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Dentro do contexto da Educação, da Ciência e Tecnologia e da produção de Discurso, percebemos a prevalência, nestas áreas, de uma teleologia predominantemente monotécnica. Este desencanto chegou em um bom momento. Estávamos iludidos frente aos encantos tecnológicos que emergiram na pandemia de COVID-19, sobretudo aqueles relacionados às "novas" metodologias ativas de ensino nas escolas.

No entanto, após a leitura de alguns teóricos contemporâneos, como Bruno Latour, Yuk Hui, Grégoire Chamayou, por exemplo, aterramos e nos situamos dentro de um complexo espaço sociotécnico e político modulado por disposições tecnopolíticas organizadas pelo algoritmo. Tal percepção dentro desta Matrix ubíqua, naquilo que Merleau Ponty desenvolve, chegamos à fenomenologia da percepção do contexto híbrido da realidade atual.

Sabemos que ainda é pouco, pois, em devida analogia, nossa consciência é de um “recém-nascido” que abriu os olhos para tentar entender o que se passa no limiar de um complexo imunológico que nos dava segurança em troca de controle de nossas vidas. Sim, percebemos que as tecnologias, pautadas na monotecnicidade atual, nos desabrigam e nos desafiam. Estes dois últimos conceitos são aqueles que Heidegger demonstrava que a técnica moderna já desenvolvia: o controle das energias naturais na objetificação do mundo e consequentemente o desenvolvimento de uma teleologia utilitarista de maximização dos recursos para um fim calculado. Dizendo no zeitgeist atual, estamos dentro de esteiras digitais sendo alimentados por dados que desprendem nossa atenção em troca de envio de energias (nossos dados pessoais, nossos olhares, nossa atenção) para retroalimentar este Leviatã multifacetado que podemos chamar de complexos industriais-digitais de entreterimento e informação ruidosa presente sobretudo redes sociais.

O pano de fundo destas matrizes controladoras, da constituição algorítmica de si, é aquilo que Byung-chul Han, Grégoire Chamayou, Vladimir Safatle, Christian Dunker, dentre outros, vão desvelar (aletheia) sobre o neoliberalismo. Mais que um sistema econômico, o neoliberalismo pode ser considerado um sistema de ontologias marcadas pelo desenvolvimento individual como fonte primeira e última de energia que alimenta as engrenagens do mercado, da cultura, da intersubjetividade, e, em última instância, da nossa própria existência. Ao invés de energia direta, a produção de dados passa pela autoprodução de identidades imagéticas que dão o tom da vida e, como Guy Debord já nos alertava há mais de cinquenta anos, são os compostos relacionais de nossa vida.

A espetacularização do mundo passa pela espetacularização de si. Os ritos cotidianos se tornaram fonte de produção de imagens que vão desencadear uma rede de trocas mútuas de informações, desdobrando-se em uma rede de produção infinitesimal de imagens compartilhadas sobre nós mesmos, criando novas esferas de discurso e de políticas de identificações, constituindo seleções e gostos que, sob a lógica do algoritmo, criam as rédeas e os cabrestos da condução da humanidade na tecnosfera. Dito de outra forma, a aparência de liberdade nos enclausura cada vez mais nos próprios dados em que autoproduzimos ao falarmos de si constantemente. Nesta teia narcisista, criamos nossas gaiolas de ouro virtual, ou melhor dizendo, nossas bolhas imunológicas de gostos, estéticas, preferências que, ao invés de ampliarmos nossos horizontes, nos coloca cada vez mais em cavernas platônicas muito bem organizadas.

Como falamos anteriormente, apenas abrimos os olhos. As teias que amarram e sugam nossa energia vital, nossa pulsão criativa, nossa poiesis, ainda estão em nós. Estamos tentando tirar fio a fio, mas sabemos de nossos limites enquanto seres situados neste contexto. A arte, a educação, a vida ainda nos está presa dentro destes fios. Mas já perguntamos entre nós, como sair? Como superar este complexo sociotécnico algorítmico? Ainda estamos com respostas evasivas, talvez ainda bem ingênuas e superficiais. Mas já percebemos que é necessária uma nova postura, um engajamento heurístico, abertura e construção de fissuras e de disrupções tecnodiversas nas nossas atuais áreas de interesse. Por isso a ideia de escrever tais proposições nesta forma de manifesto ensaístico. Ou de um ensaio manifestado.

