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Querida Evaristo



Rio de Janeiro, 03 de maio de 2050.


Querida Conceição,


Penso nos seus potentes versos enquanto, de cabeça encostada no vidro da janela do 409, retorno da labuta diária. Trabalhar, ganhar o pão, cumprir o karma pela sobrevivência. A minha sorte são as crianças e seus sorrisos.


Hoje uma garotinha falou que eu parecia cansada. Não parecia preocupada. Rimos. Como negar? Estar ali, de pé, ouvindo suas pequenas grandiosas descobertas, “como assim seus pais vivem em casas diferentes, você tem duas camas?”. Podia ser pra mim essa pergunta, há vinte anos.


Uma flauta perdida. Choro de apego emocional: “mamãe vai brigar comigo”. É só comprar outra, que bobagem. Refazemos os caminhos percorridos entre escadas, corredores e salas.


“Será que botei mesmo na mochila?”


A menina desenha compulsivamente na folha, no canto do caderno de Ciências, na régua, na borracha. “Você precisa prestar atenção na correção, Manu”. Destituída dos seus pertences, a mão vira tela. Ok, pode finalizar a caricatura após copiar o que tá no quadro. Desfaz o beiço.


Corpos inquietos que tateiam o microcosmo da classe. Olho para o tempo e falta tempo demais para o recreio. Pensando na vastidão que é a estrada aguardando cada um deles, me orgulho do papel encenado, uns dias mais serenos, outros de inquietude.


Pessoas não são projetos. Crianças, assim como o amor, são possibilidades. Elas dizem que a sua pele é macia e roubam abraços quando você se despe do expediente. Curam memórias sensíveis em nós, mesmo as desconhecidas.



Abraço carinhoso,


Bárbara Pinheiro Baptista

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