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Do improviso ao topo das produções: a ascensão de Raru nos beats

há 5 horas
7 min de leitura

Mais do que uma entrevista de rotina, um acerto de contas com o tempo: como Raru superou as limitações, a depressão e o descrédito para se consolidar como um produtor de mão cheia no rap nacional.


Quando estamos conversando com uma figura que temos noção de seu trabalho, seja qual meio for, é natural que a abordagem seja padrão seguindo o roteiro. No entanto, minha relação com Raru não se resume a um contato passageiro, o mesmo me viu na época de MC e fez parte da minha trajetória.


Uma história de mais de uma década: esse é o tempo que conheço o produtor/beatmaker e tive o privilégio de ser um dos primeiros a conhecer o talento dele.



O Acorda Pedrinho de hoje não é apenas especial por ser mais uma entrevista feita com cuidado, é uma conversa que parece que foi de anos sendo colocada em dia. Ele foi um dos poucos que viram o jeito que eu fazia minhas rimas.


Não só isso, o próprio me revelou com exclusividade como ele lida com a vida fora do QG da VB Studios, e me fez pensar sobre o sentido de se fazer música.


Seu início foi igual ao de muitos entusiastas dentro do Hip-hop durante os anos 2010: fascinado pela arte do improviso, o freestyle nas rodas de rima. Tal feito abriu uma porta na sua vida, virou uma chave significativa dentro dele.


A cultura Hip-Hop é frequentemente descrita como um espaço de encontros transformadores, e a trajetória de Raru é a síntese perfeita dessa essência.



O jovem produtor e beatmaker de 28 anos, filho de migrantes nordestinos e nascido no Rio de Janeiro, constrói hoje uma das assinaturas sonoras mais sólidas e autênticas da cena independente. 

A busca pela identidade e a troca da rima pelo beat


O primeiro contato com a arte aconteceu nas ruas e nas tradicionais rodas de rima — passando por pontos cruciais como Bonsucesso, Olaria e Ilha do Governador. Foi nesse ambiente de improviso que surgiu seu nome artístico. 


[Pedro]: Como você começou nesse lance da cultura mesmo e porque o teu vulgo é Raru? [Raru]: O vulgo veio das batalhas. Precisava botar um vulgo pra gente botar nosso nome nas batalhas […] até que um dia o Fabio — Fabio Muniz, hoje mora lá em São Paulo —, me mandou: ‘pô, por que tu não bota Raru, mano?’. Eu comecei a me identificar com esse nome por ser diferente não só na pronúncia, mas como sentido de ser raro. Até hoje me vejo assim, quando eu estou criando alguma coisa, em questão de personalidade também, vi que tinha sentido pra mim diante de quem sou, de tudo que eu passei. 

O nome logo encontrou ressonância imediata em sua própria personalidade: não apenas soava diferente, mas traduzia o sentimento de ter ideias singulares e uma visão de mundo fora do lugar-comum.


No entanto, o calor e a pressão do microfone nas batalhas não eram onde Raru se sentia pleno. Ele mesmo reconhece que o nervosismo e a facilidade de errar sob a vista de todos tornavam o palco da rima desconfortável. 


[Pedro]: Eu queria entender de verdade: quando é que tu percebeu que você se dava melhor na área de produção mesmo? Quando tu descobriu que o teu lance era fazer beat, produzir pessoas, e fechar músicas?  [Raru]: Eu nunca fui bom em batalha, nunca fui bom na rima ali, me sentia muito nervoso e tal. […] Na batalha é muito mais fácil você errar do que você acertar, tá ligado? Pelo menos pra mim sempre foi esse o caso. Então ali produzindo eu via mais valor, né. E, pô, gratificante pra caralho também quando alguém canta no meu beat, fala que o beat é bom, fala que as vozes tão boas. Então eu me conheci ali, mano.

Curioso por informática e tecnologia desde cedo, área na qual chegou a fazer cursos, encontrou diante do computador o seu verdadeiro refúgio de criação. Ao começar a estruturar instrumentais, gravar e equalizar vozes, viu o retorno positivo imediato das pessoas que o ouviam. 



O estúdio caseiro tornou-se seu laboratório; a produção musical, sua vocação definitiva.


[Raru]: Eu sempre fui meio nerd assim de computador, já fiz cursos de informática e tal. […] A produção musical sempre foi muito mais relevante para mim, muito mais fácil em questão de motivação, eu conseguia fazer em casa.  

A profissionalização e o fortalecimento com a VB Studios


O caminho do autodidatismo aos contratos profissionais exigiu dedicação contínua — um período de quase dez anos que Raru compara ao tempo e à dedicação de uma verdadeira faculdade.



Depois de disponibilizar trabalhos embrionários em plataformas como o SoundCloud por volta de 2015 e circular nos bastidores e shows de artistas como a rapper e mc Nabrisa, sua virada de chave no mercado se consolidou ao integrar o time da VB Studios.


[Raru]: Produzindo, criando beat, já são 9, 10 anos. É mais que o tempo de uma faculdade. Todo o tempo que a gente leva estudando, se dedicando, de alguma forma tem que ter retorno, né mano? Hoje em dia até o relógio é movido a dinheiro.

No estúdio liderado por Vicente (VB), Raru encontrou não apenas uma cartela ampliada de artistas de peso, mas uma família criativa.


Ao lado de nomes como Dekah, Renato Sheik (CortesiaDaCasa), Daniel Luz, Wlind, Serour (Agnes Nunes) e Horta (Tahor), ele passou a respirar produção em tempo integral, vivendo rotinas intensas de gravação e elevando o nível de entrega técnica e artística da produtora.


