Rap sem pressa: Relvi e Traumatopia lançam PESTE, um disco contra o algoritmo e a favor do vínculo
- Pivete

- 2 de ago.
- 7 min de leitura

Era fim de tarde em Vitória, o céu indo embora com seu dourado quente demais pro inverno que já devia ter passado. Do outro lado da tela, dois irmãos falavam direto de Curitiba – cidade onde o sol parece ser lenda e o cinza virou identidade.
RELVI e Traumatopia estavam lá, agasalhados e atentos, me contando da jornada que virou o disco PESTE, lançado agora, 4 de julho, pela Sujoground.
Conversar com os dois é como abrir a tampa de um porão que respira fumaça, beats e vivência. RELVI, filho de mãe solo, ex-skatista, rapper, já passou por banda de rapcore, pichação e mil corres antes de assinar o que, pra mim, é mais do que um álbum: é rito. Trauma é antropólogo, DJ, produtor, dono de loja de vinil e de uma estética sonora carregada de clima – “meu som não é pra festa, é pra refletir”, ele diz.
A verdade é que PESTE não se encaixa, ele escapa.
É um álbum que atravessa – e não passa batido.
RELVI mandou o papo reto: “esse disco nasceu num dia ruim”.
E eu entendi.
Não porque a gente sempre entende a dor dos outros – não é isso.
Mas porque, às vezes, a gente também já foi até alguém numa noite ruim.
Ele contou como ligou pro Trauma quase de madrugada, meio perdido, só pra trocar ideia.

Trauma tava no shopping, largou tudo, voltou pra loja. “Cola aí.”
Naquele breu do sul, numa loja de vinil recheados de referências, na construção de sons na madrugada, nasceu a primeira faísca do PESTE.
“Minha mina até tava com a gente, dormiu no carro de tanto tempo que a gente ficou ali.
A gente só queria fazer som, mano. Era dor, era carga, era nóia. Aí saiu”, ele disse, e ficou aquele silêncio depois, que às vezes a internet até corta, mas que a gente sente mesmo assim.
Eu fiquei só ouvindo.
Como se estivesse naquele estúdio com eles.
Como se o frio tivesse atravessado a tela e gelado meu quarto aqui em Vitória.
RELVI falava com o peso de quem perdeu a mãe, sua principal referência.
Trauma ouvia, quieto. “Sempre fui eu e ela, tá ligado?”, ele disse.
E por mais que essa frase seja simples, ela carregava tudo.
A ausência, o luto, a raiva, a lembrança da luta, do abraço, da sala vazia.

Tem uma dor que não rima.
Uma perda que não cabe em beat.
RELVI perdeu a mãe enquanto escrevia PESTE. E se o disco sangra, é porque a ferida ainda tá aberta. “Sempre foi eu e ela”, ele disse. Professora do Estado, de esquerda, dessas que levavam o filho pequeno pro colo em dia de protesto. Em 88, estavam juntos quando Álvaro Dias reprimiu os professores no Paraná. Ele lembra disso como quem carrega tatuado – não na pele, mas na sua construção do seu eu.
Ouvir PESTE sabendo disso muda tudo. Porque aí a melancolia não é só estética – é saudade. A caneta quente não é só estilo – é resistência herdada. RELVI não grita por gritar. Ele vem de uma casa onde a palavra era ferramenta de proteção. Onde ensinar era mais que profissão: era sobrevivência.

RELVI transforma o luto em legado. Faz do rap um caderno rabiscado de madrugada. Trauma costura os beats como se editasse lembranças em fita VHS. E PESTE vira um livro didático sobre dor, afeto e insubmissão.
Foi quando o Trauma entrou, devagar, com a voz mansa de quem também carrega cicatriz, mas escolheu a batida como forma de sutura: “Esse disco não foi só produzido. Ele foi vivido.”
E aí contou como a amizade dos dois virou parceria de criação – não aquela parada protocolar de produtor e MC, mas uma construção quase artesanal. Eram faixas que nasciam e morriam, letras que eles reescreviam até virar verdade.
“Tinha 10 músicas prontas. Ouvimos no carro, olhei pra ele e falei: não é isso.” RELVI riu. “Aí teve que voltar tudo. E a gente voltou.”
Nesse ponto da conversa, eu nem fazia mais pergunta. Só deixava correr. Porque parecia que estava presenciando o que muita gente nunca vai ver: o momento em que dois artistas constroem uma obra no meio do caos. Não pra explicar o caos – mas pra sobreviver a ele.

“PESTE não é álbum de estúdio, é álbum de porão. De loja de vinil às 3 da manhã, de desabafo entre beat e beat”, falou Trauma.
E eu só pensei: é isso.
Curitiba pesa no disco – e não só como paisagem.
Tá no BPM mais lento, na ausência de refrão grudento, na recusa de fazer música pro algoritmo. É uma cidade que obriga a pensar antes de sorrir. “Aqui pra ser maloqueiro, tem que ser mesmo”, RELVI solta. E dá pra ouvir isso em faixas como Inflamável, Chama Acesa e Cotidiano, onde cada linha é sobrevivência.
Não é só a letra que pega – o beat também te prende. Trauma não tá de brincadeira, cada sample é escolhido a dedo, e o som final é ritual. “PESTE é um disco que não tem pressa. A gente burilou cada faixa”, ele explicou. Um ano e meio de produção, versões refeitas, letras reescritas.
Uma teimosia boa – de quem se recusa a lançar algo pela metade.

