Desumanidade Crônica
- O Seu Absurdo

- 30 de set.
- 4 min de leitura

Eu não sabia o que era crônica, pesquisei o que era crônica e me falaram que crônica é um relato do cotidiano. Crônica pode ter história, argumento, humor e reflexão. Machado de Assis era bom de crônica, então crônica deve ser bom.
Ela pode falar sobre o clima, mas do clima eu não vou falar porque tá calor demais. Também pode falar de vestimenta, mas além da cueca me resta do short e nada disso vai aparecer na próxima Fashion Week.
Vou contar umas histórias, argumentar sobre um tema, tentar rir da desgraça e fazer o leitor refletir sobre o papel da crônica.

O Rio de Janeiro que não deixa de ser lindo, até porque os olhos do amor só julgam a distância, não tá lá tão lindo assim. E vai se levantar em fúria a garotada e a terceira idade, a mulherada e a contraparte, os locais e todas as amizades. Mas saibam que sou carioca da gema e falo contigo de coração, de verdade.
Quem vê tanta rima acha até que tenho todo esse molejo, mas vivi muito tempo pela terra do pão de queijo, e a uma década voltei pro ensejo do Rio de Janeiro. Vi muito daqui, um pouco de lá, acolá parece nome de doce então deixa estar.

Outro dia passeava pela Zona Norte de nossa morada, com destino certo, com a pia estragada. No caminho pra loja de construção, vem um transeunte na minha direção, bermuda no corpo e o troço na mão. Conheço o tipo, já tô acostumado, fecho a cara e vou passar sem dar papo.
Mas ele me olha, de cima em baixo, de peito aberto, sujo de um jeito exagerado. No rosto um sorriso, na mão o troço, na língua a música que aqui vos toco:
– Desce, sobe, não faz esse biquinho.
E confesso abestalhado que ri que nem um palhaço. Sou fraco de riso e forte de coração, Amoroso é o nome do indivíduo que me deu essa canção.
Eu sigo o meu caminho, ele segue o dele, não há o que se dizer. E ainda existem aqueles que dizem que o romance morreu, mas aqui estou eu, apaixonado pelo Rio que me recebeu.

Mas não são flores que dominam a paisagem e meu amor pelo Janeiro é como o meu amor por tudo, crítico. E por mais humorístico que meu encontro fortuito tenha sido, e acredite, esse foi um dos encontros mais tranquilos que podem acontecer no Rio, ainda fico aturdido.
Um de meus outros encontros com os residentes de praças, vielas e becos da cidade maravilhosa, foi com o que chamaria de Necromante. E agora pode estar repensando essa leitura, duvidando de mim.
– Esse cara acha que pode dar nome pros outros assim?
E te lembro mais uma vez do título dessa crônica, e te convido a atividade imoral que fazemos todos os dias, não acredita? Eu e você, sim, todo dia vivemos essa desumanidade que afeta a sociedade, e seguimos vivendo.
Trabalhamos, escrevemos e amamos. Enquanto Amoroso balança o troço dele por aí (se ainda estiver vivo).
Dito isso, voltemos ao meu relato esquisito. Era sábado e seria um dia cansativo, como todos os anteriores daquele momento que por mim era vivido. Aflito e sem abrigo, recorri a um amigo. A visita faria de carona, por conta do meu Riocard que nunca me abandona, tirando as vezes que me abandonou.
Se houver tempo e espaço, falaremos das mazelas do transporte público do Rio, que sozinho me proporcionou a habilidade única de conseguir dormir em pé, mas talvez seja história demais para essa crônica. O calor era infernal, o ponto cheio, minha atenção zerada.

Desatento, não vejo no meu olho que vê o que está na calçada, Necromante se esguia pro meu lado, safado que é, tá com tudo planejado. Grita arteiro pra mim:
– Segura o ônibus que esse ai é pra mim.
Eu, a boa alma que sou, em reflexo involuntário paro o ônibus completamente ocupado. A porta se abre e o motorista me encara com morte, não é o meu dia de sorte.
A mão de Necromante agarra o meu braço, assisto estupefato esse mago infernal se impulsionar pra escada. No ar o seu característico pé enfaixado. O motorista me chinga, e o Necromante nem agradece, ingrato.
Vai ser necessário contexto para que entenda essa parte do meu relato, primeiro sobre mim e o toque inesperado. Eu sou ruim de toque. Indiferente da pessoa, se vamos nos tocar eu preciso de uma comunicação, de um jeitinho, sabe?
Preciso de um je ne se quoi (Não sei o que significa, mas dizem que francês é bonito), de uma troca de olhar, de uma antartica gelada. Fazer o quê, sou um romântico irreparável. Então quando tocado pelo indivíduo citado, me desesperei de imediato.
Olhei para o meu braço e a marca de Saruman, Uruk Hai havia me tornado. O Necromante se foi e eu fiquei ali parado, ouvindo o riso descontrolado do meu amigo, que também é um safado.
O Necromante assim é chamado, pela capacidade quase etérea de se transportar longas distâncias sem ser afetado pelo seu pé mumificado. Dizemos até que agora ele é capaz de me rastrear através da marca deixada, eu que nem acredito em Deus, acredito nessa piada.
E você pode bradar, a toda voz e pulmão cheio, que isso não tem graça. Que ele é uma pessoa que precisa ser respeitada. E eu retruco, na melhor imitação de homem de “bem” que posso fazer:
– Então leva pra casa.
Brincadeiras à parte, tem em mim alguém que concorda, não há graça na tristeza que o assola, mas há graça na situação que nos engloba. Penso comigo nessas histórias, essas fábulas que viraram contos para mesa de bar, anedotas a se contar.
Quantos assim sabemos que há? Na Quinta da Boa Vista, quando há sol, a família vai passear, quando a noite chega, o mesmo homem de bem vai lá o prazer buscar. Nossas ruas lotadas de almas perdidas, corpos encontrados, vozes esquecidas. E nós vivemos, vivemos todos os dias. Trabalhamos, escrevemos e amamos.
E tenho consciência de que não sou ninguém pra te cobrar, mas se sou cronista posso argumentar, que a reflexão não pode só ficar no ar.
Se há papel da crônica na atualidade, talvez seja no virtual não deixar se perder a realidade. E se no cotidiano a desumanidade crônica vigora, o tempo de ação é o agora.






Comentários