Brincadeiras à parte, o debate tridimensional é apenas um primeiro passo de organização de nossas reflexões. Não estamos sozinhos, mas dentro desta rede inicial, precisamos nos conectar com nossos convergentes a fim de fortalecer a divergência frente ao aceleracionismo e do sincronismo monotécnico, monocultural, monopolítico e monoexistencial que a tecnologia contemporânea, no contexto neoliberal de uma pseudoliberdade pautada na vigilância ascendente de Si, dente ao Outro, ao Diferente, nos impõem de forma cada vez mais sedutora.

A incorporação da própria crítica passa por isso. O desenvolvimento das Teorias Críticas nos mostra que conseguimos chegar a um nível de desvelamento bastante complexo. Chegamos aos meandros da mente, da existência humana, do discurso, demonstrando diversos e complexos mecanismos de constituição e de dominação das nossas (inter)subjetividades. Isso também, de modo infeliz, se tornou um dado de aprimoramento do próprio controle do corpo e da mente humana.

Diversas técnicas outrora criticadas e desveladas, na teleologia iluminista, se tornaram bens, valores aplicáveis e replicáveis para a consolidação e para o refino da própria dominação do ser humano. Para o Iluminismo, cujo universalismo é voluntarista, portanto irrealizável, contraditoriamente irrealizável em uma perspectiva universal. Daí sua dimensão contraditória: ser universal a partir do individual ou do voluntarismo individual. Muitas críticas decoloniais mostram a face deste ser humano universal. Tal ser humano tem gênero - masculino; tem classe social - burguesa; tem cor, raça, etnia - branco caucasiano; e tem sexualidade - heteronormativo. O ponto de vista universal parte deste condicionamento político-ontológico. Nós, seres periféricos dentro da divisão ontológica mundial, ou nos adaptamos àquilo que nos é dito como incontível - como a corredeira de um rio, ou tentaremos criar alternativas locais e diversificadas de existência, de conhecimento e de saberes.

Tomando as epistemes dominantes, como subvertê-las? Mais que isso, como construir, dentro das tecnologias, cosmovisões? Não tem como negar a técnica ocidental hegemônica. Ela veio para ficar. Política e economicamente, ela está mais forte do que nunca. As maiores empresas mundiais estão todas dentro do contexto monotecnológico. As disputas políticas atuais são políticas de tecnologia. Mas, ainda temos a coletividade, a inventividade, a diversidade e a apropriação crítica como “despertar”.

Não gostamos muito da palavra despertar pois ainda nos remete ao contexto Iluminista e etnocêntrico de estarmos valorativamente acima e superior aos demais. Nem queremos tal pretensão. Mas como pensadores do discurso, sabemos que a percepção nos remete à reflexividade muito importante dentro do atual contexto. Parar para pensar num mundo cada vez mais submerso em informações hiperproduzidas é um desafio cada vez mais importante. E pensar sobre onde estamos e para onde vamos, no fluxo informacional das redes digitais, já vale muito o esforço.

Dito isso, pensamos que, ao desenvolver uma percepção e uma reflexão (re)situada, podemos criar uma práxis transformadora e disruptiva, trabalhando elementos do desvelamento (a desconstrução e o desabrigar ainda é importante para o próprio aterramento latouriano) com práticas e ações que podem criar as fissuras e desconstruções deste castelo monotemático. A poiesis, ou seja, a arte de fazer de forma reflexiva e crítica, se pôr no lugar ao invés da mera reprodução, é um caminho a ser percorrido. Precisamos pavimentar esses caminhos. Hermes e Exus nos guiarão nesta cosmotécnica, baseando-nos na diversidade ontológica, imagética e analítica de nós mesmos.

Dentro das esferas de interesse de discussão, como bem dizia o velho Paulo Freire, ainda é fundamental o desenvolvimento aprofundado das competências técnicas e disciplinares para a própria transformação enquanto ser-formador. Vamos, portanto, em busca de destrinchar práxis (Marx e sua rede sociotécnica estavam corretos em sua proposição de análise do contexto concreto para o desenvolvimento de uma teoria pautada na ação e uma ação pautada na reflexão teórica) disruptivas e tecnodiversas. Como fazer? Ah, isto saberemos no percurso, na ação-reflexão. Mas é a partir desta perspectiva que agora pautamos o nosso engajamento daqui em diante.


Coletivo Terral

 
 
 

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Uma resistente rede de pescadores artesanais e outros extrativistas costeiros e marinhos se articula de forma autônoma em 17 estados brasileiros desde 2007, visando garantir seu modo de vida tradicional e ecologicamente equilibrado. O governo federal lançou recentemente um programa denominado “Adote um Parque”, que traz muita preocupação ao prever a privatização de unidades de conservação de uso coletivo.

