top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

ree

Num território onde a arte sobrevive na contramão da política pública, resistir é criar.


E criar, na Baixada, é uma forma de respirar. No meio do concreto, do fluxo da condução e do esquecimento institucionalizado, germina uma das mais potentes iniciativas culturais do estado do Rio de Janeiro: o Espaço Cultural BXD IN CENA. Localizado em São João de Meriti, o espaço completa seu primeiro ano de vida com uma agenda intensa de celebração — e de reafirmação daquilo que já sabíamos: a Baixada não só produz cultura, ela é cultura.


Na cidade que possui um teatro, um museu e um histórico robusto de repressão às expressões culturais de rua, o BXD IN CENA é uma anomalia bonita. É sopro no deserto, é chão firme onde antes era só areia movediça. É rota alternativa.


ree

“O que temos nos basta”, diria mais tarde seu idealizador.

E basta mesmo. Basta para virar referência, para juntar gente, para mostrar que a margem pulsa.



Jéz, o nome por trás da sigla


Jéz é cantor, compositor e multi artista da Vila Ruth — bairro encravado no coração de Meriti. Mas é também mais que isso: produtor, agitador cultural, visionário. Quando criou o “Jéz Convida”, não pensava que ali germinava algo maior. Era só um convite aos amigos para tocarem junto com sua banda. Mas logo o movimento ganhou vida própria.


“Um dia eu virei pra mim mesmo e disse: ‘po, existem vários eventos acontecendo pela Baixada. E se a gente for neles e perguntar o que a galera tá achando?’”.

ree

Dali surgiu o site, o blog, a agenda cultural, o Prêmio BiC — e por fim, o Espaço BXD IN CENA.


Mas nada veio fácil.


“No início, era eu, Fijó e Bea Domingos, com uma câmera de celular e um microfone. Rodávamos 13 municípios da Baixada entrevistando a galera. Depois ficou só dois, depois só eu. Ia com a câmera, pedia pra se virarem nas entrevistas, depois eu mesmo editava. Famoso bichão memo.”

O Espaço BiC: casa de quem nunca teve casa


A vontade de ter um espaço fixo veio da dor. Da ausência.


“Perdemos as casas de show autorais. Hoje só vemos lugares com projetos covers. Não dava mais pra esperar.” 

O Espaço BXD IN CENA nasceu, então, como uma necessidade de se firmar enquanto território de criação — e não apenas de consumo. Num ano de existência, foram dezenas de saraus, slams, oficinas, exposições, shows e cineclubes.



ree

Mais do que lugar de evento, é lugar de encontro. 


“Temos mais de mil livros doados desde que criamos a campanha ‘traga um livro e leve outro’. Hoje virou rede de trocas e doações.” 

E quando o dinheiro aperta — como aperta sempre — o espaço vira bar pra seguir funcionando. 


“Às vezes confundem a gente com bar, mas é só o jeito que achamos de sustentar o corre.”

Prêmio BiC: um Grammy da favela


Celebrar também é político. E por isso o Prêmio BiC não é só um prêmio. É território. É um aplauso preto, periférico e popular. 


“Tivemos gente indicada ao Grammy Latino que se emocionou mais ganhando o BiC. Teve artista que tocou em Berlim e chorou no palco aqui. É isso que queremos: mostrar que aqui também é lugar de vencer.”

O Prêmio nasceu com a proposta de abarcar diversas expressões artísticas — música, cinema, artes visuais, fotografia.


“Lotamos o espaço. Um lugar pra 50 pessoas com mais de 300 querendo entrar. É a prova de que pertencimento ainda vale alguma coisa.”

ree


A Baixada como vanguarda invisível


“Infelizmente a gente tem que ser melhor que a gente mesmo todos os dias”, dispara Jéz.

ree
“Mas a Baixada é o motor invisível da cultura carioca. Vai ver o line-up do Rock The Mountain, Lollapalooza, Circo Voador... sempre tem um baixadense lá. A gente tá nos beats, nas backing vocals, nas produções. O que falta é que os olhos se virem pra cá.”

