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Entrevista Livraria YorùBar

Por Carlos Douglas


Revista Menó: Conte-nos um pouco da história da Livraria YorùBar: Como surgiu? Quem são as pessoas que trabalham no projeto? Como é dirigir uma livraria independente?

Livraria YorùBar: Bom, nós trabalhamos com livros há muito tempo… fundamos a Livraria Soletrando, que funciona até hoje no centro de Niterói. No entanto, constatamos a necessidade de um espaço que não seja só uma livraria, mas um espaço cultural, próximo a UFF. Um local que não seja uma mera livraria, mas sim um espaço de cultura, que seja referência a política cultural, resistência, debates, discussões, lançamentos de livros, e atividades culturais literárias de um modo geral. Essa demanda nos levou a tomar uma iniciativa.

Quanto às pessoas que trabalham no projeto, além de mim, José Cícero, que sou o idealizador e responsável pelo projeto, possuindo uma vasta experiência nesse ramo – mais de 40 anos trabalhando como livreiro – temos outros livreiros extremamente capacitados. Também contamos com a colaboração de alguns alunos da UFF, que a partir do retorno presencial, tentaremos firmar parcerias para construir uma relação conjunta, não só com a universidade, como com seu o corpo docente e discente, de um modo geral. Contamos muito com esse público – a comunidade acadêmica da UFF – para nos ajudar no sucesso do nosso projeto.

Dirigir uma livraria é difícil, obviamente, ainda mais por trabalhar especificamente com livros, em um país como o nosso, onde o hábito da leitura não é – infelizmente – incentivado, além da ausência de políticas públicas de incentivo à leitura e à cultura…, mas há um lado prazeroso: quem realmente gosta de livros passa a encarar essas dificuldades de forma serena, já que construímos relações, aprendemos e trabalhamos com que gostamos. No final, se torna uma atividade bastante prazerosa.



Revista Menó: Afinal, YorùBar é livraria, bar ou os dois? Como e por que dessa mistura?

Livraria YorùBar: Yorùbar é mais do que os dois. É mais que livraria e bar. A proposta é ser um espaço cultural, tendo a livraria com referência principal, mas que tem um serviço de bar, de café, onde as pessoas possam vir, tomar uma cerveja, um café, papear… E tem também as atividades, né? O espaço também está aberto para atividades culturais, como oficinas de dança afro e maracatu, iniciativas que visam incentivar a cultura afrobrasileira com parcerias que já iniciamos. Além disso, procuramos parcerias para eventos como: lançamentos de livros, palestras, debates e demais atividades literárias.

A mistura é extremamente necessária, né? Você agrega múltiplos valores e atividades em um único espaço… é uma boa mistura. Uma mistura de cultura e lazer, que é um caminho que várias livrarias hoje estão seguindo, e que tem dado certo. É um caminho que tende a fortalecer a livraria, se tornando multicultural.

Revista Menó: O local onde a loja física funciona, na Praça da Cantareira, ao lado da Universidade Federal Fluminense, é um local tradicional de cultura e resistência da cidade de Niterói/RJ. Nessa localidade, ao longo da história da cidade, foram realizadas várias iniciativas de eventos culturais, shows e manifestações. Como o projeto da Livraria YorùBar se encaixa nesse contexto?

Livraria YorùBar: Esse foi um dos motivos que escolhemos a praça Cantareira. É um local de efervescência cultural e política, devido à proximidade com a UFF e com essa juventude, representada pela maioria de seus alunos… Isso é fundamental. É importantíssimo, na nossa concepção, ter um espaço como esse aqui. Um espaço onde as pessoas possam compartilhar, participar, ter acesso a variados gêneros literários, possam tomar sua cerveja, possam discutir, possam se reunir…é um espaço participativo. Eu acho que ele só vem a complementar e fortalecer essa vocação da Cantareira, e só vem a somar e agregar mais valores a todas as atividades culturais e políticas que já acontecem aqui na cena local.

Revista Menó: Vocês consideram que as livrarias precisam integrar causas culturais e políticas ou o papel das livrarias é somente vender livros?

Livraria YorùBar: Não, nossa proposta inclusive é integrar. Acho que as livrarias devem ter uma função social, cultural e política. Nossa proposta é justamente não nos limitarmos a uma relação puramente comercial. Acho que as livrarias - respeitando o perfil de cada uma- devem ir muito além disso, elas têm uma contribuição cultural muito importante para dar.

Revista Menó: Como é ser uma livraria de rua nos dias de hoje? Vocês consideram que a concorrência da Amazon e outros sites de vendas online tem colaborado para a falência das livrarias físicas? Hoje é necessário também vender pela internet ou é possível sobreviver somente com vendas no local da loja física?