O cenário era de tirar o fôlego. Uma praia deserta, um bucólico rancho de pesca artesanal. Nele, os companheiros iam depositando as muitas tainhas recolhidas após o grande cerco. Uma das mulheres se encarregava de preparar o almoço, após ter ajudado na puxada da rede. E que almoço! Arroz, feijão, mandioca e peixe frito, comida mais que acolhedora feita num trepidante fogão a lenha. Um dia de alegria e celebração pela fartura do tradicional e centenário cerco à tainha, numa praia ao sul de Santa Catarina, em maio de 2019.

Elemento da cultura tradicional em Santa Catarina, o cerco à tainha o ocorre nos meses de maio a julho, quando são impostas restrições às atividades no mar que possam perturbar a aproximação dos cardumes. A pesca artesanal da tainha é protegida como patrimônio cultural, histórico e artístico do estado.

O isolamento do pequeno rancho de pesca é apenas aparente, A comunidade da pequena Ibiraquera no município de Imbituba (SC) se articula a uma vasta rede nacional de pescadores artesanais e outros extrativistas costeiros e marinhos, a Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas, Povos e Comunidades Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos – a Confrem Brasil.

O sonho de Chico Mendes é o território protegido para a comunidade que dele sobrevive, a Reserva Extrativista (Resex). Este sonho começou na floresta amazônica e alcançou o extrativismo costeiro e marinho. Em 1985, no I Encontro Nacional dos Seringueiros, surge a primeira ideia de se criar uma Resex, pois o desmatamento, as grandes pastagens e a especulação imobiliária na Amazônia ameaçavam o modo de vida tradicional destes extrativistas.

Prevista em lei federal, a Resex é uma unidade de conservação que visa proteger ao mesmo tempo os territórios e os povos tradicionais que deles sobrevivem a partir dos seus recursos naturais.

O notável geógrafo Carlos Walter Porto Gonçalves muito bem expressou: a riqueza dos povos tradicionais é ao mesmo tempo sua própria tragédia. Povos do mar vivem em lugares belíssimos no litoral brasileiro, enfrentando a cobiça imobiliária, a gentrificação, a pesca industrial predatória, a extração de petróleo e gás, a carcinocultura de grande escala, grandes portos e outros empreendimentos de forte impacto socioambiental.

Porém, a comunidade científica global já os reconheceu como os grandes responsáveis pela conservação da biodiversidade do planeta, sendo o seu conhecimento sobre o manejo dos recursos naturais considerado hoje como uma superciência. Além do mais, são produtores de alimentos, garantindo a sua própria segurança alimentar e a da sociedade.

Este superconhecimento dos povos tradicionais é estratégico para a humanidade, pois permitiu a sobrevivência destas comunidades por séculos, construída numa base altamente inteligente, sutil e não predatória, que precisa ser resgatada, estudada e preservada.

Durante a Rio 92 (II Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento), as nações unidas reconheceram a importância dos povos tradicionais na preservação da biodiversidade global e determinou a sua proteção através da Convenção da Diversidade Biológica. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também já havia elencado os direitos dos povos originários em 1989, entre os quais estão o direito de controle do território, acesso ao recurso tradicional e direito de determinar o uso, a proteção e a compensação para suas tradições e conhecimento.

A Constituição Federal e o Decreto Federal 6.040/07, que define a política nacional de povos tradicionais, bem como as leis estaduais e municipais, constituem a malha jurídica atual de proteção, que deve seguir sendo aperfeiçoada, estando na pauta uma proposta de lei federal garantindo a permanência das comunidades nos territórios tradicionalmente ocupados por elas.

De acordo com a coordenação nacional da Confrem Brasil, “as comunidades pesqueiras e extrativistas costeiros e marinhos estão localizadas em 17 estados do litoral brasileiro, e prestam relevantes serviços ecossistêmicos e de segurança alimentar à sociedade, representando um modo de vida histórico, com seus laços de pertencimento socioambientais e dinâmicas culturais que transformaram espaços aquáticos e terrestres em seus maretórios. E são destes maretórios que surge a Confrem, criada em 2007.

