O Olhar de Medusza: Como o Álbum ‘Insídia’ Encara as Armadilhas do Amor
- Pivete

- 6 de abr.
- 3 min de leitura

Medusza é rapper; é mãe, cria e produtora cultural que entendeu cedo que o "dom de musicalizar as coisas" era sua arma de sobrevivência. Trocamos uma ideia sobre seu novo álbum, Insídia (2026), e o que senti foi o gás de quem não se deixa levar pelo desincentivo do capital.
Começamos falando da origem. Ela me contou que a medusa artística nasceu aos 12 anos, numa escola de formação musical.
“Eu sempre tive muito certo na minha mente de que eu tinha um dom de cantar... mas eu acho que na minha adolescência que eu consegui entender o mercado musical de uma maneira mais efetiva” .
Perguntei sobre a diferença entre o que ela fazia na mixtape Serial Killer (2023) e o que chega agora com o álbum. Ela me explicou que a revolta agora tem outra perspectiva: o afeto.
“No meu trabalho anterior... eu abordei o mesmo assunto... falta de lealdade também, porém, na perspectiva da amizade... dessa vez, através do álbum, eu trouxe uma perspectiva sobre relações românticas”.
Dialogar com a Medusza é entender que, para uma mulher negra, falar de amor não é sobre flores, é sobre campo de batalha. Ela não doura a pílula e manda a real na lata: as mulheres negras são privadas de falar sobre afeto porque o sistema as coloca no lugar de quem está "sempre dando e nunca recebendo".

“Eu acho que é bem revolucionário falar sobre isso dentro do cenário em que eu me encontro”, ela me disse, deixando claro que sua rima é um lugar de desabafo e luta.
Ela me explicou que essa "falta de lealdade" que atravessa o álbum Insídia não é só um tema de música, é uma ferida aberta nas relações afetivas e românticas de quem é mulher.
“Eu espero que impacte as pessoas a olharem mais pra si... sobre as coisas que elas acreditam dentro da relação... a gente percebe que muitas das vezes a gente se coloca no lugar de ser enganado”.
É nessa troca que a gente percebe o peso da caminhada dela. Não é apenas o lançamento de um primeiro álbum; é a retomada de uma narrativa que o capital tenta desgastar pela exaustão.
Medusza usa a própria voz para quebrar a invisibilidade, reafirmando que o lugar das minas no topo não é um favor do mercado, é natureza e história.

Ela não aceita a ideia de que as mulheres são "novidade" ou que precisam de permissão para ocupar o topo.
“O rap foi criado por mulheres... as primeiras a fazerem um som foram mulheres... esse espaço foi tomado. Fizeram as pessoas acreditar que esse espaço era mais direito dos homens”.
E me lembrou de nomes como Negra Li e as pioneiras do hip-hop feminino no Brasil como as verdadeiras protagonistas que foram silenciadas. Para ela, o sucesso de nomes atuais como Ebony, Tasha & Tracie e MC Luana não é uma "aparição", mas a ascensão de quem já tem tempo de corre e está dando continuidade a uma luta de décadas.
“Enquanto houver ainda a tentativa de segregação do que é rap 'de verdade' para o que é rap feminino... a luta vai ter que continuar” .
Um dos momentos mais tensos do nosso diálogo foi quando ela me abriu o motivo do álbum ter demorado um ano para ver a luz do dia. Não foi falta de música, foi o "travamento" do audiovisual e as promessas vazias de parcerias que não entendem o tempo de quem corre.
“Isso me gerou uma ansiedade muito grande. Porque eu não tinha como marcar com um audiovisual de qualidade... algumas conexões prometeram e não cumpriram”.
Mas, em vez de recuar, ela dobrou a aposta na tecnologia para manter a integridade do conceito.
“Toda a história do conceito visual ali... eles foram feitos com I.A ( inteligência artificial). Até para dar essa perspectiva sobre a falta de verdade... as coisas falsas que estão ali no cenário” .
A Medusza me contou que a maturidade de Insídia também veio de saber ouvir . Ela buscou a experiência de Rico Mesquita para não fazer nada "às cegas". O processo foi tão rigoroso que ela chegou a descartar um álbum inteiro de dez faixas por sentir que ainda não era o desabafo real que precisava.
“A gente refez o álbum todinho, do zero. Dessa vez com nove faixas. Mas de uma maneira que eu consegui escutar do início ao fim e falar: 'Ok, era sobre isso que eu queria comunicar'” .

Nesse processo, o produtor Ninja da Nuvem foi quem "amarrou" as ideias em beats que ela define como "muito brabos"
Ao encerrar, Medusza deixou claro que Insídia é apenas o marco zero. Ela quer que o público faça uma imersão, que entenda cada nuance do que foi desabafado.
“Que entendam que é o início de fato de um caminho sendo trilhado para algo bem maior” .
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