O corte que virou manifesto: a revolução do reflexo alinhado, por Raphael Bidarra
- Raphael Bidarra

- 2 de set.
- 3 min de leitura

Com sua precisão milimétrica, o estilo é a prova de que a periferia reelabora o externo e o devolve como arte e afirmação cultural, resistindo ao racismo e à marginalização. Uma estética que dita tendências e fala por si.

O ensaio destaca o "reflexo alinhado" como uma inovação capilar brasileira da periferia, que transcende a moda e se estabelece como um manifesto de identidade cultural e resistência ao racismo.
Entre a precisão da touca e a criatividade das ruas, o reflexo alinhado se afirma como estética própria: um gesto de identidade, pertencimento e afirmação cultural.

Em 1909, Eugène Schueller fundou a Société Française des Teintures Inoffensives pour Cheveux, batizando sua primeira fórmula de clareamento capilar de L’Auréale, nome que seria a semente da L’Oréal (L’Oréal, 2025). O que parecia apenas inovação química se tornaria, décadas depois, matéria-prima para transformações culturais em diferentes cantos do mundo.

Nos anos 1930, a descoloração já havia conquistado popularidade — mas restrita às mulheres. Apenas nos anos 1990, homens passaram a adotar o cabelo descolorido, primeiro fora do Brasil. Por aqui, a tendência entrou de vez no imaginário popular pelas mãos de músicos de pagode na década de 90, e nos anos 2000 se espalhou com atletas e artistas, consolidando um estilo cada vez mais presente.

Foi no início dos anos 2000, no entanto, que a periferia brasileira batizou esse visual de “loiro pivete”. O nome traduzia mais do que estética: era identidade, era código cultural das quebradas, um símbolo de ousadia juvenil. Desse caldo criativo nasceria a técnica que hoje é talvez a mais brasileira das invenções capilares: o reflexo alinhado.


Mais do que moda, o reflexo alinhado é expressão máxima do suco periférico. Ele exige precisão milimétrica — pentes certos para o corte, posições da touca, fios puxados no ponto exato —, mas é a partir desse rigor que floresce a arte.


Baudrillard (1990) já lembrava que nenhum signo é consumido como tal, mas sempre absorvido e devolvido de forma distinta. É isso que a favela faz: reelabora o externo e o devolve como criação com identidade própria, ainda que sob o peso do racismo e da marginalização.


O racismo estrutural se infiltra sorrateiro, até naquilo que a gente acha que é só estilo. Demorei para entender que rejeitar aquele reflexo era, em parte, rejeitar a mim mesmo. Precisei viver, pesquisar e, sobretudo, trabalhar muito para decifrar o que aquele corte poderia significar. Descobri então que o reflexo alinhado é mais que vaidade: é protesto silencioso em corpos que a sociedade insiste em marginalizar.

Assim como a Semana de Arte Moderna de 1922 inaugurou uma estética brasileira, a barbearia periférica hoje se afirma como ateliê contemporâneo. Cada corte é gesto criativo, cada reflexo clareado é manifesto.

Como escreveu Mário de Andrade no Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924): “a contribuição milionária de todos os erros. Como nós somos. Como a nossa fala.”

O reflexo alinhado é isso: um ato artístico e político, prova de que a estética da periferia não apenas acompanha, mas dita tendências — e, sobretudo, resiste.
Referências:
BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal: Ensaio sobre os Fenômenos Extremos. Campinas: Papirus, 1990.
L’ORÉAL. Notre Histoire. Disponível em: https://www.loreal.com/fr/groupe/culture-et-patrimoine/notre-histoire/. Acesso em: 20 ago. 2025.
ANDRADE, Mário de. Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Revista de Antropofagia, São Paulo, 1924.
SEMANA DE ARTE MODERNA. Catálogo da exposição, São Paulo, 1922








Comentários