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O fim da educação?


Fala MeNÓzada, cheguei com pé na porta. O título já mostra que, como me falaram uma vez nestas lives da vida (redundâncias tecnológicas), eu seria como o Coach do Caos… 

Ironia, a mais fina flor da crítica, é fundamental para minha postura. Com um sorrisinho de canto de boca, inicio o meu debate sobre educação questionando seu fim. Oras, eu sou o colunista de educação, e já implodirei a minha própria coluna? Sim, meus caros, no momento em que escrevo, todo processo no qual estamos acostumados, desde a socialização, o processo de interação, apreensão da realidade e aquilo que chamamos de realidade, não será nada mais como antes.

Não fui eu quem quis criar essa zorra toda, tampouco foi “do nada”. Mas, um fato histórico para que o velho edifício da educação formal implodisse de vez, foi a “pauta mundial, o megaevento” : a pandemia global da COVID-19.

É óbvio que nada estava bom, mas com as medidas de isolamento social, vimos que o modelo tradicional, cartesiano (1), alinhadinho, todo quadradinho, não faz mais jus às atuais condições terrestres. O pensamento derivado de seu modelo analisa a nós, os seres humanos, como vasilhas vazias prontas para despejarmos todo tipo de conhecimento, este qual irá nos condicionar a tomar atitudes dentro daquilo que nos foi ensinado.

Pois é, meu nobre, este tipo de modelo ainda é dominante em nossa sociedade. E tem gente que ainda acredita que funciona. Mas, a pandemia… Voltamos ao debate.

A pandemia institucionalizou, em uma escala global, a mediação tecnológica como mecanismo de manutenção do ensino e da aprendizagem. Se antes o ato de ensinar era basicamente transmitir todo tipo de conhecimento para outra pessoa, este tipo de construção já não nos é suficiente. E se aprender basicamente significa o ato de adquirir conhecimento e mudar nosso tipo de comportamento ou atitude perante uma situação (antes aprender a dirigir, por exemplo, nós apenas sabemos gritar, e depois, aprendemos a gritar com o sujeito que nos está a frente, atrapalhando nosso caminho), percebemos que existem diversos outros tipos de aprendizagem. Mas que há, de certa forma, um limite nas formas atuais de aprender.

Ou seja, a pandemia foi a cereja do bolo para mostrar a crise da educação que vivemos. No Brasil, além desta crise existencial, todos os problemas de estrutura da educação, desde os níveis familiares, vicinais, comunitários e os institucionais – tendo a escola como referência principal – tiveram rupturas definitivas.

Eu, como educador há mais de dez anos, e aprendiz desde quando me conheço como gente, já percebia as fragilidades existentes desde sempre. Mas, como pensador, refletir sobre o modo de educação atual é fundamental para a gente repensar e refletir (2) sobre que futuro queremos para nós e para nossos descendentes.

E aí entra a tecnologia… Muitos pensam que ela é a solução de todos os problemas da educação. Mas é apenas uma ilusão achar que a tecnologia é um mero instrumento de aperfeiçoamento das nossas capacidades. Ela também é uma serpente chocada de um ovo mais perverso. A tecnologia também é um meio político de controle, manipulando nossos pensamentos e condicionando nossos modos de pensar, a partir de esquemas computacionais construídos e desenhados para determinado tipo de estímulo e resposta. Ou seja, nós entramos em “tubos” bem desenhados e muito atraentes, mas nem sabemos para onde ele vai realmente nos levar e tampouco quem construiu já previu todos os caminhos possíveis. Vivemos afogados em um maremoto de informações, a dizer, uma infodemia.

Ao invés de libertar, a educação (3) numa perspectiva tecnocrata, otimista demais, relega o problema atual das fake news, da desinformação e do negacionismo como meros ônus a “libertação tecnológica”, e que nós, seres civilizados, conseguiremos superar isso usando as ferramentas digitais com organização política, diálogo e esclarecimento.

Mas, como disse no começo, não creio que apenas com o uso “bem intencionado” conseguiremos nos desvencilhar destes “grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil…” (4). Muitos pensadores contemporâneos nos sinalizam que devemos ir, além da mera denúncia, mas da apropriação e da construção de alternativas. Isto de fato é aprender no atual contexto que vivemos. É saber usar, a poiesis (5), a arte de saber-fazer e (des ou re)construir caminhos verdadeiramente libertadores para nós e para a Educação como um todo.

A partir desta reflexão que tentarei trilhar esta coluna. A educação que conhecemos, de fato está em extrema unção. Basta desligar os aparelhos – literalmente – e enterrá-los. Mas a educação é uma condição singular de nós, seres humanos. Somente somos o que realmente somos devido sermos educados para ser. Então, nesta perspectiva multidimensional da Educação é que iniciamos nosso novo caminho. Como Hermes, para a Filosofia Grega; ou então como Exu, para a Cosmologia Afro Brasileira, mostrarei caminhos, encruzilhadas, desvios e possibilidades. A escolha de seguirmos por tais caminhos que, com certeza traz medo, insegurança e outros sentimentos de dúvida, pois tudo é novidade, é nossa. De livre escolha.

Vamos cumprimentar o Mr. Mayhem (6) e tomar um café com ele.

Antessala do Hades, março de 2021.


Por Robson Campanerut da Silva @sociocampa


Notas:

1 Cartesiano deriva de René Descartes, filósofo iluminista que construiu boa parte do arcabouço da forma de construção do conhecimento moderno. Sua frase mais conhecida é: Penso, logo existo

2 Refletir, aqui, uso no modo de “Diante do espelho” também, naquilo que a Sociologia chama de reflexividade: momento de analisar o contexto em que vivemos, mas, também, o que nós somos e no que estamos nos tornando ao viver aquele contexto analisado.

3 Tecnocracia é um sistema de organização política e social fundado na supremacia dos técnicos, da tecnologia e dos sistemas derivados dela.

4 Trecho do nosso Hino da Independência. Quem conseguir de primeira entender os sentido deste verso, eu te dou um doce. Somos escravos da própria linguagem oficial.

5 Poíesis (do Grego Antigo: ποίησις), em português poíese, relacionado à técnica “poiética” (poética), indica a ideia de criar ou fazer. Poiesis tem um componente forte que é a criatividade e ressignificação humana. O brasileiro é tão bom em poíese que temos um termo próprio para isso: a gambiarra. Nas próximas edições poderemos aprofundar o significado e os usos da gambiarra.

6 Mayhem é um termo que significa caos, confusão, desordem. Na série “Sons of Anarchy”, os detratores da gangue de motociclistas eram, num eufemismo bem sarcástico, levados a conhecer o Mr. Mayhem.



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