O que a gente faz com aquilo que herdou? Clara Ribeiro lança "Outras Ondas, Mesmas Cores"
Entre a Zona Norte, o samba aprendido dentro de casa, os CDs comprados na feira, o R&B, o grime e a música eletrônica, Clara Ribeiro transforma referências, experiências e afetos em uma identidade musical que permanece em movimento.

Antes de existir streaming, playlist ou algoritmo capaz de sugerir uma música a partir de outra, havia a feira de domingo. Em Vista Alegre, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Clara Ribeiro cresceu indo à feira para comprar CDs, DVDs e jogos.
Era ali que parte do repertório cultural chegava às mãos de quem não necessariamente tinha acesso às lojas, aos catálogos oficiais ou aos produtos importados. Depois, de volta para casa, ela passava a tarde e a noite assistindo aos clipes de Michael Jackson.
A lembrança parece simples, mas diz muito sobre a formação de uma artista: antes de aprender a separar a música por gênero, Clara aprendeu a ouvi-la como repertório.
A fonte interessa menos pelo debate sobre a legalidade daquela circulação do que pelo que revela sobre acesso. Para uma determinada geração suburbana, a feira também funcionava como uma porta de entrada para aquilo que estava distante.
Era possível encontrar um CD de um artista internacional, um DVD, um jogo, alguma coisa que dificilmente faria parte do consumo cotidiano de uma família trabalhadora. No caso de Clara, esse circuito informal ajudou a construir um repertório que mais tarde atravessaria sua própria música.

Depois da feira vinha a sala de casa e, dentro dela, outro arquivo musical era construído. O pai, Osvaldo, trabalhador de banco, cantava, compunha, tocava cavaquinho e violão e fazia covers de Tim Maia em eventos de família. Clara lembra da voz, dos discos e CDs e, principalmente, da presença constante da música em sua rotina.
Clara: Meu pai tinha uma voz muito característica, era um vozeirão mesmo. Então ele cantava, fazia covers... Brincava de fazer cover do Tim Maia em casamento… Bidarra: Pô, Tim Maia! Se desafiava! Clara: E ele arrasava! Ele arranhava um cavaquinho, tinha violão, essas coisas. E gostava muito de compor também. Essa foi a influência que eu tive, né? De assistir ao meu pai sendo um CLT — ele trabalhava em banco e tal —, e aí nos finais de semana ou nas quartas-feiras ele ia para esse bar cantar. Ouvia muita música dentro de casa o tempo inteiro: muito disco, muito CD. Meu pai era minha referência. E era samba mesmo, não era pagode, não. Era samba.
Entre os nomes que ficaram daquela coleção familiar estão Jorge Aragão e Alcione. O repertório paterno era samba — ela faz questão de separar samba de pagode quando a conversa passa por esse assunto — e foi nesse ambiente que a música começou a fazer parte de sua vida não como uma disciplina, mas como cotidiano.
Há, portanto, uma diferença importante entre herdar uma tradição e permanecer dentro dela. Clara recebeu o samba como parte de sua formação, mas não como fronteira. O que chegou através do pai passou a conviver com aquilo que ela encontrava fora de casa.
Michael Jackson podia aparecer ao lado de Jorge Aragão; mais tarde, o R&B encontraria a música eletrônica; depois, o grime entraria nessa mesma pesquisa. Sua formação acontece nesse intervalo entre aquilo que foi entregue e aquilo que ela decidiu procurar.

É nesse sentido que Vista Alegre deixa de ser apenas o lugar onde a história começa. Clara fala sobre a Zona Norte como um espaço marcado pelo trabalho, pela necessidade de construir a própria vida e pelo esforço cotidiano para manter uma cultura viva.
Bidarra: Como você sente essa estrutura e como ela se torna uma marca no seu trabalho ao trazer a cultura da Zona Norte? Clara: Eu acho que reflete essa cultura de ter um trabalho CLT, mas também ter o acesso à cultura suburbana dentro dessa loucura que é trabalhar para se manter e para bancar a arte. A gente não é filho de gente rica, não nasci em berço de ouro. Tudo o que tenho é construído com muito suor, e eu trabalho fora do meio artístico para conseguir bancar o meu trabalho dentro da arte. A Zona Norte destaca essa batalha diária de você suar para manter viva a cultura dentro do bairro. Hoje em dia, Vista Alegre virou praticamente um polo gastronômico, com vários bares e música acontecendo. Isso diz mais sobre quem eu sou do que qualquer outro lugar. Meu pai viveu muito isso. A gente ia muito à feira de domingo comprar produtos piratas: comprava CD pirata, DVD...
A ideia de “território usado”, formulada por Milton Santos, ajuda a olhar para essa fala sem reduzir território a endereço. Para o geógrafo, o território envolve identidade, trabalho, trocas e vida cotidiana.
Vista Alegre, para Clara, é exatamente esse tipo de lugar. Está na família, na feira, no trabalho do pai, na música que circulava pelo bairro e na necessidade de construir a própria trajetória.
É um território que ela carrega mesmo quando sua música começa a alcançar outros lugares.
Essa relação entre experiência individual e memória coletiva também permite uma aproximação com Conceição Evaristo. A escrevivência, conceito associado à obra da escritora, parte do cotidiano, das lembranças e das experiências de vida para construir uma produção que também carrega a memória de uma coletividade.
Clara não está fazendo literatura, e não seria preciso encaixar sua música nessa categoria. Mas existe uma aproximação possível na maneira como aquilo que ela viveu retorna à criação.
Quando perguntada sobre a presença da ancestralidade em suas composições, ela diz que existe uma intenção consciente de colocá-la ali, embora isso também aconteça naturalmente, porque faz parte de quem ela é.

