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  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 26 de mai.
  • 3 min de leitura

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O "bem", às vezes, me parece tão limitado. Tão hipócrita, tão autoritário. E é por isso que não julgo as crianças que se identificam com o suposto vilão da história. Porque o herói — esse tal "lado certo" — quase sempre obedece a regras arcaicas, reproduz sistemas injustos e ignora o que não cabe em sua armadura. O vilão, ao menos, tem o privilégio de ser o que é. De não esconder a origem, o CEP, o rosto.


Oruam é isso. É alguém que caminha com o peito aberto pela contramão, que não se submete ao que não respeita. Isso me faz pensar sobre respeito — algo que, sim, é importante. Mas num mundo que te desrespeita o tempo inteiro, o respeito vira um contrato de via única. É como amar quem nunca te amou de volta.


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Às vezes, ouço os pequenos só pra lembrar quem fui. Porque neles ainda mora um pedaço meu que não se corrompeu. Ainda me sinto uma criança em muitos momentos — principalmente quando sou forçado a crescer de novo, a cada novo baque.


Sou cria de Bel. Se não fosse, seria o quê? De onde? Belford Roxo me pariu e me moldou. Pouca gente sabe, mas a primeira vez que pisei naquele solo e subi aquele morro, chorei. Chorei não por medo, mas por memória. Era como se aquele chão me reconhecesse antes mesmo de eu me apresentar. Terras fluminenses onde o filho chora e a mãe não vê. E eu vi. Vi minha mãe, vi as ausências, vi os dias em que viver parecia teimosia.


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Não romantizo. A Baixada é dura. É fome, é sirene, é cansaço. É abraço também — mas até o afeto vem com marcas. Eu sei de onde vim. E tenho orgulho, mesmo que esse orgulho venha atravessado por perdas, ausências, medos. A vida ali nunca foi confortável. Por isso, desde cedo, aprendi a sonhar. Quando o som dos tiros ecoava, quando minha mãe demorava a voltar do trabalho, quando o ônibus atrasava e o estômago reclamava — o que me restava era imaginar. Era sonhar com outros mundos possíveis.


O tempo passou, e fui me transformando. Morri inúmeras vezes nesses últimos anos. Me senti Belchior — um latino-americano perdido, com pouco dinheiro no banco e uma mala cheia de perguntas. Vagando por cidades, de casa em casa, tentando quebrar o ciclo de dor que me trouxe até aqui. Achei que, ao romper esse ciclo, tudo ficaria mais fácil. Mas descobri que a tragédia tem seu próprio fascínio. E que a farsa — essa que muitos chamam de estabilidade — pode ser mais cruel que a dor.


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Tenho sentido falta do marasmo. Da paz silenciosa que talvez eu nunca tenha realmente conhecido. Escrevo pra adiar a morte, como quem paga uma dívida infinita. E entre uma linha e outra, me escuto. Falo sozinho, converso com o eu que fui, com o eu que ainda quero ser. São diálogos curtos, mas carregados de imagens. Em nenhuma delas, infelizmente, está você — esse alguém que talvez eu ainda invente.


Lembro da escola. Daquele lugar onde o mundo ainda era vasto e cheio de possibilidades. Foi lá que nasceu o Iago, o Pivete. Foi lá que li Ferrez, Paulo Lins. Que descobri a potência da palavra e o poder da organização. Que me vi — finalmente — no espelho de uma literatura que me reconhecia. Sempre quis ser professor. Um desejo que, por um tempo, foi silenciado pela dureza da realidade. Mas cá estou, voltando ao chão que me formou. E se tudo der certo, continuarei aqui, na mesma sala onde sonhei, ensinando a sonhar.


Ensinar, pra mim, é mais que ofício — é sobrevivência. É romper o ciclo com afeto e escuta. É fazer da sala de aula um território livre, onde até o silêncio tem significado. Agradeço a cada professora, a cada mestre, a cada líder que me viu. Eu vou honrar.


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Não sinto falta da insegurança do Rio. Daquele estado de alerta constante por ser preto, por ser pobre, por carregar o CEP errado. Experiências como a do Igor Melo atravessam todos nós. A bala não erra endereço, o sistema sabe bem onde mirar. E quando acerta, o policial sorri. O negro é que paga, mesmo com todas as provas.


