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Pra quem não sabe, Barbacena é minha terra natal, lugar em que vivi até completar 12 anos. Lugar que vive em mim, inventado e reinventado entre loucos e rosas. Ali, as rosas voavam e os loucos criavam raízes. Explico: as rosas eram para exportação e os loucos eram importados, vindos de todo canto, vindos dos Gerais, geralmente pra sempre. A princípio vinham de trem, trem de doido. O Hospital é enorme, sempre foi, existia há tempos antes do meu existir, praticamente uma pequena cidade cravada na cidade, ocupando duas áreas relativamente distantes uma da outra. O manicômio era tão grande que até hoje ocupa parte de meu imaginário. Aos domingos a caminho da casa de minha vó, em São João Del Rey, costumávamos passar na frente do velho hospital que a gente simplesmente chamava de “colônia”. Me lembro daqueles homens sem nome, de cabeça raspada a caminhar com suas roupas rotas na beira da estrada. Era comum. Não me lembro se eram homens de fato ou se eram mulheres. Me lembro das cabeças raspadas, da beira da estrada, dos uniformes rotos. Me lembro dos rostos rotos na estrada uniforme. Sempre à beira, os loucos. Eram loucos? Não me lembro… 


De um ponto da estrada dava pra ver a torre distante.

Frio. Frio de maio, frio de julho, uniformes rotos. Na minha cabeça de criança aqueles homens viviam escondidos na torre em frente ao Parque de Exposição. Manicômio, enorme manicômio que vive na cabeça da gente. Torre pequena, quanta gente cabia ali?

Por Marcelo Valle @marcelovallefotografias

 
 
 

Sou o Marlon, vim do Rio Vou contar uma estória de dar até calafrio!

Ela é nossa memória,

da nossa terra o brio… Ouve, guarda e devora.

Está história é de um trem chamado “descobrimento”: é quando os europeus chegaram de fortes ventos e pisaram na América

em ano mil-e-quinhentos.

Buscavam seus mil alentos em terras desconhecidas, buscavam alguns temperos e outras coisas parecidas para longe assim vender muitas coisas diferidas.

Nessa busca infinita

por temperos e dinheiros eles conheciam povos, mapeando mares inteiros! Mais e mais e mais trocavam, navegavam seus janeiros…

Porém, essa terra aqui, de América chamada

não tinha um nome ainda, só depois foi batizada… Mesma coisa o Brasil:

não era Brasil nem nada…

“Nem nada” é exagero, pois onde hoje é Brasil era terra habitada

por mil gentes… povos mil! Ai deles! Os europeus os trataram a punho vil…

Alguns povos se amigaram com os montões aqui chegados porém a tragédia veio:

milhões morreram gripados! Ô, tristeza acontecida… Poeiras desses passados…

Os povos que aqui viviam, milênios no chão daqui,

tinham nomes: eram muitos! Como os Tupi-Guarani,

que eram povos tão guerreiros, tinham xamãs – karaí…

Sempre os Tupi-Guarani se espalharam nessas terras buscando a Terra Sem Mal com suas lanças de guerra. Hoje já são muitos povos, povos de inúmeras serras…

Um certo André Vallias

pensando o Brasil dormente reuniu muitos nomes deles pra gente guardar na mente e pra lembrar que esses povos são outros nomes da gente.

“Yanomami, Asurini

Cinta Larga, Kayapó

Waimiri, Atroari,

Tariana, Pataxó

Siriano, Pipipã

Rikbatsá, Karopotó”…

Os brancos, os europeus, no outro lado da história viam coisas muito novas que não tinham na memória! Se espantavam com os Tupi: “Até gente eles devoram?!”

Chamavam estes de “índios” por serem bem diferentes, como outros conhecidos

que os brancos tinham em mente, porém era nome errado,

um nome que em muito mente!

Pois essa palavra “índio”

vinha de um outro recanto e botava num só saco

muitos povos, seres tantos… Erro de ignorância

que provocou muito pranto…

É que os brancos queriam que todos fossem cristãos, só que os povos eram brabos: nem todos eram irmãos.

Os brancos e suas cruzes receberam muitos nãos…

Os que sim davam a eles perdiam logo a cultura:

o que os avós ensinavam os brancos davam rasura, e a lembrança que era fresca virara esquecência dura.