Bidarra: E mesmo transitando pelo grime britânico, você mantém a ancestralidade muito presente. Essa ligação com a ancestralidade acontece de forma puramente espontânea ou você busca pautá-la intencionalmente nas composições? Clara: Acontece das duas formas. Em "Minha Estrela", veio de forma totalmente orgânica: sonhei com um trecho da letra, acordei com o restante na cabeça e escrevi. Mas em várias outras músicas eu faço questão de colocar essa ancestralidade de propósito. É a minha verdade, então soa natural justamente porque faz parte de quem eu sou.
Talvez esteja aí uma das questões centrais de sua trajetória: o que fazer com aquilo que se herda? Clara não parece interessada em conservar referências dentro de uma vitrine. Ela as utiliza.
O samba recebido do pai não impede a descoberta de outras linguagens; a Zona Norte não determina uma estética única; a ancestralidade não exige repetição. O que veio antes funciona como matéria-prima para aquilo que ainda não existia.
O amor ocupa outro lugar importante nessa transformação. Clara sempre escreveu e cantou sobre relações, encontros, desilusões e a própria intensidade de se envolver com alguém.
Ela conta que sempre foi uma pessoa que se entregava, que amava “loucamente” e que nunca deixou uma frustração amorosa fazê-la desistir do amor.
Mas existe também a outra face desse sentimento.
Clara: Eu acho que foi uma construção interna que ainda nem terminou, ainda está se desenrolando. Eu sempre fui uma pessoa muito intensa nas relações, me entregava de coração e dizia: "Meu Deus, vou casar com você!". Falava isso para todo mundo, embora achasse que ninguém me aguentaria por muito tempo. Sempre gostei de amar, nunca deixei uma desilusão amorosa me fechar para o sentimento. Só que eu também tenho muita raiva dentro de mim.
Em Não Lembro Seu Nome, essa combinação aparece atravessada pelo deboche e pela necessidade de uma resposta que nunca chegou. Clara explica que lembra, sim, o nome da pessoa. O título é uma provocação.
Ela precisava de uma resolução que não veio e transformou a ausência dessa resposta em música. A mudança entre Amor Para Além do Atlântico Sul e Não Lembro Seu Nome, portanto, não precisa ser lida como um abandono do amor.
O assunto continua sendo o mesmo. O que muda é a posição de quem fala sobre ele: se antes havia espaço para a entrega, agora também existe espaço para a raiva, a ironia e o limite.
É também nesse momento que o grime aparece. Clara não tinha feito grime antes. A linguagem chegou por meio das pessoas que já acompanhava e da própria pesquisa que vinha fazendo em torno da música eletrônica.
Ela fala da influência de artistas como Kelela e de uma atmosfera futurista que reconheceu naquele universo.
Quando teve contato com um beat de Taleko, a reação foi direta:
Bidarra: E como foi que o beat do Taleko chegou até a sua mão? Clara: Eu escuto muito a Kelela já há algum tempo. Comecei a produzir pra valer em 2021, lancei "Arrepio", que é um garage, e passei a estudar as mulheres na música eletrônica: Kelela, Jorja Smith, Shygirl... O Antonio já tinha comentado comigo que essa estética da Kelela combinaria muito comigo. Antes de eu fazer aquele projeto com Antonio, o Maui e a Amanda... Ô Diogo, como era o nome mesmo? Diogo: A da Rádio... a NTS? (Diogo Queiroz é produtor executivo da Leigo Records, e é booker de Clara Ribeiro. Ele também estava acompanhando a entrevista a respeito da mixtape.)
Clara: Isso, a sessão da NTS com o Maui e a Amanda Sarmento! Na época, o Antonio me introduziu a esse universo dos sets de MC. No início eu achei que precisava rimar rápido, mas ele me disse: "Não rima reto, vem cantando, vem trazendo a sua voz". Comecei a pesquisar mais e a ouvir bastante Maskotte e Bruno Kroz, que para mim são referências gigantes no grime...
Bidarra: E o clipe com o Kbrum ficou lindo, com a visão do Wander! Clara: Ficou lindo demais! Resumindo: estávamos no estúdio gravando outro projeto, o Taleko estava por lá e soltou esse beat. Eu ouvi e na hora falei: "Cara, eu quero esse beat para mim!". Era a oportunidade perfeita por conta dessa atmosfera futurista. E aí escrevi em cima dele. Diogo: Caraca, ficou muito foda!
A partir dali, uma linguagem que poderia parecer distante de sua trajetória anterior passa a integrar o repertório que ela estava construindo.
O mais interessante é que o grime não chega como ruptura absoluta. Ele chega depois de todo o resto. Depois do samba do pai, dos CDs da feira, de Michael Jackson, do R&B, das experiências amorosas e da pesquisa sobre música eletrônica.
Por isso, talvez seja menos produtivo perguntar se Clara “mudou de gênero” do que observar o que acontece quando uma linguagem nova atravessa uma trajetória que já estava em movimento.
A cultura brasileira conhece bem esse impulso de transformar referências em matéria própria. No Manifesto Antropófago, de 1928, Oswald de Andrade formulou a antropofagia como uma metáfora para a assimilação e transformação de referências externas.
Décadas depois, a Tropicália levaria para a música brasileira uma disposição semelhante de colocar em contato elementos de origens diferentes. A comparação não significa dizer que Clara esteja conscientemente repetindo esses movimentos históricos.
Mas ajuda a observar o que acontece quando o grime entra em sua música: ele não encontra uma artista vazia esperando uma identidade nova. Encontra uma artista que já carrega muitas outras coisas.
Talvez seja por isso que Clara não parece interessada em construir uma persona cuidadosamente separada da pessoa. Quando pergunto sobre a diferença entre a artista e a Clara que existe fora do palco, ela responde que existe muito dela naquilo que mostra.

