ANTES DE SER HIP-HOP, TODO NEGRO É JAZZ
- Pereira Silvares

- 9 de abr.
- 6 min de leitura

I.
“We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz
We've got the jazz”
Antes de Baco Exú do Blues, Diogo Álvaro Moncorvo Ferreira foi criado no jazz.
Antes de ser hip-hop, todo negro é jazz.
Antes de ser hip-hop, todo negro é jazz.
Antes de ser hip-hop, todo negro é jazz.
Um negro e seu trompete, um negro e seu saxofone, um negro e seu contrabaixo não querem tocar essa música clássica chata europeia, que nada tem de seu e nenhuma ligação com a terra da qual foi tirado a força.
Jazz é a negritude diaspórica em seu cerne, em sua essência.
Cria de Nova Orleans. Dos bares e prostíbulos de Nova Orleans para o mundo.
Jazz é a negritude diaspórica. Jazz virou blues. Blues, o primeiro ritmo a tornar pretos ricos. Tudo que quando era preto era do demônio depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues.
E vamos deixar, continuar a deixar, essa elite branca burguesa, classe média pra cima, tomar nossa herança, o que é nosso por direito de sangue, a manchar, macular, diluir, moldar, deslustrar, delir, desbotar, enformar, modelar, adaptar, emoldar, alterar, descaracterizar, desvirtuar, produzir, apagar, descorar, enxovalhar, conspurcar, acanalhar, perverter, degradar, depreciar, desonrar, rebaixar, sujar, corromper, inquinar, contagiar, adulterar, deformar, abastardar, desfigurar, assentar, constituir, infectar, menoscabar, esculhambar, descompor, a nossa africanidade diaspórica — que por ser diaspórica já é manchada, maculada, diluída, moldada, deslustrada, delida, desbotada, enformada, modelada, adaptada, emoldada, alterada, descaracterizada, desvirtuada, produzida, apagada, descorada, enxovalhada, conspurcada, acanalhada, pervertida, degradada, depreciada, desonrada, rebaixada, suja, corrompida, inquinada, contagiada, adulterada, deformada, abastardada, desfigurada, assentada, constituída, infectada, menos acabada, esculhambada, descomposta — para nos tornarmos ricos, sermos aceitos?
Apropriação cultural: Elvis Presley, rei do rock e a bossa nova
Virei branco, fui aceito, me chamei blues.
Diogo Álvaro Moncorvo Ferreira se chamou Exú do Blues
A partir de agora Diogo Álvaro Moncorvo Ferreira é o Exú do Blues
Diogo Álvaro Moncorvo Ferreira, o Exú do Blues
Eu não quero ser aceito nem muito menos me tornar branco. Eu quero ser livre e negro e livre pra ser negro.
Não sou viciado em seu ouro branco, quero a prata que combina com minha pele.
Não sou blues. Não quero ser blues.
Eu quero ser Free Jazz.
Moor Mother e Irreversible Entanglements.
Noise Jazz. Punk Jazz.
Velocidade, barulho e improvisação.
Moor Mother e Irreversible Entanglements.
Eu sou jazz.
Antes de grime, chopped & screwed, g-funk, drill, funk, miami bass, neo soul, rnb, trap, phonk, eu sou jazz.
Ser afrodescendente é jazz. Ser afrodiaspórico é jazz.
Eu sou jazz. Free Jazz.
II.
“Y'all.
This is our interpretation of blues.
Free as a bird. Free as a little black bird that flies over the (?).
Free like the corn that jumps up out of the ground.
Free like the rivers in Africa.
Free like the mind of a child.
Free the living broke.
Free to be.
I’d like to know how it feels.”
Me foi negado saber de onde vim. Quem são meus antepassados, os que vieram antes de mim? Não há registros dessa travessia. Não há registros desse passado esquecido.
Empresas vendem testes genéticos, a nossa ancestralidade à venda, talvez o mais perto que chegarei de mim mesmo.
O que me resta pra contar minha história?
Favelado.
Periferizado.
Marginalizado.
Me tornei jazz, não blues
E assim me autoreconstruo.
Escrevo meu presente e meu futuro e quem sabe meus sucessores tenham um passado.
III.
“Isso é MPB
Eu inventei o samba
Eu inventei o hip-hop
Eu sou o jazz”
"Punk is black music Metal is black music
Goth Rock is black music
Classical is black music
Grime is black music
Garage is black music
R&B is black music
Gospel is black music
Bluesgrass is black music
Funk Rock is black music
Rocksteady is black music
Ska is black music
Tango is black music
Samba is black music
Maracatu is black music
Amapiano is black music
Afro pop is black music
Afrobeats is black music
Rock is black music
Rumba is black music
Cumbia is black music
Kizomba is black music
Zouk is black music
Baile funk is black music
Blues is black music
Jazz is black music
Funk is black music
Rock ‘n’ Roll is black music
House is black music
Disco is black music
Soul is black music
Hip Hop is black music
Techno is black music
Jungle is black music
Drum & Bass is black music
Dubstep is black music
Reggae is black music
Calypso is black music
Salsa is black music
Bèlè is black music
Merengue is black music
Dancehall is black music
Konpa is black music
Reggaeton is black music
Bomba is black music
Soca is black music
Banchata is black music
Dembow is black music”
...
