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Atualizado: 17 de dez. de 2022


Autor: Iago Menezes ( @VisualbyPivete)

REVISTA MENÓ | 5° edição



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(crédito: Bruna Sussekind/Divulgação)



O que é ser negro no Brasil do séc. XXI? Ter maiores oportunidades de ascensão do que nossos antepassados é uma benção, mas com mais oportunidades surgem novos desafios e, consequentemente, novos obstáculos. Alguns pegam atalhos perigosos e traiçoeiros, e na ambição, chegam muito perto do sol.


E se o mito grego de Ícaro fosse um folclore brasileiro de um negro, que como muitos, voou muito perto do sol? Daria livros, filmes, Cidades de Deus de Paulo Lins, ou de Kátia Lund e Fernando Meirelles, e um álbum de Abebe Bikila, corredor nato, rapper, uns dos maiores cronistas da nossa era.


Entre sirenes, flashes, traçantes e estrelas cadentes. De onde o calor do sol queima sola de pés no asfalto quente, até o momento que ele aquece seu corpo enquanto pega um sol na piscina de sua mansão. A caminhada é longa, com atalhos ou não, tome cuidado com sua ambição. O sol pode queimar suas asas, essa é a lição de “ICARUS” (2022) de Bk, que se coloca como o personagem principal da obra, pois é preto, rico e famoso, tudo o que o sistema NÃO quer.


Foto Armado de BK com participação de Major RD é bem isso, todos os dias vemos a mídia em uma luta constante contra os negros que não deveriam - para eles - estar ali. Os flashes cegam, sabemos bem, mas além da cegueira temporária, carrega outros diversos problemas. Ainda mais quando tu é um negro hypado! Nós sempre fomos cancelados “por causa das branquinhas, às 'que nós comia’ ou ‘que nós vendia", por isso a foto armado, pois não é nós que desta vez, vai ter o CPF cancelado.


Em “Lugar a Mesa”, com Lennon, você verá um homem negro que entende o seu lugar na sociedade. Na verdade, verá dois: L7 sabe bem, pois sofreu inúmeras blitz e constrangimentos pela polícia, por isso ele lançou o som “freio da Blazer” em 2021, que passou até no Fantástico. Em “Lugar a Mesa”, ele também é certeiro em indicar esse lugar sensível e perigoso que é ser um homem negro famoso em um país que lucrou muito com a escravidão. Lucrou tanto que foi uns dos últimos a aboli-la - essa última contribuição é minha mesmo. Lugar a mesa é uma afirmação, mas também um questionamento, até quando terei um lugar?


Bk sabe que alcançou o seu lugar e que sem os seus antepassados, que lutaram muito pela liberdade do nosso povo, jamais alcançaríamos esse lugar ao sol. Somos uma "continuação de um sonho”, não podemos esquecer, que somos o resultado de sangue, dor, alegria e suor. Somos a continuação dos sonhos dos nossos pais e nunca devemos deixar de sonhar. Acredito que esses sonhos sejam as estrelas cadentes que o Abebe fala em “Luzes”. Sei lá, só sei que essa música “Continuação de um Sonho”, terceira faixa do álbum, me dá forças para sonhar cada vez mais.


E tem amor, e digo mais, tem música à altura da famosa “ Amores, Vícios e Obsessões” do álbum “Castelo e Ruínas” (2016). É óbvio que aqui é diferente, mas também tem coisa semelhante, talvez, seja a forma do Bk amar, com intensidade e perdição. Um homem negro desarmado, na mão de uma mulher, e aquela fama de durão se perde na deliciosa confusão que é amar. Até Mano Brown já sofreu “Mal de Amor”, em “Boogie Naipe” (2016), que foi indicado ao “Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro” e que para mim é um clássico desde o seu lançamento, onde ele alerta o quanto pode ser violento amar, e para quem às vezes só tem esse referencial de vida, muita violência e pouco amor, amar pode ser tão embriagante quanto a “braba do jaca”.