Bidarra: Você sente que existe uma separação entre a Clara artista e a Clara da vida real? Clara: Olha... tem muito de mim na Clara artista. Eu sou isso que mostro. Claro que tenho um lado íntimo que só quem convive de perto acessa, mas não sinto que haja uma cisão entre a Clara "CPF" e a "CNPJ". Uma complementa a outra. Eu não criei um personagem ou uma persona; apenas tenho camadas mais profundas de vulnerabilidade que protejo. A Clara artista me ajuda nisso: ela me permite ser aberta, falar com todo mundo e abraçar as pessoas, ajudando a Clara mais reservada a se soltar.

Essa distinção fica ainda mais clara quando ela fala sobre exposição. Para Clara, ser vista não é a mesma coisa que ser exposta. Ela acredita que está começando a ser vista, e não necessariamente exposta.
A diferença é importante porque revela uma artista que percebe a visibilidade também como possibilidade de criação. Quanto mais as pessoas recebem aquilo que ela produz, maior parece ser sua disposição para experimentar.
Bidarra: Muito bom. E você sente que esse aumento na exposição também significou um aumento de liberdade criativa? Dá medo ou te dá coragem? Clara: Eu ainda estou processando. Todo artista gosta de ser visto, mas ser visto é bem diferente de ser exposto. Sinto que estou sendo vista, e não exposta. Isso me mostra que o caminho está dando certo. Não me dá medo, me dá coragem para arriscar e criar coisas diferentes.
A coragem, nesse caso, não está apenas em revelar mais de si. Está também em não repetir a própria fórmula.
Fazer grime depois de construir uma relação com o R&B; entrar na música eletrônica sem abandonar o repertório brasileiro; transformar experiências amorosas em diferentes registros; assumir a ancestralidade sem transformar a ancestralidade em limite.
A identidade artística de Clara parece menos interessada em responder definitivamente à pergunta “quem sou?” do que em continuar descobrindo o que pode fazer com a resposta.