[Raru]: Quando eu entrei ali para o VB Studios comecei a ter uma cartela de artistas maior. […] É uma rapaziada muito boa, talentosa, que me motiva sempre. Sempre que eu piso lá esqueço os problemas. A vibe é lá em cima, bem animada, todo mundo pro trabalho, geral sonhando junto.

“Ascensão” e a quebra de paradigmas com o rock


Foi dentro da produtora que Raru assumiu papel central no projeto Ascensão, iniciativa concebida para alavancar os talentos da casa e dar visibilidade consistente à cena underground.


Lançando trabalhos em ritmo frequente, o projeto alcançou um marco histórico através da faixa colaborativa gravada com as rappers Jenario e Abaddie, unindo a base do trap com a energia crua e acelerada do rock.


[Pedro]: Foi ali que tu conheceu as meninas ou você já conhecia elas antes?  [Raru]: Mano, eu conheci as mina lá, mano. VB fez a ponte e só me chamou pra produzir. "Raru, hoje tem sessão, a gente vai fazer aqui uma música da Ascensão com duas minas que tão chegando aí, tão querendo fazer uma pegada mais rock." E aí eu conheci elas lá na sessão, nós já fizemos a música lá, e foi isso. O primeiro contato foi esse.

O que começou como uma sessão espontânea no estúdio — que emocionou a equipe logo nas primeiras audições — tornou-se um fenômeno de público: a faixa ultrapassou a marca de 1 milhão de reproduções em apenas um mês.


[Raru]: Quando a gente fez esse primeiro contato lá com elas, que a gente produziu a música do zero, que elas foram embora do estúdio, eu e o VB ficamos ouvindo a música lá em loop, um papo de dez vezes assim. A gente quase chorou lá um com o outro, mano. De tão bom que aquilo já tava. Mas a gente não sabia que ia tomar essa proporção que tomou hoje em dia, tá ligado? 

Acostumado a pensar sua arte dentro dos limites tradicionais Raru viu uma prova cabal de sua versatilidade e capacidade de inovar sem perder a sensibilidade das ruas.


[Raru]: Eu nunca me imaginei bombando, estourando com... imaginei com trap, um R&B. Não esperava que o rock ia abrir mares para mim. Claro que é um rock-trap, mas a estética é rock. 

Filosofia, entrega e superação


[Raru]: A música me curou da depressão, me curou de momentos ruins. Me fez chorar também, com certeza, e hoje em dia eu vejo como uma porta para poder mudar não só a minha vida, como a da minha família e de amigos. É o que eu mais me entrego: estudo, mantenho a disciplina e corro atrás, dou a vida. 

Para além de métricas e números, o ofício da produção é tratado por Raru como uma missão de vida.



Sem esconder os momentos difíceis de sua caminhada — as contas atrasadas, a fome, as dúvidas e as batalhas contra a depressão —, ele credita à arte a sua cura e a sua força motriz para mudar a realidade de sua família e comunidade.


[Raru]: No começo foi difícil pra caralho. Já chorei muito por estar sozinho em casa, com conta atrasada, com fome às vezes, tendo que criar alguma coisa e não conseguir por limitações. […] Criar é libertador, renova. Eu esqueço o problema, sou muito mais feliz porque tô caminhando pra onde eu quero estar.

Com uma postura focada no trabalho e avessa ao ruído passageiro das redes sociais, Raru define a produção não como uma fórmula técnica quadrada, mas como a capacidade de tocar com honestidade e leveza.


[Raru]: Eu sou low profile, não fico de patifaria na internet: dou a cara para postar trabalho e sumo. […] Eu sinto que consigo tirar outras pessoas de momentos difíceis com a música. Muitos artistas fazem músicas fodas, mas acham que a música é algo robotizado, quadrado. Música não tem regra: é você passar o sentimento para outra pessoa.

Entre a disciplina de estúdio e a sensibilidade de quem sabe ouvir o artista, ele se consolida, faixa a faixa, como um produtor de mão cheia: alguém que transforma vivência em música e faz do próprio nome uma realidade no rap nacional.

 

No fim das contas, a caminhada de Raru não é apenas sobre timbragem perfeita, métricas de streaming ou acordes bem encaixados; é sobre a recusa diária em virar apenas mais um número em um sistema que já desenhou o seu fracasso.


Preto e cria da periferia, ele sabe exatamente o peso de encarar um caminho onde tudo parecia conspirar para dar errado — inclusive as risadas e o deboche de quem duvidava quando ele ainda dava os primeiros passos num computador velho.


[Raru]: Tenho 28 anos, sou filho de nordestino, meu pai e minha mãe vieram do interior da Bahia. […] Tinha tudo para dar errado, até hoje tem tudo para dar errado na nossa vida. No final de tudo a gente é estatística, mas eu, como Raru, tento fazer diferente, tento furar a bolha.

Mas, em vez de se apequenar diante do descrédito, transformou cada riso alheio e cada porta fechada no combustível que alimenta o seu estúdio e a sua disciplina.



Ao honrar sua ancestralidade e subverter as probabilidades, Raru prova que furar a bolha não é sorte, é entrega de alma.


[Raru]: Não é porque você é preto, veio da favela, não tem o estudo completo, que você não vai conseguir. O mundo é de todo mundo. […] Qualquer risada de deboche, qualquer palavra mínima que seja contra o seu sonho, serve para você ser forte e tirar motivação. Foi isso que eu fiz e é isso que faço até hoje.

Ele nos lembra, em cada batida que estremece as caixas de som, de uma verdade simples e urgente: o mundo não pertence aos privilégios, pertence a quem não aceita desistir.


E para quem ousa sonhar contra tudo e contra todos, seu nome deixa de ser apenas um vulgo para se tornar um lembrete vivo de que vencer também é possível.



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