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Entrevista com a Livraria da Tarde

Atualizado: 4 de jan.

Por Carlos Douglas


LIVRARIA DA TARDE

Instagram: @livrariadatarde

Site: https://www.livrariadatarde.com.br/

Facebook: https://www.facebook.com/livrariadatarde/

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UC17Q6Ihd_3r6yaSnybHS5HA

Telefone: +55 11 3064-9664

Whatsapp: +55 11 96383-1939

E-mail: site@livrariadatarde.com.br


CD: Conte um pouco da história da Livraria da Tarde: Como surgiu? Quem são as pessoas que trabalham no projeto? Como é dirigir uma livraria independente?

Livraria da Tarde: Olá, eu sou a Mônica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde. Ela surgiu de um sonho meu, sempre fui apaixonada por livros e livrarias, especialmente as livrarias de rua. Como leitora eu sentia falta de espaços acolhedores e aconchegantes aqui em São Paulo, uma cidade que em geral é muito dura, as pessoas estão sempre com pressa, e com pouco tempo para se encontrarem.

Eu não venho do mercado livreiro, trabalhei muitos anos no mundo corporativo, em RH e desde 2010 me tornei sócia de uma consultoria de educação corporativa. Depois de quase 20 anos nesse mercado, resolvi realizar o sonho de trabalhar com cultura e literatura. Chamei uma amiga para ser minha sócia, mas acabou não dando certo a parceria e assumi o projeto sozinha. Abri a livraria em dezembro de 2019, e de lá para cá, depois do susto da chegada da pandemia, acredito que conquistamos nosso espaço e construímos uma identidade forte que tem nos dado muitas alegrias.

Nossa equipe é constituída por 3 livreiros, que são parte fundamental para o sucesso da livraria. Eles são grandes leitores, apaixonados por literatura, cultura e arte, e isso faz toda a diferença no atendimento ao cliente. São eles Zilmara Pimentel, Thamires Marins e Ageu Habacuque. Desde que abrimos nossa loja online, temos o apoio remoto também do Viktor Matts.

Fazer gestão de uma livraria independente tem dores e delícias como fazer gestão de qualquer negócio. O lado bom é poder escolher o acervo de acordo com a proposta de valor, com os clientes leitores, é ter liberdade para realizar ações que tenham a ver com a identidade da marca, conhecer muitos clientes pelo nome, receber muito carinho e afeto de muita gente. O lado desafiador é ter negociações mais duras com editoras, ter que provar que somos profissionais e sabemos fazer gestão do negócio.


Mônica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde (imagem retirada do site da livraria).

CD: A livraria é muito atuante na internet, especialmente no Instagram, e aparece promovendo causas sociais, como a oposição à taxação dos livros. Qual a importância de uma livraria atuar nesse tipo de causa?

Livraria da Tarde: Acredito que temos um papel pedagógico em relação à conscientização das pessoas quanto ao papel do livro, da cultura e das livrarias na nossa sociedade. Uma livraria não é um comércio como outro qualquer, embora seja um negócio, precise dar lucro (muita gente não entende isso... mas como vamos pagar nosso aluguel, funcionários, fornecedores?), também é um espaço cultural, um local de fomento ao pensamento crítico e formação de leitores. Nas redes conseguimos levar essas ideias para um público maior. Na livraria falamos apenas com as pessoas que estão em SP, moradores ou visitantes. No Instagram e Facebook falamos com muito mais gente, pessoas que nunca nos visitaram, e muitas nunca nos visitarão.

Desde que abri a Livraria da Tarde procuro me envolver nas discussões e ações que são fundamentais para a sustentabilidade das livrarias e para o mercado do livro como um todo, seja por meio das entidades do livro, ou me associando a pequenos livreiros como nós. Já fizemos uma campanha contra a privatização dos correios, nos posicionamos contra a taxação dos livros, e atualmente estamos apoiando a criação da lei que regulamenta os descontos para lançamentos de livros, a fim de colocar limites ao leilão que se tornou a venda de livros pelas grandes lojas online como Amazon, Americanas e Magazine Luiza.

CD: Como é ser uma livraria de rua nos dias de hoje? Vocês consideram que a concorrência da Amazon e outros site de vendas online tem colaborado para a falência das livrarias físicas?

Livraria da Tarde: Ser uma livraria de rua é acreditar na força e potência dos livros e das livrarias como locais de encontro e fomento à leitura. Não é fácil, confesso que tem dia que é desanimador ver os clientes olhando os preços na livraria comparando pelo celular com as lojas online, e muitas vezes questionando os valores, como se nós estivéssemos colocando um sobrepreço, quando na verdade quem define o preço de um livro é a editora.

Eu não sou contra a concorrência das vendas online, pelo contrário, acho que elas são fundamentais para os livros chegarem às cidades que não têm livrarias (e são muitas). O que não dá e acaba impactando muito no mercado de livrarias físicas são esses descontos absurdos que muitas dão apenas para ter os dados dos clientes em sua base abrindo mão da margem. Como são empresas poderosas, elas não se importam com a margem de lucro do livro, porque sabem que venderão outros produtos com margens maiores e vão compensar.

Não sei dizer se essas vendas online têm colaborado para a falência das livrarias físicas. Acho que tem muitos outros fatores que tem contribuído, além desse, obviamente. Não ter uma gestão financeira, controles e uma equipe bem formada podem levar à quebra de qualquer negócio.

Interior da loja (imagem retirada do site da livraria).

CD: Como é ser uma livraria independente? Como as livrarias têm conseguido sobreviver nesse contexto desfavorável de ataques à cultura e pandemia?

Livraria da Tarde: Estamos lutando como a maioria dos outros negócios, e temos contado muito com uma comunidade de leitores que valorizam as livrarias de rua, que sabem da importância das livrarias para que as cidades fiquem mais ricas culturalmente e para a formação de novos leitores. Ter um governo contrário à cultura não significa ter um povo que pensa igual. E nós brasileiros sabemos o valor da nossa cultura, a importância da arte para nossa sobrevivência. A pandemia só aumentou essa percepção. O que seria de nós sem as lives do Gil, do Milton e do Caetano? Sem as conversas com escritores, teatros online? Imagine passar uma pandemia sem ter um livro para ler?

CD: Qual o futuro das livrarias, na visão da Livraria da Tarde?

Livraria da Tarde: Penso muito no que estamos cultivando hoje e vamos colher no futuro. Temos investido muito em clubes de leitura como lugar de formação de leitores, em breve voltaremos com os eventos para o público todos os públicos e especialmente o infantil, nossos leitores mirins amam ouvir histórias e participar delas. Eles são importantíssimos, porque serão leitores adultos. Já estamos vendo as pessoas voltarem a frequentar a livraria, e serão cada vez mais o lugar de encontros significativos com outros leitores, autores, livreiros e com os próprios livros. Um lugar de afeto, troca de experiências, conhecimento e percepções.

CD: Qual a mensagem que vocês deixam para todas as pessoas que amam livros e conhecimento?

Livraria da Tarde: Ocupem os espaços culturais da cidade! Sejam as livrarias, bibliotecas, teatros, centros culturais. A rua é nossa, a cidade é nossa, a gente precisa se apropriar para ter uma vida plena. Quanto mais gente nesses espaços, menor a violência, mais gente engajada em apoiar projetos, mais empregos, mais renda. Conversem com livreiros, aproveitem essa troca para conhecer diferentes autores, estilos, linguagens, é uma viagem barata comprar um livro que nenhum algoritmo pode te indicar!


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

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