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A faxineira do hospital

A faxineira do hospital, trajada com seu uniforme de trabalho (luvas de plástico amarelas, touca, balde, vassoura e pano de chão) não parecia ela mesma. Seu eu mais essencial não estava em jogo durante o seu trabalho. Logo que chegara seu horário de almoço, por volta das onze e vinte de uma manhã quente de outubro, ela colocou o seu batom mais reluzente, soltou os cabelos, olhou por cima dos olhos das outras pessoas que estavam à sua frente e como num toque mágico ganhou sentido em si mesma.

Ao sair do hospital, não estava supervisionada pela tutela de nenhum médico ou por nenhuma autoridade hospitalar. Sentou-se no botequim da esquina e pediu o melhor e mais cheio prato de comida. Sua feição mudou radicalmente. Falava abertamente com os garçons sobre o que havia feito no último final de semana e, sem compromisso nenhum, convidou um deles para uma cerveja gelada após o expediente, com a pretensão de distensionar a fatídica rotina de limpeza, arrumação e cheiro mórbido.

Na rua, a faxineira tornou-se uma pessoa comum, sem face, sem expressão aparente ou afetada, sem uma identidade notória. A rua pública, ou melhor, os bares frequentados pelos trabalhadores no meio do expediente de sua rotina fatigada de trabalho, tem essa capacidade de tornar qualquer coisa invisível. Na rua, sua imunidade anônima, contraditoriamente, fazia dela um ser. Comeu o mais rápido possível para poder passear um pouco.

Andava na rua e conversava com as pessoas ao seu redor, soltamente. Sua voz que, no trabalho era presa dentro de sua garganta, soava abertamente e se misturava facilmente aos ruídos citadinos. Parecia quase gritar. Andava despojadamente, seus movimentos rudes, porém soltos, refletiam uma ânsia por liberdade. Talvez eu soubesse o porquê: acreditem, hospital cheira a gente morta, cheiro moribundo de desinfetante e cloro, detergente e sabão em pó.

Depois de seu desfile público, a faxineira, após seu rápido intervalo de almoço, voltou fagueiramente para o trabalho. Para qualquer pessoa que já trabalhou sob pressão, descreveria essa cena como um desfile lúgubre: passos curtos e arrastados no chão, ombros envergados para frente, olhos sonolentos, aparência fúnebre. Mas antes de entrar, a faxineiro deu sua última performance pública: tirou mansamente um maço de cigarros vermelho, lentamente, para matar o tempo e a si, tirou um único cigarro, branco, filtro escuro, sacou o isqueiro, deu dois toques vigorosos na manivela do acendedor, uma chama leve e rápida se acendeu, pôs seu cigarro na boca e baforou linda e brevemente aquele cigarro; fizera como um ato de morte romântica, pois eram seus últimos instantes de prazer e dor. Depois disso, ela subiu as escadas brancas do hospital, passou bravia do lado de uma médica branca e jovem, gritou algumas palavras inaudíveis com os guardas e voltou ao batente.

A faxineira, que passara o dia todo naquela ânsia doida de limpar daqui, varrer dali, limpar vômito de paciente sem paciência, sentindo esses cheiros horríveis, ao deparar-se com o cheiro de monóxido de carbono e gasolina emitido pelos veículos, devia ter se sentido liberta. As cidades maiores são lugares de enorme contradição entre a individualidade do ser e seu “anonimato”. Você é visto por todos, mas nunca reparado. Ao passar por uma das ruas no exterior próximo de uma grande avenida, a enfermeira parecia desfilar com sua mente liberta, como se ela estivesse imaginando estar em outro lugar. Esses são os gozos da liberdade do indivíduo moderno.

Nos corredores observava atentamente a conversa dos pacientes. Descrevia pacientemente cada problema de cada um deles como se, por sua larga experiência médica, de tanto ouvir os diagnósticos, enfim, por sua prática indireta como médica anônima fosse ela mesma “um entre eles”. Em suma, as faxineiras fazem uma espécie de curso de medicina/enfermagem quase que por tabela. Mas são caridosas e empáticas com os sofrimentos dos pacientes, coisa difícil de se diagnosticar “entre eles”. A empatia é uma caridade dentre os pobres, pois o sofrimento alheio lhes cabe sempre como sendo o seu próprio sofrimento.

Aqui cabe uma breve diferença entre esses personagens que habitam o hospital. Num hospital os médicos são o centro das atenções, muito mais do que os pacientes. Todos de branco e todos brancos (sim, eu disse todos) passeiam nos corredores conversando sempre “entre eles”, quase nunca com “os outros”. São em maioria homens de meia idade, todos proprietários. Cada um com suas pastas de couro, disfarçadas com uma simplicidade do tempo, mas custam um carro popular. Aqui caberia uma descrição da “performance médica” por área e especialidade, mas são muitas e não tive tempo hábil para vivenciar tamanha experiência.