Se você discorda, tudo bem. Fé na tua caminhada. Mas eu não escrevi isso pra você. Escrevi pra mim. Pro menino que ainda sonha. Pro adulto que resiste. Pra criança que nunca se despediu.

Sou cria de Bel. E disso, eu nunca fugi.



 
 
 

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A fumaça que sai do baseado e do cano das armas envolve toda uma história de sofrimento dentro do morro, e Grone nos mostra esse contraste dividindo em dois discos. O primeiro é composto por faixas românticas, mas no estilo gângster com uma pegada bem no pique de vagabundo, se posso dizer assim. E no segundo, o dever chama na porta de casa, fazendo com que seja cumprida sua missão de defender o território.


O integrante da Matilha — selo da Mainstreet Records — lançou no dia 15 de abril seu segundo álbum na pista, se propondo a arriscar mais nas músicas com mais melodias na voz ao mesmo tempo que lança punchlines sobre “aquela vida” na segunda metade.


Fotos por _b0lin
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Na “INTRO”, ele avisa ao bonde que vai precisar sair do plantão para ver sua mina enquanto rola um pedacinho da “Preta”, o que nos dá o tom de como vai ser o Neblina. Confesso que uma das faixas que mais curto da discografia dele é essa, mesmo que seja do seu trampo anterior — Maior Que O Amor Só O Ódio — só que fez todo o sentido a introdução ser puxada dessa forma. Doidão Beats acertou não só nessa faixa, como nas outras faixas que fez parte.





Em “TEMPESTADE” já manda a real para ela, dizendo que as brigas que arranja com ele não levam a nada. Aqui vemos um Grone apaixonado e mantendo a postura, dizendo sobre como são as amigas que ficam falando dele para que no final pudessem ficar com o rapper. É um cenário comum nas músicas sobre discussão de casal, porém o drill deixou a coisa mais interessante, e o flow do artista em questão é uma marca registrada.


Fotos por _b0lin
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Quando hora vem a terceira track, vejo que aqui ele foi abusado, e demais. 

Essa mina dançando | É gostosa sem fazer esforço Sexy | Quando tiro a sua roupa Rebola a bunda | Para tudo nesse quarto de hotel…

PARA TUDO” é como ele diz: um amor criminoso, divertido e perigoso. Nem preciso dizer que é trilha sonora para aquelas horas que, você sabe, né? Assim como na anterior, LV e Glock Beatz foram os responsáveis pela vibe dessa música, e afirmo que eles tiraram onda. Deixo aqui um salve para os dois.



No entanto, me surpreendi no momento que toca “MOTEL”, que possui feat de Isis Orbelli, com uma batida gostosa e sensual, daquelas que você gasta a onda. A autora de “Nosso Futuro” abrilhantou essa canção, fazendo com que eu ligasse pro primeiro contatinho e convidasse para ficar numa suíte por horas.


Fotos por _b0lin
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Grone também ficou grande nessa faixa tanto pelo verso quanto pelo refrão, é uma parada que não tem como ignorar. Só que estamos no começo ainda.

Gostei do título dessa faixa que veio logo após, “TESÃO DA MANHÔ. Primeiro que combina com a de antes, ficando redondinho no contexto. Se bem que nessa parte do álbum tudo se encaixa por se tratar de romance. Segundo que é uma faixa empolgante, perfeita pra dançar colado e se envolver, o que faz a escuta dela ser melhor ainda. Em tese, Grone prova que sempre dá pra falar disso, sem falar que o beat te instiga a manter o ritmo o tempo todo.





Em seguida, temos “NOVELA DAS 9”. Por que mais que seja curta, ela não deixa de reforçar esse lado melódico do artista, já nos preparando para o final do primeiro disco, até porque quando logo acaba, chega a “NÃO TEM FIM”, e ela é uma declaração pra sua mina não ir embora quando tá bom, com produção de VT no Beat. Aqui nós temos uma representação de que sempre dá pra ficar mais um pouco, o sentimento é real, como se o casal fosse um só. Mesmo sendo a última faixa desse lado, não quis parar de ouvir, foi papo de ouvir umas dez vezes antes de prosseguir com o álbum, e não digo por conveniência, realmente foi uma vontade de ficar preso nesse clima. E fiquei me preparando pro segundo disco, pois eu sabia que viria porrada.


