top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Xari e Primo encontraram o Azul

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura


Xari e Primo falam um do outro como quem fala de um parceiro de caminhada. Não existe aquela história romantizada de dois artistas que entraram num estúdio e saíram de lá com um projeto pronto. Antes de Azul, existiu uma amizade. Uma troca de ideias. Uma identificação que aconteceu antes mesmo da música.


Os dois se conheceram num grupo de produtores e artistas. Começaram conversando sobre rap, referências, beats e sobre a forma como enxergavam a própria cultura hip-hop. Quando perceberam, a parceria já estava acontecendo.


"Ele que me chamou no privado e falou: 'Mano, nossas ideias batem. Vamos trocar um contato pra quem sabe lá na frente trabalhar junto'. E foi literalmente do começo até agora bem natural, tá ligado? Nasceu só. Aconteceu mesmo."

O interessante é que a relação entre os dois não parece construída apenas em torno da produção musical. Existe uma visão compartilhada sobre o que o rap pode ser.



Durante a conversa, os dois voltam diversas vezes para as mesmas referências. BK. Cacife. Black Alien. Os discos que marcaram a adolescência de uma geração inteira. Os álbuns que eram feitos para serem ouvidos do começo ao fim.


"E sem tirar também que nossas referências, mano, é igual. Sempre foi igual. O que nós cresceu ouvindo. O Cacife, o próprio BK no Néctar. Eu tenho muita influência do rap carioca. Cresci ouvindo Black Alien. Então muitas referências que eu tenho são da área de vocês."

Essa conexão ajuda a entender o caminho que Azul escolhe seguir.


Num cenário em que boa parte da música é produzida para o consumo imediato, o EP parece interessado justamente no contrário. Existe uma preocupação com narrativa, com atmosfera e principalmente com permanência.


Quando o assunto chega à sonoridade do projeto, os dois falam de uma vontade de retornar para algumas das bases que os fizeram amar o rap.


"Eu gosto muito de boom bap, tá ligado? E a gente tá numa safra boa de uma galera que tá trabalhando mais com sample. Tentando voltar um pouquinho mais pras origens. Fugir dessa parada que acabou virando o principal."


Não é uma rejeição ao presente.


Também não é uma nostalgia vazia.


O que aparece ali é uma tentativa de recuperar certas experiências de escuta que parecem cada vez mais raras.


Escutar um disco inteiro.


Voltar para ele.


Descobrir detalhes.


Perceber referências escondidas.


Criar uma relação mais profunda com a obra.


"Eu gostaria que as pessoas prestassem atenção mais na questão emocional da parada. Não ouvissem música só por ouvir numa playlist. Eu acho que esse EP foi feito pra você ouvir ele completo uma vez, duas vezes, três vezes. Tentar captar todos os detalhes que a gente botou. Pescar os samples que o Primo fez. Buscar as referências que a gente cita."

Talvez seja justamente por isso que o nome do projeto carregue tanto peso.



Azul não é apenas um título.


É quase uma chave de leitura.


Ao longo da entrevista, a ideia de dualidade aparece o tempo inteiro. Céu e mar. Calmaria e tempestade. Paz e caos. Silêncio e ruído.


Quando pergunto sobre isso, a resposta vem naturalmente.


"A primeira coisa que as pessoas pensam quando pensam nessa cor geralmente é o mar ou o céu. E são duas coisas que trazem muita dualidade. A calmaria e a tempestade."

O conceito atravessa o disco inteiro.


Não como uma teoria.


Mas como uma observação da própria vida.


"Eu faço uma coisa desse jeito, mas também faço uma coisa desse jeito. Ao mesmo tempo que eu posso me revoltar com as coisas, eu posso encontrar uma clareza em meio dessa confusão toda. Cada música fala de um aspecto. Ao mesmo tempo que a gente quer tranquilidade, a gente também quer doideira. Ao mesmo tempo que a gente quer o caos, a gente também quer tranquilidade em meio ao caos."


Talvez seja essa a principal força de Azul.


Ele não tenta escolher um lado.


Não tenta oferecer respostas definitivas.


O disco parece mais interessado em aceitar que as contradições existem.


Que a mesma pessoa pode carregar revolta e serenidade.


Que a mesma experiência pode ser lida de formas diferentes.


Que o mar pode refrescar e afogar.


"Ele não é só maleável, tá ligado? Se você pular de uma certa altura nele é tipo chão. Então você pode observar a mesma situação de vários ângulos diferentes."


A partir daí a conversa começa a tocar num tema que parece atravessar todo o projeto: a arte como forma de equilíbrio.


Não equilíbrio como ausência de conflito.


Mas equilíbrio como tentativa de compreensão.



Como uma maneira de organizar sentimentos.


De transformar experiências em alguma coisa compartilhável.


Quando pergunto o que eles esperam que as pessoas levem do EP, a resposta passa longe de números ou estatísticas.


"Eu quero que elas entendam o processo da criação. Que não é só sentar lá e fazer qualquer coisa. É ouvir uma coisa, sentir o que ela diz, sentir o sentimento dela e transmitir isso de outro jeito."

Primo complementa a ideia olhando para o próprio papel dentro do projeto.


"O storytelling não tem que acontecer só com o MC. O produtor em si tem que contar a história também. Não é só colocar a caixa e o bumbo no lugar certo. Eu tentei trazer uma história do começo ao fim só com o beat."

É uma visão que ajuda a entender por que Azul soa tão orgânico.


Os beats não aparecem apenas como acompanhamento.


Eles também narram.


Também criam ambiente.


Também contam história.


No fim da conversa, os dois acabam chegando num tema que talvez resuma tudo o que foi dito antes: memória.


A vontade de fazer algo que permaneça.


Algo que sobreviva à velocidade absurda do presente.


"Eu quero muito fazer uma parada pra ficar. Você ouve agora. Depois ouve de novo. Daqui a cinco anos você fala: 'Pô, vou botar aquele som que eu gosto'."

Porque, no fundo, Azul parece falar exatamente sobre isso.


Sobre amizade.


Sobre construção.


Sobre o rap como espaço de encontro.


Sobre encontrar alguma calma sem precisar negar o caos.


E sobre a possibilidade de transformar um momento da vida em algo capaz de continuar existindo quando todo o resto já tiver passado.



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page