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“A gente não começou agora”: Edd Wheeler fala sobre mulheres, hip hop, direitos e memória periférica

há 10 minutos
7 min de leitura




A Dama do Rap, documentário dirigido por Cavi Borges que atravessa a trajetória de Edd Wheeler, Edwiges Tomaz, uma das pioneiras da presença feminina no hip hop carioca. Sua história começa nos bailes charme e chega ao primeiro grupo formado por mulheres negras no Rio de Janeiro, surgido em 1992, quando ocupar o rap sendo mulher já significava bater de frente com uma cena marcada pelo machismo e por uma memória que, muitas vezes, escolheu registrar os homens primeiro.


Mais de trinta anos depois, a rapper de Nilópolis continua falando sobre hip hop, mas sua caminhada atravessou outras frentes. Edd também se tornou advogada, palestrante e ativista, atuando com mediação de conflitos, enfrentamento à violência contra a mulher e na articulação da Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop.




Talvez por isso o documentário não seja apenas sobre música.

“Quero que o meu documentário seja a abertura de uma janela onde as pessoas comecem a pesquisar a cultura hip hop através das mulheres”, conta Edd.

E a mensagem que vem logo depois é ainda mais direta:

“A gente não começou agora. Nós não somos moda. Isso não é rap feminino. A gente sempre esteve inserida na cultura hip hop.”

“A Dama do Rap” faz essa ponte entre tempos que nunca estiveram realmente separados. Dos bailes charme ao Direito. Do microfone ao acolhimento de mulheres vítimas de violência. Da rapper que ajudou a abrir caminho para outras mulheres à advogada que hoje ajuda a construir redes de proteção dentro da própria cultura.


Edd fala de um hip hop que também precisa olhar para dentro.

É uma situação tão praticada dentro do hip hop, vendo coisas que são abusos. Que são patrimoniais, que não é só lesão corporal. É uma questão muito psíquica também, psicológica com as mulheres.”

E completa: 

“A gente está tendo uma evasão de mulheres de dentro do hip hop porque elas já não aguentam mais.”

O lançamento do documentário aconteceu em 11 de agosto, uma data emblemática para a cultura hip hop. Hoje, o filme está disponível no YouTube, colocando no audiovisual uma história que durante muito tempo circulou principalmente entre quem estava nos bailes, nos encontros e nas ruas.


Porque, para Edd, registrar também é tomar para si o direito de narrar.

“Deixa a gente contar a nossa história e ser protagonista disso.”

É desse ponto que começa nossa conversa com Edd Wheeler. Não apenas sobre uma mulher que estava lá quando muita coisa começou, mas sobre as mulheres que sempre estiveram no hip hop, as violências que ainda precisam ser enfrentadas e a disputa para que suas histórias não sejam apagadas outra vez.


“A cultura hip hop sempre teve expressão feminina. Sempre teve. Tanto como MC, como no grafite, como DJ, como B Girl, como pesquisadora, sempre teve.”

Edd Wheeler começa de um ponto que ainda precisa ser repetido: mulheres não chegaram depois ao hip hop. Não apareceram agora. Não são tendência. Sempre estiveram ali, ainda que muitas vezes fora dos registros, das pesquisas e das histórias mais conhecidas sobre a cultura.


Para ela, parte do problema está justamente na memória.

“Você conhecia aquele grupo porque você ia aos eventos, você estava nos congressos.”

Durante muito tempo, grande parte da história do hip hop circulou assim, no encontro, na conversa, nos shows e nos eventos. Com a internet, outra possibilidade apareceu.

“Hoje, o trabalho da gente é fazer com que tudo que a gente o temp todo só falou esteja documentado. Não é ter um disco, não é ter um CD. É ter a internet ao nosso favor, que mostre toda a trajetória, toda a base para que eles estivessem aqui.”

E essa disputa pela memória atravessa diretamente a presença das mulheres.

“A maioria dos homens acaba não nos conhecendo. Lógico que os que são da old school acabam, mas é uma coisa muito limitada.”

Por isso ela insiste:

“A cultura hip hop sempre teve expressão feminina.”

