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Por Marcelo Sophos


Certa vez, como muitas outras, fui na casa de um amigo que ficava nas imediações da Glória-RJ, um bairro centenário que já teve seus auges. Chegou a ser a região com mais embaixadas na cidade do Rio de Janeiro, sendo considerado uma das regiões mais nobres da cidade, por conta da proximidade com antigas sedes imperiais do governo. A arquitetura, influenciada pela francesa, dão aquele ar de superioridade parisiense. Como as coisas mudam, no geral para a pior. Hoje é um bairro decadente da zona sul do rio, os moradores até buscam com as autoridades uma melhoria no local, ou eles mesmos em iniciativas próprias buscam conservar e arrumar uma coisa ou outra, apesar das dificuldades.


Sendo um bairro de conexão com o centro do rio, e como a maioria dos centros, é sujo, mal cuidado, praticamente abandonado, salvo nas “bolhas”, como ruas específicas, barzinhos cults descolados ou a bela Praça Paris. No geral o centro do rio é uma lixeira, repleto de moradores de ruas, prostituição, tráfico de drogas e claro pivetes cracudos oportunistas e ladrões em potencial. Volta e meia aparecem nos noticiários algum assassinato brutal por motivo banal. Sendo assim, algumas dessas loucuras urbanas acabam por se espalhar pelas adjacências dos bairros vizinhos como a Glória, Catete e Laranjeiras, como disse, é uma Zona Sul falida, e também sou cria dela. Apesar de tudo, como um sádico, a amo.


Meu amigo Gesus, esse era um dos últimos apelidos que recebeu, não apenas por sua aparência lembrar um messias latino americano com ar de boas graças, de pele branca e cabelos lisos, mas também por seu jeito humanista e pacifista; morava num apartamento bem em frente aos pontos de prostituição das mulheres trans (travestis como chamávamos, não por preconceito, mas pelo costume antigo, estávamos evoluindo ainda e não havia, se não me engano novos conceitos). Ao lado, alguns bares lotados por seu público fiel de trabalhadores sedentos por uma cerveja gelada depois de uma semana inteira de exploração. Virando a esquerda, na Rua Joaquim Silva, ficava o famoso Beco do Rato, caminho sempre certo quando rumávamos para a Lapa, a boemia carioca.


Fumamos um baseado venenoso da comunidade local, o morro Santo Amaro, um amigo havia feito o corre uns dias antes da PM fechar a favela. Chapados, seguimos nosso caminho. Íamos encontrar uns amigos numa espelunca de um sobrado caindo aos pedaços, próximo dos Arcos da Lapa. Lá sempre tocava uns hard rocks, heavy metal, punk, grunge, sempre nessa pegada do gueto e underground. Se a cidade é uma selva de pedra tem uns lugares que são pura barbárie.


Assim que descemos para rua, já fomos recebidos com um abrir de roupas de uma das meninas trabalhadoras da noite, revelando meio quilo de pica preta. Logo perguntou se queríamos fazer um programa a três. Apenas agradecemos o convite e seguimos sem nem olhar para trás para um dos bares do Beco do Rato, onde pegamos uma breja gelada e seguimos rumo ao nosso destino.


– Aqui é sempre assim. Já me acostumei, as que me conhecem de vista, sabem que sou morador e nem falam nada. – Sorria Gesus enquanto abria sua lata – A parada é sempre respeitar, ainda mais que eu moro aqui tá ligado.


– To ligado família. A parada é essa mesmo. Te falar, quem vai tá lá? Mosca vai? Andrezinho? Ele falou que tava com uma boa. Quero só ver!


– Cara, acho que babou pra ele. Deu mó merda. Última vez que soube ele tava pirado de tanto tomar chá de trombeta lá no Sana. – Gesus só balançava a cabeça. – Um outro camarada disse que foi fumar lá na casa dele, e ele não tava falando nada com nada. Surtou mano! Achava até que era mulher. Loucura total! Na real é melhor até ele não ir.


– Eita porra! Tu viu o doidão? – havíamos passado por um cara todo vomitado – Sextou família. Lapa já ta o fervo e nem é meia noite ainda. Mais que merda essa parada do Andrezinho, foda mano, tomar esses alucinógenos direto mexe com a cabeça, to fora. Desde aquela vez que nós tomamos Zabumba, ta ligado? Puta que pariu pior experiência da minha vida, nunca mais.


– Porra nem me lembra! To sequelado até hoje! Mas acho que vai tá um pessoal lá da filosofia do IFCS[1]. Banda maneira, meu primo toca nela. Sempre tem uma galera. – Gesus virou sua lata com vontade, estava uma noite quente típica do verão carioca.


– Pô, dependendo do clima, sei lá, se acabar cedo, to pensando em chegar lá no Garage, brotar lá na rua, no Zeca, sei lá. Uma mina gótica que to na pilha de pegar vai tá por lá.


– Nem vou, esses rocks são muito pesados pra mim. Mas cai matando família, mina gata? – Gesus ria. Eu sabia que ele não iria. Sempre ia sozinho pra Praça da Bandeira, mas encontrava uns colegas e primos de Caxias por lá.


