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Você chegou ao seu destino (?)



O ponteiro da velocidade marcava 165 Km/h. O som não estava ligado. O dia era de sol, não estava quente e nem frio, era apenas um claríssimo dia de sol. Dentro do carro só se ouvia o barulho do motor. O destino era certo, apesar de a vontade não ser assim tão precisa. O carro andava, mas, e se por um instante, só por um instante, ele desse um puxão para o lado para ver o que poderia acontecer, afinal de contas, quem poderia se importar com isso? Ele tinha família, pessoas próximas, mas quem sentiria isso mais que ele?

Assim, o carro seguia sua direção, implacável, ao mesmo tempo em que a incerteza também o guiava. Talvez fosse assim a vida. Quem poderia se importar? Seria normal alguém pensar coisas como aquelas? Talvez... Quem pode imaginar o que se passa na cabeça de alguém. Não seria suicídio, apesar de ter uma enorme chance de as pessoas sofrerem, mas quem poderia sofrer mais que ele?

O homem seguia, controlando e se sentindo controlado. Controlado pelo quê? Controlando o quê? De nada adiantava pensar naquelas coisas aquela altura da vida. Mas, com tudo aquilo, o que mais ele poderia querer? Tanta gente querendo tanta coisa, quem seria ele para desejar algo? Qualquer coisa... O que poderia custar? Ao universo, ao presidente... sei lá, a qualquer um que tivesse mais do que ele…

Uma curva, o que poderia acontecer se ele passasse reto? A curva passou. O carro ainda está na pista, afinal de contas, talvez ele não fosse um piloto tão mau assim... quem poderia saber? Só entrando na cabeça das pessoas para ter certeza, e isso, pelo menos algum tempo atrás, era impossível, menos nos casos de cirurgia ou necrópsia, aí era diferente, mas no resto... impossível! Hoje, as pessoas não podem ter tanta certeza, olhem os anúncios... Às vezes só de falar já aparecem! Às vezes a gente só pensa... Será que apenas ele pensava? Não dava para saber!

Pedágio... Alguém deve sofrer mais que ele! Trabalhando ali... Vai saber, mas deve sofrer no final das contas, não pela vontade dele, mas pelo sofrimento mesmo! Pelo menos ele tinha dinheiro pra pagar, ainda que sobrasse pouco depois, pelo menos a moça do guichê não saberia, a menos que ela fosse bem sagaz ou uma cartomante... Mas, quem teria tempo para jogar cartas aquela altura do campeonato? A vida, talvez...

Voltamos à estrada. Do zero. Recomeçar! Coitado do homem, o carro dele estragou, não esse, mas aquele outro! Ele é qualquer um, não conhecemos, mas coitado, não é fácil ficar com o carro estragado! E se o dele estragasse também? Deus o livre! Mas e se acontecesse? Já pensou? Deus o livre! Coitado do homem! Ficar na mão nunca é fácil! Talvez não precise do carro, vai saber... Mas à pé também é complicado! Os homens das cavernas não precisavam de carros, nem sabiam o que era... Hoje o tempo é outro! Não comemos carne crua também! Já inventaram o fogo! Graças aos homens das cavernas! Só quem come carne crua hoje em dia é japonês e quem já tem farinha em casa. De resto? Mais ninguém!

Estamos quase lá! Nenhum acidente. Ninguém vai chorar... Não hoje, algum dia! Talvez... Tem gente que é forte e não chora. Tem gente que é forte e também chora. Não dá para saber o que está na cabeça de ninguém. Só a internet lê pensamentos!

O destino está chegando, mas poderia ser mais longe! Que ideia tola, quem poderia querer ir para mais longe com o ponto final tão perto? Quem pode imaginar o que cada um precisa...? Vai saber…

Seu destino era o que era, e estava perto. Ele já conhecia, mas, vai que, repentinamente, algo apareça e mude tudo? E se ele passasse direto? Já pensou nisso? O que teria de absurdo nisso? Não dá pra saber, são apenas suposições! Tudo no mundo das ideias! A vibração do volante, o barulho do motor, o clarão da paisagem, a imensidão da rodovia e até os buracos da pista, aquilo era real! O resto? Talvez um novelo que se enrolasse mais e mais, desordenadamente, à medida que a roda rodava. O carro tem marcha ré! Amanhã, talvez, ele fosse de ônibus, ou à pé... Ou de bicicleta! Daqui a pouco ele morre mesmo…

Motor desligado, porta aberta, sorriso no rosto, ele chegará ao seu destino ou estava apenas recalculando a rota? Vai saber...


Por Reginaldo Gonçalves.

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