Eu sou o corpo que não se cala
- Hiasmim Silva

- 4 de mar.
- 3 min de leitura

Dizem que as melhores mensagens começam contando causos. Vou contar sobre uma reflexão que tive ao ler o livro Eu sou o monstro que vos fala, de Paul Preciado. No livro, o autor indaga como a psicanálise se recusa a pensar o novo — em especial, como compreender os corpos trans.
Eu, estando no corpo de uma mulher negra retinta, gostaria de transmitir como é viver em um corpo que não se cala.

Eu sou o corpo que não se cala, sou o corpo que, antes de falar sobre subjetividades ou “futilidades” — logo, mesmo antes de falar — já se anuncia. O corpo negro é esse corpo político. Um corpo que quase ninguém busca ver além da cor. O corpo que, desde o momento em que chega a determinados espaços, já é lido como negro(a).
Você reparou, né? Não falei “negre”, pois quase sempre não é permitido a esse corpo agir fora daquilo que já está estabelecido. Há aqueles de nós que já não ligam, simplesmente aceitam viver sua sexualidade, independentemente dos olhares e maus dizeres. Há aqueles de nós que sentem os olhares e maus dizeres, adoecem ou enlouquecem.
Há aqueles de nós que vivem em um silêncio profundo, para que seu amor não acorde ou alarde os maus olhados e os maus dizeres. Reparou? Foi só a ideia do corpo chegar e essas subjetividades basilares já ficam constrangidas, sem saber se devem ou não aparecer.
Eu sou o corpo ousado que insiste em falar. O corpo que varre as ruas do bairro sabe muito bem que, sem o seu trabalho, ele não é limpo. Aquele corpo majoritário dos que acordam cedo para pegar o ônibus lotado, um enlatado de gente, e trabalham até tarde.
O corpo que zela pela casa e pelas crianças da patroa e do patrão. O corpo que desafia as balas perdidas e decide se manter, para que não seja tudo em vão. O corpo que é mais abusado sexualmente, explorado desde a infância e que mais morre por feminicídio é o meu corpo negro, segundo os dados do Brasil. Afinal, já dizia Elza Soares: “a carne mais barata do mercado é a carne negra.”
Continuo pertencendo a esse corpo negro que vive pelos corredores da universidade, às vezes sozinho, em sua solidão intelectual, por estar entre a periferia e a casa-grande. O corpo fala — e continua falando. Corpo negro que se manifesta politicamente antes mesmo da boca abrir.
Mas agora a boca tem estado mais do que só aberta: a boca fala através de pessoas negras que ingressaram politicamente dentro dos movimentos, partidos e cargos políticos.
A esse corpo que não se cala — um corpo que insiste em acreditar que é humano, digno de ser amado e valorizado. Um corpo que vai ao avesso da pele, como diria Jeferson Tenório.

O corpo que ri. O corpo que dança. O corpo que também ama — e o faz com intensidade. Porém, é um corpo. O corpo que chega primeiro, antes da fala: meu corpo, o corpo negro.
Esse corpo que pode dançar ijexá ou — bendito corpo — que pode rezar com um terço. O corpo que organiza uma casa de axé ou que constrói uma igreja.
O corpo insubmisso que trilha pelas montanhas ou o corpo sereno que navega pelos filmes e séries. O corpo que é meu, e ao qual o outro deveria ser convidado quando quisesse falar — pois é um corpo. Meu corpo negro.
Já se pode falar de corpos negros, pois são vários: altos, baixos, magros, gordos, fortes ou fracos — são muitos.
A esses corpos, que nossos olhares já sabem que não se calam, pois onde vão anunciam sua negritude, que a gente se permita ouvir suas histórias para adentrar suas subjetividades.
Um corpo negro que pode dançar na chuva ou sorrir pela praia.
Um corpo que pode surfar ondas ou deitar-se em uma rede. Um corpo que deve carregar algo além das incontáveis raízes ancestrais que traz em seu conjunto de melanina e um corpo que deve ser visto além da sua materialização.
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