Esta rede de grande amplitude territorial, autônoma e emancipada “visou desenvolver estratégias coletivas buscando o fortalecimento e reconhecimento destas comunidades e assim melhor lutar para garantir seus meios de vida e produção sustentável, uma vez que são também destes maretórios que surgem constantes conflitos e ameaças aos direitos dos pescadores, aliado ao desmonte da gestão ambiental e a pressão de políticas para recategorização de unidades de conservação para destinar essas áreas para grandes empreendimentos”.

A rede atua “tendo como base estas organizações locais, que levam suas pautas aos debates nacionais, apoiando e capacitando-as para intervenção nas políticas sociais e luta pela sustentabilidade e visibilidade, destacando suas formas de vida e relação com o uso sustentável dos recursos”.

São 72 organizações de base, num total de 32 Reservas Extrativistas, sendo que 28 são no nível federal, 01 no nível estadual e 03 no nível municipal, 04 em Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e 06 em outros maretórios.

Além de sua atuação na base, a Confrem Brasil está articulada a outros movimentos, como o Movimento das Catadoras de Mangaba do Estado de Sergipe, a Coordenação Nacional das Comunidades Tradicionais Caiçaras, Rede de Mulheres das Comunidades Pesqueiras do Sul da Bahia, Rede de Mulheres dos Manguezais Amazônicos (Maranhão, Piauí, Pará e Amapá), Rede de Mulheres da APA Costa dos Corais, Rede de Mulheres da Resex do Delta do Parnaíba e Articulações de Jovens Protagonistas da Pesca Artesanal. Além de uma coordenação nacional e estaduais, a Confrem Brasil atua em secretarias temáticas (Mulheres, Juventude, Direitos Humanos, Cultura, Produção e Meio Ambiente, Monitoramento, Formação e Capacitação) e assessorias.

Os representantes locais participam dos conselhos gestores das APAs e Resexs, além de desenvolverem projetos com a academia, Organizações Não Governamentais e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Entretanto, são muitas as dificuldades para manter viva uma rede de tal dimensão e importância para os maretórios.

A rede é também uma das coordenadoras do “Grupo Observatório dos Impactos do Coronavírus nas Comunidades Pesqueiras”, em articulação com o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e Coordenação Nacional das Comunidades Tradicionais Caiçaras. Desde março de 2020, a iniciativa envolve pescadores e pescadoras artesanais, profissionais da área da saúde, pesquisadores e ativistas de quase todas as regiões do Brasil, para monitoramento do avanço da pandemia da Covid-19 nas comunidades.

O lançamento do polêmico programa do governo federal “Adote um Parque” (Decreto Federal 10.623 de 23 de fevereiro de 2021) é também uma outra grande preocupação. Sem realizar consulta prévia, livre e informada conforme dispõe a Convenção 169 da OIT do qual o Brasil é signatário, e sem observar o que está disposto na Lei do Sistema Nacional das Unidades de Conservação – SNUC e no Decreto Federal 6040/07, o programa viola direitos das populações tradicionais residentes em seus territórios e maretórios.

Segundo o decreto, o Estado permite a iniciativa privada a “adoção” dos territórios das comunidades tradicionais sem qualquer consulta a estas e sem a sua participação. Em março de 2021 a lista de unidades de conservação a serem incluídas na primeira etapa do programa foi publicada através da Portaria n° 73 do Ministério do Meio Ambiente - MMA.

Na prática o que está ocorrendo é a “privatização” de territórios de uso coletivo, abrindo uma perigosa brecha para apropriação indevida pelos “adotantes”, uma vez que as limitações ao uso poderão ser frágeis.

A entidade se posiciona: “é o estado brasileiro através do MMA, repassando a iniciativa privada a adoção dos nossos territórios, sem nenhuma participação nossa. É nosso lugar de vida, nossa casa, lugar de produção, de reprodução cultural, social e religiosa, onde somos os principais responsáveis pela conservação e uso sustentável dos recursos naturais”. A fala de uma representante comunitária do Pará resume tudo: “a sociedade precisa entender que o nosso tempo é diferente, o nosso tempo é o tempo maré”, destacando a natureza diferenciada e invisível destas culturas centenárias, protagonistas da formação do povo brasileiro, protetoras da biodiversidade e que precisam com urgência ser protegidas.


Por Eliana Leite

 
 
 

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Que a pandemia do novo Coronavírus afetou todos os habitantes do Planeta Terra é inegável. Sentimos na pele, cada um de sua maneira, os efeitos causados pela necessidade de distanciamento social; perda de entes ou amigos queridos; fechamento de empresas; fechamento de fronteiras; paralisação de atividades que antes não conseguiríamos sequer imaginar; falta de dinheiro; desemprego; desespero; fome... Os impactos sociais, econômicos, políticos, culturais e psicológicos são inúmeros.