Toda a música, toda a arte que nós criamos, e foi tirada de nós. Preparem-se, estamos retomando uma a uma.
IV.
Dos tambores africanos to the black club music of nowadays.
No meio disso, houve o jazz.
1913. The word “jazz” first appears in print
Houve o jazz.
Houve: New Orleans Style, Dixieland, Stride Jazz, Orchestral Jazz, Swing and the Biggest Bands, Continental Jazz, Chicago Style, Trad Jazz, Kansas Style, Gypsy Jazz, The Bops and The Bebops, Cool Jazz, Latin Jazz: Afro-Cuban Jazz, Bossanova and Samba Jazz, Hard Bop, Modal Jazz, Free Jazz, Folk Jazz, Ethio Jazz, Third String, Cape Jazz, Soul Jazz, Avant Guard Jazz, Mini-Jazz, Spiritual Jazz, Jazz Funk, Flamenco Jazz, Chamber Jazz, Smooth Jazz, Ska Jazz, Straight Ahead Jazz, Post Bop and Modern Mainstream, Fusion Jazz, Free Funk, Punk Jazz, Crossover Jazz, Afrobeat, Acid Jazz, New Bop, Retro Swing, Jazz Rap, Minimal Samba Jazz Rap, Jazz Noir, Trip Hop, Electro Swing, Jazzcore, Jazz Metal, Lofi Jazz Hip Hop
There was the freedom of the jazz for us to have our freedom today to our successors have their freedom in their days.
V.
Jazz.
Velocidade, barulho e improvisação.
Liberdade & improvisação.
Improvisação (seta) Adaptabilidade
Liberdade.
liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade liberdade.
Quando terei eu minha liberdade? Sinto muitas vezes as algemas que prenderam meus antepassados.
Princesa Isabel nunca me libertou de verdade. Na real, porque devo esperar Princesa Isabel me libertar?
Não tenho eu, boca, braços e mãos, pernas e pés? Não tenho, eu, um cérebro? Não tenho eu, alma no olho? Não tenho eu, meus irmãos e irmãs? Não posso eu com eles me comunicar e me organizar? Não podemos nos ajudar, nos proteger? Não podemos nos libertar?
Afrofuturismo.
Não quero apenas pensar o futuro.
Quero viver no meu presente.
VI.
“Say it loud! I’m Black and I’m Proud!”
Gritos e tambores ecoam pedindo liberdade por toda América a muito muito tempo.
Tambores que se tornaram em pianos, contrabaixos, saxofones, trompete, clarinete e que se tornaram guitarras e baixos elétricos, bateria, teclados e sintetizadores e que se tornaram em MPCs e Pick Ups e que hoje se tornaram em Fruity Loops.
Se mudou o meio, se discute se é bom ou não e “o que era antigo é melhor” e colonizadores roubando o que é nosso.
No fim, ainda são gritos e tambores.
Toda música negra a partir da diáspora é um pedido de liberdade.
Referências:
A Tribe Called Quest - Jazz (We've Got) Buggin' Out. Disponível em https://youtu.be/cxN4nKk2cfk?si=pIqwh0vcoEB0LeAt
Freestyle Fellowship - Inner City Boundaries. Disponível em https://youtu.be/U6V2xYQH4yE?si=Oh3aEPfHwwCwWDIx
John Coltrane - A Love Supreme. Disponível em https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_n7bQ72Ttj3lYTwm9A1zDsM0IkQb5SXixc&si=agyl6yns8CSZCNnS
John Coltrane - Blue Train. Disponível em https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_msz_khnRgBDU_rS77TZRFrYxcYJhzWE2Q&si=egWeKCCcV3bRdLnl
Tom Browne e Dead Prez - Bluesanova(Lord Jamar's Freedom Mix). Disponível em https://youtu.be/40Qgrtoxib8?si=hFBFPjaUH1kpcDVu
Maisnerd - Se No Cinema. Disponível em https://youtu.be/PIkl5_JTcbE?si=uwT_sWIfQZIMVXax
James Brown - Say It Loud - I'm Black And Proud! Disponível em https://youtu.be/pxsIEyxg-Ok?si=xYRt2QAYniqGfntR
Joabe Reis - A Última das Fantasias. Disponível em https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lpkKh0NjETnFNg-6dhvi4Z-DlIQjkVOhM&si=auol9lkr8x9cWW--
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