Não é apenas uma discussão sobre reconhecimento. É também sobre permanência.


Edd está há quase trinta anos dentro do hip hop e fala de uma realidade que acompanha mulheres dentro e fora da cultura.

“É uma situação tão praticada dentro do hip hop, vendo coisas que são abusos. Que são patrimoniais, que não é só lesão corporal. É uma questão muito psíquica também. Psicológica com as mulheres.”

Ela fala de violências que muitas vezes passam sem o mesmo reconhecimento dado à agressão física.

“A gente está tendo uma evasão de mulheres de dentro do hip hop porque elas já não aguentam mais. É escutar as ofensas, é ao mesmo tempo estar com companheiros que também a humilham, que também batem.”

E a violência nunca aparece sozinha.

“Sou mãe, sou solteira, moro dentro da comunidade, tenho que tomar conta dos filhos. Estou com três filhos e sou eu que saio de manhã para poder trabalhar, porque não tem com quem deixar. Eu que sustento.”

Edd olha para essas mulheres não apenas como artistas.

“Então, a saúde mental dessas mulheres dentro do hip hop tem sido agravada com esses comportamentos.”
As Damas do Rap. Da esquerda para direita: Cátia Prado, Andrea Stone e Edd Wheeler.
As Damas do Rap. Da esquerda para direita: Cátia Prado, Andrea Stone e Edd Wheeler.

É nesse ponto que sua trajetória no Direito encontra sua trajetória dentro da cultura.

“Eu acabei vindo por essa questão de ser advogada, tendo essa militância dentro da violência contra a mulher.”

O Direito, para ela, precisa chegar onde essas mulheres estão.

“Preciso de medida protetiva. Não é porque você é o top do hip hop que você também não pode ganhar uma tornozeleira eletrônica.”

Ser conhecido, ter público, tocar em festival ou possuir prestígio dentro da cultura não pode virar proteção para quem violenta uma mulher.

“A nossa periferia precisa saber por que a gente pode exigir.”

Esse trabalho também acontece dentro da Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop.

“A Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop é uma rede com uma coalizão de vários outros coletivos, dedicada realmente a toda uma participação social e ativista com mulheres.”

A Frente surgiu em 2010, em Carapicuíba, a partir de uma necessidade simples e enorme ao mesmo tempo.

“A gente sabe que existem mulheres no Brasil com hip hop, mas a gente não consegue dialogar, não consegue trocar ideias. E como é que a gente faz isso?”

Mulheres de diferentes regiões começaram a se encontrar.

“Conseguimos reunir muitas mulheres vindo do Nordeste, do Sul, também do Sudeste, e hoje a gente está nos 26 estados e mais o Distrito Federal.”

Mas Edd não fala apenas de articulação.



Ela fala de circulação de trabalho, conhecimento e dinheiro.

“Da gente ter um número maior de mulheres dentro dessa rede, para fazer com que essa roda e esse mercado girem entre nós.”

E resume:

“Acho que agora a gente precisa ser o nós por nós.”

Esse “nós por nós” passa por muita coisa.

“Mercado de trabalho, políticas públicas, até mesmo os nossos conhecimentos e a visibilidade para a mulher no hip hop.”

Passa também por acolher mulheres quando a violência aparece.

“É um trabalho que a gente está tentando montar protocolos, tentando ter realmente um grupo de mediação, de uma consultoria jurídica.”

Ela faz questão de marcar os limites dessa atuação.

“A gente não é um escritório jurídico. A gente não tem psicólogas e assistentes sociais prestando o papel dos órgãos que a gente sabe que são criados para isso.”

Mas existe uma rede.

“A gente faz um encaminhamento. A gente tem essa empatia com as nossas irmãs para poder acolher, ter uma escuta e dar o encaminhamento correto para essas questões.”

E as demandas aparecem juntas.

“Saúde mental, medidas protetivas, pensão alimentícia. Enfim, acaba englobando toda a família.”

Para Edd, defender mulheres dentro do hip hop também significa defender o direito dessas mulheres viverem da própria cultura.


