino para o personagem. Em vez de sucumbir às dificuldades, ele vai reagir. Vai bater de frente com as estruturas que tentam derrubá-lo e encontrar uma maneira de vencer.
A proposta é criar um diálogo entre o samba do passado e o rap contemporâneo, conectando dois momentos da música brasileira que, apesar da distância no tempo, carregam muitas questões em comum.
É uma maneira de olhar para a história e imaginar outros caminhos para quem sempre teve suas possibilidades limitadas.
O disco vem sendo construído com Tropkillaz, a partir dessa mistura de referências e da vontade de contar uma história que ultrapasse as faixas individualmente.
Coruja fala do projeto com empolgação e conta que algumas músicas já provocaram reações fortes dentro do estúdio.

“Eu acho que é o melhor disco da minha vida.”
A expectativa é grande, mas ele não demonstra pressa em colocar o trabalho na rua antes da hora. Depois de tudo o que viveu, parece mais interessado em entregar algo que realmente represente esse momento do que em acompanhar o ritmo acelerado dos lançamentos.
Pra quem tá começando agora
No fim do papo, a conversa chegou aos crias que acompanham a Menó. Jovens da periferia que estão escrevendo suas primeiras rimas, gravando em casa, montando seus projetos e tentando encontrar espaço para fazer arte.
E o conselho de Coruja foge daquele discurso de que basta acreditar no sonho que tudo vai acontecer.
O primeiro passo, segundo ele, é fazer arte por amor. Porque, para quem vem de onde a gente vem, o caminho costuma ser difícil demais para continuar sem gostar de verdade do que faz.
Mas amor sozinho não paga conta.
Coruja fala da importância de ter estratégia, entender as próprias habilidades e encontrar diferentes maneiras de ganhar dinheiro com o trabalho artístico. Também aconselha quem já tem um emprego a não abandonar essa fonte de renda sem antes construir um plano para sustentar a carreira.
É um conselho de quem conhece as dificuldades de viver de música e sabe que talento não protege ninguém da falta de grana.

“Você não é herdeiro, mano. Então você vai precisar correr, você vai precisar ter sagacidade.”
Ao mesmo tempo, ele lembra que, quando a oportunidade chegar, é preciso aproveitar sem medo e sem culpa.
Talvez seja essa uma das ideias que mais atravessam a conversa. O direito de fazer arte, viver dela e construir uma trajetória sem precisar transformar cada dificuldade em espetáculo.
Coruja volta depois de três anos com um novo nome, novas músicas e outras responsabilidades. Mas segue carregando as referências do avô, os sons que ouviu na quebrada e a influência de um rap que ensinou a questionar o mundo.
Entre o samba, o repente, a capoeira e o hip-hop, seu novo trabalho parece olhar tanto para o passado quanto para o futuro. E, no meio de tudo isso, permanece uma convicção que ele repetiu durante o papo: a música não pode perder a coragem de incomodar.
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