top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

GAYMADO, QUE DELÍCIA!


Uma brincadeira de criança que ajuda a curar as feridas dos adultos, um meio de descontração para a rotina do dia a dia. O gaymado é uma versão da tradicional queimada que tem ganhado um espaço muito singular no Rio de Janeiro.


Gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans se reúnem em várias áreas da cidade para a prática do jogo e confraternização entre a comunidade.


O universitário Patrick de Amico, morador de Nova Iguaçu e estudante da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, me relatou um pouco da sua experiência nos jogos.


“Meu nome é Patrick de Amico, tenho 25 anos e comecei a jogar queimado na rua. Quando eu era criança, eu morava em uma rua sem saída, então era fácil fazer qualquer tipo de brincadeiras de rua sem ter nenhum empecilho. E foi nesse primeiro momento que eu conheci a queimada, com as regras básicas... Em outro momento, foi no ensino médio. E, como eu não tenho interesse por futebol, é o esporte que menos chama minha atenção até hoje, eu decidi jogar com as meninas e com alguns poucos meninos também. E, depois da pandemia, recebi um convite de um amigo meu pra ir conhecer o gaymado que eu jogo até hoje...”

Campeonato de Queimada da UNIRIO, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro — RJ. 2023 | Acervo pessoal
Campeonato de Queimada da UNIRIO, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro — RJ. 2023 | Acervo pessoal

O Gaymado do Thelma, grupo que o Patrick participa, foi formado em meados de 2022. Segundo ele, através de um “boca a boca”, uma pessoa foi chamando a outra até consagrar o domingo como o dia oficial dos jogos.


“A gente, no nosso grupo, têm a cota hétero cis, mas a maioria é LBGT. E, por conta da prática do gaymado, eu comecei a ver o queimado de uma forma diferente e, consequentemente, o esporte de outra forma.”

Quando éramos crianças, sempre havia aquela diferença entre brincadeiras de menino e brincadeiras de menina. O queimado era das meninas, e os meninos que ousavam jogar eram estigmatizados como “viados”, “bichas” e daí para pior. Esse é só um dos exemplos de que a violência contra uma pessoa LGBTQIAPN+ acontece desde a infância.


A partir disso, conversei com o jornalista e doutorando em Comunicação pela Faculdade de

Comunicação Social da UERJ, Marcelo Resende. Ele comenta que com a chegada da vida

adulta, encontrou a oportunidade de autoafirmação por meio do jogo.


“Essa aceitação da identidade é uma questão muito importante para comunidade, principalmente na periferia. É uma forma de se autoafirmar para outros grupos a partir da prática esportiva.”

E isso é importante de ser mencionado, porque se em um ambiente acadêmico, como na UERJ, existe uma maior aceitação da diversidade, fora dele há uma série de acirradas disputas ideológicas e de ocupação de espaços.


Inclusive, Patrick acredita que a prática do gaymado se trata também de uma experiência diferente dentro da comunidade LGBTQIAPN+.


“Eu vejo que ter esse contato com outras pessoas LGBT depois de muito tempo [isolamento social durante a pandemia de Covid-19], a não ser pelas redes sociais, fez com que eu me conectasse melhor. E essa relação se fortalece a cada encontro, a cada partida, e isso também acontece com o pessoal hétero também. Porque não é só o jogo, tem o after, o bate-papo, outros eventos também... comer besteira, sei lá. Eu vejo que no gaymado tem gente que se abre mais, que se abre menos, mas em si é sim um ambiente aberto.”

As primeiras iniciativas de jogos surgiram pela necessidade dessas pessoas terem um espaço seguro de lazer. Esportes profissionais como futebol, vôlei e as artes marciais no geral, sempre foram cenários dominados pela figura masculina.


Não é surpresa que a comunidade queer não consuma ou pratique essas modalidades com tantos casos de homofobia/transfobia acontecendo frequentemente. Há pouco, houve o caso de comentários homofóbicos contra o jogador de vôlei Douglas Souza quando ele foi anunciado como mais novo contratado do Sada Cruzeiro.