Fotos por _b0lin
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O interlúdio homônimo do trabalho já é uma conversa entre os amigos que estavam no plantão descrevendo a situação do frente da boca entretado com a patroa. Todo mundo querendo sair dali depois de fazer as vendas porque era domingo, porém o pior acontece. Eles receberam um aviso de que uma operação policial iria acontecer dentro de meia hora, e eles foram avisar ao Grone sobre a situação.


Aqui reparo um fato interessante: dois desses atores que aparecem no visualizer são o fotógrafo do álbum, André Bolin, e o rapper Big Bllakk, que é um dos feats dessa segunda parte que virá a seguir.

De primeira, vem a “PASSA A VISÃO”, música que conta com um dos integrantes do selo, Dege. Não importa a hora, o tempo de guerrear é inevitável. Em meio aos graves do instrumental, versos sobre o quão desgastante é viver dentro crime são cantados, com uma pitada de revolta acompanhada nesse berimbolo que vai ser o enredo do segundo disco. A luta segue e o clima fica cada vez mais pesado.


Fotos por _b0lin
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Com o Pior Versão de Mim, Grone solta um trapzão em “RUAS VAZIAS”, sem papas na língua. Esse som é mais dos casos que eu pus no repeat. Nas ruas do RJ, o ódio puro sustenta o conflito entre o tráfico e o Estado, tendo direito a descrição do momento: 


Ruas vazias, ratos no fio | Onde tudo começou | Encurralado no beco | Fuga pela casa do morador | A p0rr@ do meiota deles | Quase me alcançou | Foi pinote de cria segura a marimba | Que agora vou tacar o terror



Tá ligado na “BOTA A CARA NO BECO”, um dos hinos do drill no RJ? Pois é, a continuação dela está presente nesse álbum, e minha opinião é a de que ele acertou em cheio em trazer neste trampo que ficou coisa fina. Ambos (Grone e Big Bllakk) entregaram tudo nessa música, o que deixou tudo melhor ao longo da segunda parte, fazendo sentido no enredo que o artista da Zona Norte se propôs a fazer.


Fotos por _b0lin
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CLIMA HOSTIL”, com produção de Duace, e feat de Destravalt e Filhão (também do selo), é um show de flow e de letra. Nessa aqui, vejo que eles demonstram domínio em todos os aspectos da track, sendo mais um ponto ganho dentro de Neblina. “Se a bala canta, vai ganhar um Grammy” no melhor estilo criminal, como o som tinha que ser.


Aqui precisei lembrar de uma coisa. Há muito tempo, eu o entrevistei para um quadro que fiz em outra produtora, e uma das paradas que ficou na minha cabeça é a clara inspiração que ele tem no MV Bill. A referência é tão presente nos seus sons que em “BALAS E VERDADES”, Grone faz questão de me remeter a essa época.


A capacidade de contar histórias com certeza é uma dessas heranças que ele adquiriu das influências e ele as transpôs na sua musicalidade, fazendo com que a gente se insira na pele do narrador.

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A caneta mais violenta do RJ chama Nochica pra fazer “DA ZONA NORTE À ZONA SUL”. Complementando o comentário que fiz na canção anterior, os dois deram uma aula de storytelling, e nada melhor do que um boombap pra fazer isso. O clipe dirigido por Eduardo Santana e Thales Casfer, focando nos dois, executa o seu trabalho de exteriorizar os dilemas da vida bandida por meio das vozes presentes. De fato, é uma música que me pegou, não tem jeito. Quando se trata de vivências, posso contar com Grone pra colocar no meu acervo musical, e não vou ficar decepcionado de maneira nenhuma porque eu sei que ele se entrega de corpo e alma nas suas composições.





Finalizando o disco, a “HISTÓRIA PRA CONTAR” poderia ser a sua ou a minha se passássemos os mesmos perrengues do personagem em questão. Uma vida cheia de estresse e adrenalina enquanto apertava pra cima do caveirão. Só que no crime, não se pode dar mole, e qualquer brecha é a ruína pra quem tá na atividade. E essa história fecha a fumaça que mencionei no início do texto, deixando pra você uma reflexão sobre os perigos que essa vida traz pra quem vive isso 24 horas por dia.