Fomos trocando ideias, as ruas foram ficando cada vez mais lotadas. Passamos pelo famoso e hoje extinto Asa Branca, casa típica de forró. Algumas portas de entradas nos velhos sobrados, próximos a um dos pontos de ônibus, eram verdadeiros portais para inferninhos quentes, tocando seus funks e uns eletros da época, as luzes negras e vermelhas davam aquele ar obscuro. Uma vez entrei num desses lugares que cobravam 10 reais para entrar, nesse tempo um show maneiro custava uns 30 reais, ou seja, paguei caro. Adivinhem, me fudi, tinha porra nenhuma lá dentro, ninguém literalmente e dezenas de pessoas do lado de fora. Pensava que estava bombando, que iria me dar bem com alguma gatinha do funk. Só perdi minha grana. Acontece. Esse meu lado funkeiro fica para uma outra história.


Os Arcos da Lapa se destacavam ao fundo, para trás estava o Circo Voador. Haviam todos os tipos de pessoas circulando: playboys da alta sociedade carioca, zona norte, baixada fluminense, turistas de muitos países e Brasis, fora os encostos locais, espíritos que se perderam em drogas e bebidas que rondavam por lá. Simplesmente uma grande mistura de estilos, gêneros e classes. As ruas eram tomadas por carros barulhentos com seus sons altos, o trânsito lutava para andar e não atropelar um jovem bêbado que ainda aprendia a beber. Esqueci de mencionar o cheiro, não existiam banheiros, então a urina forte e fresca era constante, por vezes pulávamos seus rios ou poças que marcavam permanentemente os muros, pedras ou árvores, que adaptadas a acidez corrosiva, sobreviviam mais que colunas de concreto dos viadutos cariocas.


Atravessamos e chegamos na parte das barracas de comidas, ali o cheiro era maravilhoso, carne sendo crepitada na chapa para os deliciosos podrões, cachorros quentes, espetinhos de todos os tipos entre outras iguarias como macarrão instantâneo no estilo yakisoba. Até o fim da noite comeria um “completão da casa”, ou iriamos passar numa lanchonete quase 24h. Também tinham barracas de drinks com campirinhas coloridas e saborizadas com frutas, Gin, cachaça, rum, vermute, conhaque, tequila, vodka e uísque. Normalmente, as minas que compravam junto com o público LGBTQI+ ou algum ostentador que comprava energéticos de marca.


Chegamos ao gramado do outro lado da rua, já em frente aos Arcos, reduto do rock da galera da baixada fluminense. Sempre encontrava uns primos e amigos de Caxias ali. Vinho direto do galão. Suas camisas pretas de bandas, correntes, cabelos compridos, alguns emos, grunges, punks, davam o tom do “nosso território”. Fumamos com eles uns baseados, cigarros e uns goles de uma pinga braba sem rotulo que um rapaz de moicano semi-mendigo nos ofereceu em troca de fumar com ele.


Nas ruas, a política da boa vizinhança, da camaradagem e do fortalecimento, são fundamentais para sua sobrevivência. Saber chegar, respeitar e saber sair. Sempre que puder troque, mesmo que ideias, evita cara feia e um “não” mal colocado, mas não seja dado, pra não parecer otário. Pois o cheiro de trouxa e vítima, a malandragem sente de longe. Atividade sempre, ligado, pra não ser a bola da vez, nem pros canas, nem pras ruas. Como diria Bizerra, “malandro demais, vira bicho!”


As bandas que tocaram no sobrado foram épicas, o rock rolou solto, as rodas punks foram puro respeito. As minas góticas e da Era Vitoriana estavam lindas demais com suas correntes e aparências vampirescas, uma trevosa de olhar sedutor e cabelos loiros me fizeram logo desistir de ir para outro lugar. Batia cabeça no cover do Green Day como possuída por uma entidade maligna. Me apaixonei na hora.


Encontramos outros amigos: Esquerda, Fimose, Tim Maia (como ele dizia, o primeiro e único), Goathi, Cabelinhos de Anjo, Ronron, entre outros malandros que formavam nosso bonde. Os apelidos exóticos vinham das profundezas das almas atormentadas por seus traumas e características físicas, ninguém ligava, eram outros tempos. Tatau me passou uma dose de pinga, que viramos sem piscar feio. Curtimos a noite inteira. As trocas de beijos com a gata, as rodas tribais de punk e altos papos filosóficos existenciais sobre a vida pós a morte foram o tom da noite, até Nietzsche e a morte de Deus foram citadas por um camarada que cursava filosofia. Grande noite!


Peguei o contato da mina antes de perdê-la de vista, nem nos despedimos adequadamente. Se chamava Mariana, ou Mary. Anotei seu celular (não havia internet móvel ainda) e peguei seu número de ICQ (tipo Whatzapp dos anos 90 que só funcionava no computador. Fumamos nosso último baseado, mal apertado por sinal. Gesus babou severamente na confecção. Hoje em dia, virou gourmet, usa de sedas especiais e piteiras profissionais. Enfim, nos juntamos com os que iam embora.


