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Um "Ensaio Gráfico Numa Gráfica" aconteceu e vai acontecer... de novo

  • Foto do escritor: Rosola
    Rosola
  • 21 de ago.
  • 5 min de leitura
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O episódio marca a estreia da coluna "Relataria Rosola", onde a experiência é o principal, e os eventos são apenas um pedaço da visão dela. Com isso, os detalhes vão se encaixando conforme ela comenta sobre tudo. O relato é feito tal qual seria o de uma lente de uma câmera, como se pudéssemos estar onde ela estiver.

Cansada do adestramento autoimposto da minha psicomotricidade pela rotina acadêmica, circulo pelos stories do Instagram até encontrar uma série de textos meio duvidosos que interpreto como um convite. Trata-se de um print, uma conversa no WhatsApp. Um convite para o exato AGORA: agora mesmo, iria rolar um evento. É engraçado pensar um evento que só se avisa quando já está acontecendo, ainda que use o velho recurso dos stories do Instagram. "Happening" era a palavra que meu amigo Felipe Carnaúba usava para descrever o caráter do acontecimento.



"As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento." - Allan Kaprow
"As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento." - Allan Kaprow

Allan Kaprow usou o termo pela primeira vez nos anos 1950 para nomear ações híbridas envolvendo diferentes linguagens artísticas. Ele estava articulando som e artes visuais quando percebeu que nenhuma categoria poderia dar conta da forma artística que estava surgindo ali.


Na intenção política de fazer um comentário em relação ao sistema de arte dos salões e galerias, os happenings costumam convidar o público a participar do resultado final do trabalho, naturalmente introduzindo o elemento do experimental e da improvisação.


Me detive no story pela foto ser justamente de um local ao lado da minha casa, tenho passado por lá de bicicleta. Inusitado também, centro de Niterói não costuma rolar nada além dos bares meio pé sujos. O entorno de noite costuma ficar vazio, e era segunda ainda. 


O nome do evento parecia ser “Um Ensaio Gráfico Em Uma Gráfica”. "Se tiver com tempo de poeta, vem". Penso como nosso "tempo de poeta" já vem adestrado também pelos mesmos códigos de sempre: sair de noite, pagar uma entrada, couvert artístico, cerveja barata, cerveja cara, show sentado, show em pé, rodinha punk, ritual cultural tipo passar os olhos num museu.

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O máximo de diferente que vi esses dias nesse sentido foi o show do Crizin da ZO no Sesc Tijuca. Show dentro de teatro chique que não podia beber nem fumar, mas todo mundo em pé batendo o corpo loucamente, e quem tava sentado ficava pulando igual pulga sendo eletrocutada, sacudindo a cabeça.


Todas as suntuosas cadeiras vermelhas acolchoadas e de couro estavam lotadas. O acontecimento ali encontrava seu espaço no ambiente de um jeito novo, trazendo consciência sobre os códigos. Psicomotricidade total.


Me senti estranhamente confortável e livre, quando notei que não tinha nenhuma expectativa codificada de reação, porque a relação entre a reação que costumamos presenciar nos shows do Crizin da ZO e o local não fechava de alguma forma. O aspecto da contrariedade me interessa. Enfim, decidi ir, sem saber exatamente para o quê às 19h de uma segunda-feira (18/08).


Que coisa bonita, ir a pé para um lugar. Se locomover no Rio de Janeiro para ir atrás de cultura costuma ser um inferno. Rua vazia, a gráfica comercial aparentemente fechada. Meu amigo que convidei meio apreensivo, do tipo, "é ai mesmo"? Uma das portas comerciais entreaberta, luz e música no ar. Era ali. 



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Vocês já tiveram a oportunidade de visitar uma gráfica? Essa região do centro de Niterói realmente chama atenção pela quantidade de gráficas existentes. Na mesa da entrada tinham alguns livros produzidos lá. Aí que entendo que era uma atividade do artista Jarbas Lopes.


Aqui vale uma breve descrição pra falar quem é Jarbas Lopes aqui, pois é um dos artistas mais renomados quando o assunto é pintura e escultura. Ele possui obras no Inhotim (MG), no Museu de Arte Moderna (M.A.M. - RJ), no Museum Museum of Modern Art (MoMA - EUA), na Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA) e no Victoria & Albert Museum (Inglaterra). O foco dele é a experimentação estética, o que justamente se trata desse happening.

Cheguei ali tão rápido e imediatamente que realmente não tinha conseguido captar onde estava indo. Psicomotricidade. Carnaúba fazia a discotecagem com vinil enquanto Jarbas usava as máquinas para tingir folhas em série e nós éramos seus convidados, fruto de uma coincidência. No chão, pilhas de papel, livros antigos desmembrados. 



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Curioso esse encontro justamente quando estou numa fase da vida que eu não imaginaria estar me reconectando com a leitura, criando novos sentidos para o hábito de ler. O lugar onde você está nunca mente, e é fonte eterna de autoconhecimento. Psicomotricidade. A tinta que Jarbas vai espalhando pela máquina é grossa e cheira forte, provavelmente imagino ser tinta de serigrafia.



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O lugar onde ele a coloca vai tingindo em série as folhas, lembrando tie-dye. Manualmente ele para a máquina, reposiciona, com a ajuda de outros, liga novamente.


Em determinado momento somos convidados a tocar em conjunto. Alguns objetos percussivos são dispostos, reco-recos, pandeiros, baquetas, e até dois pratos pendurados em um bastão. Nossas percussões se misturam com o barulho repetitivo da máquina. 


Entrei sem saber o nome técnico dessa máquina e depois fico sabendo que era uma Offset. Sou tocada pela magia de vê-la operando, ser usada para produzir belas imagens e sons; e não para cumprir a função pela qual ela tem verdadeira razão de existir.


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A gráfica em subversão, frequentada por interessados no encontro entre palavra, imagem e som. Parece maluquice, mas ainda dá pra fazer isso hoje em dia se você fica atento e aberto aos sinais. 


Jarbas coordena o encontro para seu ato final. Separamos as páginas tingidas em blocos, por turnos, de acordo com o que interessa à vista.


Essa hora parece um jogo, e alguém cita uma referência ao tarot. Parece que estamos selecionando cartas. Finalmente coloco as mãos no material que assisti e ouvi a produção, e percebo as páginas grossas e gordurosas de tinta. O cheiro de solvente a essa altura já era até agradável.



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Cada um finaliza dobrando ao meio, escolhendo a ordem de suas páginas, e compõe um caderninho para levar de recordação dessa experiência. Algumas anotações cotidianas figuram nas páginas, vestígios de um cotidiano, material gráfico do dia a dia. Me vejo nesse hábito de guardar vestígios.



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O “Ensaio Gráfico Em Uma Gráfica" foi sobre humanizar o ambiente fabril, descobrindo o experimentar como ação cultural de resistência; borrando as barreiras entre quem conduz um espetáculo e quem o aprecia. E por acaso, o Jarbas vai fazer outro happening, lá no Centro do Rio, na galeria Gentil Carioca. Ele será feito amanhã e a Menó convida todo mundo que leu aqui pra chegar lá e apreciar junto.



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Referências: 


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