Contra o tempo, contra o hype: PESTE como relíquia no caos
No mundo onde o próximo hit precisa caber em 15 segundos de viral, RELVI e Traumatopia decidiram lançar um disco com 13 faixas, scratches, refrões sem pressa e beats que não pedem pista, pedem atenção. Em vez de algoritmo, tempo. Em vez de tendência, insistência.
“Tô velho, mano”, disse RELVI em tom quase cômico – mas ali havia mais do que cansaço. Havia recusa.
PESTE nasceu de conversas na madrugada, da saudade do encarte, do som que se ouvia inteiro com o nariz no plástico do CD recém-aberto. Trauma, com o olhar de quem atravessou a cena desde 2009, fala de um hiato, de uma frustração com o que se ouvia – e da retomada de fôlego que só veio com reencontros e afinidade real. Porque essa é uma das chaves do disco: ele só existe porque a amizade veio antes do projeto.
Na contramão da lógica que exige um reels por semana, RELVI e Trauma compuseram como quem esculpe – e não como quem alimenta feed. Cada beat passou por filtros afetivos, cada letra por autocrítica. E se um verso soava desonesto, recomeçava-se. Essa escolha pelo caminho lento, de lapidar em vez de lançar, torna o álbum uma espécie de relíquia em um tempo onde tudo já nasce velho.

RELVI resume: “Esse som não é pra viralizar no TikTok. É pra conversar.”
Tem algo bonito na forma como eles falam de não negociar o essencial. Trauma diz que o mais importante é saber o que não se negocia. A estética do disco – o clima sombrio, o tempo arrastado, os samples sujos – não são ornamento. São posição. Estão ali porque são parte de um mundo que não cede. Sua arte é uma forma de não ser consumido.
O mais curioso é que, apesar de tudo isso, não há no disco ranço nem pose. Tem tristeza, tem crítica, tem cansaço – mas tem também afeto. PESTE é menos um grito e mais um murmúrio firme. Não é militância de palanque, é política feita em estúdio, entre um beat e outro, entre um trampo e um luto.
O próprio Trauma diz: “Não é um disco com pressa. Mas também não tem desperdício.”
É por isso que escutar PESTE não é como ouvir música. É como cruzar uma fronteira. Uma espécie de desaceleração forçada, como se o tempo abrisse uma fenda pra gente respirar fora do capitalismo. Talvez o maior feito do disco seja esse: fazer barulho sem gritar, emocionar sem apelar, resistir sem slogan. PESTE é ritual porque te tira do automático. É política porque recusa ser produto.

E enquanto o mercado corre pra lançar o próximo beat que dure menos que um stories, RELVI e Traumatopia seguem na contramão, devagar, fundo, juntos – porque sabem que o que move não é o hype, é o vínculo.
Quem tá junto não participa – comunga
E mais que isso: existem reencontros, cumplicidades, alianças. RELVI fala com naturalidade: “não gosto dessas parcerias frias”. E dá pra sentir. Quando Galf AC, Alienação Afrofuturista, Wil Santos ou Cabes rimam, não é pra “colar nome na track” – é pra somar corpo no ritual. Como se cada verso tivesse sido escrito no mesmo porão, com as mesmas velas acesas, com o mesmo peso no peito.
Na faixa Rocky & Apollo, Wil Santos aparece como irmão resgatado. Amigo de infância de RELVI, afastado do rap há anos, ele volta não como quem quer retorno de cena, mas como quem aceita um convite pra sentar no terreiro de novo.
Galf AC, em Miradouro, costura a faixa com um lirismo sujo e apurado, como quem entende o disco por dentro. E a presença de Cabes, na potente Ordem do Dia, não só dá voz, mas imprime uma espécie de manifesto no meio do álbum.

Mais do que participações, são pactos. Como se cada convidado dissesse: “tô com vocês nessa caminhada, e não é só na música”. A escolha dos nomes é menos sobre métrica e mais sobre memória.
RELVI lembra que o critério foi simples: “quem tá com a gente”. E, por sorte – ou por fé –, esses que estão também rimam forte, pensam fundo e têm o que dizer.
Nesse sentido, o disco encontra sua casa perfeita no selo Sujoground. O nome já entrega o espírito: chão sujo, base crua, mas fértil. É um selo que não busca brilho – busca identidade. E é nessa rede subterrânea que PESTE cresce. RELVI assina a estética visual do projeto como quem grava o próprio nome no muro: glitchs, VHS, memória analógica de uma era pré-streaming.
Tudo ali recusa a nitidez.
Prefere o rastro, a falha, o chiado.
Porque é disso que a vida também é feita.

Matheus Coringa, à frente da Sujoground, aparece não como executivo, mas como cúmplice. Amigo de outros corres, como Golf, que também aparece na trajetória de RELVI e Trauma, ele é desses que não apenas lançam discos – seguram a onda, dividem palco, ajudam a regar o mato alto do underground.
E esse cuidado coletivo transborda no som.
🎬 Acaba de sair o clipe de “Altos e Baixos”, faixa do álbum PESTE de Relvi & Traumatopia
O videoclipe de Altos e Baixos, uma das faixas mais viscerais do disco PESTE, estreou recentemente no YouTube. Mais do que uma produção visual, o clipe é extensão direta do que o álbum representa: dor, memória e sobrevivência em tempos cinzas.
Relvi rima como quem rasga o próprio peito. Traumatopia produz como quem constrói abrigo em meio ao caos. E agora, juntos, transformam a intensidade sonora em imagem – tudo com a mesma estética crua e afetiva que marca o projeto.
Se PESTE já era um ritual sonoro, Altos e Baixos chega como reza audiovisual.
Assista agora no canal oficial de Sujoground e sinta o peso, a calma e o grito contido de quem não desiste – mesmo quando tudo desaba.








Comentários