Ela olha para a geração atual e percebe uma mudança.

“A nova geração se forma dizendo assim: o rap é o meu trabalho. Eu vou me profissionalizar com isso.”


E aprova esse movimento.

“Para mim, é perfeito.”

Porque durante muito tempo existiu a expectativa de que o hip hop fosse missão, militância e paixão, enquanto o trabalho de verdade estaria em outro lugar.

“Eu faço rap porque é missão, porque eu sou ativista, porque eu sou militante, e eu vou ter um outro trabalho. Não. O hip hop precisa se profissionalizar.”

Para ela, MC trabalha. DJ trabalha. B Boy trabalha. B Girl trabalha. Grafiteiro trabalha. Arte educador trabalha.

“Você se dedica, você se planeja, você corre atrás também de conhecimento para estar passando para outras pessoas.”

E conclui:

“Se é um investimento, você precisa receber desse investimento.”

Profissionalização, no entanto, não apaga aquilo que atravessa esses corpos.

“A Edd Wheeler não é por ser rapper, não é por estar no mainstream, que ela vai deixar de ser uma mulher negra da periferia.”

É daí que vem outra discussão importante sobre essa nova geração.


Nem toda música precisa ser manifesto.

“Vai chegar o momento que você tem um posicionamento. E esse posicionamento não precisa ser militante.”

Mas algumas questões aparecem independentemente da intenção.

“Você não precisa falar sobre racismo. Mas em algumas partes da sua letra isso fica em evidência. Quando você dá as suas entrevistas, você vai lá na ferida.”

A arte muda. Os estilos mudam. O mercado muda.

“Independente do estilo musical, eu acho que o que se tem de essência, isso daí não desaparece.”

E é essa essência que Edd também tenta preservar quando fala sobre memória.


Seu documentário nasce desse desejo.

“Quero que o meu documentário seja a abertura de uma janela onde as pessoas comecem a pesquisar a cultura hip hop através das mulheres.”

Ela quer que as pessoas procurem.


“Tem muitas, de todo tipo de estilo, de flow, com uma qualidade de excelência do trabalho.”

E então deixa talvez uma das falas mais importantes de toda a conversa:

“A gente não começou agora. Nós não somos moda.”

E continua:

“Isso não é rap feminino. A gente sempre esteve inserida na cultura hip hop.”

Não conhece?

“Vai atrás.” “Todas as plataformas, todas nós estamos. E aí reconheça o nosso trabalho.”

A memória aparece novamente quando a conversa chega à Baixada Fluminense.


Edd fala sobre uma história que muita gente cresceu ouvindo.

“Que na Baixada não tinha nada. Nem de hip hop.”

Ela responde de maneira simples.

“Sempre teve.”

A questão é outra.

“A gente precisa se apropriar e contar o que é nosso.”

Não basta existir.


É preciso registrar.


É preciso construir acervo.


É preciso deixar caminho para quem vier depois conseguir encontrar quem estava antes.


Edd defende a construção de um acervo cultural do hip hop da Baixada porque entende que território também produz diferenças.

“É completamente diferente como a gente faz na Baixada, como é na região metropolitana, como é também em Niterói, como é em São Paulo, no Distrito Federal e indo para o Nordeste.”

Cada lugar constrói sua própria experiência dentro da cultura.


E se essas experiências não forem registradas, desaparecem dos arquivos mesmo tendo existido nas ruas.


Por isso Edd volta à mesma ideia.

“Deixa a gente contar a nossa história e ser protagonista disso.”

Talvez seja disso que toda essa conversa trate.


Mulheres que sempre estiveram ali.


Mulheres que produziram, cantaram, rimaram, pesquisaram, organizaram, educaram e movimentaram o hip hop.


Mulheres que também enfrentaram violência dentro desse mesmo espaço.


Mulheres que decidiram criar redes para proteger umas às outras.


Mulheres que querem viver da própria arte.


Mulheres que não querem que alguém conte daqui a vinte anos que elas nunca estiveram aqui.


Edd deixa o recado.

“A gente não começou agora.”

Sempre esteve.















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