Na faixa “Em nome do que sinto”, Bk em nome do amor, se apresenta como alguém que pode ser embriagado, drogado pelo mesmo. E se o sol fosse um coração, bombeando, e você lá deitado ouvindo a sinfonia do sangue sendo bombeado nos peitos de sua pretinha? Quem consegue manter a postura de bandido mau perante o amor. Amar é também a busca constante pelo amor do próximo. “Faz até a dor sumir da gente, atrás da superdosagem que vai deixar na onda pra sempre…”

Por isso, talvez, a décima música do álbum seja "música de amor nunca mais” com participação de Luccas Carlos, pois se em "Planos" - faixa do “Castelo e Ruínas” (2016), que também é da dupla Bk e Luccas Carlos, considerado por mim o “Bebeto e Romário” dos Love Song - eles falam dos planos que criamos quando estamos apaixonados. Em “música de amor nunca mais” a dupla avisa que é necessário manter os pés no chão, sem emoção, pois o sol está ali pronto para queimar as nossas asas. E quando estamos voando com cautela para não deixar as gotas do mar respingar ou o calor a cera derreter, temos que lidar com o fardo de poder voar, enquanto outros não. E “se eu não lembrar” - décima primeira faixa de ICARUS de Bk com participação de Marina Sena - do seu nome, de onde te conheci, de responder sua mensagem, e se o fato de eu voar me colocar distante daqueles que só sabem andar? Eu vou me perdoar, pois mereço me perder. Eu volto, mas quero aproveitar a liberdade que meu dom proporcionou, simples e direto, Abebe Bikila entende seu lugar, sabe das consequências e se apresenta como um dos maiores compositores da música brasileira, na minha humilde opinião.





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Foto divulgação



E digo mais, Bk entende que seu lugar no centro das atenções, e que como rapper famoso apresenta na maioria das vezes, principalmente, para desconhecidos e fãs, um só lado do seu verdadeiro ser. Logo, ele avisa “Bebê, tu só vê minhas bênçãos, não vê meus pecados”, mas por aquela bunda ele aceita até ser “Poesia Acústica”, que em tese é reduzir todo trabalho dele a um projeto musical muito famoso que ele fez. Bk erra, se emociona, crítica e é criticado, não é perfeito, pois a perfeição não existe em seres humanos, nós somos formados por erros e acertos. E voltando lá atrás no fardo de voar e outros não, Abebe também reafirma nessa faixa a solidão em estar no topo, e também o papel da sua música como forma de se expressar e a falta de entendimento da indústria musical perante o seu trabalho e a forma de gerir o mesmo. Solidão que pode se estender a falta de convívio com amigos e familiares, pois a vida de um neguinho que ousa voar pode ser muito solitária, ainda mais com um sistema que corta asas de pretos todos os dias.


Estamos chegando ao final do nosso folclore, como em um livro ou em um conto mitológico grego, aquele lá, que já falamos aqui, que conta a história do filho de Dédalo, que voou demasiado perto do sol e por consequência se afogou no Mar de Egeu. Aquele lá, que não chega aos pés do nosso folclore latino-americano, “ICARUS” (2022), álbum de rap de Abebe Bikila (BK), que conta histórias que se confundem com as nossas. O Bikila tem esse dom. Em “Carta Aberta”, Bk coloca todas as questões do álbum na mesa, para afirmar que “entre passos e tropeços”, o importante é seguir traçando seu caminhos. É literalmente uma carta aberta de Bk para todos aqueles que buscam alcançar um lugar, para que não cheguem tão perto do sol, pois a queda é eminente e drástica.


Se é ego ou ambição, se é amor ou é paixão, tantas perguntas que só são respondidas com o tempo. Continue, entre passos e tropeços, continue a ser a continuação do sonho de alguém. Siga sua intuição, pois o caminho é tortuoso, difícil, mas essas dificuldades que nos fortalecem para vencer outros obstáculos que continuaram a surgir no caminho.


Como em “ Loka (Parte II)” de Racionais Mc’s todo preto batalhador “só quer um terreno no mato só seu, sem luxo, descalço, nadar num riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho”, e que toda essa batalha é para que um dia haja um confortável descanso, Bk quer se ver no futuro "amanhecendo na casa de campo, ouvindo Djavan”, e pede que essa ideia de Vida Loka não nos domine, para que gente não perca nossa vida na próxima esquina. “Amanhecer” de Bk, última música do álbum, é o retrato de um bom malandro. Que entende que a vida é uma sequência de escolhas, posturas e restrições. Que o fato de estar vivo, para nós, já é algo para se comemorar. Que todo desafiador do sistema, como um soldado em guerra, precisa em algum momento deixar sua peça no canto para finalmente descansar em paz.


