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  • Fijó

“Eu preciso disso para ontem”: O imediatismo como obstáculo no cumprimento de metas a longo prazo

Atualizado: 8 de mai.

Por Fijó



Como sugeriu o sociólogo francês Dominique Vidal, a demanda por igualdade, no Brasil, pode se expressar de forma complexa. (...). Ora, esta perspectiva parece mesmo bastante complexa, considerando a tradição ocidental dos países do chamado Primeiro Mundo, nos quais a igualdade se expressa justamente pela valorização das diferenças encontradas na sociedade. (...) Diferentemente das sociedades nas quais a diferença institui o conceito de igualdade – fazendo com que o conflito seja inerente à estrutura social –, no Brasil a solução para administrar diferentes interesses relaciona, a priori, o emprego de práticas repressivas (PIRES, 2011, p. 144).[1]


Dentro da Baixada Fluminense se escuta constantemente algo como: “eu preciso parar de estudar para trabalhar”. Geralmente, tal relato está relacionado à necessidade, ao precisar colocar comida à mesa e pagar contas, ao sentimento de aflição sentido quando o vencimento de um boleto está às portas e não sabemos como (ou se) “faremos” o montante para honrar com tal compromisso. Para as gerações anteriores (e, analisando o contexto atual, até hoje para grande parte da população), a ordem era “trabalhe para que não sinta fome”, tornando a busca por um “trabalho” (e não um “emprego”[2]) uma barreira para o desenvolvimento acadêmico da população de baixa renda, que tem como prioridade – inquestionável – investir seu tempo e sua energia em algo que dê retorno financeiro rapidamente devido às carências experenciadas.

Porém, ao adotarmos tal comportamento, esbarramos em outra questão: como ficam os sonhos e metas, de ambas as gerações, que almejam algo para além do “agora”, e que também se veem na escolha de abandonar seus sonhos em prol do “mas seu sonho não enche barriga”?

Vivemos em uma geração de profissionais emergentes. Além dos cursos profissionalizantes se espalhando por todo território brasileiro (o que é de fato uma melhoria se comparado à estrutura profissionalizante voltada para jovens anos atrás), vemos seres que têm uma visão de mundo bem particular e que a compartilham de forma única, seja através da pintura, da música, da pedagogia, do jornalismo ou da medicina. A criatividade tem sido o nome por trás de ideias inovadoras, muito mais até do que a tão falada pró-atividade. No entanto, a criação – e, portanto, a criatividade – demanda tempo. Uma ideia revolucionária, que pode mudar o mundo como conhecemos – de preferência, para melhor – não vem do dia para a noite, ou em uma hora de almoço, ou em duas horas de “descanso” em casa. Tais ideias precisam de um ponto de partida, além de um processo de maturação, da reunião dos recursos materiais e humanos necessários etc. Uma variedade de microprocessos que demandam energia, conversas e, acima de tudo, tempo.

A beleza das gerações mais recentes, na boca de quem cresceu em meio aos conflitos de gerações precedentes, é a tão famosa “facilidade” trazida pelos avanços tecnológicos e suas consequências em pequena e grande escalas. Entretanto, de nada vale tal “facilidade” (uso aspas pois sabemos que não foram unicamente abolidos os problemas de antigamente; mas também que novos problemas surgem conforme a sociedade passa por mudanças) se não existe tempo hábil para utilizá-la da melhor forma. Se não existe tempo hábil, ou tempo suficiente para construir algo novo, usando de novos conhecimentos que também demandam tempo para serem adquiridos. E, se tais processos não ocorrem, as ideias inovadoras que podem mudar o ambiente se tornam escassas. O problema central, de “vender o almoço para comprar a janta”, se transforma em “abrir mão de um futuro promissor – seja qual for o ramo almejado/sonhado – em prol do presente instável e sem perspectiva de mudança”.

A artista plástica e professora polono-brasileira Fayga Ostrower (1977) preconiza em sua obra Criatividade e Processos de Criação[3], que precisamos levar em consideração que uma realidade, ao existir, exclui outras realidades, ou pelo menos as impede de coexistirem e que, nesse sentido, “no formar, todo construir é um destruir” (p. 26).

Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É num aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites (ibid., p. 26).


Para que o nosso futuro continue sendo, ao menos à vista de gerações anteriores, “mais fácil” para quem por ele vem e nele nasce, precisamos destruir a ideia tecnicista de “trabalhe agora, sonhe quando e se puder”. Ainda que não possamos viver sem a realidade presente, sem suprir as necessidades do agora; sem sonhos, metas e objetivos não poderemos sequer desfrutar do futuro para o qual, ironicamente, perdemos o “agora” batalhando para não perder. Precisamos construir a ideia de que o ócio, mesmo que aparentemente seja inútil, pode ser sim chamado de Ócio Criativo (De Masi, 2000)[4].


[1] Pires, Lenin. Esculhamba, mas não esculacha! / Lenin Pires – Niterói: Editora da UFF, 2011. 171 p. (Coleção Antropologia e Ciência Política; 50). [2] Trabalho: do latim “tripalium”, um instrumento de tortura com três (tri) pedaços de madeira (palum). A palavra passou ao francês como “travailler”, significando “sofrer, sentir dor”, evoluindo depois para “trabalhar duro”. Emprego: vem do latim “implicare”, “unir, juntar, enlaçar”, formada por IN, “em”, mais PLICARE, “dobrar (como num tecido). Empregar uma pessoa é promover um envolvimento, uma reunião de interesses. Fontes: https://origemdapalavra.com.br/palavras/emprego/ https://origemdapalavra.com.br/palavras/trabalho/ [Grifos Nossos]. Acesso em: 28 jan. 2022. [3] OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação / Fayga Ostrower. - Petrópolis: Editora Vozes, 1977. 187 p. [4] DE MASI, Domenico. O ócio criativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. 328 p.

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