E é isso que o movimento BXD IN CENA vem fazendo: colocar holofote onde o Estado só jogou breu. Marcar na pele, no user do Instagram, no nome da cena: BXD.



Celebração de 1 ano: uma semana pra não esquecer


Entre os dias 13 e 17 de maio, o BXD IN CENA realiza uma semana intensa de atividades gratuitas. Tem DJ, tem poesia, tem MPB (Música Popular da Baixada), tem arte de rua, tem mostra de lambe, tem roda de conversa. Tem o corpo e a alma da cena.


📌 MPB – Música Popular da Baixada 📅 Quinta, 15/05 – Com artistas de samba, soul, rap acústico, R&B e mais. 


📌 BXDELAS 📅 Sexta, 16/05 – Line 100% feminino, sob curadoria de Lohanna Alves.


“A ideia é celebrar esse um ano mostrando o que a gente tem feito: dar voz, visibilidade e dignidade artística pra quem constroi a Baixada todos os dias com arte.” — Jéz

SERVIÇO

📍 Espaço Cultural BXD IN CENA Rua Prata, 35 – Coelho da Rocha, São João de Meriti, RJ

📅 Semana de Celebração: 13 a 17 de maio 

📱 Instagram: @bxdincena 



PIVETE ENTREVISTA JÉZ


“A Baixada não quer favor. Quer chão pra pisar.”

A frase final dita por Jéz ainda reverbera depois de nossa conversa.


No seu timbre calmo e olhar firme, há uma mistura de cansaço e força – típica de quem vive da e para a arte na periferia.


Fundador do Espaço Cultural BXD IN CENA, artista múltiplo, produtor, cantor e criador do Prêmio BiC, Jéz nos recebeu dentro do próprio espaço, numa manhã em que a casa ainda carregava o cheiro da última apresentação da noite anterior. Essa entrevista é mais que um bate-papo: é uma caminhada pelos bastidores de uma revolução cultural silenciosa que pulsa no coração da Baixada Fluminense.

ree

Pivete – Antes de tudo: como o BXD IN CENA nasceu?


Jéz – O BXD IN CENA começa lá atrás, com o “Jéz Convida”. Era um projeto em que eu recebia artistas da região pra cantar comigo. Era meu show com convidados, sabe? Eu me apresentei em vários espaços, especialmente em Caxias, e fui sacando que essa coisa do artista da Baixada encontrar outros artistas da Baixada tinha uma potência muito única. E foi daí que nasceu a vontade de fazer o blog, de registrar isso. Eu, Fijó e Bea começamos com um celular e um microfone, rodando a Baixada inteira, de Queimados a Magé, fazendo cobertura de eventos. E era doideira, porque a gente ficava editando, postando, divulgando, e às vezes nem dava tempo de respirar. Aos poucos, o grupo foi se desfazendo, e eu segui sozinho. Foi resistência mesmo, porque a parada só crescia e eu não queria deixar morrer.



Pivete – E o nome? Por que “BXD IN CENA”?


Jéz – Eu queria um nome que fosse um grito. Sabe? Que dissesse: “A Baixada está em cena!”. E não tá em cena como coadjuvante, nem como exceção, nem como caso raro. Tá em cena porque é potência. Porque pulsa. O “IN CENA” era esse chamado. De aparecer. De não ser mais apagado. De dizer “estamos aqui”. Não tem nada de inglês bonitinho, não. É identidade mesmo.



ree

Pivete – O Espaço Cultural surge a partir disso, né?


