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Um romance histórico sobre Frida Kahlo inédito no Brasil

Figura 1- Fotografia de Carlos Douglas Martins Pinheiro Filho do livro Frida Kahlo e as cores da vida, Carline Bernard.


Ficha técnica: Frida Kahlo e as cores da vida é um romance histórico baseado na história de vida da pintora mexicana. Escrito pela escritora alemã Tânia Schlie, que assina sob o pseudônimo de Caroline Bernard, o livro foi lançado no Brasil em dezembro de 2020 pela TAG – Experiências Literárias e Tordesilhas Livros. A tradução do livro é de Claudia Abeling, o prefácio de Katia Canton e o projeto gráfico de Amanda Cestaro.


Uma pequena biografia de Frida

O romance Frida Kahlo e as cores da vida é baseado na vida da personagem real e costura uma percepção cheia admiração pela mulher mexicana, ativista feminista e pintora consagrada, Frida Kahlo. A autora Tânia Schlie, em entrevista para Fernanda Grabauska, quando indagada sobre o porquê escrever um livro sobre Frida, respondeu que “a questão talvez devesse ser: por que não escrever um livro sobre Frida?”. De fato, a pintora tornou-se um ícone popular desde que ressurgiu na década de 1980 e, desde então, a imagem de seu rosto está estampada em camisas, copos, bolsas, mochilas, cartazes e uma sorte diversa de produtos comercializados. Pode ser que você tenha um desses em sua casa! Mas nem todas as pessoas que compram esses objetos conhecem mais profundamente a história de vida da artista.

Nascida em Coyoacán, no México, em 1907, e falecida na mesma casa em que nasceu, a Casa Azul, em 1954. Frida teve uma trajetória intensa, vívida e marcante, apesar de um tempo vida aparentemente curto, ademais foi agraciada com a possibilidade, como argumenta Tânia Schlie, de nascer e morrer na mesma casa, pois no México as pessoas consideram essa circunstância uma bênção. Porém, Frida foi profundamente marcada pela dor e doença: logo aos seis anos Frida foi diagnosticada com poliomielite, o que fez com que sua perna direita fosse menor e mais frágil que a esquerda, acarretando problemas durante toda a sua vida. Começou a pintar após um trágico acidente em que foi gravemente ferida, incentivada por seu pai, o fotógrafo Guilhermo Kahlo, momento da história da personagem real que compõe o início do livro, onde começa a estória da Frida de Caroline Bernard.

Em 1928, ingressou no Partido Comunista Mexicano e conheceu o reconhecido muralista Diego Rivera, quem se apaixonou e se casou no ano seguinte. Rotulada como surrealista pelo pintor francês André Breton, Frida consagrou-se internacionalmente expondo suas obras em Nova York e Paris. Porém, foi na intensidade da luz do México que estavam o coração e as cores da artista, e onde foi a sua primeira grande exposição, em 1953, apenas um ano antes de sua morte. O legado de Frida para a humanidade é imortal, pela sua arte, mas, principalmente, pelo que representava como ser humano, mulher, latino-americana e ativista. Inspirou milhares de pessoas a enfrentarem suas dores, a cultivarem a autoestima e a lutarem pelos seus direitos. Tornou-se ícone da luta feminista e da emancipação dos oprimidos.


As duas Fridas

Segundo relata Tânia Schlie, fazem parte do repertório de experiências que possibilitaram a escrita do romance a leitura da biografia Frida – A Biografia, escrita por Hayden Herrera; o estudo detalhado dos quadros da artista; a visitação a uma exposição dos pertences pessoais dela, em Londres; e a visitação da Casa Azul, no México, onde Tânia Schlie diz ter “tido a tremenda sorte de passar uma hora sozinha por lá”, o que teria permitido ela “imaginar cenas muito íntimas”. Não atoa a importância desse fato, pois é a imaginação sobre o universo íntimo da personagem real o principal objeto da literatura da escritora alemã.

Apesar da manifesta busca pela verossimilhança com a história de vida da personagem real e o perceptível esmero detalhista na descrição da atmosfera que permeavam o seu contexto histórico específico, a escritora não se propõe a uma obra biográfica. Aqui estamos falando de um romance histórico. Quem está buscando uma biografia pode se decepcionar, então, é melhor abrir a sua mente, ou buscar uma biografia sobre Frida Kahlo. No romance, Tânia Schlie privilegia recortes de momentos que considera significativos da vida da artista com o propósito de dar vida a sua personagem, a sua “Frida”, uma mulher mexicana destemida, talentosa, cheia de vida, confiante de si e romântica. Sim, romântica, a Frida de Schlie é profundamente marcada pela emoções, principalmente pelo romantismo, amor e paixão.