A longa marcha dos bêbados! Era assim que chamávamos nossa caminhada de volta. Lapa sentido Laranjeiras. Vê no maps do Google: Arcos da Lapa, Av. Mem de Sá, Rua da Lapa, virou na Rua Joaquim Silva, Beco do Rato, Av. Angusto Severo, seguindo pela Rua da Glória, Rua do Catete e Lg. Machado. Íamos Gesus e eu largando os encostos pela jornada. Ele ficou ali pela Glória mesmo, as vezes eu caía na casa dele, não essa noite. No fim era apenas eu, solitário no último trecho. Feliz pela conquista da noite, com promessas de continuação. “Bom dia” sorria o porteiro que já estava acostumado a me acompanhar de quinta a domingo quando retornava como um zumbi para casa. Um Zumbi Sorridente.


Fim


[1] Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - IFCS/UFRJ

 
 
 

Por Carlos Douglas Martins Pinheiro Filho e Iago Menezes de Souza



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Nós podemos dizer: sobrevivemos... Não sem cicatrizes, mas chegamos até aqui. Foram quatro longos anos de governo Bolsonaro. Resistimos aos ardis, maquinações e golpes diários. Suportamos um cotidiano de angústia e medo, sentimentos que foram a moeda corrente desses tempos. De um governo cujo propósito reacionário era reverter as conquistas das lutas sociais que levaram à redemocratização, a Constituição de 1988 e a cidadania alcançada durante os governos social-liberais da nova república.

Foram 4 anos de ataques constantes à constituição, às instituições republicanas, aos direitos civis e sociais, especialmente à saúde, educação, cultura e segurança, ao meio ambiente, aos povos originários, às mulheres, aos LGBTQIA+, aos trabalhadores e às classes populares. Bolsonaro foi, essencialmente, um governo de terra arrasada. Cujo propósito político maior era extinguir a cidadania conformada pela lutas sociais desde a redemocratização, em conjunto com uma agressiva política econômica de viés neoliberal e entreguista, com a assinatura de Paulo Guedes, o Ministro da Economia.

O genocídio causado pelas ações criminosas do governo durante a crise sanitária da pandemia global de Covid-19, demonstra isso claramente: o Brasil registrou 11% do total de óbitos por Covid-19 no mundo, resultado que colocou o país como o 2º país com maior número de vítimas. Segundo o Relatório Final do Gabinete de Transição Governamental, do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Além das quase 700 mil mortes pela COVID-19, a pandemia exacerbou o quadro de deterioração da saúde, na contramão de melhorias substantivas que estavam em curso no país, com base na Constituição de 1998, a qual definiu a saúde como direito universal e possibilitou a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) para a sua efetivação”.

Na esfera pública, Bolsonaro vendia a imagem de um governante “heróico e patriota”, o “capitão do povo”, mas seu governo foi um desastre econômico e social para a maioria do povo brasileiro e um dos mais entreguistas da história. As milícias digitais de Bolsonaro utilizaram de propaganda, notícias fraudulentas e desinformação, veiculadas especialmente nas redes sociais, como instrumentos camuflagem dos objetivos sócio-econômicos centrais do governo sob o manto do patriotismo e da moralidade: impedir o desenvolvimento nacional e garantir o lucro do rentismo internacional. Como o próprio Bolsonaro confirmou, aos prantos, em sua última live como presidente: conseguiu atrasar 4 anos o Brasil.



Economia de terra arrasada

No campo econômico, Paulo Guedes, com aval de Bolsonaro, acelerou ao máximo as privatizações de empresas públicas, especialmente aquelas de cunho estratégico. Privatizaram a BR Distribuidora, cujo reflexo os brasileiros sentiram no bolso, com o encarecimento do preço dos combustíveis. Segundo Andreza de Oliveira, do Sindipetro, a BR Distribuidora hoje vai até onde o lucro é garantido, tornando-se seletiva e priorizando as grandes cidades, não se interessando por locais de difícil acesso, principalmente no Norte e no Nordeste.

O governo Bolsonaro também privatizou a Eletrobrás esse ano. Foi mais uma estatal do setor estratégico da energia cuja atividade influencia diretamente na vida do povo brasileiro. Para se ter uma ideia, segundo pesquisa do Instituto Datafolha, metade das famílias considera a conta de luz um dos maiores gastos mensais no orçamento familiar. O Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE) estima que a privatização da Eletrobras possa encarecer as tarifas em 25% nos próximos anos.

No contexto do governo Lula, é urgente reverter a venda da Eletrobrás para garantir uma política de preços e um mercado energético sustentável para os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Para Ikaro Chaves, da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema (Aesel) e do GT de Transição do governo do Presidente-eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reverter a privatização é “necessário, possível e urgente”.

Outra política que deve ser revertida é o processo de desmonte da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), empresa pública responsável pelos estoques estratégicos de alimentos. Segundo a ativista e pesquisadora Eliana Leite, “das 92 unidades armazenadoras cerca de 27 foram fechadas e se em 2012 os recursos movimentados pela empresa totalizaram R$ 600 milhões, em 2020 este montante não passou de R$ 15 milhões”.

O plano de recolonização seguiu afinado com os interesses dos mais ricos, nesse caso, os interesses estrangeiros ou também chamados de interesses do “mercado”. Bolsonaro garantiu a maior remessa de lucros para acionistas estrangeiros da história da Petrobrás através da manutenção da política de preços definida no governo Temer (MDB) e as indicações para a Presidência da empresa. Tudo sob pena de inflação, do empobrecimento e da fome dos brasileiros, mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia global e a guerra na Ucrânia.

