Matchola em Zero Bala (2025): Salcity e o som que voltou pra casa
- Pivete

- há 20 horas
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Em 2024, Ok Tchola apareceu como um disco que não pedia tradução imediata. Matchola cantava de um lugar instável, onde o “tanto faz” não era descaso, mas escolha política e estética.
Um gesto de recusa às fórmulas, às verdades prontas e às coerências artificiais de um mundo que exige sentido enquanto opera no caos. Era um álbum de desvios — sonoros, subjetivos e existenciais — em que o artista parecia experimentar o próprio limite sem pedir autorização.

Um ano depois, Matchola retorna com Zero Bala (2025), seu novo trabalho de estúdio, e o movimento não é de ruptura, mas de aprofundamento. Cantor, compositor, rapper e produtor baiano, ele constrói um disco que mantém a inquietação como motor, mas troca o confronto direto por afirmação. São onze faixas que atravessam rap, pop, indie e MPB com naturalidade, sustentadas por uma atmosfera solar, orgânica e aberta à escuta. Entre os parceiros criativos estão nomes como Thalin e Enow, com quem divide o projeto Dupla 02, além dos conterrâneos da Tangolo Mangos, que selam o encerramento do álbum.
Zero Bala também marca o primeiro álbum solo de inéditas desde Ok Tchola. Entre as faixas, “Barril Dobrado” já havia antecipado o clima do projeto, acompanhada de um audiovisual dirigido por Gabriel Melo e Gabriela Teixeira em colaboração com o próprio artista — reforçando o caráter autoral que atravessa toda a obra.
Mas se Zero Bala nasce do mesmo corpo que Ok Tchola, ele não repete o gesto.
Ele aprofunda. “Cada álbum que eu faço é diferente um do outro, mas sempre conversa com a vibe que eu tô vivendo”, afirma Matchola, sinalizando um percurso que não se guia por planos fixos, mas por estados. Se o disco anterior vinha de um lugar mais agressivo e experimental, marcado por choques e ruídos, Zero Bala é o momento em que a inquietação encontra o chão.
Não para se aquietar — mas para se afirmar.
E esse chão tem nome, cor, som e sal: Salvador.
Salcity.

Durante muito tempo, Matchola evitou dizer de onde vinha. Não por vergonha, mas por birra. “Se no rap todo mundo fala de onde vem, eu queria fazer o contrário”, ele conta. Fugir do clichê virou regra. Só que fugir demais também apaga. Em Zero Bala, ele percebe isso. E decide parar de correr.
“Eu tenho que tirar essa idiotice da minha cabeça e deixar claro que eu vivo num dos lugares mais bonitos do mundo, que é Salvador. Eu amo a Bahia. Não sei porque demorei tanto pra botar isso na música.”
Mas, antes de voltar para casa, Matchola precisou voar.
O Rio de Janeiro entra nessa história como travessia. É no Rio que ele se conecta com Germano, se infiltra no coletivo OGEF, participa da OGEF Mixtape, Vol. 1 ao lado de OGermano, Slimecria e Yan Fé. É ali também que se consolida a parceria que gera Caça & Recompensa, álbum colaborativo com Germano que costura boombap clássico com MPB, canto, melodia e sensibilidade.
“O Rio, pra mim, é minha segunda casa. A galera abraça demais. Me senti em casa”, ele diz.
Mas se o Rio acolhe, Salvador estrutura.
Zero Bala é o disco em que essas duas experiências se encontram sem conflito. O rap continua ali, mas já não pede desculpa por cantar. O indie aparece sem medo de ser popular. O pop não é concessão — é escolha. O pagodão entra como afirmação da sua cultura.

É um álbum que diz: dá pra ser alternativo sem ser inacessível; dá pra ser popular sem ser vazio.
“Eu tento equilibrar o alternativo com o comercial. Essa é minha maior missão”, afirma Matchola.
E esse equilíbrio não vem do algoritmo, mas da escuta.
Aliás, Zero Bala parece ser um disco feito contra a ansiedade do algoritmo. Num tempo em que música vira um apanhado de dados, Matchola aposta no oposto: tempo, corpo e gente. O álbum é majoritariamente orgânico, com instrumentos reais, músicos tocando, sopros, guitarras, baixo, flauta. “Tem um ser humano ali por trás”, ele faz questão de frisar.
Se em Ok Tchola a estética soava como confronto, aqui ela vira abraço. Mas não um abraço anestésico. “Eu quero que Zero Bala soe como conforto, como trilha sonora de uma viagem, mas também como uma carta aberta”, diz ele. Carta pra quem acompanhou desde o início. Carta pra quem se sente deslocado. Carta pra quem cansou de tentar caber.