Essa abertura desemboca diretamente na nova mixtape “Outras Ondas, Mesmas Cores”. Clara a define como totalmente eletrônica e, sobretudo, coletiva. O projeto existe porque ela reuniu pessoas que admira e gosta de ouvir.
A lista de colaboradores cresce durante a entrevista, entre nomes, produções, participações e pequenas lembranças de estúdio. Quando fala de Jacquelone por exemplo, faz questão de explicar que ela não produziu o beat, mas construiu a melodia junto com ela.
O detalhe é revelador: mais do que simplesmente reunir participações, Clara parece interessada no próprio processo de criação compartilhada.Depois, quando tenta explicar por que acredita no resultado, a resposta volta ao mesmo lugar que atravessou boa parte da entrevista: o afeto.
Para Clara, quando existe verdade, amor, admiração e vontade de construir junto, o trabalho ganha outra qualidade.
Clara: É uma mixtape totalmente voltada para a música eletrônica e construída em coletividade. Juntei pessoas cujo trabalho admiro muito para somar. A Jacquelone veio na produção melódica junto comigo, o que foi incrível e divertidíssimo. Quando a gente faz as coisas com amor, verdade e amigos em quem acredita, não tem como dar errado.
Não é uma teoria sobre produção musical. É uma maneira de trabalhar.
A mixtape “Outras Ondas, Mesmas Cores”, lançada em setembro de 2026 pela cantora e compositora Clara Ribeiro sob o selo da Deck, consolida-se como um dos projetos mais inventivos do pop eletrônico nacional contemporâneo.
Composta por 8 faixas, a obra funciona como uma narrativa coesa sobre desejos, sensualidade e desencontros urbanos. Musicalmente, o trabalho se destaca pela capacidade de transitar com fluidez por vertentes dinâmicas e globais, envelopando o ouvinte em sonoridades que vão do House e UK Garage ao City Pop e Grime.

O grande trunfo do álbum reside no seu caráter colaborativo e na refinada arquitetura de produção.
Clara Ribeiro reuniu um time plural de produtores e vozes aliadas — incluindo Lettié, Ciana, JOCA, Maui, Maskotte, Taleko, WARMANDO, Holandês, Drei, GregoOnDeBeat, flowersthings, Jovelli, Crosstalk, CL Fez O Beat, Jacquelone e DJ Carlosz.
Sob a engenharia de som precisa de Chediak, beats e composições originalmente independentes foram lapidados em estúdio para ganhar unidade conceitual.
Em suma, Outras Ondas, Mesmas Cores entrega o frescor da experimentação eletrônica sem perder o apelo pop, firmando-se como um registro maduro, magnético e indispensável para as pistas e fones de ouvido atuais.

E talvez seja aqui que a trajetória faça seu movimento mais completo. A menina que ia à feira de Vista Alegre para comprar aquilo que conseguia acessar cresceu e passou a produzir aquilo que outras pessoas poderão acessar. Antes, ela recebia repertório.
Agora, também constrói repertório. Antes, Michael Jackson chegava até ela através de um CD comprado na feira; agora, novas referências passam por sua própria pesquisa, encontram aquilo que ela já carrega e saem transformadas em outra coisa.

Outra surpresa apareceu na carreira dela para dar início aos trabalhos da mixtape: um show no palco Coreto do festival Rock The Mountain, no dia 30 de outubro. E amanhã, nessa sexta do dia 06, ela vai de novo.
Ela disse na entrevista que demorou para processar, e que preparou um show completo com banda:
Clara: Eu demorei pra processar. Quando o Diogo me ligou, eu chorei. Não acreditei. Estou com um show muito legal, com banda. Novos arranjos. O formato é baixo, teclado e bateria.

Bidarra: Bem orgânico. Clara: Vai ficar bem bonito. Os arranjos estão bonitos também.

Sua trajetória parece justamente apontar para uma ideia simples: o artista não precisa ser maior do que aquilo que cria, mas precisa estar disposto a colocar na criação aquilo que o formou.
Quando pergunto, já perto do fim da conversa, o que é maior — a arte ou o artista — Clara não hesita:
Bidarra: E para você, o que é maior: a arte ou o artista? Clara: Nunca parei para pensar a fundo nisso, mas acho que a arte, com certeza.
Clara Ribeiro não parece procurar uma identidade definitiva. Ela sabe de onde veio, reconhece aquilo que recebeu e continua adicionando coisas ao repertório. A Zona Norte permanece ali. O samba permanece. O pai permanece. A feira permanece. O amor permanece. A ancestralidade permanece. Mas nada disso impede o movimento. Ao contrário: é justamente porque existe algo de onde partir que ela pode continuar indo para outros lugares.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja quem Clara Ribeiro é. Ela própria parece já ter alguma resposta para isso.
A pergunta é o que ela fará, daqui para frente, com tudo aquilo que já se tornou parte dela. E essa resposta, como sua música, ainda está em construção.
.png)






Comentários