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Centro



Era de tarde, lá pelas dezesseis horas deu um quase final de fevereiro. Mormaço, calor, segunda-feira. Estava para o centro da cidade assim como o centro da cidade estava para mim. Um dia típico no Rio de Janeiro, que talvez somente os cariocas sabem o que é. Às dezesseis horas é quase o término do expediente da grande parte dos trabalhadores. Iniciava-se um burburinho de final de expediente, um aumento considerável do ruído citadino. O centro do Rio é um lugar de ninguém e, parece-me, que ninguém é deste lugar, exceto os “moradores de rua”. Pois é por conta de “um desses” que me coloco a escrever.

Após um dia de trabalho- aqui falo particularmente do meu próprio dia de trabalho-, fui ao centro do Rio comprar alguns livros. Atravessava a famigerada “poça”, o ritual de passagem de muitos trabalhadores e trabalhadoras que enfrentam o mais pesado e traiçoeiro cotidiano violento e simbólico. “As barcas”, assim são popularmente conhecidas, estava vazia; um contraponto de sentido, pois quem a toma como transporte no sentido oposto, a essa hora, pega a “hora do rush”. Aquela hora em que os corpos incongruentemente se tocam, os fluidos se afloram, as pessoas se entreolham com suas olheiras após um dia estafante de trabalho, duro em sua acepção mais furtiva. Ao sair da plataforma, fui pego por um sol penetrante, daqueles que sentimos cada raio em nossa pele; minhas pupilas, além de doerem, dilataram-se. Comprimiram-se e refestelam-se. Pus logo meus óculos escuros.

O sol no final do verão parece tão mais quente quanto aquele do início de dezembro. Sentia minha têmpora latejar. Atravessei a famosa e consagrada Praça XV e ao atravessá-la, ou melhor, enquanto atravessava, observava uma deterioração natural, no entanto com sua beleza comum para um centro de cidade. Pessoas aqui transitam num vai-e-vem frenético, paralítico, inebriante. Parecia um mar onde os peixes conscientemente assumem um sentido biológico em seus movimentos.

Apenas no meio da praça é que se percebia um sentido diferente na direção que se tomava; alguns rapazes andavam em seus skates, pareciam que aquela prática tornava aquele meandro ao mesmo tempo perigoso e jovem, dava uma tônica completamente fora do eixo para aquele centro da cidade. Passava ao redor daquela redoma jovem e rebelde, ouvindo o som metálico das rodas dos skates batendo e ralando no chão. Algumas vozes e expressões cacofonias do próprio dialeto do skate davam aquela tônica própria daquele instante. Não parei para observar a arte do surfe de concreto, mas percebi o quão desafiador aquilo representava. Não somente um desafio para aquele meandro, e também não somente para a física, mas para todas uma estética citadina; esta prática representava uma ruptura. Aquele som dava a sinfônica do momento e lugar. Eu passava à direita da Praça XV, bem próximo ao Paço Imperial e de um monumento histórico. Observava as coisas monumentais escritas nas paredes sujas, nos canteiros de obra e nos homens de terno e percebia que tudo compunha-se numa linguagem mais abrangente e somava-se ao sentido do som dos skates, da sujeira proposital, da estética das paredes sujas: toda uma representação da sujeira que tinha um significado seu.

Aquele centro particular dentro de outros centros, dentro de uma redoma ainda maior que denominam como centro da cidade. Num relance, tomei consciência de que mesmo aquela paisagem sendo familiar, pois não era a primeira vez que ali passava, meio que de repente, tomei consciência de minha consciência. A frase é de um efeito confuso, pois esta era a exata sensação de quem é tomado por sua própria consciência no meio de uma metrópole no meio da hora do vai-e-vem. Esta é a exata sensação: uma confusão sonora, um jazz ritmado e misterioso. Um lugar estranho que, aos poucos familiarizou-se em mim. Até aquele instante, a cidade era apenas um lugar de trânsito, coisas, pessoas e coisas, pessoas-coisa, um fervor perigos, mas lentamente o caos acostuma-se em nós