ICARUS de BK, talvez seja o seu melhor álbum até aqui, a maturidade de Abebe em reinterpretar um mito grego, em uma versão que dialoga estreitamente com nossa vivência, digo mais, que dialoga com outros clássicos do rap brasileiro, como Racionais Mc’s, ao alimentar o imaginário de todos os perigos que passam um homem negro, que neste século, ainda com muita dificuldade, consegue um lugar sensível a mesa e não fica comendo somente as sobras dos patrões. Se em “Castelos e Ruínas” ( 2016), Bk ainda buscava entender sobre o sucesso e o fracasso, o bem e o mal, amor e o ódio, em “ICARUS” ele já é tem mais experiência, e como Dédalo tenta conscientizar seus iguais para que os mesmos não voem tão perto do sol.


 
 
 

Por Coletivo Terral


Eles não querem te desenvolver, eles querem explorar você.

Quem nunca ouviu alguém falar: “Vou investir na minha carreira para crescer na empresa.” ou “Preciso investir em tal curso para minha empresa me notar”; ou ainda este: “A empresa está investindo em mim”.

Se em algum momento da vida chegou a pensar que estavam investindo em você, então estava certo. Você só não reparou que a palavra “investir” vem do ambiente financeiro. Pois bem, nada no mundo dos negócios tem o objetivo de fazer com que os trabalhadores se sintam como parte de construção de mundo mais justo ou menos desigual.

Se estão investindo em você, é para que dê o máximo da sua capacidade para que a empresa atinja o máximo de lucro. Não pense que estão investindo para lhe tornar um ser humano consciente do seu papel no mundo do trabalho. Pelo contrário, investem em você, trabalhador, com o propósito de abusar das suas energias, da sua potencialidade, da sua imaginação, da sua vida.

Interessante perceber que a palavra trabalhador está em desuso no mercado de trabalho, ideia reforçada inclusive pelos meios de comunicação. Essa palavra, porém, é a mais adequada para quem exerce uma determinada profissão no mercado de trabalho. A ideia de dar outros nomes a quem trabalha, como por exemplo colaborador e consultor, é uma estratégia sofisticada de alienação.

Ao fazer isso, eles colocam você em um espaço ilusório de quem ocupa a posição de “patrão”, com o tempo você passa a funcionar não mais como um trabalhador, mas como uma empresa. Ao se considerar uma empresa, você deixa de perceber a sua dimensão humana e passa a funcionar como um vendedor que não para de trabalhar durante às 24h dos 7 dias por semana.

O resultado disso você sabe: insônia, estresse, depressão, Burnout dentre outros problemas de saúde contemporâneos.

Desde o início do texto estamos nos referindo a “eles”. Quem eles são?

O 1%: uma pequeníssima parcela da humanidade que controla uma parte gigantesca da riqueza produzida pela natureza e pelas pessoas. Nosso país, por exemplo, é um dos mais desiguais do mundo, em que os 10% do topo da pirâmide apoderam-se de 59% de toda riqueza nacional.

As grandes corporações situadas na Europa e nos Estados Unidos são as responsáveis por influenciar mundo a fora a noção de trabalhador como uma empresa. Você, assim como nós, não é uma empresa. Uma empresa não quer te desenvolver, ela quer abusar da sua capacidade criadora para render mais e mais lucro. Não se engane.

Por isso o 1% sempre vai criar estratégias para te convencer a investir em sua carreira. Ou seja, você investe dinheiro, aprende novas informações para ser explorado. A vida, o trabalho, nós e você não cabemos na lógica do 1%.

Tal lógica não veio à toa. Ela foi historicamente construída por profissionais das áreas que podemos enquadrar nas Ciências Cognitivas: psicólogos, pedagogos, economistas, designers, publicitários, engenheiros, sociólogos, antropólogos, entre outros que, em diversos debates acadêmicos ocorrido desde 1946, após o término da Segunda Guerra Mundial.

Tais encontros são chamados de Conferências Macy e desdobrou-se na consolidação do modelo matemático como chave de entendimento das relações humanas, sociais, ambientais etc. Esse modelo foi desenvolvido por diversos pesquisadores em organizações interdisciplinares, mas foi Norbert Wiener, matemático de formação, que condensou estes estudos naquilo que ele chamou de cibernética.