Jéz – Total. A gente fazia a cobertura, o blog, organizava o Prêmio BiC… mas sentia falta de um lugar físico. Porque o que a gente via era isso: os bares autorais estavam fechando, os artistas da Baixada não tinham onde tocar, os espaços que existiam tinham um custo altíssimo, ou eram em lugares que não respeitavam a identidade da gente. Então a ideia era ter um espaço pequeno, mas nosso. Começamos sem dinheiro, com o que dava. Puxamos na unha. Fizemos campanha, vendemos coisa, pegamos empréstimo. E nasceu. A inauguração foi uma loucura. Mais de 150 pessoas num lugar que mal cabia 40. Mas foi lindo demais. Parecia que todo mundo tava esperando por aquilo há anos.



Pivete – E o Prêmio BiC?


Jéz – Ah, o BiC é uma parada muito especial. A ideia era reconhecer quem faz. Porque a gente se cansou de ver artista da Baixada ser premiado fora, aplaudido fora, e ignorado aqui. E tem muito artista foda aqui. Gente que faz com nada, que movimenta, que forma outros. O BiC não tem grana, não tem glamour. Mas tem respeito. E é isso que importa. Já teve artista indicado ao Grammy que falou que se emocionou mais ganhando o BiC. Isso me destrói por dentro. Porque é isso: quando a gente se reconhece, a gente se fortalece.



Pivete – E os desafios?


Jéz – Cara, são muitos. A gente não tem apoio do poder público, não tem patrocínio fixo, não tem isenção de nada. E ainda tem que lidar com burocracia, com preconceito, com a lógica do “ah, mas isso é só um barzinho”. A galera não entende que isso aqui é um centro cultural. A gente faz formação, faz oficina, faz mostra, faz festival. A gente vira bar às vezes pra pagar as contas. Mas não somos um bar. Isso aqui é resistência, é cultura viva. Tem dia que a gente fecha no prejuízo. Tem dia que enche de gente e falta copo, falta cadeira, falta tudo. Mas não falta vontade.



ree

Pivete – E como você segura isso tudo?


Jéz – Tem dias que não dá. Já pensei em fechar várias vezes. Mas aí vem alguém e fala: “Jéz, foi a primeira vez que toquei meu som autoral” ou “Foi a primeira vez que minha mãe me viu no palco”. Aí eu choro. E lembro por que comecei. A Baixada não pode mais esperar. A gente já esperou demais.



PiveteO que você sonha daqui pra frente?


Jéz – Eu quero estrutura. Quero que esse espaço vire referência de política pública. Que inspire outros. Que vire projeto de formação. Que a gente consiga registrar tudo, lançar um livro, um documentário. Que a gente tenha patrocínio pra respirar. Eu quero que a arte daqui tenha chão firme. Que a gente não dependa mais da sorte ou da boa vontade. Quero que o BXD IN CENA seja um legado.



Pivete – E se você pudesse resumir tudo isso numa frase?


Jéz – A Baixada não quer favor. Quer chão pra pisar.


ree

Num tempo em que ser artista na Baixada ainda é um ato de resistência, o BXD IN CENA nos lembra que arte não é só sobrevivência — é também festa, política e futuro.


E a Baixada, meu amor, nunca foi ausência. É potência.




 
 
 

ree

No cenário musical independente da Baixada Fluminense, onde a arte brota entre escombros de abandono e pulsa nas frestas do cotidiano, surge Além do que se vê, EP de Jxão e Sabat. Mais que uma obra musical, o disco é um manifesto íntimo que revela as camadas invisíveis da mente ansiosa, ao mesmo tempo em que denuncia, com poesia e sensibilidade, os silêncios impostos à juventude periférica.


O trabalho, com cinco faixas que se encadeiam como cenas de um curta-metragem nunca filmado, é uma imersão emocional na montanha-russa psíquica de quem sente demais num mundo que pouco escuta.


Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

Jxão, oriundo do Parque Eldorado, Duque de Caxias, carrega nas letras a urgência de quem cresceu em um território onde a ausência do Estado é tão presente quanto os sonhos que insistem em sobreviver. Ao lado de Sabat, produtor da mesma região, os dois fundam a Efígie, produtora e gravadora independente que não apenas abriga o EP, mas simboliza a materialização de um corre coletivo, artesanal e afetivo.


