O Novo No Fluxo Do Rap: O Estilo Vagabundo de MV Bill confrontado por Kmila CDD
- Ryan Augusto

- há 6 dias
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Composta em coautoria por MV Bill e Kmila CDD, a faixa Estilo Vagabundo, Pt. 1 (2006) apresenta em sua narrativa uma imagem bastante comum no cotidiano: uma discussão de casal.

Irmãos na vida real, os artistas intercalam versos em um dueto/duelo que muito se assemelha às já tradicionais Batalhas de Rima.
Mais do que analisar o conteúdo e a temática desse embate lírico (um dos mais relevantes para a cultural Hip Hop) o objetivo deste ensaio consiste em compreender como a produção de dissenso pode permitir uma abertura para as diferenças — no caso específico, como o protagonismo da Kmila CDD questionou a reprodução do sexismo no circuito do Rap.
Como todo clássico, a disputa de rimas entre MV Bill e Kmila CDD demonstrou uma potência que se desdobra no tempo e supera o contexto espacial específico da performance.
Em entrevista concedida ao programa Estação Livre (TV Cultura), perguntado se a proposta de Estilo Vagabundo seria trazer ao debate público o modo de representação da masculinidade negra, MV Bill afirmou que a música conseguiu discutir “o papel do homem em geral”, alcançando ouvintes de distintas vivências.
O efeito foi observado nos shows, sobretudo com a presença feminina em um espaço social majoritariamente masculino e heteronormativo: “Mais mulheres passaram a ir no show, as ‘minas’ começaram a cantar a parte da Kmila e começaram a admirar ela”, constatou o rapper carioca em conversa com a jornalista Cris Guterres.

Os cenários utilizados para a gravação do videoclipe (Cidade de Deus, Madureira e Acari) evocam a imagem da realidade periférica carioca. Ao entorno do “casal” localizado no centro do espaço público, moradores se reúnem e participam mais do que meros espectadores.

Em uma das partes do videoclipe, vemos uma jovem cantando em sintonia com as rimas da Kmila, e foi justamente essa cena que despertou o meu interesse sobre essa performance.
Atualmente, o circuito do Rap nacional tem cada vez mais a inserção de rappers mulheres, inclusive sendo possível apontar uma curva de ascensão que consolida novas formas de representatividade – processo de extrema relevância para a insurgência de vozes historicamente silenciadas – e a elevação do nível técnico-artístico das composições e produções musicais.
Basta olhar para rappers como Ajuliacosta, Duquesa, Ebony, Tasha & Tracie, além de projetos recentemente lançados por artistas consagradas como Negra Li, Stefanie e a própria Kmila CDD (Quebra-Cabeça, 2025).

Tricia Rose, autora estadunidense pioneira nos Hip Hop Studies, alerta que a “exclusão das mulheres da produção musical no rap não deve ser entendida como específica do rap ou da música contemporânea, mas como uma continuidade da marginalização generalizada das mulheres na música ao longo da história” (ROSE, 2021, p. 115).
Se na gênese do Rap havia uma tendência de discursos misóginos, a música Estilo Vagabundo pode ser considerada um acontecimento: uma abertura – provocada pela autenticidade das rimas de Kmila – que reivindica o direito de um modo de existência minoritário, tensionando o padrão normativo de um ambiente já marginalizado.
O fluxo do Rap, em suas sucessivas transformações, tem como elemento central o confronto das concepções sociais hegemônicas: a potência da atitude crítica para superar a lógica de exclusão das diferenças e silenciamento de vozes minoritárias.
E as batalhas de rimas mostram na prática esse elemento, onde o que é suprimido pelo consenso dominante possa ser revelado, provocando dissensos nos espaços públicos e a possibilidade de renovar experiências em comum.
Talvez seja justamente esse traço que permita ao Rap continuar afirmando novas formas de (re)existência, mesmo diante da continuidade dos processos históricos de criminalização das expressões culturais afro-diaspóricas e do projeto de extermínio da população negra e periférica do Rio de Janeiro.
Em uma dinâmica permeada por conflitos, as múltiplas forças que insurgem da poética do Rap constroem um campo atravessado por um fluxo/flow de criação de outros estilos de vida.
A capacidade de anunciar um futuro porvir através da denúncia das opressões vivenciadas. De mobilizar outras formas de amar, mesmo em meio ao ódio.
O novo sempre vem!
Referências:
MV BILL; KMILA CDD. Estilo Vagabundo, Pt. 1. YouTube, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Cmg4xmT70p8. Acesso em: 01/12/2025.
KMILA CDD. Quebra-cabeça (EP). YouTube, 2025. Vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=w_O2l1MLD1E&list=OLAK5uy_l9gx5cHC7QHLl5ux7EOavRpcWztlDJ9ow&index=1. Acesso em: 01/12/2025.
ROSE, Tricia. Barulho de preto: rap e cultura negra na América contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 2021.
TV Cultura (YouTube). MV Bill bate papo exclusivo com o Estação Livre sobre seu novo livro e fala sobre masculinidade. Estação Livre, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3OI-mS3ALUY. Acesso em: 01/12/2025.









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