Tenho orgulho em apresentar esse álbum pra você que tem interesse em viajar nessas temáticas em forma de música, pois Neblina é um desses exemplos de álbum conceitual pra colocar junto a outros clássicos. Ele é atemporal por justamente transmitir esse peso da realidade nas favelas do Rio, com detalhes os quais Grone conhece muito bem. O álbum se encontra nas plataformas digitais e gostaria que vocês prestassem atenção na obra que ele vem desenvolvendo.


O legado que ele vai deixar será imenso, e isso é só um pedaço dele.    


 
 
 

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Entrar numa universidade sendo uma pessoa negra, periférica, com uma trajetória marcada por escassez e resistência, é uma das experiências mais complexas que se pode viver. É um ato de coragem, de ruptura — mas também de dor. O peso não está só nas matérias, nos textos difíceis, nas normas da ABNT. O peso está no olhar. No silêncio. Nas ausências.


Porque a nossa falta de representação não é acaso. É projeto.


Como escrevi certa vez: “olha para o espelho, e veja o significado de potência”.
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O problema é que, por vezes, esse espelho nos é negado — ou melhor, é distorcido. Quando finalmente nos olhamos, a imagem já está atravessada por um discurso que nos reduz, que nos encaixa em um molde de dor, de ausência, de fracasso. A estrutura nos faz duvidar de nós mesmos.


E é aí que o afropessimismo entra. Mais que um sentimento, ele é uma chave analítica potente — ainda que desconfortável. Frank Wilderson III, um dos principais nomes dessa corrente, nos provoca com a ideia de que o mundo moderno é estruturado a partir da anti-negritude — ou seja, de que a posição social do negro é constituída não pela exploração (como acontece com outros grupos), mas pela exclusão ontológica. O negro não é sujeito dentro da estrutura. Ele é estrutura. Sujeito, mas só para sofrer. Só para morrer.


Assustador? Sim. Mas é necessário ouvir.
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O afropessimismo não é um convite à rendição. É um convite à radicalidade. À coragem de nomear o mundo como ele é — violento, racista, colonial — e, a partir disso, entender por que tantas vezes sentimos que a vitória é impossível, que o pertencimento é uma farsa, que o reconhecimento sempre vem com uma condição. Essa sensação de nunca ser o suficiente não é sua culpa. É sintoma de um projeto de desumanização sofisticado, que começa na história e se desdobra na política, no ensino, no amor, na estética.


E aqui voltamos à universidade.


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A universidade como vitrine e jaula


Quando uma pessoa negra entra na universidade, ela não entra sozinha. Carrega a família, a comunidade, os amigos, as histórias interrompidas dos seus — e carrega, junto, o olhar desconfiado de quem não a esperava ali. A universidade, como instituição, não foi feita para nós. Foi erguida a partir de uma lógica branca, eurocentrada, patriarcal e elitista. Seu modo de funcionamento ainda opera por esses parâmetros, ainda que muitas de suas fachadas tenham mudado.


Cida Bento nos ajuda a entender como a branquitude estrutura seus espaços para se proteger. Ela chama atenção para o fato de que os mecanismos de exclusão não são necessariamente conscientes — são práticas naturalizadas, sedimentadas, que garantem que o poder continue concentrado nas mesmas mãos. Não se trata de um plano maquiavélico, mas de uma série de escolhas cotidianas que excluem e moldam quem chega.


Na universidade, isso se revela de muitas formas: no currículo que ignora autores negros e indígenas; nas bancas que deslegitimam pesquisas com epistemologias outras; nos professores que enxergam “militância” onde há crítica; nos editais que não acolhem os nossos temas. A estrutura não se dobra com a nossa chegada — ela tenta nos dobrar. Nos domesticar.

Mas aí é que entra a resistência.

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Carolina, Fanon e a disputa do discurso


Outro dia eu disse como a leitura de Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de Jesus, me fez repensar o lugar simbólico que reservam para ela. Quarto de Despejo virou best-seller, sim. Mas sob qual lente? Sob o olhar branco que consome a dor negra como espetáculo, como entretenimento, como produto. Carolina virou vitrine. A negra sofredora que escreve bem. Que bonito, que sensível. Mas só até aí.