A proposta do projeto é clara desde o princípio: dar forma a um ciclo de ansiedade com honestidade emocional. A abertura com "Copão de 700" é envolvente — um funk dançante, repleto de elementos reconhecíveis da festa, da rua, da curtição, mas que esconde nas melodias uma tristeza latente. É o início do ciclo: o extravasamento que camufla a inquietação interna, o corpo que dança enquanto a mente grita.



Sabat define com precisão esse contraste: “mesmo sendo um som animado, as melodias puxam pra um lado mais triste”.

O beat é ambivalente, e é nesse ponto que reside sua força — como um sorriso que antecipa a queda.


Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

A segunda faixa, "Sobre Viver", mergulha no momento da crise. Aqui, a sonoridade escurece, as reflexões se adensam, o peso das palavras se alinha ao peso do beat. A ansiedade, antes dançante, agora é sufocante. A vida, enquanto sobrevivência, exige esforço constante, e a faixa dá conta de transmitir essa tensão. É um momento em que o rap reencontra sua primeira função: ser denúncia e desabafo, ser verbo que escancara aquilo que é negado. Jxão mostra domínio técnico e emocional ao trazer essa vivência de forma não caricata, mas real, próxima, familiar a quem sente o mundo de forma acelerada.



No meio do EP, "Oração (interlúdio)" marca o ápice da crise. É uma faixa experimental e imersiva: trovões, chuva, batidas cardíacas — o som pulsa como um corpo em colapso. Mas, ao final, a calmaria. O que começa como desespero vira silêncio. Não se trata de cura, mas de alívio momentâneo. A sonoplastia, pensada com detalhes quase cinematográficos, é prova do cuidado estético da dupla. Sabat e Jxão não produzem faixas: constroem atmosferas.



As duas faixas finais compõem o “pós-crise”. "Quanto Tempo" é reflexiva, com instrumental minimalista que valoriza a voz e a palavra. Sabat ousa ao tirar a bateria e permitir que o texto respire — uma escolha rara, que evidencia a confiança no conteúdo lírico. Já "Única Regra" traz cor e leveza. É a superação sem triunfalismo, um novo fôlego após o sufoco. Como diz o próprio Sabat, é a fase em que se vê a vida com “outras cores”. A colaboração com Moza na construção do beat reforça o caráter comunitário e colaborativo do projeto.



Mas Além do que se vê não se sustenta apenas por sua coesão estética e emocional. Ele também fala sobre o fazer artístico como resistência. Nas entrelinhas das entrevistas com os artistas, percebemos o cansaço de quem precisa ser tudo: artista, produtor, social media, gestor, contador, designer.


“Imagina um time de futebol em que o atacante tem que ser goleiro às vezes”, diz Jxão, numa analogia precisa.

O EP é, portanto, também um grito contra a precarização da arte na periferia, onde a ausência de investimento não impede a produção, mas a torna mais exaustiva.



A independência, nesse contexto, não é uma escolha estilística. É uma imposição. E é daí que nasce a potência do projeto. Jxão e Sabat estão inseridos numa cena vibrante da Baixada Fluminense — onde coletivos, batalhas de rima, produtores e artistas constroem redes de criação com poucos recursos e muito afeto. O EP é resultado dessa trama afetiva, onde nomes como Gebê, Emanuel Sant, Jomboh e Moza aparecem como braços que ajudam a dar forma ao sonho.


No fim, Além do que se vê é mais que um retrato sensível sobre ansiedade. É um trabalho que reivindica a arte como campo de existência possível para quem sempre teve que brigar por um lugar para respirar. Jxão não quer apenas rimar — quer viver daquilo que o salva. E Sabat produz não para o mercado, mas para sua própria história e a de seus parceiros.