E talvez seja aí que Zero Bala mais dialoga com o texto que escrevi em 2024. Porque se antes eu via em Ok Tchola uma recusa às normas, agora vejo em Zero Bala uma afirmação da diferença.
Não aquela diferença performática, do “olha como eu sou estranho”, mas a diferença cotidiana, quase silenciosa, de quem aceita ser quem é.
“Quando eu entendi que meu som era diferente, ficou fácil. Não diferente por querer ser “diferentão”, mas diferente porque é contra a cultura mesmo.”
As letras acompanham essa maturidade. Não são vazias, nem panfletárias. São atravessadas por crítica, mas também por autocrítica. Matchola não se coloca acima do mundo — ele se coloca dentro. Questiona o que chamam de verdade, ri das mentiras que a gente usa como anestesia diária, fala de sentimentos sem transformar vulnerabilidade em mercadoria.
Quando perguntado sobre política, ele não faz pose. “Eu evito falar do que não sei. A arte pode ser política, mas também pode só criar um ambiente, uma vibração.” Ainda assim, o rap carrega história. E Zero Bala entende isso sem virar militante.
No fim, o disco parece menos preocupado em ensinar e mais interessado em existir.
Antes de ser música, Matchola foi imagem.
Desenho, edição, cinema. Um corpo que sempre tentou se expressar antes de saber exatamente o que estava dizendo. A arte entrou cedo, mas não entrou reta.
“Comecei desenhando. Depois fui pra edição de vídeo porque dava dinheiro. Aí pensei em cinema. Passei na UFBA para fazer Belas Artes… e larguei tudo pra fazer música.”
Esse caminho torto ajuda a entender por que Zero Bala soa como soa. Porque não é um disco feito por alguém que aprendeu música dentro de uma fórmula, mas por alguém que aprendeu a olhar, montar, cortar, recompor. Matchola não pensa o álbum como sequência de hits — pensa como montagem. Cena, clima, respiração.

Talvez por isso ele chame o próprio trabalho de “esquizofrenia musical”.
“São vários gêneros misturados, várias vozes. Eu não consigo fazer a mesma coisa sempre. Já tentei e não consigo.”
Enquanto muita gente se esforça para encontrar um som e repeti-lo até cansar, Matchola aceita o risco do movimento. Jazz, rap, pop, indie, MPB, tecnobrega, rock — tudo cabe porque tudo faz parte da escuta dele.
O processo criativo nasce da acumulação: beats guardados, ideias soltas, sensações anotadas, silêncios respeitados. Depois, a revisita.
“Eu faço o beat, deixo lá. Faço outro, deixo lá. Depois volto, vejo o que conversa comigo naquele momento e escrevo.”
Tem também um ponto que atravessa toda a entrevista e que raramente aparece em textos sobre artistas: o medo de não saber quem se é. Matchola fala disso sem romantizar.
“Por muito tempo eu não sabia o que a galera gostava no meu som. Eu não entendia o que eu era.”
Reconhecimento existia, mas vinha sem explicação. Família, amigos, proximidade. Faltava espelho.

O espelho veio com o tempo — e com o retorno.
“Quando a galera começou a dizer que meu som era diferente, eu entendi. Meu foco é esse. Ser diferente sem forçar.”
É um momento pequeno, mas decisivo. Porque entender o próprio lugar não significa se fixar nele. Significa parar de fugir.
Essa parada é o que permite que Zero Bala seja um disco orgânico não só no som, mas na intenção.
Um álbum que faz questão de lembrar que a música não nasce pronta.
“Esse foi o primeiro disco da minha vida que eu consegui arranjar com instrumentos reais”, ele diz com orgulho contido. Guitarra, flauta, baixo, tudo tocado. Pouco sample. Muito corpo.
É quase um manifesto silencioso num tempo em que tudo soa igual demais.

E talvez o ponto mais forte dessa segunda camada seja a recusa da persona. Matchola não constrói personagem. Não performa marginalidade. Não romantiza dureza.
“Se você imita alguém, você tem que sustentar isso a vida toda. Ser você é a única coisa que ninguém pode tirar (…) Seja você sempre. Você nunca vai enjoar de ser você”, diz Matchola, encerrando a entrevista.
E essa frase poderia ser o subtítulo do álbum.









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