Livraria YorùBar: É difícil, mas se for uma livraria que tenha um atendimento personalizado, que tenha livreiros que de fato conheçam e que tenham uma relação mais orgânica com os livros e com as pessoas, dá certo. Nós somos, de certa forma, um exemplo disso. Conversamos com a clientela, indicamos títulos, temos amigos que frequentam o espaço, recebemos sugestões… então, penso que essa parceria entre o livreiro e o cliente é fundamental.

Quanto à questão das vendas online, infelizmente, não há a menor dúvida. A internet é um mercado muito amplo, oferecendo mais variedades, muitas vezes tendo ofertas melhores, o conforto do cliente não precisar sair de sua casa…O mercado virtual, de modo geral, é arrasador! E isso tem contribuído muito, tanto que, as grandes livrarias, como a saraiva; a cultura, a nobel e etc, passam por um momento muito difícil, quase em uma situação falimentar…, mas as livrarias de bairro têm ressurgido, exatamente por conta de seu caráter independente e mais personalizado. Elementos como a figura do livreiro presente – que as livrarias de grande porte, infelizmente, não têm – fazem com que as livrarias de rua ressurjam de uma forma mais autônoma, criativa e personalizada, se reconstruindo e redescobrindo o perfil das livrarias, voltando para o cenário cultural do mercado do livro.

Por outro lado, sem a internet, seria quase inviável a nossa sobrevivência. Do ponto de vista do lucro comercial, o que nos mantém hoje, são as vendas virtuais pelo site “estante virtual”.



Revista Menó: Como é ser uma livraria independente? Como as livrarias têm conseguido sobreviver nesse contexto desfavorável de ataques à cultura? Como a pandemia afetou a livraria?

Livraria YorùBar: Isso só aumenta o nosso compromisso, nossa responsabilidade. Sabemos que temos que trabalhar muito mais, que temos que ser muito mais. Ser mais atenciosos, mais conhecedor dos conteúdos dos livros, ter cuidado e respeito com o livro, e ter uma relação mais intrínseca com o público, para manter essa independência. Sem esses elementos, sem valorizar o livro e a figura do livreiro, essa independência fica bastante comprometida. Infelizmente, sobre o contexto político dos ataques à cultura, o país passa por um momento bastante tenebroso, digamos assim. A investida do governo federal contra a cultura, de forma geral, nos afeta e nos deixa receosos. Mas isso só fortalece o nosso espírito de resistência, pois faz com que lutemos muito mais para que esse estado das coisas mude, o mais breve o possível. Para que a cultura volte a ser respeitada e volte a ter seu espaço em relação a prática proposição de políticas públicas, como as de incentivo à leitura. Acho que essa fase obscura vai passar e a cultura vai voltar a ter seu local de destaque e a importância que lhe é devida.

A pandemia afetou drasticamente o cenário. Bastante. Muito. O que nos deu gás e manteve a nossa sobrevivência nesse período- e que ainda mantém, de certa forma- são as vendas virtuais. Se não fosse isso, dificilmente estaríamos com o espaço aberto.

Revista Menó: Qual o futuro das livrarias, na visão da Livraria YorùBar?

Livraria YorùBar: As livrarias terão que sempre se reinventar, terão sempre que criar outras atividades que venham de encontro ao livro. Não dá pra se limitar meramente a uma relação comercial. A figura do livreiro é importante, o estímulo a iniciativas e atividades culturais passam a ser fundamentais. As livrarias terão que se tornar ponto de encontro, ponto de referência cultural, para que possam agregar mais pessoas e sobreviver.

Revista Menó: Qual a mensagem que vocês deixam para todas as pessoas que amam os livros?

Livraria YorùBar: Parabéns! Só temos a agradecer a todos, porque são essas pessoas que nos fazem existir. E dizer, para todos que se interessarem, que o espaço Yorùbar está aberto, e que será um grande prazer contar com a presença delas aqui em nosso espaço.

Revista Menó: Na sua visão, o que é ser um livreiro?

Livraria YorùBar: Livreiro é ter uma relação orgânica e prazerosa com o livro. É procurar absorver, se não tudo, pelo menos fragmentos dos conhecimentos que você tem em torno de si – considerando que estamos rodeados de milhares de livros, lidamos com milhares de livros e com uma clientela mais sofisticada, no ponto de vista intelectual. Então, ser livreiro é você estar envolvido, de corpo e alma, nesse processo. É você não quer só vender o livro, é você conhecer o livro, conhecer o comprador do livro. Não se limitar a um mero decorador de títulos, é ter um conhecimento de conteúdo de livro.

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