Na política fiscal, em consonância com os interesses financeiros privados, a decisão do Copom em manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75%, tornou o Brasil o país com as maiores taxas de juros reais do mundo.



Jesus armado


Os efeitos da política econômica neoliberal de Bolso-Guedes já seriam muito deletérios para o país sozinhos, mas vieram em conjunto com a consolidação de um fenômeno social que mostrou capilaridade na sociedade brasileira para além do governo: o bolsonarismo. Por isso, a luta política necessária para o período não é somente aquela empreendida para mudar a política econômica do governo, mas aquela necessária às disputas específicas da hegemonia na esfera pública, na sociedade civil e nos campos sociais.

Muito desse ideário do “patriota, cristão e conservador” propalado bolsonarismo é também produto de uma americanização, pois vem da cultura evangélica estadunidense, a exemplo do discurso armamentista que associa a figura do “cristão branco” a um comportamento autoritário e violento.

A historiadora Kristin Kobes du Mez, em seu livro “Jesus e John Wayne: como o evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos”, apresenta que “John Wayne simboliza o homem viril que encanta e subjuga as mulheres. A figura do ‘macho como Deus o criou’, para o qual não resta outro lugar a quem se assumir LGBTQIA+ a não ser a não existência. Também não pode haver feministas, apenas mulheres que se derretem diante de um homem viril, com arma na mão para protegê-las e exigir-lhes submissão e sexo”.

Segundo Caio Liudvik, da Revista Cult, quando Nelson Rockefeller foi enviado por Nixon para América Latina, em 1967, com o propósito de investigar a Igreja Católica e a “ameaça comunista”, seu relatório sugeriu que igrejas evangélicas, financiadas por órgão do estado americano, como a CIA, fossem disseminadas para incutir nos fiéis uma religiosidade conservadora.

A ideologia, produto do desenvolvimento histórico do protestantismo branco nos EUA, promovida por igrejas evangélicas brasileiras e propagada pelo bolsonarismo, está diretamente associada a interesses econômicos nacionais e internacionais. Ao facilitar a compra de armas através dos grupos de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CAC’s) e realizar outras medidas de flexibilização, o governo contemplou as reivindicações da Bancada da Bala, favorecendo economicamente o comércio e a indústria de armas.

Na questão das armas, o discurso bolsonarista justifica a apologia da vingança e do uso ilegal da violência na ação do indivíduo “moralmente superior”, o “cidadão de bem”, alguém que possui uma legitimidade carismática, para além da legalidade racionalizada. Toda a construção simbólica do discurso bolsonarista está centrada no binômio violência e moralidade, o primeiro identificado como ato de liberdade necessário para defesa dos valores estabelecidos pela moral. O principal meio de garantir os “valores conservadores”, defender a “liberdade”, o “cristianismo”, a “tradição” ou “família”, seria a utilização da ação violenta com arma de fogo por parte do indivíduo moralmente superior, à revelia da lei, considerada “ilegítima”.

As armas de fogo que foram vendidas e circulam pelo território nacional, obviamente, não estão somente nas mãos das “pessoas de bem” em prol de defender a família e os bons costumes. Do contrário, tem abastecido o arsenal do crime organizado, de garimpeiros e das milícias. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Sou da Paz, de 2022, mostrou que em todo o estado de São Paulo são desviadas, em média, nove armas por dia: 46,2% das armas foram levadas de residências, 22% das vias públicas, e 14,4% de empresas de vigilância.



Big Data e extrema direita


A base de informações que alimentou as campanhas de Donald Trump (EUA), do Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Européia) e de Jair Bolsonaro foi conformada pela captura de dados pessoais de milhares de usuários do Facebook, vendidos para a Cambridge Analytica. Ou seja, é importante destacar que o bolsonarismo, mesmo em sua fase mais recente, de maior descolamento de sua base militante com a realidade, é produto de um laboratório empreendido pela extrema direita internacional.


Desde o princípio, a propaganda bolsanarista sempre teve como método a utilização da tecnologia Big Data, sob a direção de técnicos e empresas com experiência internacional. Utilizou as informações altamente detalhadas sobre os dados de usuários para direcionar a divulgação de ideias racistas, misóginas, homofóbicas, transfóbicas, anticomunistas e antiliberais, e promover o ódio à pobreza, o estímulo do medo ao outro, o discurso de ódio e teorias conspiratórias, a partir de notícias fraudulentas, distorcidas e mentirosas, com o propósito manifesto de causar uma dissonância cognitiva coletiva.

O bolsonarismo funciona como um “macartismo tabajara”, um QAnon dos trópicos, que é essencialmente um “frankenstein”: dá vida a fragmentos ideológicos nacionais e/ou transplantados, ressignificados na realidade brasileira e no novo contexto tecnológico, e propagandeados de maneira distorcida e fraudulenta. Uma costura de elementos próprios da cultura da classe dominante, da pequena burguesia nacional e de referências transplantadas, como a ideologia da classe média branca evangélica estadunidense, ideologias neoliberais, neofascistas e teorias conspiratórias.


