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O primeiro conto da estrada

Atualizado: 2 de jan.

Por Thiago Sento Sé


Permitam que eu possa me apresentar. Meu nome é Thiago e me tornei professor do ensino médio e fundamental em um país de terceiro mundo que despreza a educação. Onde vivo, para um professor como eu ter um mínimo de dignidade é preciso trabalhar em três ou quatro escolas diferentes, correndo de um lado para o outro, é isso que eu faço para sobreviver. No meu segundo ano de formado pela faculdade de Artes Visuais, passei em um concurso público que me garantiu estabilidade financeira, já que essas escolas que mais parecem empresas vivem mandando os professores para o olho da rua quando estão prestes a completar os três anos de casa e tem um aumento salarial garantido por lei.

A história que eu vou contar agora é muito conhecida nas paradas das estradas, cafés e todo tipo de entretenimento que se possa ter ao longo das rodovias entre as rodas de conversa de rodoviários. Mas naquela época, eu ainda não frequentava essas paradas tanto quanto a sala da minha casa, e nunca tinha ouvido falar. Talvez vocês não a conheçam também, mas ela é real.

A escola pública a que fui designado a trabalhar ficava em outra cidade, no interior do estado, em um vilarejo ainda mais afastado. Com os 183 quilômetros de distância entre minha casa e o trabalho, e com a estabilidade do concurso, o meu sonho de comprar um carro se tornou uma necessidade, inclusive porque no turno noturno, os ônibus já nem rodam naquela região. Os dias foram se passando e as primeiras impressões que tinha à priori, de uma escola antiga e caindo aos pedaços, deram lugar ao carinho e receptividade daquelas pessoas carentes de tudo. Me viam chegar no ronco do meu carro vermelho esportivo, ou quase isso, vestindo minhas roupas modernas, tal como um E.T. chegando em seu disco voador. Perguntavam-me como era a capital e como se vivia numa cidade violenta. Em contrapartida, me falavam sobre cavalos, suas raças e tipos de marchas, falavam de passarinhos cantores e o quanto eles poderiam ser valiosos. Perguntavam se eu andava de skate. Ouviam animados minha gaita de boca, como se fosse um verdadeiro show, quando eu chegava animado pela adrenalina causada pela velocidade da estrada.

Uma coisa que desde o primeiro dia não mudou, era o prazer de ir e vir por aquela velha rodovia interestadual, perigosa e mal sinalizada, mas quando se é jovem, pouco ligamos para esse tipo de coisa. Antes de sair de casa era um ritual, tomar um refrigerante energético e fumar aquele cigarrinho, você sabe, para fazer a cabeça. Já na estrada uma parada para encher o tanque, almoçar e pista!

Trabalhava no turno da tarde e no turno da noite, com educação de jovens e adultos. Após dez tempos de 50 minutos e um intervalo entre turnos, era hora de partir. Tomava um balde de café e voltava para a estrada, cansado, mas feliz. Algum som da segunda metade do século XX ligado ao moderno aparelho de som, compunha a trilha sonora da jornada. O vidro aberto servia para me manter acordado ao mesmo tempo em que respirava o sereno da noite, misturando o ar puro daquela estrada rural.

Pois foi justamente em uma noite dessas que tudo aconteceu. Àquela altura já havia decorado boa parte dos perigos potenciais da estrada, curvas traiçoeiras e radares de velocidade. Acelerava seguro, porém alerta. O ar entrava gelado pela janela do carro. O peito fechado em uma jaqueta, assim como a garganta, boca e nariz por uma faixa de tecido. Um gorro na cabeça completava o traje. No rádio a voz de uma falecida cantava um spiritual, o painel de instrumentos do carro marcava 23:43. Alguns antigos postes de luz de mercúrio alaranjada iluminavam espaçadamente a beira da estrada de interior, onde começava a se formar uma névoa. A noite estava escura, sem lua ou estrelas.

Antes de entrar na interestadual, ainda na zona rural, no final de uma grande reta, que se podia sentir a potência máxima do motor, reduzi para 100km/h devido a uma grande curva que se aproximava, que dava em uma ponte sobre um córrego. Nesse momento, enquanto contornava a grande curva, as luzes de led super branca dos faróis, iluminavam uma mulher agitada no acostamento, quase saltando na frente do carro, desesperada para que eu parasse. Com o vento entrando pela janela e a velocidade, pude apenas identificar o pedido de socorro por meio do choro e de palavras indefinidas. Parei rapidamente o carro no acostamento, a uns dez metros depois de passar pela pequena ponte, sem desligar o motor, sai do carro. A mulher vinha correndo em minha direção. Aquele tipo de mulher que chama nossa atenção, você sabe, naturalmente, apesar da forma simples como se vestia, blusa branca, calça jeans e o longo cabelo preso em um rabo de cavalo. Mas não foi nada disso que chamou minha atenção, e sim, seus olhos arregalados e seu rosto pálido e angustiado.

Gesticulava enquanto falava de um acidente terrível. Na direção que ela apontava, na saída da curva e pouco antes da ponte, pedaços de carro indicavam o local. Tentando manter a calma, me apressei até a ribanceira e pude ver as luzes de freio do carro acionadas em meio a escuridão, e o carro enfiado entre as pedras do pequeno córrego. Enfiei a mão no bolso a procura do meu celular, para chamar a emergência, enquanto me aproximava, então percebi que o havia deixado dentro do carro. Quando me virei para ir buscá-lo, não vi mais a mulher na beira da estrada, resolvi seguir até o acidente e avaliar as condições. O mesmo rabo de cavalo, dessa vez desfeito pelo impacto, a mesma camisa branca, dessa vez lavada em sangue vivo e os mesmos olhos arregalados. O mesmo rosto angustiado, agora só existia a metade do nariz para cima, todo o resto se resumia a um buraco de carne e sangue, pedaços de ossos e dentes em repouso morto ao volante.

Ainda em choque, enquanto me virava para pedir socorro, percebi algo se mexendo no chão escuro do carro, assustado percebi que entre os bancos havia uma criança atordoada, tentava se levantar. O mesmo rabo de cavalo, o mesmo olhar angustiado, mas dessa vez em uma versão infantil, começou a pedir socorro e chamar pela mãe. As horas seguintes foram de telefonemas, ambulância, polícia, hospital e intermináveis horas até que o avô da criança chegasse para assumir tudo e eu pudesse seguir com minha vida, da forma como alguém segue depois de passar por uma história dessas, passando todos os dias pelo mesmo lugar.

Talvez, assim como eu, você não seja um rodoviário. Talvez você frequente as estradas apenas nos feriados e finais de semana, e talvez você também nunca tenha ouvido falar dessa história. Mas o fato é que muitas vezes quando paro na ida ou na volta, escuto essa velha história da estrada, contada por velhos motoristas. Algumas pessoas dão risada, ou confundem com entretenimento. Mas a verdade é que todos os dias, milhares de espíritos se perdem de seus corpos nas longas estradas desse mundo, e perdidas pedem socorro.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

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