O público não só torceu o nariz para a contratação como disseminou discurso de ódio. Mas, felizmente, o clube respondeu a altura, reiterando o mérito do atleta e repudiando o infeliz evento.


Patrick ressalta que as pessoas de fora da comunidade participam dos encontros justamente por ser um ambiente mais amistoso e inclusivo para todo mundo.


“Só quem teve gay panic, sapatão panic, entende quando homens héteros pegam o esporte e transformam em algo competitivo e bruto sem necessidade... Aí cria um ambiente tóxico que não deixa gente de fora se aproximar. E lá no [Gaymado do] Thelma é so gaymado mesmo, gay, hétero, bi... a gente vai para se divertir.”

E essa aglomeração dos grupos não é atual, mas faz parte de uma alternativa à cultura heteronormativa.


A união de mulheres com a comunidade queer esclarece a visão da prática esportiva como algo masculinizado, não falando somente sobre LGBTfobia, mas também sobre machismo. E evidencia o porquê desses grupos procurarem por um ambiente seguro para esporte e lazer.


Madureira, Sepetiba, Campo Grande, Jacarezinho, Senador Camará, Santa Cruz, Vila Militar e Deodoro. Os grupos de gaymado têm ficado cada vez mais populares nas Zonas Oeste e Norte do Rio de Janeiro.


Cada grupo tem seu estilo e esses encontros semanais além de divertidos, acabam se tornando um hábito de autocuidado físico e mental.


Marcelo Resende, que também estuda a presença do esporte nas comunidades, contou que a prática do jogo em si é uma atividade física bem dinâmica que movimenta todo o corpo.


“Agarrar a bola, desviar da bola, se jogar no chão... toda o alongamento que se faz para participar do jogo de forma efetiva é uma forma de afirmação do próprio corpo, não importa se você é gordo, magro etc. É um momento que a pessoa pensa ‘o meu corpo consegue estar nesse espaço”.

E isso torna a questão ainda mais interessante porque existe um sobre falar abertamente da saúde da comunidade LGBTQIAPN+ como algo positivo. Eu falo sobre isso na matéria sobre saúde mental da comunidade queer no mês do orgulho, o índice de acesso dessas pessoas aos serviços de saúde ainda é muito baixo. E quando falamos de pessoas trans e não binárias o buraco é ainda mais embaixo.


Patrick comenta sobre a melhora na autoestima depois que começou a frequentar os encontros.


“É uma atividade física que eu estava sentindo falta há muito tempo, fora a interação com outras pessoas. Eu consigo jogar queimado por horas, mas não aguento 10 minutos na academia. E é justamente por isso, faz tanto bem para o meu corpo quanto para a minha mente.”
Campeonato de Queimada da UNIRIO, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro — RJ. 2023 | Acervo pessoal
Campeonato de Queimada da UNIRIO, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro — RJ. 2023 | Acervo pessoal

Mas Patrick faz questão de enfatizar que, apesar de ser um espaço de descontração, os jogadores — sobretudo ele mesmo — são muito rigorosos com as regras, que podem variar de grupo para grupo, e deixa claro que o gaymado não é bagunça.


“O Gaymado do Thelma foi criado em 2022 e, quando eu entrei, só tinha 5 regras que estavam na descrição do grupo no Whatsapp, aí eu sabia que aquilo não ia dar certo MESMO. A gente perdia muito tempo do jogo debatendo sempre as mesmas coisas, daí veio a ideia de criar um documento em PDF com todas as regras. E como cada um vem de um lugar da cidade, os costumes são diferentes, mas esse documento serve para padronizar o NOSSO jogo. Esse atual manual que a gente segue já passou por 6 grandes alterações, principalmente depois que tivemos contato com outros gaymados.”

E com essa popularidade toda que ele tem ganhado, não o gaymado em si, mas o tradicional queimado pode ser incorporado nas grandes competições esportivas acadêmicas e talvez um dia nas Olimpíadas?


Ficou interessado pelo esporte? Procure nas redes sociais por gaymado, quem sabe não tem um grupo pertinho de você?

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page