Por conta do repertório caótico e multifacetado, o bolsonarismo se prolifera em todos os segmentos de classe da sociedade brasileira, mas tem maior aderência entre elementos mais ressentidos, fanáticos, ignorantes e perversos. Porém, os contornos específicos desse fenômeno decorrem do contexto sociotécnico da contemporaneidade, da difusão da tecnologia digital e das redes sociais, fazendo surgir o que o professor da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, chama de “midiosfera extremista”. Um sistema de comunicação que se baseia em desinformação e em teorias conspiratórias para gerar narrativas polarizadoras, composto por cinco elementos: corrente de Whatsapp, canais no Youtube, redes sociais em geral, aplicativos e a mídia amiga (como a Jovem Pan e a Rede Record, por exemplo).


As informações vazadas sobre os usuários de redes sociais permitiram a extrema direita criar uma propaganda direcionada para públicos muito específicos, aproveitando a tendência das redes sociais em criar bolhas ideológicas e de informação a partir da nucleação dos perfis em grupos de afinidade e esvaziamento do debate público mais amplo no conjunto da sociedade. Ao serem englobados pela midiosfera extremista, os indivíduos passam a se (des)informar exclusivamente por lá, rejeitando qualquer informação que venha de outra instância, resultando numa dissonância cognitiva coletiva, como apresenta o professor Rocha.


As redes sociais também se tornaram uma ferramenta política de pastores de igrejas evangélicas, que, em alguns casos, buscam apenas enriquecimento e poder, para isso procuram manter os fiéis alienados para melhor serem explorados. Não por acaso, a Bancada da Bíblia, composta de religiosos que abandonaram os cultos para disputar o poder, ingressou ativamente nas fileiras do bolsonarismo e tornou-se um celeiro de líderes para o movimento.


Até o neonazismo teve um incremento exponencial durante o governo Bolsonaro. Para se ter uma ideia, entre 2019 e 2021, segundo a antropóloga Adriana Dias, houve um crescimento de 270,6% de células neonazistas no Brasil. O atentado em Aracruz é o resultado trágico das consequências da disseminação de ideias nazistas, do discurso de ódio e da banalização da violência pelo culto às armas.



Ataques à cultura e censura


Segundo o levantamento do grupo Mobile (Movimento Brasileiro Integrado pela Liberdade de Expressão Artística), durante os três primeiros anos do governo Bolsonaro foram registrados ao menos 211 casos de censura, desmonte institucional do setor cultural e autoritarismo contra as iniciativas culturais. A maior parte das ocorrências totais de ações contra a cultura, 192 casos, partiram do Poder Executivo. Durante o governo Bolsonaro, o Ministério da Cultura (MinC) deixou de existir e se tornou uma secretaria subordinada ao recém-criado Ministério da Cidadania, que foi comandado pelo deputado Osmar Terra (MDB-RS).


Dentre todos os absurdos que marcaram a gestão Bolsonaro na área de cultural, de extinção do ministério a criação de uma pasta que teve 6 secretários diferentes em 4 anos, gostariamos de destacar o que nos pareceu mais grave: quando Roberto Alvim, usou trechos de um discurso do ministro de propaganda na Alemanha Nazista, Joseph Goebbels, para divulgar o novo programa do governo de Jair Bolsonaro para a Cultura, o Prêmio Nacional das Artes.


A Lei Rouanet, vale lembrar, é um mecanismo de parceria público-privado, realizada no sentido do espírito liberal da Constituição de 1988, cujo propósito visa criar mecanismos de isenção fiscal como forma de financiamento de projetos e atividades culturais, fomentando a indústria do entretenimento e da cultura. Bolsonaro e seus aliados, que atacam diariamente projetos financiados a partir da Lei Rouanet, usam o expediente moralista para promover segmentos da indústria cultural que não tem tradição e/ou não utilizam a lei como principal forma principal de financiamento.


Por exemplo, uma parcela dos cantores sertanejos, especialmente os mais ricos, como Gusttavo Lima, sempre optaram por contratos mais frouxos com prefeituras, onde não precisam do detalhamento orçamentário que a lei exige e não há limites para seus cachês pessoais. No início de 2022, um escândalo de corrupção, ainda sem um desfecho, revelou o envolvimento do cantor sertanejo Gusttavo Lima no pagamento de 1 milhão de reais por show pela Prefeitura de Magé (RJ).



Passou a boiada no meio ambiente


Eleito em 2018, Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto e as promessas de mudanças nas políticas ambientais começaram a ser colocadas em prática. O ISA (Instituto Socioambiental) publicou, em janeiro de 2019, uma análise de medidas provisórias (MPs) e decretos implementados nos primeiros dias da gestão de Ricardo Salles e constatou que foi produzida, no meio ambiente, a mais drástica reestruturação de órgãos governamentais desde o governo Collor (1990-1992). Outro movimento a ser ressaltado é a transferência do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para o Ministério da Agricultura, o que vem dificultando o combate aos crimes ambientais.


O Relatório Final do Gabinete de Transição Governamental, do Presidente-eleito Luiz Inácio Lula da Silva: “O governo Bolsonaro promoveu um desmantelamento deliberado e ilegal das políticas públicas, marcos regulatórios, espaços de controle e participação social, e órgãos e instituições públicas ligadas à preservação das florestas, da biodiversidade, do patrimônio genético e da agenda climática e ambiental”.


