IGOR BABIDI:O Sol Depois que a Água Baixou

Compus meu futuro e mudei o enredo
/ Trouxe o Sol “Depois Que a Água Baixou”
e nunca mais eu fui o mesmo
Faixa: Quem Sorriu na Minha Ida, TAPE DO AZULÃO (2026)
O produtor musical Igor Babidi soltou a voz – literalmente – em seu mais recente álbum TAPE DO AZULÃO (2026), projeto lançado pelo selo Sujoground e que já se encontra disponível nas plataformas digitais, contando com a participação de nomes da cena do Rap Underground como Yungvegan, SERVO, Lis Mc, Claudjin, entre outros.
O álbum marca uma transição na trajetória artística e pessoal do produtor da Zona Norte do Rio de Janeiro. Uma mudança de tonalidade que reflete o seu compromisso em expressar autenticidade nas obras. Em seu disco anterior, Depois Que a Água Baixou (sigla DQAB, 2025), Babidi assume a responsabilidade por compartilhar as dores dos moradores que tiveram suas casas destruídas pelas enchentes que afligiram o subúrbio carioca onde vive – inclusive sua própria residência.
DQAB (2025) representa um manifesto político que Babidi reconhece como tarefa: uma necessidade “quase espiritual” de insurgir-se contra as injustiças das mazelas climáticas que afetam as comunidades de maneira desigual, entrelaçando violências (raciais, de gênero e de classe) historicamente acumuladas na formação social brasileira.
Babidi: O “Depois Que a Água Baixou” é um disco que, infelizmente, carrega uma parada muito triste, muito forte, de reflexão e de raiva. Na música do vegan [Cabelo de Pivete, Faca e a Fé] isso é gritante para mim. Aquela foi uma das faixas mais difíceis de fazer do disco. (...) Acho interessante quando a gente traz essa realidade em tudo que a gente dá ao público. O que eu tenho de mais valioso é o que eu sou de verdade. O que eu posso entregar para as pessoas é o que eu tô sentindo agora de verdade, sabe? Não adianta no momento que minha casa alagou entregar um disco feliz. Para mim, isso não combina nada com Hip Hop, não combina com a minha vida, não combina com nada do que eu sou. (...) A minha relação com o Hip Hop é totalmente ligada a como eu tô me sentindo e como o mundo tá ao meu redor também.
Igor Babidi comenta que a criação desta obra (DQAB) foi fundamental para reforçar sua capacidade de estabelecer conexões entre sua prática artística e seu modo de vida. O disco carrega um forte peso político e emocional, ganhando forma por meio de colaborações com amigos próximos, tendo como objetivo documentar uma história real de reconstrução.

Já em Tape do Azulão (2026), Babidi arrisca novas sonoridades e líricas através dos momentos vivenciados em seu home studio (Azulão) – espaço localizado na ZN do Rio de Janeiro que serviu de inspiração para o título do projeto, o qual também dialoga com o cantor clássico do forró e da música popular brasileira Azulão de Caruju.
A construção dessa obra discográfica acontece a partir dos laços criados nos encontros entre os artistas que integram as faixas, em uma montagem dos múltiplos fragmentos musicais registrados pelo produtor carioca durante as sessões de gravação conduzidas no seu estúdio. E, apesar de apresentar diferenças em relação ao disco anterior, a força da coletividade aparece novamente como um traço do seu processo criativo.
Babidi: Azulão pegou a gíria do estúdio. O nome do local acabou pegando e pensamos: pô, vamos fazer esse projeto para também demonstrar essa nova fase de sentimento que estou. Eu e esses artistas em conjunto. (...) [O Tape do Azulão] é uma experimentação, se arriscar mais, sem medo de você estar quebrando uma coisa que já tá construída. Às vezes acontecem muito desses encontros de produtor com artista, onde a gente faz música e ela fica sem caminho. (...) Então, muito desses álbuns [Tape do Azulão e projetos futuros] têm também esse intuito de dar um caminho melhor para esses encontros, essa troca que a gente tem com os artistas e produtores.
Essa nova fase – a Vibe do Azulão – simboliza o convite a uma visão de futuro, a possibilidade de novas experiências e experimentações para além das violências às quais as comunidades do subúrbio carioca são submetidas. Se em Depois Que a Água Baixou, por um lado, a tensão política da tragédia pessoal de Babidi transborda na narrativa composta coletivamente ao longo das faixas do álbum, por outro lado, em Tape do Azulão o que sobressai é a potência criativa do ato de brincar: permitir-se a oportunidade de compartilhar momentos de felicidade.