Como eles mesmos deixam claro, “se vier estabilidade, ótimo. Mas se for sem arte, não vale”.

Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

Entrevista com Jxão

Sobre a caminhada e a identidade artística

1. Você começou a compor em 2012, mas só em 2019 entrou no estúdio para gravar. Como foi esse processo de amadurecimento até sentir que era a hora de lançar sua voz para o mundo?


A distância entre sonhar em ser algo e de fato perceber que você pode ser o que almeja é bem grande. Até um certo momento da minha vida, ser músico era um sonho impossível, algo muito distante de tudo que já tive acesso. Mas chegou um momento em que eu estava tão confiante que não tinha mais pra onde correr. Eu já respirava rap 24 horas por dia. Quando entendi meu potencial e o que eu poderia fazer, decidi que era a hora de começar a mostrar pro mundo tudo que tenho a dizer.


2. O nome do EP é Além do que se vê. O que existe além da superfície do Jxão artista? Qual é a essência desse trabalho e a mensagem central que você quis transmitir?


Além do que se vê é um EP sobre ansiedade. É a narrativa de um período da vida de uma pessoa com a mente ansiosa. A forma como as coisas vão de 0 a 100 num piscar de olhos, e de 100 a 0 da mesma forma. A ideia principal era retratar esses altos e baixos de uma forma fluida, mostrando que tudo na vida são ciclos — e que, apesar das noites ruins, a manhã sempre vem.


3. Você carrega a Baixada na sua vivência, no seu corre e nas suas letras. O que significa ser um artista de Duque de Caxias na cena atual? Quais são os desafios e as potências desse lugar na sua trajetória?


(não respondeu diretamente essa pergunta, mas abordou em outra resposta:) Um das consequências de envelhecer é ir percebendo sua insignificância perante um mundo tão infinito. Tenho tido muitas reflexões sobre a vida e a forma que tudo gira. Mas meu bairro sempre vai ser uma das minhas prioridades. Cresci num lugar abandonado pelo Estado, onde as pessoas não têm acesso nem ao básico. É impossível que eu não fale e tente chamar atenção pro descaso que ocorre por aqui. Cantão espera por asfalto e saneamento básico até hoje.



Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta


Sobre as letras e os sentimentos no EP

4. Seu som transita entre a crítica social e a música sentimental. Como você equilibra essas diferentes facetas na sua escrita e no seu processo criativo?


O que mais define como vai ser minha composição é o agora. Tento ao máximo entregar o que estou sendo e sentindo naquele momento. Se eu tô apaixonado, quero falar de amor. Se tô revoltado com algo, quero criticar. Se algo do passado me atravessa, falo sobre isso. E se não tô sentindo nada, não consigo compor nada. O trabalho de equilíbrio é mais voltado pros lançamentos terem alguma conexão, mas não é obrigatório. Tento dar à minha arte a maior liberdade possível.


5. No EP, "Copão de 700" traz um lado mais cria, funk e escrachado; "Sobre Viver" soa como um desabafo; "Quanto Tempo", com participação do Mad, tem uma pegada introspectiva; e "Única Regra", com Vitória Biral, carrega um tom motivacional e de esperança. São múltiplas emoções e perspectivas. Qual foi o fio condutor que guiou a composição dessas faixas?


A ideia do EP surgiu quando pensei em fazer um curta-metragem sobre ansiedade. Fiz cada faixa pensando em um momento desse curta:


  1. Euforia e felicidade (faixa 1)

  2. Neuroses e questionamentos (faixa 2)

  3. Realinhamento mental e espiritual (faixa 3)

  4. Processo de cura e reconstrução (faixa 4)

  5. Alívio e uma euforia mais calma (faixa 5)


6. O EP tem um interlúdio chamado Oração. Essa oração tem algo de especial para você? Como surgiu a ideia de incluí-la no projeto?