Em Casa de Alvenaria, Carolina rompe com esse lugar. Ela já não escreve só sobre a fome e o lixo — escreve sobre o racismo, sobre o mundo literário, sobre sua raiva e seu incômodo por não ser lida como intelectual. E aí, claro, é esquecida. Porque o mercado editorial, a crítica e a memória coletiva preferem a Carolina domesticada. Não a Carolina complexa, crítica, revoltada.

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Frantz Fanon já havia alertado, em Pele Negra, Máscaras Brancas, como o olhar do branco define os limites da nossa existência. Fanon nos lembra que, no contexto colonial, a identidade negra é forjada na negação — é a ausência de espelho. Ou melhor, um espelho quebrado, que reflete a imagem que o colonizador quer ver. Daí a importância de criarmos outros modos de olhar. Outras gramáticas.


Asad Haider, em Armadilha da Identidade, aponta que o simples reconhecimento das identidades não basta. Celebrar a diversidade não muda a estrutura. Pelo contrário: pode virar performance vazia. Uma vitrine de pluralidade que esconde o fato de que os espaços continuam os mesmos, com as mesmas regras e os mesmos donos. Haider nos lembra que é preciso desestabilizar, tensionar, criar outras lógicas.


Porque, do contrário, caímos na armadilha: ganhamos voz, mas continuamos falando do mesmo lugar de subalternidade simbólica.
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Cria que Cria: o que criamos a partir do impensável


E aí vem o paradoxo bonito da nossa existência. Porque, mesmo atravessados por tudo isso — o pessimismo, o racismo estrutural, o epistemicídio —, a gente resiste. Mais do que isso: a gente cria. E o que a gente cria desafia o mundo.


Quando vejo jovens negros e negras entrando na universidade, sendo os primeiros da família, fundando coletivos, tensionando bancas, fazendo pesquisa sobre o que realmente importa para eles, sinto que estamos fazendo mais do que ocupar um espaço. Estamos refazendo ele.

Mesmo quando sentimos o cansaço, a solidão, o peso das estatísticas, a sensação de que não há saída — seguimos.

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Somos potência. Não por romantismo, mas por prática cotidiana de reinvenção. Por fazer do impossível um ponto de partida. E isso, por si só, já é desorganizar o mundo.

Afinal, o que seria da história da arte, da literatura, da sociologia, da música, da ciência brasileira sem a contribuição negra? A gente sempre esteve ali — mesmo que nos empurrassem para o rodapé da página.


Rasgando a jaula: identidade como gesto radical de liberdade


O desafio agora é outro. Não basta entrar. É preciso virar espelho. Rasgar o molde. Reescrever os papéis que querem atribuir a nós.


Como diz Fanon: “cada geração deve descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la.”
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A nossa missão não é só ser representado. É ser irrepresentável nos moldes que criaram para nos controlar. É nomear o mundo com a nossa voz — e não com a voz que esperam que a gente tenha.


O afropessimismo pode nos dizer que a estrutura é sólida. Mas a nossa história mostra que nós somos movimento. Somos griôs, somos poesia, somos dados e estatística, somos artigo e papo reto, somos silêncio e grito. Somos tudo o que não conseguiram apagar.

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E a universidade, por mais elitista e racista que ainda seja, também é território. Território de disputa, de desobediência, de criação. A cada tese que nasce na contramão do cânone, a cada aula dada por um professor negro que se recusa a reproduzir o modelo colonial, a cada pesquisa feita com o povo — e não apenas sobre o povo — estamos escrevendo outro futuro.

Um futuro onde nossos espelhos não deformam, mas revelam. Onde a dor não nos define, mas nos convoca à criação. Onde a potência não precisa ser provada — apenas vivida.


Então, da próxima vez que te olharem como se você estivesse no lugar errado, respira fundo. Lembra de Carolina, de Cida, de Wilderson, de Fanon, de Haider. Lembra de quem te trouxe até aqui. E se expresse. Porque, enquanto a gente se expressar — com corpo, com voz, com afeto —, a gente não só existe.


A gente muda a lógica do mundo.

 
 
 
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