Bruno Kroz: Black Roma Sangue e a violência que atravessa Salvador
Quando eu pergunto para Bruno Kroz de onde vem a música dele, a resposta não começa no estúdio. Começa em casa.
“Eu fui abençoado com a sorte de crescer em um lar que a galera sempre gostou de rap.”

O tio era fissurado, a mãe ouvia, o pai também.
“Meus presentes de criança eram CD de rap, DVD de rap.”
Enquanto muita gente conheceu o gênero na rua ou na adolescência, Bruno teve esse contato ainda criança e, aos oito anos, já arriscava escrever umas barras. O rap entrou cedo, antes mesmo de ele entender tudo que aquela música ainda iria carregar da cidade onde cresceu.
Quando puxo a conversa para Salvador, ele fala de uma cidade onde o rap nunca foi o som mais óbvio.
“Aqui é uma cultura do axé e do pagodão, tá ligado?”
O rap aparecia em outro canto.
“A maior conexão que tinha com rap aqui era a galera meio que maloqueiro mesmo.”
Facção Central, Expressão Ativa, Racionais. Era um rap mais cru, mais escuro, mais pesado.
“Era um bagulho assim mais dark mesmo.”
Pergunto se isso entra na música dele e ele responde sem pensar muito.
“100%, mano.”
Só que a referência musical é apenas uma parte da resposta. A outra vem da rua.
“Eu tenho nascido e morado a minha vida toda até hoje em favela. Não tem como eu não trazer essas pautas.”

É justamente aí que Black Roma Sangue começa a fazer sentido. O projeto não nasce de uma tentativa de criar uma Salvador violenta para deixar a música mais pesada. Nasce de uma cidade que Bruno já conhece.
“Não tem como eu não imprimir a minha vivência, não tem como eu não imprimir a vivência dos meus amigos, o que eu vejo aqui na favela, o que eu ouço o tempo todo.”
Salvador costuma ser vendida por outras imagens, praias, verão, festa, axé, carnaval, mas Bruno aponta a caneta para uma cidade que quase nunca aparece nesse cartão postal. Salvador de quem mora longe da praia, de quem vive conflito, violência, sobrevivência e relações construídas dentro da periferia.
Quando pergunto sobre o conceito do projeto, ele vai direto.
“O Black Roma Sangue já é mais focado nesse bagulho. De trazer o quanto a violência de Salvador e o meu cotidiano, minha vivência, o que eu ouço, o que eu vivo, influencia a minha forma de compor.”
Não é só tema.
“Influencia o meu artista.”
Isso muda a forma de ouvir o disco, porque Salvador não aparece apenas como cenário ou referência geográfica. Ela entra no flow, na agressividade, na escolha das palavras, na forma como ele interpreta as relações e no modo como constrói a própria identidade como MC.
“Eu tô explicando aqui o porquê que eu penso algumas coisas como MC. O porquê que eu sou violento nas letras. O quanto o meu cotidiano influencia na minha violência na letra.”
Esse ponto fica ainda mais forte quando a conversa chega na apropriação da estética de favela. Eu pergunto sobre a quantidade de artistas que hoje falam de quebrada, violência e vivência sem nunca terem tido contato real com isso.
Bruno lembra que, na infância e na adolescência, ser da favela estava longe de ser algo valorizado.
“Menino dos prédios tinha medo de descer aqui na rua. Tinha aquela repulsa mesmo.”
Hoje, ele vê o movimento contrário.
“Agora, quem não é do bagulho, quem nunca teve contato com favela, força pra ser.”
Camisa, gíria, postura, estética e até violência passam a ser incorporadas como linguagem comercial.
Ele não tenta amenizar a opinião.
“Pra mim isso é vergonhoso, porque eu moro na favela, eu sei o bagulho. Eu sei o que acontece. Não é esse glamour todo.”
E vai além.
“Vêm os caras que nunca passaram problema nenhum, nem nunca perderam alguém pra violência”, e depois aparecem em música dizendo “vou lhe matar, vou lhe roubar, vou fazer isso”.
Para Bruno, existe uma diferença muito clara entre falar de violência porque ela atravessa sua experiência e usar violência como fantasia.
“É vergonhoso, mano. É um bagulho realmente que dá agonia. Pra mim que sou de onde eu sou.”
Essa diferença parece estar no centro de Black Roma Sangue. Não é apenas um projeto violento. É um trabalho interessado em mostrar de onde essa violência nasce. Bruno não fala de favela olhando de fora e também não transforma esse lugar em medalha.
“Eu moro em favela até hoje.”
A frase vem quase como contexto, não como slogan. Ele ainda está ali, escrevendo enquanto as mesmas coisas continuam acontecendo ao redor. Nesse sentido, a música vira documento de uma experiência que normalmente aparece pouco quando Salvador é apresentada para fora.

Mas o projeto não vive apenas da narrativa. Existe também uma busca sonora. Bruno atravessa grime, drill, dancehall, rap alternativo e referências mais old school sem parecer interessado em se prender a uma única caixa.
“Eu sou esse conjunto de referências.”
A construção dessa identidade passa também por estar fora do eixo mais concentrado do rap brasileiro. Quando começou a se movimentar no grime, Rio e São Paulo já tinham cenas mais organizadas. Salvador não.
“Aqui não tem festa de grime em Salvador. Não tem outros artistas pra me conectar de grime.”
A pergunta que ele precisou responder foi outra.
“Como é que eu vou entrar nesse mercado sendo de fora do eixo?”
A resposta veio pela música.
“Se a gente não trouxer um diferencial, a gente fica pra trás, porque a gente já tá em desvantagem.”
Bruno estudou o gênero, buscou uma forma própria de entrar e foi pela caneta.
“Eu apelei pro flow e pra lírica mesmo.”
O resultado não foi tentar transformar Salvador em Rio ou São Paulo, mas fazer o contrário, puxar o grime para dentro de uma experiência soteropolitana, deixando sotaque, território e referências próprias aparecerem.
Por isso Black Roma Sangue funciona menos como uma tentativa de explicar Salvador inteira e mais como um recorte de uma cidade que raramente ocupa o centro da narrativa. A Salvador que existe depois que o turista vai embora, a Salvador que não termina na praia, a Salvador em que violência e sobrevivência atravessam o cotidiano de quem mora na periferia.

Bruno resume melhor quando diz:
“O que eu ouço, o que eu vivo, influencia a minha forma de compor.”
No fim, é isso que fica. Bruno Kroz não precisa fabricar uma favela para escrever sobre ela e também não precisa romantizar a cidade para falar de Salvador.
Ele escreve do lugar onde está, puxando para a música as contradições, a violência, as referências e os modos de sobreviver que formaram sua visão de mundo.
Black Roma Sangue nasce daí: não dá vontade de parecer cru, mas de uma realidade que já chegou crua antes mesmo da primeira barra.
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