Numa escala menor estão os estagiários, ou como se autointitula, “residentes”, que não são os estagiários propriamente. Os “residentes” são aqueles que já estão avançados no curso de medicina e que ainda não possuem uma experiência empírica na prática da medicina. O máximo que ainda sabem fazer é aplicar injeções e dar pitaco na saúde alheia. Os residentes são aqueles pupilos dos médicos, são seus orientandos. Aqui conseguimos perceber bem a distinção entre médico e paciente, onde os residentes ficam entre eles, pois são quase os dois ao mesmo tempo.

Resumidamente, os médicos são a grande autoridade, sabem sempre diagnosticar quase todos os problemas; talvez por isso, os médicos são pessoas mais velhas e em sua maioria tem cabelos brancos. O residente é uma figura estranha. Não sei descrevê-lo bem justamente por uma posição de prestígio desprestigiado. Não é médico e nem paciente, tem uma autoridade frágil e ao mesmo tempo não a tem. Para mim são pessoas estranhas.

Entre esses personagens, estão as enfermeiras. Todas mulheres e nesta “casta” percebe-se uma “coloração mais vívida” entre elas. Elas, em sua maioria, são o braço forte, a moagem da engrenagem, mas não são aquelas que fazem o trabalho sujo. A sujeira ao qual as enfermeiras são designadas é uma sujeira digna: pus, sangue, gangrena. Essa é a sujeira das enfermeiras.

O paciente é literalmente um objeto de manejo. Obedecem a toda e qualquer ordem vinda dos médicos. Se mandam respirar, respiram, se mandam tossir, tossem. O paciente é só o paciente. O residente é uma figura estranha. Não sei descrevê-lo bem justamente por uma posição de prestígio desprestigiado. Não é médico e nem paciente, tem uma autoridade frágil e ao mesmo tempo não a tem. Para mim são pessoas estranhas. Entre esses personagens, estão as enfermeiras. Todas mulheres e nesta “casta” percebe-se uma “coloração mais vívida” entre elas. Elas, em sua maioria, são o braço forte, a moagem da engrenagem, mas não são aquelas que fazem o trabalho sujo.

Por último, no final da fila, estão as faxineiras. Esse sim, são o verdadeiro “trabalho sujo”. Elas limpam tudo: as fezes das diarréias, o pus no banheiro, os vômitos no chão, recolhem o lixo fétido. Isso é trabalho sujo. Elas não possuem nenhuma autoridade para limpar o pus dos pacientes, desde que esteja no chão, no vaso sanitário ou escorrendo pela parede. Em um sociologiques, as faxineiras são a estrutura que sustenta todo o hospital. Sem elas nada funcionaria.

E durante minha curta estadia no hospital, pude perceber que são as pessoas mais sensíveis e carinhosas. São as únicas que dão aquela boa e estrondosa gargalhada com um pigarro de fumante. São elas que cantam o samba enredo de suas escolas de samba prediletas enquanto limpam toda a sujeira da enfermaria. Às vezes, quando o plantão ficava insuportável, à beira do caos, elas eram as únicas que nos cumprimentavam, davam um sorriso, pegavam uma garrafa de água nova e gelada para os pacientes. Às vezes precisamos repetir algumas frases de efeito para que as pessoas retenham seu significado: a empatia é a caridade do pobre.

Certa vez uma faxineira soube de uma mulher que foi diagnosticada com câncer de mama. Eu, deitado numa maca em frente a porta de entrada da enfermaria, pude observar uma das cenas mais emocionantes da minha vida. A mulher estava aos prantos. Parecia que ia tombar a qualquer momento devido ao choque da notícia. Estava evidentemente abalada. As enfermeiras, acostumadas a tais diagnósticos, postulavam uma certa reação fria, quase blasé, diante do choque da mulher. Mas a faxineira não. Quando a mulher diagnosticada enfim sentou-se em um dos bancos, ela prontamente foi ao bebedouro e pegou um copo d’água, sentou-se do lado dela, tirou sua touca de trabalho (um cabelo longo, preto forte e brilhoso; uma beleza rude!) e começou a acariciá-la com leves toques nas costas.

Todos olharam aquela cena atônitos. Assim perduraram uns quinze minutos. E ela ficou ali do lado da mulher, afanando a paciente. A mulher acalmou-se, levantou-se da cadeira ainda com os olhos inchados e com uma feição triste e cabisbaixa, mas quase sendo empurrada por uma mão invisível, pegou sua papelada de exames (um bolo cheio e grande de folhas A4 e foi embora. A faxineira levantou-se da cadeira que, creio eu, nunca tinha sentado, colocou sua touca, pegou o balde de água suja, o pano de chão e disse: “Bom, tenho que limpar o banheiro do segundo andar…”.

Por Roberto Brito @fotosesintesis

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