Se por um lado, podemos afirmar que os impactos da pandemia foram (e ainda são!) sentidos por todos os quase 8 bilhões de pessoas do mundo, não temos como negar que esses efeitos não são iguais para todos.

Somente a título de curiosidade, os bilionários ficaram 565 bilhões de dólares mais ricos durante a pandemia, lucrando em média 42 bilhões de dólares por semana. (Dados da Bussiness Insider, 2020).

Já quando analisamos outros números, também na casa dos bilhões - mas tristes bilhões - é possível identificar que a atual crise sanitária interrompeu a educação de 1,5 bilhão de estudantes (crianças e adolescentes) em todo o mundo. (Unesco, 2020).

Poderíamos fazer um recorte das diversas desigualdades que foram ainda mais acentuadas com a pandemia, mas brasileiras que somos, esse artigo, pensado e escrito por duas mulheres, propõe, por isso mesmo, uma reflexão sobre o impacto da pandemia na vida de mulheres. Mulheres empreendedoras, mulheres autônomas, mulheres donas de casa, mulheres desempregadas, mulheres mães, mulheres trabalhadoras, mulheres do Brasil…

Ainda estamos aqui, em pleno ano de 2021, aprendendo a transformar as velhas em novas formas do viver, como já dizia nosso querido Gil ao cantar a música “Tempo Rei”, pedindo ao Tempo para ensinar aquilo que ainda não sabia.

E por falar em velhas formas do viver, é importante lembrar que as mulheres durante muitos anos, décadas e séculos foram vistas como objeto, como um ser que nasceu somente para servir e ficaram sob o domínio dos homens. Os espaços públicos relativos ao comércio, às empresas, à política e às ciências foram dominados quase que exclusivamente por eles até o século passado.

Foi uma luta árdua, com muitos empecilhos e revoluções para chegarmos até aqui. Tivemos que lutar pelo trabalho; pela não exploração; por salário; por métodos contraceptivos; pelo acesso à educação; pelo direito ao voto; por liberdades civis; contra a violência. A nossa existência é uma história de lutas e reivindicações. As nossas vitórias, “Maria Maria”, só vieram com muita força, raça e gana sempre. Já dizia Milton, “quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida”.

No entanto, ainda temos um caminho tortuoso e muitíssimo longo para percorrer pela frente até conseguirmos viver em um país onde a igualdade de gênero seja realidade. Há de se admitir que as mulheres ainda precisam ocupar e desempenhar uma infinidade de papéis sociais, sejam eles: dona de casa, mãe, filha, irmã, trabalhadora, autônoma, cuidadora... Funções essas que se colocássemos na ponta do lápis, já deveria haver diploma, pós-graduação e até aposentadoria antes dos 40 anos, por ter um plano de carreira tão determinado desde quando chegamos ao mundo.

O trabalho não remunerado da mulher, principalmente o realizado no âmbito familiar, não é contabilizado por nosso sistema estatístico e não possui valorização social. Mas diferente do Brasil, a Argentina acaba de reconhecer o cuidado materno como trabalho, o que garantirá a cerca de 155 mil mulheres, que precisaram sair do mercado de trabalho para se dedicarem ao cuidado dos filhos, o direito à aposentadoria. Já aqui, o que acontece é uma enorme dificuldade em separar a vida familiar da vida laboral ou vida pública da vida privada, mesmo em se tratando da participação no mercado de trabalho.

Isso é tão sério que poucas mulheres sabem de fato que trabalham mais horas semanais que os homens. Segundo dados de 2015 do PNAD analisados pela pesquisadora Ana Luiza Neves de Holanda do IPEA, as mulheres dedicam mais de 18 horas por semana nos afazeres domésticos. Ou seja, além do seu trabalho remunerado, a mulher ainda exerce atividade não remunerada diariamente, pois a figura feminina ainda é muito associada às tarefas domésticas.

Somado a isso, um estudo feito pelo IBGE, publicado em matéria da Agência Brasil, mostra que as mulheres ganham menos do que os homens em quase todas as ocupações, ou seja, em média, ganham 20,5% a menos que os homens no país. Essa desigualdade salarial chega a ser ainda mais forte na Região Sudeste.

