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Busca ativa

Por Thiago Sento Sé


O ano letivo tinha começado agitado. A escola estava lotada, com direito até a uma porradaria na hora da entrada. Certamente alguma treta de bola ou garota, coisa mal resolvida durante as férias. Um calor infernal e como de costume, alunos passando mal e vomitando por causa do forte calor das salas abafadas. No turno da noite, não foi muito diferente. Os jovens e adultos chegavam lentamente. Era preciso esperar o único ônibus da região que estava sempre atrasado, trazendo os alunos dos bairros vizinhos para que pudéssemos começar o último turno das aulas.

Já em sala, em meio ao calor e o barulho infernal da turma, nenhuma novidade até então: alunos delinquentes, outros envolvidos com tráfico, alunos com necessidades especiais, alunos idosos, outros esgotados da dura jornada de trabalho, da lida com os filhos e a casa. Para completar, o senhor Josias, um bebum inveterado que sentava na primeira fila. Ficava virado para trás, sempre falando mais alto que todos e espalhando seu hálito etílico pela atmosfera quente e abafada da sala. Porque diabos alguém se senta na primeira fila e fica completamente torto, virado para trás o tempo todo? Porque esse diabo não se senta no fundo da sala de uma vez?

Depois de dois tempos seguidos, eu me dirigia para a sala de professores para aproveitar meu intervalo. Respirar um pouco, comer um doce e beber uns copos de café, você sabe... Aquela dose de energia necessária quando se chega as 20:50 e ainda era preciso voltar para mais dois tempos de aula, antes de cair na estrada novamente por mais algumas horas. Foi justamente nesse caminho que Lara, uma jovem da mesma turma, veio me trazendo a novidade.

— Dora tá louca professor, agora botou uma placa de “vende-se crianças” no portão da casa dela.

Contava a moça enquanto ria alto e descontroladamente. Pensei na figura de Dora e na suspeita dos professores de algum distúrbio mental não diagnosticado que girava entorno dela. Segui até o fim da aula cansado, e triste, por aquelas pessoas e por aquele lugar.

Na semana seguinte quando cheguei na escola os alunos do turno da tarde avançaram em minha direção. Eufóricos, anunciaram que não haveria aula. Estranho, lá sempre tinha aula. Até mesmo quando faltava luz ou água. Dessa vez o motivo era falta de luz e água. Realmente, nesses anos todos nunca havíamos ficado sem luz e água ao mesmo tempo. As coisas iam de mal à pior!

Depois de passar pelo grupo de alunos, entrei na escola e encontrei Rosa, nossa coordenadora do turno da tarde, estava na sala dos professores, onde mesmo no escuro era possível ver a indignação de meus colegas. A orientação da Secretaria de Educação era que os professores permanecessem na escola sem luz e sem água, cumprindo seus horários. No meu caso isso significaria ficar até o final do turno da noite, sem fazer nada naquele fim de mundo. Diante disso, me pareceu um bom negócio quando Rosa me propôs de dar uma carona para ela até Nova Cidade, e verificar porque dois irmãos da Pré-Escola não estavam frequentando as aulas, num procedimento chamado de “busca ativa”.

No caminho, Rosa falava da situação problemática: eram os filhos de Doralice. Guto e Gustavo, de quatro e cinco anos. Doralice vivia numa condição complicada, ainda mais depois que o posto de gasolina de Nova Cidade tinha fechado, lugar onde ela tinha aprendido a se prostituir ainda na infância.

— Nova Cidade é que nem rabo de cavalo, só cresce pra baixo. — Falava a pedagoga que vinha ao meu lado no carro.

Pela rodovia federal, vimos o esqueleto do posto de gasolina, e do outro lado da pista uma placa sinalizava o desvio para Nova Cidade. O lugar não passava de um vilarejo miserável as margens da BR101. Pelas ruas de terra a poeira subia, e o que se via além das casas de tijolos, eram apenas anilhas de uma obra de saneamento básico que nunca aconteceu. A casa de Dora, de tão antiga parecia que iria desabar a qualquer momento. Tudo o que se via era velho, feio e miserável. Para completar, o calor e o esgoto a céu aberto deixavam o ar insuportável.

Chegando no endereço, Dora nos recebeu com surpresa no portão. Sorriu-me de maneira assustadoramente estranha, em seguida, olhou com desprezo para minha colega de trabalho.

— Bom dia Dora, como vai? Porque os meninos não estão frequentando a escola Dora? Você sabe que por lei, eles deveriam estar estudando né?

— Dia dona Rosa. Oras! A senhora pode ter certeza que as crianças estão muito bem. Eu vendi Gugu pra uma família lá de Perobeba. Eles me pagaram um bom dinheiro e levaram o menino. Veja você mesma.

Dora tirou de um envelope a foto do menino, muito bem vestido por sinal. Usava roupas novas. De terninho, estava de pé num jardim sem flores, mas com um gramado muito bem tratado e uma belíssima casa ao fundo. Mas havia algo de estranho naquela foto. O menino parecia muito sério, e apesar de bem gordinho parecia pálido. A imagem de uma criança, vestida como um adulto, nenhum brinquedo por perto. Não se via qualquer traço de alegria em seu rosto, e nem de felicidade em seus olhos. Foi justamente aí, que reparando bem nos olhos do menino, vi que pareciam furados. Isso deixou tudo ainda mais estranho. E Doralice continuava:

— Ainda me enviam dinheiro toda semana num envelope. Já comprei comida, sabão de se lavar e tô até querendo compra um fogão, um fogão de verdade, com botijão e tudo menina. Além do mais, dona, tô cansada de vê criança morrê no meu colo, sem eu pode faze nada...sem remédio, sem nada! Esse ai vai ser o próximo! O casal de Perobeba gostou tanto do Gugu que resolveram levar o Guto também, né meu filho! —Virando-se para o menino de cinco anos, gritava em sua direção, — engole o choro moleque, fica ai dentro pra não se sujar, porque sua família nova vai vir amanhã pra te levar!