A cibernética pode ser considerada "o estudo científico do controle e comunicação no animal e na máquina". Em outras palavras, é o estudo científico de como humanos, animais e máquinas controlam e se comunicam. E a comunicação tornou-se o modelo de análise das relações intersubjetivas e técnica da realidade.

Após esse desenvolvimento inicial, empresas adotaram o modelo cibernético para o desenvolvimento de análises preditivas de mercado. Como criar padrões de comportamento, de consumo e até ideológico dos possíveis consumidores? Como criar condições de compras e de previsões de consumo?

A cibernética e, consequentemente, as ciências cognitivas, desenvolveram modelos e algoritmos de comportamento humano. As tecnologias digitais de comunicação e informação se desenvolveram nestes últimos quarenta anos baseadas no controle, padronização e modulação das pessoas que utilizam tais ferramentas. O mundo, então, se tornou um grande portal eletrônico pautado pela lógica de mercado e pela subjetividade empresarial.

Ao invés de sermos uma nação, ou um grupo étnico, podemos manter esses vernizes mais gerais, mas podemos ser enquadrados como empresas de negócios personalizados, indicando, na interação virtual, possíveis caminhos de crescimento ilimitado de si, na finalidade de otimizar os custos de padronização e constituir "máquinas de gente".

Você já pensou nisso? Como podemos fugir disso? Como podemos sair deste moedor de gente e construtor de modelos preditivos de empreendedores?

 
 
 

Atualizado: 15 de jun. de 2022

Por Thiago Sento Sé


O ano letivo tinha começado agitado. A escola lotada, com direito até a uma porradaria na hora da entrada. Certamente alguma treta de bola ou garota, mal resolvida durante as férias. Um calor infernal e como de costume, alunos passando mal e vomitando por causa do forte calor das salas abafadas.

No turno da noite, não foi muito diferente. Os jovens e adultos chegavam lentamente. Era preciso esperar o único ônibus da região, que estava sempre atrasado, com os alunos dos bairros vizinhos para que pudéssemos começar o último turno de aula.

Já em sala, em meio ao calor e o barulho infernal da turma, nenhuma novidade até então. Alunos delinquentes, envolvidos com tráfico, alunos com necessidades especiais, alunos idosos, outros esgotados das jornadas de trabalho, da lida com os filhos e a casa. E para completar, o senhor Josias, um bebum inveterado que sentava na primeira fila. Ficava virado para trás, sempre falando mais alto que todos e espalhando seu hálito etílico pela atmosfera quente e abafada da sala. Porque diabos alguém se senta na primeira fila e fica completamente torto, virado para trás o tempo todo? Porque esse diabo não se senta no fundo da sala de uma vez?

Depois de dois tempos seguidos, eu me dirigia para a sala de professores para aproveitar meu intervalo. Respirar um pouco, comer um doce e beber uns copos de café, você sabe...Aquela dose de energia necessária quando chega as 20:50 e ainda é preciso voltar para mais dois tempos, antes de cair na estrada novamente por mais algumas horas. Foi justamente nesse caminho que Lara, uma jovem da mesma turma veio me trazendo a novidade.

— Dora tá louca professor, agora botou uma placa de “vende-se crianças” no portão da casa dela.

Contava a moça enquanto ria alto e descontroladamente. Pensei na figura de Dora e na suspeita dos professores de algum distúrbio mental não diagnosticado que girava entorno dela. Segui até o fim da aula cansado, e triste, por aquelas pessoas e por aquele lugar.

Na semana seguinte quando cheguei na escola os alunos do turno da tarde avançaram em minha direção. Eufóricos, anunciaram que não teria aula. Estranho, lá sempre tinha aula. Até mesmo quando faltava luz ou água. Dessa vez o motivo era falta de luz e água. Realmente, nesses anos todos nunca havíamos ficado sem luz e água ao mesmo tempo.

As coisas iam de mal à pior!

Depois de passar pelo grupo de alunos entrei na escola e encontrei Rosa, nossa coordenadora do turno da tarde na sala de professores, onde mesmo no escuro era possível ver a indignação de meus colegas. A orientação da Secretaria de Educação era que os professores permanecessem na escola sem luz e sem água, cumprindo seus horários. No meu caso isso significaria ficar até o final do turno da noite, sem fazer nada naquele fim de mundo. Diante disso, me pareceu um bom negócio quando Rosa me propôs dar uma carona para ela até Nova Cidade, e verificar porque dois irmãos da Pré-Escola não estavam frequentando as aulas, num procedimento chamado de “busca ativa”.