Depois de minha tomada de consciência, ou da consciência que me tomara, ainda mais distante, do meu lado direito, avistei o Arco do Teles: sujo, perdido, invisível ao mais atento olhar àquela hora de uma tarde de segunda-feira. Ando mais um pouco e uma genuína cobra de metal passa diante de mim: silenciosa, preste a dar o bote. Paro diante de seu movimento e por sua cor prateada e suas janelas, vejo o reflexo de um homem de trinta anos: era eu naquele lugar. Foi um efêmero instante onde diante do caos citadino eu via inteiramente minha imagem projetada. Via que o caos era a grande sinfonia do momento e do lugar. Como mais uma de minhas tomadas de consciência, mais um pensamento se fez em minha cabeça: “será que é assim o tempo todo, ou a cidade dorme?”. A gigantesca cobra prateada passou e esvaziou em mim esses pensamentos. Segui meu destino.Dei alguns passos e me vi novamente dentro de uma outra cidade, mas sabia que era a mesma- entre aspas. Alguns passos e tudo mudou. A arquitetura era outra, as pessoas também pareciam ser outras, vindas de outros lugares, mas nelas havia algo de comum.

Me desvinculei de meus pensamentos e tomei o rumo do meu pensamento original: livraria, siga em frente. Ao atravessar a Rua 1º de Março, entrei na Rua do Ouvir, o centro da cidade concentrado. Rua estreita, cheia de paralelepípedos e meio-fio, feitos sob medida para os carros e as motos que ali circulam. Nesse meio tempo, o tempo passou e não percebi. Andando em um rumo certo, no meio daquilo tudo, um homem grita. Agora ao descrever tal cena, que não consigo descrevê-la de forma tão detalhada, pois tal acontecimento se deu em minha dianteira, não consigo recordar aquilo que ali ouvi, mas foi um grito estrondoso. Todos que ali estavam olharam para os quatro cantos que os rodeavam para saber de onde vinha aquele grito. Eu mesmo fui um deles. Parei e comecei a olhar todos os possíveis lugares dos quais o grito poderia vir. O tal homem invisível novamente gritou e cada vez que ele gritava parecia ainda mais alto. Na medida que eu caminhava, aquele som me fazia perder o sentido de andar. Eu andava e ouvia novamente aquele berro. Agora, relembrando, foram quatro ou cinco berros bem altos, mas a exatidão dos fatos de nada vale aqui. O que vale nesta descrição é o efeito que isso em mim causou. Aqueles berros me fizeram parar. Parar em um lugar de fluxo intenso é como nadar contra a corrente.

Este ato repentino me fez enxergar a cidade que me rodeava, como um astrônomo observa as galáxias e, ao observá-las, vê a si mesmo. Naquele instante eu me vi naquele lugar, me vi transgressor, me vi humano, porque parei. Como num carro que anda, parece-me que a gente só vê as coisas quando algo irrompe; enquanto aceleramos, vemos a passagem, os borrões das coisas passando, vemos a estrada, mas não apreendemos nada. Naquele momento percebi que a cidade possui um pulso próprio. Pude ver que ali pessoas são pessoas, que o vendedor de cuscuz é uma pessoa, que o vendedor de balas é uma pessoa, que a moça cansada na lanchonete é uma pessoa, que eu era uma pessoa ali. Percebi também que as paredes de mármore dos prédios são tão bem limpas e lustrosas que conseguimos nos ver nela. Desta vez me vi parado em um reflexo estático e percebi o quão contraditório era aquela imagem no meio de uma cidade, onde todos são ninguéns e que as pessoas só se percebem nos espelhos dos banheiros dos escritórios, juntamente quando elas param; mesmo que elas se percebam diante dos reflexos do monitores, ainda assim não é uma percepção genuína. Naquele momento, a coisa pelo qual me levou aquele lugar já havia se desvanecido. Minha vontade era de ficar ali, parado naquela sociedade em miniatura, observando o ir e vir daqueles personagens de um jogo mental criado por quem, ao mesmo tempo que observa, alinha uma possibilidade ou outra para o fato que é ocular.

Por Roberto Brito

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