E nessa pandemia, como será que ficaram essas relações de horas trabalhadas e afazeres domésticos? O trabalho e a renda são esferas críticas para examinar as disparidades de gênero durante a pandemia. Setores altamente ocupados por mulheres foram os mais afetados economicamente durante a pandemia, sendo elas a maioria entre os desempregados, particularmente as mulheres negras (Rede de Pesquisa Solidária, 2020). Além disso, muitas mulheres abriram mão de seu trabalho para cuidar dos filhos em casa devido ao fechamento das escolas.

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper sobre as consequências da Covid-19, na qual eu tive a oportunidade de ser uma das entrevistadoras de mulheres na Maré, trouxe dados necessários para entender o cenário da pandemia para as mulheres que residem em favelas. Segundo a Revista Piauí que retratou alguns desses dados, ao olhar para o mercado de trabalho nos últimos três anos, a participação das mulheres caiu de 53,3 % em 2019 para 45,8% de 2020. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), ao olhar só para os empregos formais, 81% das vagas foram excluídas de janeiro a setembro do ano passado e a maioria ocupadas por pessoas do sexo feminino.

Trazemos esses dados para ilustrar o que estamos falando para ver se em números conseguimos materializar o quanto precisamos lutar diariamente para equiparar esses papéis sociais. E não para por aí, porque uma coisa que a gente vem aprendendo com esse vírus é que o tempo é muito precioso e que precisamos valorizar cada segundo, inclusive, valorizar cada pessoa e se possível dizer o quanto ela é importante na sua vida. Porque com tantas mortes, dores, incertezas, estamos todos convencidos que nada é para sempre. E a única condição para estarmos vivos é que vamos morrer. Por esse motivo, cada tempo que passa conta e muito.

Nessa era tão digital, que até o dinheiro impresso já chegou ao ponto de ser raro de ver, cada vez mais vemos nosso tempo se converter em números, em likes, em tempo de uso nas redes sociais... Nunca tivemos tanta preocupação com o tempo ou ansiedade para vivê-lo ao ponto de acelerar vídeos no Youtube e absorver o máximo de informação possível. Isso tudo para dizer que é importante a valorização do tempo de qualquer ser humano, mas principalmente das mulheres, que em sua infinita maioria, têm uma jornada dupla de trabalho.

E esse trabalho não remunerado das mulheres custa muito caro, pois além de não serem reconhecidas e valorizadas como deveriam, com respeito, equidade de gênero e equiparação salarial; nós vivemos no Brasil, um dos países que mais comete violência doméstica no mundo.

No ano de 2020, auge da Pandemia, o feminicídio aumentou 22% e as chamadas ao 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) aumentaram 27%. Os registros de estupros e lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica caíram em 2020, o que não significa uma queda real destas ocorrências, mas uma maior dificuldade em realizar denúncias durante a pandemia (Banco Mundial, 2020).

É sempre importante lembrar que ligar para o 180 pode salvar vidas, mas também é importante lembrar que a violência não necessariamente começa na agressão física. Também existe a violência psicológica, patrimonial, moral e sexual. Perceber e repreender essas atitudes é dever e responsabilidade de todos! Então se você não se posiciona sobre machismo na roda de amigos; se você já viu situações de violência e ficou quieto; se você protege o amigo que tem inúmeros relatos de agressão na conta; se você questiona o comportamento da vítima em casos de agressão; se você prefere ignorar o machismo estrutural porque está numa posição extremamente confortável... Você também é conivente com os dados demonstrados acima.

É claro que não podemos generalizar e sabemos que estamos rompendo com alguns hábitos machistas que sobrecarregam as mulheres. Mas vocês, homens, precisam se envolver nesse processo de mudança, pois não é uma responsabilidade só nossa sair desse lugar ou simplesmente estranhar que a relação não está justa. Qualquer forma de desigualdade afeta a sociedade. Desigualdades sociais, raciais e de gênero afetam profundamente as relações sociais.

É preciso reconhecer o valor da mulher em nossa sociedade. Precisamos todos, sem exceção, lutar por um país onde haja respeito e igualdade, onde os salários não sejam diferentes em decorrência do gênero, onde as mulheres possam se sentir seguras ao andar nas ruas e não tenham medo de serem violentadas, agredidas e mortas dentro de suas próprias casas, e colocar um freio nessas relações abusivas e desproporcionais. Se cada homem se colocar no papel de aliado da causa feminista, conseguiremos “transformar as velhas formas de viver”, como Gil sugere conversando com o Tempo. Somente assim é possível ter-se uma sociedade amplamente democrática.


Por Vivi Linhares & Luiza Siqueira

 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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