O filtro do absurdo: quando o meme transforma vício em piada
- Raphael Bidarra

- 17 de set.
- 4 min de leitura

No fim do século XIX, Sigmund Freud acreditava ter encontrado na cocaína uma espécie de remédio milagroso. Em seu ensaio “Über Coca”, descreveu a substância como capaz de trazer vigor, afastar a melancolia e estimular o trabalho intelectual.
A promessa parecia irresistível — um pó que poderia aliviar dores e prolongar a produtividade. Mas o entusiasmo logo colidiu com a tragédia: casos de intoxicação, dependência e morte surgiram rapidamente, como o do amigo Ernst von Fleischl-Marxow, a quem Freud prescreveu cocaína para aliviar a abstinência de morfina.
Em vez de cura, ele mergulhou em uma compulsão ainda mais devastadora, consumindo doses altíssimas até a morte. Freud, sem querer, inaugurava um paradoxo que ainda ecoa: a substância vendida como saída para o sofrimento se revelava, na prática, um caminho de ruína.
Mais de um século depois, outro filtro continua a disfarçar a devastação — não mais em laboratórios, mas nas timelines. O meme do Homer Simpson noiado de cocaína é um exemplo perfeito desse “filtro do absurdo”. No primeiro olhar, arranca risadas: um personagem bonachão, preguiçoso e infantilizado, transformado em viciado.
Mas, ao rir, algo acontece: a tragédia vira piada compartilhável, o risco vira entretenimento rápido. O mesmo pó que destruiu vidas passa a circular como estética pop.
O agravante é que Os Simpsons, embora criado como sátira adulta, é um desenho animado que atravessa gerações e chega, sem barreiras, a públicos jovens e até infantis. Nas redes, o personagem central de uma animação global se torna avatar de vício pesado, e a mensagem circula em figurinhas, gifs e vídeos sem qualquer filtro etário.
Quando uma droga aparece na mesma prateleira simbólica que o humor infantilizado, o impacto é claro: o que deveria ser escândalo se normaliza diante dos olhos de quem ainda está formando valores.
Esse mecanismo se encaixa no que Charles Duhigg descreve em O Poder do Hábito: os comportamentos humanos seguem um ciclo de pista, rotina e recompensa. A cocaína, antes celebrada em consultórios e hoje viralizada em memes, opera pelo mesmo circuito. A pista pode ser a promessa de euforia — ou o riso fácil de uma postagem.
A rotina, o consumo — seja da droga ou do próprio conteúdo. A recompensa, o alívio, o status, a sensação de pertencimento. Como lembra Duhigg, “não se pode extinguir um hábito ruim, apenas substituí-lo”. A romantização digital, portanto, é mais do que um reflexo cultural: é um hábito coletivo que repete e reforça padrões.
No Brasil, esse hábito encontra terreno fértil. Jovens se aproximam da cocaína e de outras drogas não apenas por curiosidade, mas por uma soma de fatores sociais: a desigualdade que restringe oportunidades, a violência que pressiona a busca por escape, o desejo de pertencimento em grupos que oferecem identidade, e o acesso facilitado em territórios onde o tráfico se mistura ao cotidiano.
Quando as redes sociais reforçam a ideia de que “todo mundo usa”, que “não é tão grave assim”, ou quando transformam dependência em lifestyle, o ciclo de hábitos culturais e químicos se sobrepõe. O riso aproxima daquilo que deveria afastar; a piada normaliza o que deveria alertar.
Michel Foucault já alertava: os discursos — médicos, jurídicos ou midiáticos — nunca são neutros. Eles moldam condutas, definem quem é normal e quem é desviado, o que pode ser dito e o que deve ser silenciado.
O poder moderno, dizia ele, não age apenas pela repressão, mas também pela administração dos desejos. No caso das drogas, a rede social funciona como dispositivo de governança invisível. Não é preciso punir, nem proibir diretamente. Basta permitir que a repetição estética torne o vício risível, compartilhável, palatável.
O meme age como tecnologia cultural: anestesia o olhar, dissolve o escândalo e institui um padrão de tolerância.
O ciclo se completa quando lembramos que a juventude brasileira não está apenas exposta ao risco físico da dependência, mas também ao vício simbólico da imagem. A droga não circula apenas nas bocas de fumo: circula nos feeds, nos trends, nos stickers.
O jovem, atravessado por carências estruturais e por uma avalanche de estímulos digitais, aprende a rir daquilo que pode destruí-lo. A gestão dos corpos e condutas, de que falava Foucault, hoje acontece também no algoritmo, que seleciona, impulsiona e multiplica o que mais engaja. E nada engaja tanto quanto o absurdo.
Se no século XIX Freud acreditou ver na cocaína um filtro científico contra a dor, no século XXI as redes oferecem um filtro digital contra o incômodo: basta transformar tragédia em meme. Mas, como mostrou a experiência de Freud, filtros não curam; apenas disfarçam.
A dependência permanece, seja no corpo de quem usa, seja no hábito cultural de quem consome a estética do uso. Romper esse ciclo exige, como ensina Duhigg, não negar o hábito, mas substituí-lo: trocar a risada anestésica por narrativas que revelam a realidade, o meme pela crítica, a romantização pela empatia. Porque enquanto a timeline rir do Homer noiado, jovens continuarão aprendendo que a destruição é só mais um conteúdo divertido para compartilhar.
Referências bibliográficas
FREUD, S. Über Coca (1884). In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Volume III. London: Hogarth Press, 1962.
DUHIGG, C. O Poder do Hábito: por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
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