A política agressiva contra o meio ambiente foi coordenada com os ataques sistemáticos aos povos originários: “As comunidades e povos tradicionais foram perseguidos ou esquecidos, em total desconhecimento acerca de sua importância para a proteção da biodiversidade brasileira e a atração de financiamentos e doações internacionais com foco em sustentabilidade ambiental e social”, prossegue o relatório, que destaca a necessidade urgente de mudança na política indígena e ambiental.


O desaparelhamento das instituições se torna ainda mais preocupante se considerado que, segundo a análise do Instituto Socioambiental (ISA), os índices de desmatamento em Áreas Protegidas durante o Governo Bolsonaro representou o maior retrocesso ambiental do século, com um aumento de 94% no desmatamento, se comparado com os anos anteriores da gestão.



A esperança limitada


Nos últimos anos, Lula tornou-se uma esperança para derrotar Bolsonaro, que, àquela altura, converteu o estado brasileiro um instrumento direto de seus interesses próprios, de seus financiadores e aliados. Porém, a estratégica e a tática necessárias para o governo Lula, em 2023, devem ser completamente distintas daquelas construídas no contexto das candidaturas de Lula em momentos históricos passados, ou mesmo no contexto dos governos de Lula de 2002 ou 2006.


O governo Lula é uma esperança para retomar as conquistas sociais estabelecidas durante a abertura política e a nova república. Retomar o espírito da Constituição de 88, o fortalecimento do real, o crescimento econômico, a valorização do salário mínimo, os programas sociais e o fim da fome. Uma esperança limitada de retomar o curso da história do ponto onde Bolsonaro nos desviou, dar um passo para frente depois de ter dado dois para trás. Afinal, Bolsonaro manteve ataques constantes as instituições com o propósito de facilitar a desestruturação da cidadania estabelecida no contexto pré-golpe de 2016, retirando, limitando ou inviabilizando o acesso à direitos civis, políticos e sociais, enquanto na economia Paulo Guedes executava o plano econômico que levou o Brasil novamente ao mapa da fome.


Para conformar um governo de unidade nacional, Lula compôs chapa com o ex-Governador de São Paulo pelo PSDB, Geraldo Alckmin, agora filiado ao PSB, como Vice-Presidente. A tática eleitoral da candidatura de Lula foi a da frente ampla, congregando amplos setores políticos, como socialistas, social-democratas, nacional-desenvolvimentistas e liberais democráticos, em torno da retomada de um governo de cunho social-liberal.


Porém, na eleição, tudo estava colocado para a vitória de Bolsonaro. Primeiro que Bolsonaro disputava a reeleição, tendo o seu governo e a máquina pública como plataformas eleitorais. Além disso, sua candidatura foi maciçamente patrocinada por doações privadas milionárias, dos 108,2 milhões de reais recebidos pela campanha, 88,2 milhões foram repassados por doações individuais .

A disparidade entre as duas campanhas podia ser sentida de maneira direta na oferta de publicidade na internet, nas propagandas patrocinadas no YouTube e demais redes, conjugadas as ferramentas de disparo automático e utilização de robôs que deram um volume publicitário imenso a Bolsonaro na internet. A campanha de Lula, que também foi uma campanha milionária, seguiu um curso mais orgânico com a participação e apoio voluntário de uma parte significativa dos apoiadores.


Os debates na TV aberta foram o reflexo grotesco de umas das campanhas mais “sujas” da história do Brasil, marcada por ataques pessoais, acusações e ofensas. Bolsonaro conseguiu fazer terra arrasada do debate público nacional, reduzindo a pauta a notícias fraudulentas, mentiras, calúnias e teorias conspiratórias.


Mesmo assim, Lula venceu. Contra todas as possibilidades, como o uso ilegal das instituições, como o uso da Polícia Rodoviária Federal para bloqueio de estradas, a compra de votos com o Auxílio Brasil, a liberação de crédito consignado e todas as prevaricações que Bolsonaro utilizou como expediente. Lula venceu, nós vencemos, os trabalhadores brasileiros venceram!



E agora?


A vitória de Lula foi suficiente para retirar Bolsonaro do controle imediato do Estado brasileiro, interrompendo sua iniciativa golpista. Isolado, não conseguiu até o momento superar o fracasso eleitoral e permanece silenciado pela expressão do desejo das urnas. Seria prematuro especular sobre o futuro de Bolsonaro como líder de oposição, mas o fato é que, pela primeira vez em 30 anos, depois de uma vida pública marcada por polêmicas e suspeitas, estará sem a cobertura do foro privilegiado.


O último anúncio de Bolsonaro é que não passará a faixa presidencial e irá tirar férias na Flórida, nos EUA, no condomínio Mar-a-Lago, em Palm Beach, que abriga um resort de luxo e cujo proprietário é o ex-presidente Donald Trump. O que pode ser interpretado tanto como uma ação de refúgio, com relação a perseguição judicial que possa ocorrer da investigação de seus crimes, quanto um movimento de reorganização em conjunto com o núcleo Trump-Banon da internacional neofascista.