Logo no prólogo, a Frida de Schlie se apresenta como uma personagem dividida entre duas facetas, presa nesse dualismo entre a mulher moderna, “que quer viver do jeito que lhe convém”, e a “mulher que carrega a carga da tradição e da história”. Pois aí temos uma das características principais desse romance histórico: a escritora baseia sua imaginação sobre a personagem da vida real a partir de seus quadros, neste caso, sua intuição mais geral sobre o paradigma existencial de Frida Kahlo emerge da pintura “As Duas Fridas”.

Em diversos momentos do livro as pinturas da artista surgem como elementos referenciais da escritora para intuir os sentimentos, pensamentos e interioridade de Frida. Assim, o livro acaba por oferecer ao leitor um rico percurso interpretativo da obra da pintora e as suas histórias, fazendo ressaltar os possíveis elementos do mundo real que lhe renderam a inspiração manifesta para seus quadros. Pois é dessa maneira que brota a mexicanidade da Frida de Schlie, não a partir de uma nacionalidade abstrata, mas pela importância dessa temática em sua realização, assim como a relação direta da experiência nacional com a vivência biografada da Frida real.


Uma crítica possível

A edição gráfica do livro é impecável, apesar da revisão ter deixados passar pequeníssimos erros na redação e algumas incoerências que sugerem problemas na tradução em um ou dois trechos. O romance é muito bem executado tecnicamente e a escritora consegue capturar a atenção do leitor, mantendo a tensão do início ao fim da narrativa. Porém, a Frida de Schlie provavelmente decepcionará alguns leitores, principalmente aqueles conhecedores mais profundos de sua biografia, ou mesmo aqueles mais engajados em lutas sociais.

A questão a ser colocada é que a escritora privilegia quase integralmente em sua narrativa a relação romântica entre Frida Kahlo e Diego Rivera. Aliás, o livro poderia muito bem ter o nome de Diego no título e não seria um exagero, ou algo que expressasse mais claramente a relação romântica entre os dois. As cores da vida da personagem de Schlie têm uma significativa porção de sua paleta em Diego Rivera e os dramas relativos à relação entre os personagens, muitas vezes retratada como conturbada e conflituosa, mas outras como amorosa e harmônica. Uma das sensações que tive, ao término da leitura, é que a relação entre os dois era um “mal necessário” para o bem de uma personagem fragilizada pela doença e solidão. Muitas vezes, o caráter corajoso e talentoso de Frida só aparece de forma mais genuína ao lado de Diego, e, sem ele, a vida aparentemente perde o sentido, perde o brilho.

Outra questão é que as relações homoafetivas de Frida Kahlo, apesar de serem trazidas para o romance, são apresentados como aventuras, experiências de menor importância, secundárias, sem grandes impactos emocionais ou no curso da história. Algumas vezes, esses relacionamentos são apresentados com consequência direta da relação com Diego, seja no intuito de agradá-lo ou despertar-lhe ciúmes. A sororidade entre as mulheres até é tematizada no romance, mas de maneira secundaria, do contrário, a autora privilegia, muitas vezes, uma disputa entre as mulheres do romance pela atenção de Diego Rivera. A realidade é que a Frida de Schlie é uma personagem dependente de Diego para viver, seja em termos físicos, psicológicos e afetivos, e isso fica bastante nítido ao final do romance.

Neste sentido, é interessante notar que a vida política da personagem real é secundarizada em relação a sua vida pessoal e afetiva. Muitas vezes fica a sensação de que seu envolvimento com os movimentos socialistas e populares são uma mera busca por socialização, ou mesmo o produto da influência de Diego e de seu meio social. O envolvimento com os movimentos de esquerda aparece na personagem apenas como flashs, eventos que armam cenário para acontecimentos mais significativos de cunho íntimo e pessoal.

Porém, justiça seja feita, a dimensão política da Frida real é retratada no livro e não é simplesmente castrada da personagem ficcional. Da mesma maneira, apesar de apresentar como um pano de fundo, o livro aborda a relação de amizade entre Frida, Lucianne Bloch, Anita Brenner e Tina Modotti. Obviamente, o romance não poderá agradar a todos e todas, mas, apesar de suas limitações, constitui uma belíssima contribuição para compreensão de uma personagem real tão complexa e multifacetada como Frida Kahlo.


Por Carlos Douglas Martins


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