No caminho Rosa falava da situação problemática. Eram os filhos de Doralice. Guto e Gustavo, de 4 e 5 anos. Doralice vivia em situação complicada, ainda mais depois que o posto de gasolina de Nova Cidade tinha fechado, lugar onde ela tinha aprendido a se prostituir ainda na infância.

— Nova Cidade é que nem rabo de cavalo, só cresce pra baixo.

Falava a pedagoga que vinha ao meu lado no carro.

Pela rodovia federal, vimos o esqueleto do posto de gasolina, e do outro lado da pista uma placa sinalizava o desvio para Nova Cidade. Chegando no endereço Dora nos recebeu com surpresa no portão, e em seguida dirigiu um olhar de desprezo para minha colega de trabalho. Nova Cidade não passava de um vilarejo miserável as margens da BR 101. Pelas ruas de terra a poeira subia, e o que se via além das casas de tijolos eram apenas anilhas de uma obra de saneamento básico que nunca aconteceu. No lugar de calçadas só se via mato. A casa de Dora, de tão velha parecia que iria desabar. Tudo o que se via era velho, feio e miserável. Para completar, o calor e o esgoto a céu aberto deixavam o ar insuportável.

— Dora, porque os meninos não estão frequentando a escola? A você sabe que por lei eles devem estar estudando né?

— Ora dona Rosa, a senhora pode ter certeza que as crianças estão muito bem. Eu vendi Gugu pra uma família lá de Perobeba. Eles me pagaram um bom dinheiro e levaram o menino. Veja você mesma.

E tirou de um envelope a foto do menino, muito bem vestido por sinal. Usava roupas novas. De terninho, estava de pé num jardim sem flores, mas com um gramado muito bem tratado e uma belíssima casa ao fundo. Mas havia algo de estranho naquela foto. O menino parecia muito sério, e apesar de bem gordinho parecia pálido. A imagem de uma criança, vestida como um adulto, nenhum brinquedo por perto. Não se via qualquer traço de alegria em seu rosto, e nem de felicidade em seus olhos. Foi justamente aí, que reparando bem nos olhos do menino, vi que pareciam furados. Isso deixou tudo ainda mais estranho. E Doralice continuava:

— Ainda me enviam dinheiro toda semana num envelope. Já comprei comida, sabão de se lavar e tô até querendo compra um fogão, um fogão de verdade, com botijão e tudo menina. Além do mais, dona, tô cansada de vê criança morrê no meu colo, sem eu pode faze nada...sem remédio, sem nada! Esse ai vai ser o próximo! O casal de Perobeba gostou tanto do Gugu que resolveram levar o Guto também, né meu filho!

Virando-se para o menino de cinco anos e gritando em sua direção:

— Engole o choro moleque, e fica ai dentro pra não se sujar, porque sua família nova vai vir amanhã pra te levar!

Loucura, miséria...

De posse do endereço em Perobeba Rosa fez com que a gente seguisse na nossa missão pedagógica de busca ativa, com a promessa de que me daria um dia de folga durante a semana, o que ainda me renderia uma bela economia de combustível. O problema era que nem eu, nem ela, conhecíamos Perobeba. A única referência era Padre Fabiano, um jovem pároco que esteve à frente da igreja que ficava na praça perto da escola e havia sido transferido para lá já a alguns anos. Rosa achava tudo aquilo normal, e até relativizava. A mulher já havia perdido 5 filhos para a fome e a doença. Não queria ver os dois mais novos morrerem também. Aquele tipo de “adoção” era inclusive comum nos lugares mais pobres, e tinha até um nome bastante sugestivo, “à brasileira”.

O tempo começava a mudar, tornando o ar mais húmido, porém, não menos quente, e depois de 45 minutos de estrada chegamos em Perobeba. O lugar parecia um pouco mais desenvolvido, mas não passava de uma praça com 3 ou quatro ruas, todas calçadas com paralelepípedos. A velha igreja estava lá. Em estilo barroco, o barroco pobre, típico das regiões do Brasil que não se desenvolveram. A fachada pintada de branco banhada pelo sol evidenciava os caroços do emboço feito porcamente, e até os arcos eram visivelmente fora de esquadro. Enquanto bebíamos um pouco de água o jovem padre olhava desacreditado o endereço.