Todas as faixas do EP têm algo especial pra mim. Cada uma diz um pouco sobre o que já passei, vivi e vivo. Uma das minhas maiores influências é Rico Dalasam. Ddga é um álbum que salvou a minha vida, e foi muito importante pra mim externar isso e referenciá-lo nessa oração.


7. Suas letras trazem muito da realidade, mas sem abrir mão de uma certa dose de esperança. O que te faz continuar sonhando dentro da gravidade de um sistema que parece puxar tudo pra baixo?


O que me dá esperança é saber que nada me completa mais do que a arte. Se for fazendo o que amo, vou me sentir satisfeito. O que vier disso é lucro. É difícil não enlouquecer num lugar onde o financeiro vale mais do que tudo, mas sei que estaria mais louco ainda se me dessem dinheiro e me tirassem a arte. A gente busca o caminho do meio pra que as duas coisas estejam juntas.


Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

Sobre o corre independente e a cena da Baixada

8. Você já falou sobre sonhar em mudar o mundo e trazer visibilidade para o seu bairro. Hoje, como você enxerga esse sonho? Ele se mantém o mesmo ou se transformou ao longo do tempo?


Tenho refletido muito sobre isso. Mesmo que eu viva 100 anos, como mudar algo que vem de milênios? Mas meu bairro continua sendo prioridade. A luta continua sendo por visibilidade, por chamar atenção para o descaso.


9. O trampo independente exige que o artista esteja envolvido em todas as etapas, da criação à divulgação. Quais têm sido os maiores desafios e aprendizados desse corre?


Como diz o Emicida, fazer rima é a parte mais fácil. A parte mais difícil é o processo burocrático antes do lançamento, principalmente por sermos só eu e o Sabat fazendo tudo. É como um time onde o atacante tem que ser goleiro, o técnico joga de volante e o presidente vira lateral. Fazemos tudo que podemos, sonhando com o dia em que teremos uma equipe completa.


10. Você menciona que artistas da Baixada te inspiram mesmo sem saber. Quem são essas referências e o que você enxerga de mais potente na cena daqui?


A cena da Baixada Fluminense é uma das mais ricas do Brasil. Minhas inspirações são muitas: Afroditebxd, Jazzaoquadrdo, Suavepreta, Natö, Maui, Joazz, Clfezobeat, piordesign, entre outras pessoas envolvidas com arte que tive o prazer de conhecer. E também os produtores culturais que fazem a parada acontecer de verdade. A importância disso só será entendida lá na frente.



Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

Entrevista com Sabat

Sobre a produção do EP

1. Como foi trabalhar com Jxão na construção de Além do que se vê? Qual foi a principal direção sonora que vocês buscaram?


O processo foi bem natural. Eu e o Jxão já trabalhamos juntos há alguns anos. A gente sempre busca se divertir no processo, sem forçar a criação. A direção foi criada a partir do tema “ansiedade” e, com base nisso, criamos a identidade do EP. Busquei colocar o sentimento que cada faixa passa no seu devido lugar.


2. A produção musical é tão crucial quanto a letra na hora de transmitir uma ideia. Como a estética sonora do EP fortalece as mensagens que Jxão quis passar?


A estética do EP já diz muito por si só. Cada beat acompanha o momento emocional da faixa:

  • "Copão de 700" é funk animado, mas com melodias tristes

  • "Sobre Viver" é densa e introspectiva, com batidas pesadas

  • "Oração" tem sons de chuva, trovões e coração, que viram calmaria no fim

  • "Quanto Tempo" é reflexiva, sem bateria, para destacar os vocais

  • "Única Regra" tem uma vibe de alívio, com beat iniciado pelo Moza


3. O EP tem beats que misturam rap e funk, criando uma sonoridade bem autêntica. Como foi a escolha dessas influências e referências?


A gente pensou em como a juventude vivencia essas emoções. Usar o funk na faixa de abertura era uma forma de retratar desejos comuns — festas, drogas, liberdade — mas com uma camada de melancolia. Cada referência foi pensada para dialogar com o tema da ansiedade.