Desespero, loucura, miséria...

De posse do endereço em Perobeba, Rosa fez com que a gente seguisse em nossa missão pedagógica da busca ativa, com a promessa de que me daria um dia de folga durante a semana, o que ainda me renderia uma bela economia de combustível. O problema era que nem eu, nem ela, conhecíamos Perobeba. A única referência era Padre Fabiano, um jovem pároco que esteve à frente da igreja que ficava na praça perto da escola e havia sido transferido para lá já a alguns anos. Rosa achava tudo aquilo normal, e até relativizava. A mulher já havia perdido cinco filhos para a fome e a doença. Não queria ver os dois mais novos morrerem também. Aquele tipo de “adoção” era inclusive, comum nos lugares mais pobres, tinha até um nome bastante sugestivo, “à brasileira”.

O tempo começava a mudar, tornando o ar levemente úmido, porém, não menos quente, depois de 45 minutos de estrada chegamos em Perobeba. O lugar parecia um pouco mais desenvolvido, mas não passava de uma praça com três ou quatro ruas, todas calçadas com paralelepípedos. A velha igreja estava lá, em estilo barroco, o barroco pobre, típico das regiões do Brasil que não se desenvolveram. A fachada pintada de branco banhada pelo sol evidenciava os caroços do emboço feito porcamente, e até os arcos eram visivelmente fora de esquadro. Enquanto bebíamos um pouco de água, o jovem padre olhava desacreditado o endereço.

— Acredito que deva haver algum engano. Não existe nada nesse endereço. Apenas uma velha estrada que não passa nem carro de boi.

Mas Rosa, com seus vinte e poucos anos, com todo o seu furor pedagógico, nos fez ir até o endereço. O Padre percebendo a cilada se ofereceu a nos acompanhar.

A estrada era realmente horrível e os paralelepípedos deram lugar a um chão de terra esburacada. Os pastos sem fim deram lugar a um mato alto, que muitas vezes invadia a estrada, e foi justamente no meio desse matagal que vimos, primeiro uma cerca caída, e logo em seguida, ao longe, a grande casa da foto. Além da forma, nada mais lembrava aquela casa da fotografia. Estava abandonada e caindo aos pedaços. Tudo estava destruído. Portas, vidros, e até mesmo um pedaço do telhado havia desabado. Uma placa tão velha quanto a casa confirmava o endereço. Quando parei o carro, nuvens pretas tomavam conta do céu, mas uma estranha luz de sol iluminava o lugar. Parecia que nada tinha vida por ali, nem um vento batia. Nem um ruído vindo da natureza. Por mim aquela busca tinha se encerrado ali, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Rosa desembarcou e entrou pelo terreno. Padre Fabiano foi logo atrás, e pude perceber quando ele tirou do bolso uma pequena cruz de prata. Fechei o carro e fui atrás.

De um lado, uma enorme figueira seca e retorcida com galhos brancos apodrecidos, do outro, um pequeno espaço entre o mato que avançava selvagem pela cerca e a casa, formavam um estreito corredor para os fundos, por onde seguimos, até que Rosa parou. O jovem padre apertou sua cruz contra o peito, pude ver um pequeno cemitério familiar nos fundos da casa, desses que eram relativamente comuns no passado. Passei pelos dois, me aproximando um pouco, pude perceber o chão duro se transformando em uma terra fofa debaixo dos meus pés. Uma estranha energia correu pelo meu corpo. Diante da pedra que marcava o local do sepultamento, observei uma pequena moldura com uma foto preto e branco. As peles pálidas e sem vida contrastavam com as roupas e cabelos escuros do casal. A data de falecimento era de aproximadamente uns 70 anos. Ao lado, seis cruzes de madeira, bem modestas e a última com a terra recentemente remexida. Presa nessa cruz, havia uma pequena moldura, atrás do pequeno vidro, a foto enevoada do menino de terninho, expressão séria e os olhos terrivelmente furados. Demorei alguns segundos ali, quando me virei, Rosa e padre Fabiano ainda permaneciam paralisados. Não restava dúvidas, o menino estava morto e enterrado, e não havia nada que pudéssemos fazer ali.

Sem trocar muitas palavras, ainda chocados e sem acreditar naquela cena, meu estômago se revirava enjoado. Aquilo parecia um pesadelo, era terrivelmente real. Precisávamos falar com Dora, e claro com as autoridades. No entanto, não conseguimos ir muito longe, pouco antes de chegarmos na antiga igreja para deixar o padre, a chuva caiu, caindo com força, alagando as estradas e interrompendo a comunicação, tivemos que nos abrigar dentro da igreja, o que tornava tudo ainda mais exaustivo e sinistro.

Assim como toda chuva de verão, no fim da madrugada ela estiou. Engolimos um café com pão cedidos pelo padre e saímos nas primeiras horas do dia, antes mesmo do sol subir, em um lindo céu azul. Apesar, de termos passado a noite em claro, parecíamos incrivelmente renovados. Seguimos rumo Nova Cidade para falar com Dora pela estrada enlameada. Tudo parecia muito estranho, aquela energia renovada criava um paradoxo a descoberta do destino do menino, e que agora, estávamos prestes a contar para aquela mãe. Mas nada foi tão estranho que ao chegar até a frente da casa de Dora, e ver que agora a velha casa se resumia a uma pilha de escombros, derrubada pela forte tempestade da noite, e debaixo dos escombros estavam todos mortos, Dora e seu único filho que restava. Não havia nada que pudéssemos fazer ali.


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