Conspirações Culturais: A Nova Rota da Seda de Dani K
- Conspiração Cultural
- 2 de out.
- 4 min de leitura

Tudo foi encontro. Quando conheci Valetim e Guilherme - dois artistas incríveis da cena capixaba - , estava também encontrando uma potente artista de Nova Iguaçu, Pietra Canle, da Baixada Fluminense, que tinha acabado de realizar uma oficina de lambe na UFES, a convite de outra artista foda, Yasmin Cerqueira.
Era pra ser só uma cervejinha no bar do Mãozinha, reduto do underground da cidade, mas virou o que deveria ser: conexão, troca, aquilombamento.
Conspiração é o que fazemos, do jeito mais íntimo e verdadeiro, pensando em caminhos que às vezes podem ser tortos. Mas quem saiu por último na fila da partida sabe: com o tempo, a gente atravessa a linha de chegada.

Conhecer Dani K foi fruto dessas trocas. Às vezes me assusto com o destino, que nos momentos mais desafiadores coloca no nosso caminho um porto seguro, um espaço pra aquilombar. Foi assim na Casa Gui Brasil: um lugar de troca, afeto, partilha, reflexão.

Pretos, quase todos, inteiros de corpo e alma, questionadores, felizes, políticos, criativos. Nossos caminhos se cruzaram na busca por quem dialogasse de verdade com nossas identidades - semelhantes e diferentes, complexas e óbvias.

Caricatos. No pouco tempo que conheci esse povo todo, me apaixonei por cada um: seus sonhos, suas lutas, suas histórias, suas artes. Quadro, música, aula, poema. O que sai de dentro e o que se vê por fora. Arte explícita.

E aí veio Dani K com sua Nova Rota da Seda (2025).
A Nova Rota da Seda é um pouco da minha história sendo contada pela minha ótica. – começa Dani K. – Estar lançando esse projeto é uma realização pessoal muito importante.
Seus caminhos, que vieram das terras fluminenses pela visão de seu pai, se encontraram nessa ilha cercada de muralhas, construídas pra afastar forasteiros.
Através do seu quilombo familiar, ele se fortaleceu, depois fortaleceu quem estava ao redor, e o ciclo não para. Fez seu próprio caminho em busca das especiarias que temperam sua vida.
Esse trampo não é só meu. É da minha vó, da minha família, dos amigos, de todo mundo que segurou a barra e acreditou.
Nessa peregrinação, Dani K levantou um EP na marra e na coragem: juntou e valorizou seus iguais, colocou a direção de arte nas mãos de JV Abreu, produtor cultural potente do Espírito Santo, fez o busão virar palco, segurou o dendê e, pouco a pouco, mostrou a que veio.

Fiz esse EP na marra e na coragem. Juntei e valorizei meus iguais, coloquei a direção de arte nas mãos do JV Abreu, fiz o busão virar palco, segurei o dendê.
A Conspiração Cultural entrevistou Dani K numa conversa repleta de cerveja, fumaça e pizza. Entre a apresentação do portfólio de artistas incríveis — e amigos de coração — como Gui Brasil e Valetim, projetado na parede com o projetor, o EP rodava em loop.

Se a gente não fala, outro fala por nós. E aí a narrativa vem torta. A responsabilidade é grande.
No meio, brotou também o amigo de Dani: o beatmaker e skatista Raphael Reis, que deu uma palinha do seu EP de instrumentais Cinzeiro Cheio Vol.1.

Foi quase uma roda-viva, cheia de olhares e percepções. Nada de ego de entrevistador e entrevistado: todo mundo falava, mostrava sua visão da obra, viajava junto no olhar desse artista incrível que é Dani K, que construiu um trampo impecável - pouco a pouco.
“No Busão” é o corre diário, é rima que eu escrevia enquanto ia e voltava do trampo. “Segura o Dendê” é força, é axé, é saber que ninguém pode apagar essa chama. “Nidã” é oração, é conversa comigo mesmo.
Entre o carinho da sua vó, fortaleza da família, e a força dos amigos e afetos, entre as horas nos ônibus e os minutos que viravam versos rabiscados, entre cada lugar por onde passou, tudo foi construindo uma rota que não estava nos mapas daqueles que já nascem com eles nas mãos.
Quero que as pessoas não só vibrem com os beats e flows, mas que sintam a verdade que coloco em cada faixa.
Dani traçou o próprio caminho, criou suas estratégias, atravessou a pandemia que esmagou milhões, sentiu o peso de ser demitido, de ser tratado como descartável. Estudou, se reinventou, deu a volta por cima.

O mais importante é mostrar que dá pra criar as próprias rotas. Que a gente pode escrever a nossa história e colocar no mundo do nosso jeito.
Não chegou agora: sempre foi artista, já tinha até prêmio em 2023, mas precisou pausar porque em nós a balança pesa mais. Voltou chutando o pé na porta, com um trabalho tão potente quanto necessário.

A gente passa a representar aqui, né? Tá produzindo daqui, mostrando daqui… mas, por mais que a gente entenda, não é acessível.
A Nova Rota da Seda terá seu Show de Lançamento no próximo sábado (04/10), no Triplex Vermelho, localizado no início da Rua 7, no Centro de Vitória.

O espaço, que já traz em si um olhar questionador, dialoga diretamente com a proposta do EP. A noite promete ser festa, encontro e união — uma espécie de porto cultural dessa nova rota sonora.

Eu cresci ouvindo Racionais, Sabotage, depois Kendrick. Mas entendi que não bastava repetir. Precisei contar a minha versão da história, falar da Baixada, de Jacaraípe, de Vitória. Esse é o meu corre, essa é a minha rota.
Seja firme, continue, lute. Pouco a pouco, a conquista acontece.
Então, segura o dendê!








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