Foto: Vio anchieta
Foto: Vio anchieta

Sobre o mercado e a cena independente

4. Produzir um artista da Baixada num cenário ainda muito centralizado em outros polos é um desafio. Como você enxerga esse movimento de descentralização da música no Rio?


É sempre um desafio. A gente, da Baixada, quase nunca tem investimento ou incentivo. Acabamos criando nossas próprias oportunidades e abrindo nossas próprias portas.


5. No corre independente, o produtor muitas vezes extrapola a parte musical e acaba ajudando na estratégia do artista. Como foi essa parceria com o Jxão nesse sentido?


Esse EP foi uma colaboração completa, desde a ideia até subir nas plataformas. Tivemos apoio de amigos como Emanuel Sant e Jomboh no audiovisual, Gebê no release, entre outras contribuições.


6. Qual faixa do EP você sente que mais te desafiou ou representa sua identidade como produtor?


A que mais me desafiou foi “Quanto Tempo”. É uma música simples, com poucos elementos, o que me fez demorar a enxergá-la como finalizada. A que mais me representa é “Copão de 700”, porque consegui colocar muito da minha identidade como produtor, especialmente nas experimentações com funk.





 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 24 de abr.
  • 2 min de leitura

ree

Eu venho de onde ser criança é luxo. Onde a pressa da vida atropela os sonhos e onde o “dar certo” parece sempre morar do outro lado da ponte. Eu sou o Pivete — nome que já diz tanto sobre o lugar de onde venho quanto sobre a potência que carrego. Foi no meio do corre, entre escola pública, ônibus lotado e os dias em que a cidade parecia me esquecer, que eu encontrei refúgio em projetos que me olharam como sujeito, não como estatística.


Projetos que me salvaram. Que me fizeram sentir que eu também podia criar, contar história, sonhar, ensinar e transformar.
ree

É daí que nasce o Instituto Menó: da fome de retribuir o que um dia me foi dado, e da sede de fazer ainda mais. Nascido a partir da Revista Menó, o Instituto é um espaço de valorização da identidade, do direito à memória e do apoio à resistência. É onde o saber da favela encontra o saber acadêmico e os dois trocam ideia sem se medir, se somando.


ree


Aqui a gente acredita que conhecimento, identidade e cultura andam de mãos dadas. E a gente trabalha isso com os nossos, por nós, para além dos moldes que tentam nos podar. Oficinas, palestras, eventos, cursos, formações, tudo pensado com fundo pedagógico, mas com alma cultural. De corpo inteiro. Sem copiar os modelos de cima — mas criando os nossos, a partir das margens.


A gente quer acolher os seres marginais: crianças que ainda não descobriram o direito de brincar, jovens cheios de ideia mas sem espaço pra sonhar, adolescentes que querem gritar o que sentem, idosos que ainda têm muito a ensinar, e pessoas com deficiência que precisam ser vistas para além do capacitismo. A gente quer escutar, construir junto, partilhar saberes em rede. Porque ninguém transforma nada sozinho.


ree

O Instituto Menó é também um espaço de formação. Formação para a vida, para a autonomia, para a criação de outras formas de existência. A gente quer fomentar o talento que nasce na favela, no asfalto quente, no improviso da laje. Queremos fazer girar uma dialética não mercadológica, ainda que ela possa abrir caminhos no mercado. Porque não é sobre negar o mundo, mas sobre reexistir nele com dignidade, afeto e criatividade.

ree

Aqui, cada criança tem direito a ser criança. Cada jovem tem direito a ser futuro. E cada pessoa tem o direito de ser amada, acolhida e fortalecida. O Instituto Menó é isso: um quilombo de ideias, um território de afeto, uma escola viva da resistência periférica.


Porque ser Menó não é ser menor. É ser raiz.


 
 
 
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page