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Um feminismo de amasamiento: Interseccionalidade entre Lélia Gonzalez e Gloria Anzaldúa

Por Gabrielle Venancio da Silva (Skia) Na obra intitulada “Borderlands/La Frontera: The New Mestiza”, no capítulo “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência", a teórica cultural Gloria Anzaldúa apresenta seu conceito de consciência mestiça, trazendo em seu texto as problemáticas envolvendo questões históricas, culturais e políticas de sua vivência enquanto um corpo queer feminino, mestiço e chicano.

A autora apresenta suas considerações através de seus subtítulos, construindo uma narrativa através da estrutura de seu texto que, ora se inicia com poesias de sua própria autoria e ora com citações de suas referências bibliográficas, de forma um tanto quanto inédita, para um texto acadêmico.

Gloria nos traz a visão do lugar do mestiço, trazendo analogias em relação ao qual sua subjetividade enquanto mulher de origem mexicana e lésbica. Esses lugares pelo qual a autora perpassa são base para recurso argumentativo e ilustrativo de um não, e ao mesmo tempo, todos os lugares. Dessa forma, a autora faz com que o leitor reflita sobre todos os corpos que podem assumir esse local de mestiçagem, principalmente mulheres latino-americanas.


Como mestiça, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados (ANZALDÚA, 2005. p. 707).


O resgate histórico da autora é preciso e detalhado, trazendo registros da dominação colonial e cristã para com os chicanos e a América latina em geral, apontando as raízes do machismo e homofobia através dos mesmos, Gloria faz um levantamento , através de uma reflexão, sobre o padrão de masculinidade tóxica antiga da atual. Também nos apresenta reflexões sobre conceitos e figuras epistêmicas negligenciadas e demonizadas pelos brancos/ cristões, cotidianamente e academicamente: A encruzilhada e Exu, pincelando, dessa forma a cultura Yorubá, a diáspora africana, os pretos e mestiços que são tocados por essa linguagem e representação.

É importante destacar também a importância da terra - direito negado a muitos latino americanos, desde os genocídios de vários povos indígenas pelo continente, à diáspora africana, até os dias de hoje- em “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência". Através de suas memórias, ela articula com as demandas já narradas anteriormente, apresentando agora em uma visão territorial, a terra enquanto espaço físico, de onde se tira o alimento e a terra enquanto espaço político, de apagamento, de neocolônia.

Desse modo, polida, porém cativa, faz um apelo enquanto lança críticas e convida aos brancos para que reconheçam o seu local na luta pelos direitos, um local de assistência, sem protagonismo. Assim como convida a todos mestiços que reconheçam os locais e situações onde não possuem passibilidade para ocupar enquanto representação, de forma doce, original e única.


Referências:

ANZALDÚA, Gloria. “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência". Florianópolis: Revista Estudos Feministas, 2005, p. 704-719.


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