O bolsonarismo, entretanto, dá demonstrações de não só continuará a ser um fenômeno político-social preocupante, como indica que o caráter fanático e reacionário tem potencial para converter parte de suas fileiras ao terrorismo. Recentemente, na véspera de Natal, a prisão do terrorista George Washington de Oliveira Sousa, que colocou bombas em Brasília com o propósito de “instaurar o caos”, para levar a decretação de estado de sítio e “provocar a intervenção das Forças Armadas”; e a afirmação dos policiais de que plano foi realizado no acampamento bolsonarista em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília; dão uma clara indicação daquilo que o bolsonarismo pode se tornar.

A vitória eleitoral de alguns dos principais quadros do bolsonarismo parlamentar deve garantir uma sobrevida ao movimento, seja pela manutenção de sua capilarização financiada pelos aparatos parlamentares ou pelas eventuais disputas sucessórias que ocorrerão no seu interior. Mas o que será do bolsonarismo sem o Bolsonaro, com um Bolsonaro derrotado ou um Bolsonaro de oposição, ainda não sabemos. O envolvimento dos bolsonaristas com o recente caso de terrosimo irá servir como elemento jurídico importante para desarticulação (ao menos parte) do movimento, mas na verdade tudo dependerá de como a questão será conduzida na justiça, e como a sociedade civil e a opinião pública receberão essas ações.

Porém, importante destacar, o neofascismo não é um fenômeno nacional, apesar do discurso nacionalista. O neofascismo corresponde a uma articulação geopolítica internacional para exercer uma hegemonia global, e se tornou a ideologia oficiosa não só de partidos, mas de empresas, estados, órgão de estados, forças armadas e polícias, de diferentes nações no planeta. O bolsonarismo é um movimento neofascista brasileiro que também está sob a influência financeira e ideológica de grupos estrangeiros, especialmente do trumpismo.


A eleição de Lula renovou as esperanças dos militantes mais céticos, mas essa esperança não pode cegar-nos para os imensos desafios pela frente. O governo Lula não será uma frente popular, e sobre ele não se aplicam teorias pré-fabricadas dos revolucionários europeus do início do século XX. A conjuntura que se abre exigirá um esforço estratégico crescente e um profundo trabalho de base no movimento social, ainda mais numa sociedade onde a propaganda é tão acessível e ocupa grande parte da atenção das massas, por intermédio dos aparelhos celulares.

O governo Lula é um governo de unidade nacional, cuja potencialidade principal é permitir salvar as estatais estratégicas da pilhagem privatista, retomar a industrialização, retomar o desenvolvimento e, principalmente, restabelecer o contexto da cidadania pré-golpe de 2016. Isso pode possibilitar que partidos e movimentos sociais tenham condições para retomar o trabalho de base junto a trabalhadores, estudantes e camponeses, por um programa popular. Qualquer avanço real, no sentido da conquista de direitos, necessitará de uma mudança na correlação de forças e a reorganização do movimento de massas dos trabalhadores. As desigualdades sociais, o racismo, as desigualdades de gênero, a destruição ambiental, são cenários que não serão alterados com a mera derrota eleitoral de Bolsonaro.

Neste sentido, o espírito da luta política nos próximos anos precisa, mais do que nunca, da máxima do pensamento de Gramsci: "pessimismo da razão, otimismo da vontade". Consideramos fundamental o pronto apoio ao governo Lula, garantindo com nossa militância política a legitimidade e a estabilidade necessárias para a conclusão do mandato. Além das questões do governo, o campo progressista precisa dedicar igual empenho e atenção ao trabalho de base junto aos movimentos sociais. Será essa politização no “chão de fábrica” que definirá os rumos das lutas político-sociais dos próximos anos.

 
 
 

Atualizado: 9 de jan. de 2023

Por Leila Maribondo Barboza

REVISTA MENÓ | 5° edição | Meio Ambiente




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Estamos em dezembro de 2022, e sabemos que o debate sobre a crise climática não é de hoje. Para além de ser um problema recente, os desdobramentos decorrentes das mudanças do clima condicionam a vida no planeta e possuem múltiplas dimensões. A insegurança alimentar e hídrica, os sistemas alimentares, as desigualdades de gêneros e raça/cor e a divisão social, sexual e racial do trabalho são alguns dos fatores que se fazem necessários identificar para compreender de que maneira o capitalismo é tensionado nos diferentes relevos sociais, culturais, políticos e econômicos, caracterizando suas especificidades.

Os impactos climáticos aprofundam as desigualdades de gêneros enraizadas historicamente, as quais se agravaram com a pandemia da COVID-19. Dados da ONUMulheres sinalizam que “as mulheres e meninas enfrentam maiores obstáculos à adaptação ao clima, repercussões econômicas desproporcionais, aumento dos cuidados não remunerados e do trabalho doméstico, e maior risco de violência devido aos impactos agravantes da crise”. Estudos apontam que são as mulheres que compõem a maioria da força de trabalho na produção mundial de alimentos, ao passo que apenas a minoria tem acesso à terra, ou seja, aos meios de produção. Em situações de desastres ecológicos, também são as mulheres as mais atingidas.