Babidi: No processo do “Depois Que a Água Baixou”, eu tava dentro da onda dele, do sentimento dele. E quando a gente tá fazendo música, parece que muitas das vezes estamos vivendo o projeto que estamos fazendo. Então foi tipo isso que aconteceu agora com o Tape do Azulão. O Tape do Azulão é um projeto totalmente inverso, né? Vem de uma barra que eu falo na última música do Tape do Azulão, que é “trouxe o sol Depois Que a Água Baixou e nunca mais eu fui o mesmo”. E tipo, é isso que aconteceu: a gente trouxe o sol depois que aconteceu aquilo. Dentro dessa perspectiva de que a gente não vai passar por aquilo de novo. Uma perspectiva bem mais animada e disposta a testar coisas que a gente tava fazendo aqui no estúdio que talvez pudesse ser descartada, mas que a gente acabou valorizando, experimentando muito (...). Uma galera que acabou visitando aqui o estúdio e está muito interligada com isso. Foi uma mistura coletiva.
A justaposição de perspectivas – que já se encontrava nas denúncias, conselhos e amparos presentes em DQAB – reaparece agora recombinada em torno da Vibe do Azulão, apresentando sonoridades que transitam entre diversas temáticas e misturam gêneros para além do Rap (Jazz, Blues, Funk, etc.).
Nessa dialética entre destruição e criação, Babidi se posiciona politicamente em ambos os álbuns, cada qual à sua maneira, seja ao denunciar o racismo ambiental materializado nas enchentes em regiões periféricas, seja ao afirmar um outro modo de vida possível. Trazer o sol após superar os eventos traumáticos, explorando a pluralidade de horizontes abertos pela cultura Hip Hop.
Babidi: O Hip Hop acaba me dando esse espaço, onde consigo exercer bem esse lance de poder transpassar isso de uma maneira que, mesmo em um trabalho mais descontraído, sempre vai ter algo meio político escondido por trás ou uma mensagem. Tipo, alguma coisa que a gente acabou passando no meio do trabalho que acaba tendo um significado a mais. Eu acho que é muito assim. Eu levo o Hip Hop muito a sério, mano.
Igor Babidi enfatiza que o Hip Hop permite tanto a denúncia política quanto a autoexpressão como um ato de liberdade. Isto é, não uma liberdade individualista e egóica, mas forjada em torno da solidariedade e coletividade. E, acima de tudo, destaca a importância de manter uma sinceridade artística consigo mesmo e com o público, buscando conciliar suas produções com as transformações que o afetam nos diferentes momentos no curso da sua vivência.
Além disso, a Tape do Azulão assinala também o movimento de ascensão do protagonismo dos produtores da cena do Rap, observado principalmente na organização de álbuns solos, dentre os quais podem ser mencionados desde projetos mais recentes, como o PRIMO DE 2° GRAU lançado em 2025 por Nitcho (cf. matéria publicada nesta Revista Menó), até obras de nomes consagrados como Mãolee (Bendito, 2018) e WillsBife (FEBRE AMARELA, 2020).

Esse processo de experimentação em Tape do Azulão, entretanto, não ficou restrito à produção. Babidi revela que rimou nas faixas “Cão Fazendo Arte”, assim como na “Quem Sorriu na Minha Ida”, track que encerra o álbum.
Babidi: Acho que é uma tendência que vai se formando (...). Gosto desse movimento do produtor assumir um protagonismo. No meu projeto, eu dei uma rimada também, cantei também, porque é muito dessa parte de a gente tava aqui se divertindo. (...) Tipo, não me vender pela questão de entregar um projeto que vai bater número porque tem a ver com a sonoridade que todo mundo quer ouvir agora. Acho que o mais legal é se divertir, mas levando a sério o que você tem como propósito dentro da cultura, sabe? Tipo, se divertir em meio ao processo de fazer. (...) eu tô conseguindo abrir esse espaço justamente porque tô mais tranquilo com os trabalhos e mais tranquilo com essa questão da criatividade também (...) Na época de “Depois Que a Água Baixou”, até isso tava me afetando minha criatividade, minha cabeça… [Mas] eu acho que é uma forte tendência e vários produtores vão aderir. Vão querer fazer também: lançar álbuns e explorar esse lado.
Por fim, Igor Babidi também detalhou dois métodos do sampling empregados conforme os diferentes contextos: o uso intencional e delimitado para transmitir emoções específicas, como em Depois que a Água Baixou, e o uso mais espontâneo em projetos como Tape do Azulão.
No primeiro caso, a técnica do sample aparece como uma espécie de “política da memória”, vista nas sonoridades que explicitam uma urgência que exprime a necessidade de sobreviver mesmo sem o amparo de programas políticos adequados para lidar com as catástrofes climáticas, como no toque que inicia o instrumental da faixa Plano (DQAB, 2025).

Ou, ainda tomando o álbum de 2025 como exemplo, essa característica também pode ser identificada em faixas que reproduzem a gravação do áudio de familiares (faixa intro Canoa Furada e As Duas Sombras, Pt. 1), direcionando a denúncia para além de abstrações teóricas. A fratura é exposta em sua concretude por meio da sensibilidade e vulnerabilidade corporificada na figura de pessoas reais: vozes que ecoam a resistência dos sujeitos que habitam as margens das periferias urbanas – fantasmas capturados e inscritos nos instrumentais de Igor Babidi.
Babidi: O sampling nesse projeto [Depois Que a Água Baixou] veio com uma intenção de sonoridade muito mais específica do que eu queria no último [Tape do Azulão]. O último é muita diversão. Foi tipo: “o que dá para brincar com esse gênero aqui que a gente tá sampleando?”
No segundo caso, em síntese, a técnica do sampling emerge em Tape do Azulão como uma confluência de elementos de gêneros musicais distintos, em um gesto guiado por um princípio de montagem. Uma (re)combinação que Babidi pretende continuar aprofundando em seus próximos trabalhos, sobretudo a partir da relação entre Rap e MPB.
.png)






Comentários