— Acredito que deva haver algum engano. Não existe nada nesse endereço. Apenas uma velha estrada que não passa nem carro de boi.

Mas Rosa com seus 20 e poucos anos e todo furor pedagógico nos fez ir até o endereço. O Padre percebendo a cilada se ofereceu a nos acompanhar.

A estrada era realmente horrível e os paralelepípedos deram lugar a um chão de terra esburacada. Os pastos sem fim, deram lugar a um mato alto muitas vezes invadia a estrada, e foi justamente no meio desse matagal que vimos primeiro uma cerca caída, e logo em seguida, ao longe, a grande casa da foto. Além da forma, nada mais lembrava aquela casa da fotografia. Estava abandonada e caindo aos pedaços. Tudo estava destruído. Portas, vidros, e até mesmo um pedaço do telhado havia desabado. Uma placa tão velha quanto a casa confirmava o endereço. Quando parei o carro nuvens pretas tomavam conta do céu, mas uma estranha luz de sol iluminava o lugar. Parecia que nada tinha vida por ali, nem um vento batia. Nem um ruído vindo da natureza. Por mim aquela busca tinha se encerrado ali, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa Rosa desembarcou e entrou pelo terreno. Padre Fabiano foi logo atrás, e pude perceber quando ele tirou do bolso uma pequena cruz de prata. Fechei o carro e fui atrás.

De um lado uma enorme figueira seca e retorcida com galhos brancos apodrecidos, e do outro, um pequeno espaço entre o mato que avançava selvagem pela cerca e a casa, formava um estreito corredor para os fundos, por onde seguimos, até que Rosa parou. O jovem padre apertou sua cruz contra o peito, e eu pude ver um pequeno cemitério familiar nos fundos da casa, desses que eram relativamente comuns aos mais antigos. Passei pelos dois me aproximando um pouco mais e pude perceber o chão duro se transformando em uma terra fofa debaixo de meus pés. Uma estranha energia correu pelo meu corpo. Diante da pedra que marcava o local do sepultamento observei uma pequena moldura com a foto em preto e branco. As peles brancas e sem vida contrastavam com as roupas e cabelos escuros do casal. A data de falecimento era de aproximadamente 70 anos. Ao lado 6 cruzes de madeira, bem mais modestas e a última com a terra ainda remexida. Presa nessa cruz uma pequena moldura, e atrás do vidrinho a foto do menino, pálido, de terninho, expressão séria e os olhos terrivelmente furados. Demorei alguns segundos ali, e quando me virei, Rosa e padre Fabiano ainda permaneciam paralisados. Não restava dúvidas, o menino estava morto e enterrado. E não havia mais nada que pudesse se fazer ali.

Sem trocar muitas palavras, e quase sem acreditar. Meu estômago se revirava. Aquilo parecia um pesadelo, mas era terrivelmente real. Precisávamos falar com Dora, e com as autoridades. Mas não conseguimos ir muito longe. Pouco antes de chegarmos a velha igreja para deixar o padre a chuva caiu. E caiu com força, alagando as estradas e interrompendo a comunicação, de forma que tivemos que nos abrigar na igreja, o que tornava tudo ainda mais exaustivo.

Assim como toda chuva de verão, no fim da madrugada ela estiou. Engolimos um café com pão e saímos nas primeiras horas do dia, antes mesmo do sol subir em um lindo céu azul. Apesar, de termos passado a noite em claro, parecíamos incrivelmente renovados. Seguimos para Nova Cidade para falar com Dora pela estrada enlameada. Tudo parecia muito estranho, aquela energia renovada criava um paradoxo a descoberta do destino do menino, e, que agora estávamos prestes a contar para aquela mãe. Mas nada foi mais estranho do que o alivio que senti ao chegar até a frente da casa de Dora, e ver que agora a velha casa se resumia a uma pilha de escombros, derrubada pela forte tempestade da noite, e debaixo dos escombros estavam todos mortos. Dora e seu único filho que restava. Não havia mais nada que pudéssemos fazer ali.


 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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