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Incêndio florestal. Foto: VanderWolf Images / Shutterstock.com


Segundo o II VIGISAN (Rede PENSSAN), em tempos de crise socioambiental, “a fome deve ser enfrentada em sua multifatorialidade”, substanciada com ações que se voltem para as mudanças dos sistemas alimentares que coadunem com a redução dos impactos sobre as mudanças climáticas. Assim, sendo de suma importância a construção de uma economia sustentável, pautada no cuidado com a saúde pública, na justiça e equidade social. O II VIGISAN (Rede PENSSAN) revela ainda que, em 2021/2022, variáveis como raça/cor e gênero foram determinantes no espectro das desigualdades. Os acessos à saúde, educação e outros bens e serviços apresentavam-se reduzidos quando analisadas as famílias chefiadas por mulheres: “mais de 6 em cada 10 (63,0%) domicílios com responsáveis do sexo feminino estavam em algum nível de IA [insegurança alimentar]. Destes, 18,8% em situação de fome” (II VIGISAN/ Rede PENSSAN). Em compasso à desigualdade de gênero, o estudo revela que 6 de cada 10 domicílios cujos responsáveis se identificavam como pretos ou pardos viviam em algum grau de insegurança alimentar.


A inflação dos preços dos alimentos e o desmonte de políticas públicas adensam o crescimento da pobreza e acentuam ainda mais as desigualdades. A fome tem endereço, e afeta, sobretudo, grupos historicamente colonizados. Estudos apontam que a população negra é a mais prejudicada quando o assunto é segurança alimentar e hídrica. A fome atinge mais as famílias que “têm mulheres como responsáveis e/ou aquelas em que a pessoa de referência (chefe) se denomina de cor preta ou parda”, analisa II VIGISAN (Rede PENSSAN)


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Agente de saúde distribui máscaras na periferia do Recife (PE) (Agência Câmara de Notícias)


Dados da pesquisa realizada por Walter Belik (Instituto Ibirapitanga/ IMAFLORA/ Instituto Clima e Sociedade) revelam que 16,5 milhões de famílias (24%) possuem renda mensal de até 2 salários mínimos, sendo a base da pirâmide social, enquanto 2,7% possuem renda mental per capita acima de 25 salários mínimo. A desigualdade se reproduz quando o assunto é acesso à alimentação. “Nas famílias que ganham até 2 salários mínimos, o gasto médio mensal com alimentação por pessoa — dentro e fora de casa1 — é de R$120,86. Já nas famílias acima de 25 salários mínimos, para cada pessoa são gastos R$671,45 por mês”, afirma estudo. Proporcionalmente, o desvelar também é desigual e ainda mais grave no que tange do impacto da alimentação no orçamento das famílias: “enquanto nas mais ricas o gasto representa só 5% da renda total, entre as famílias mais pobres a comida tem um peso enorme: 26%” (Walter Belik/ Instituto Ibirapitanga/ IMAFLORA/ Instituto Clima e Sociedade)


Índices do Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e Caribe revelam que as mulheres são as mais propensas a se encontrarem em situação de pobreza, sobretudo quando o lar tem a presença de crianças, perfazendo um quadro de feminização da pobreza. Segundo dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticos (COPPE/ UFRJ), são as mulheres que constituem a maioria da população mundial pobre, sendo mais vulneráveis no contexto das mudanças climáticas. O acesso desigual de mulheres aos recursos, sobretudo em zonas rurais, perfaz uma trama desproporcional na participação e tomada de decisões em todos os âmbitos. Isto é, não se pode combater a pobreza, sem combater a desigualdade de gênero, e em igual passo, aos impactos das mudanças climáticas. Em comum perspectiva, o Acordo de Paris (artigos 5º, 231º e 232º, 2015) indica, inclusive, que não se pode construir políticas climáticas sem considerar os fatores humanos, e atenta para a participação popular e as necessidades específicas de mulheres e povos originários.



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Mulheres trabalhando com cultivos


É conhecida a centralidade das mulheres na luta pela preservação da vida e redução dos efeitos da crise climática. Correntes feministas sugerem ainda o conceito de “economia do cuidado”, baseado no cuidado diário com a própria comunidade e com a natureza, como um modelo de integração e reconstrução vital do sistema econômico. A recuperação econômica com a sustentabilidade, economia solidária, agroecologia e outras possibilidades de desenvolvimento resiliente ao ambiente apontam para a importância da igualdade de gênero na condução dessas políticas.


Vale destacar que é necessário haver a promoção da participação das mulheres nas ações climáticas: somos agentes importantes nesse processo de mudança, tanto no apontamento de estratégias de desenvolvimento sustentável quanto na implementação e monitoramento dessas políticas. Eventos internacionais como a 27ª sessão da Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 27), que ocorreu em novembro desse ano, no Egito, e a 66ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), apontam que alcançar a igualdade de gênero e empoderamento de mulheres é tema prioritário no cenário de crise climática e alcance para o desenvolvimento sustentável.



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Nós, mulheres, temos ciência das muitas e diferentes mazelas históricas que insistem em nos ceifar todos os dias. Chegar até aqui e trilhar sonhos e caminhos possíveis é vitória de todas nós, e identificar, desconstruir e superar os elementos culturais presentes nos cotidianos que nos limita a todo instante aponta para uma resistência e para pensarmos juntas/os/es soluções de um mundo melhor.




 
 
 
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