No que os povos daqui,

entre a cruz e a espada

ou matavam ou morriam,

ou fugiam à disparada,

pois o que os brancos davam era pouco ou era nada.

É que os tais loucos brancos, “portugueses” nominados, tinham sua própria história, suas guerras, seus tratados. E por nada os “índios” eram inimigos declarados…

Baita desencontro doido… Mas, e o “descobrimento”? Será que os povos daqui não tinham seu pensamento? Eles de si mesmos já

não tinham conhecimento?

Aí que mora um causo, quase-quase um segredo: aqueles povos nem não foram descobertos: engano-lêdo! Foram sim foi conquistados de modo até bem azedo!

Essas terras, até então só os nomes Tupi tinham, tinham nomes de outros povos também, que aqui viviam, mas perderam esses nomes pelos que os brancos traziam!

E assim passaram anos de entradas e bandeiras: a terra era imensa

faltavam a elas beiras!

Sertão foi o nome dado às terras interioreiras!

Termino esta grande saga sem início e sem fim

que o brasileiro conhece muito pouco, mas enfim: nunca é tarde pra pensar em coisa importante assim.

Só resta além de tudo,

dar valor ao nosso povo: ele é também mil povos, muito velho e muito novo – Galo velho já crescido,

pintinho dentro do ovo.

Terminado em 31/05/2016 – Revisado e alterado em março de 2021 especialmente para esta publicação

Métrica de cordel

usada: sextilha, também

conhecida como obra de

seis pés. É a estrofe de seis

versos, com rimas em formato

ABABAB ou ABCBDB ou

ABBCCB, etc.

Por Marlon Andaluz @marloneiro

 
 
 

Livraria Aláfia

Figura 1 – Logotipo da Livraria Aláfia

Instagram: @livrariaalafia

Telefone/Whatsapp: (21) 98602-5064

A Livraria Aláfia é um desses empreendimentos que nos dão esperança com relação às possibilidades de distribuição econômica no país, além de constituir um exemplo de responsabilidade com relação aos produtos e aos clientes. Definitivamente, não é um mero lugar onde se vendem livros, mas compõe um movimento de resistência na divulgação de temáticas tão importantes para o povo brasileiro como africanidades, religiões afro-brasileiras e negritude. Mesmo que você não queira comprar livros agora, vale a pena seguir as redes sociais da Livraria Aláfia e visitar o blog, pois trazem discussões, resenhas, contribuições, frases e reflexões, assim como lives com autores, editores e artistas. E, além disso, a livraria têm títulos que não se encontram mais em lugar algum! Também praticam preços acessíveis, parcelamentos e oferecem facilidades de frete aos clientes. Pelo esforço, dedicação e empenho, as proprietárias (duas mulheres negras capazes e qualificadas) conseguiram reunir um acervo fantástico que todo estudioso, religioso ou curioso deveria conhecer.

RM: Como surgiu a ideia de abrir a Livraria Aláfia? Quais dificuldades vocês enfrentaram para realizar esse projeto?

LA: A Livraria Aláfia Arte Literatura surgiu do desejo de trabalharmos com o mercado editorial, mas, especificamente, voltado para as práticas religiosas de matrizes africanas, que não se limitam apenas à Umbanda ou o Candomblé. Por nos aprofundarmos no tema, percebemos a importância de estendermos nosso nicho inicial para os títulos sobre história da África, e autores negros que tratam sobre o universo da cultura negra e africana na Diáspora.

Enfrentamos dificuldades enquanto nome no mercado livreiro, pois nossa Livraria partiu do zero e vai aos poucos alcançando algum destaque para os religiosos e simpatizantes das religiões tradicionais. Então, para quem não conhece e não tem prática na área editorial, a confiança e os contatos com editoras e distribuidores acontecem aos poucos.

Para nos mantermos enquanto empreendimento enfrentamos a desleal concorrência com a Amazon, mas principalmente a falta de informação do funcionamento desse conglomerado frente a empresas como a nossa e o impacto que todo o mercado editorial sofre com ele. Desde o encolhimento dos títulos disponíveis em português, como também as oportunidades de emprego e expansão das pequenas editoras.

Há uma desinformação, entre os próprios autores, de que as livrarias lucram cerca de 50% sobre o preço de todos os títulos disponíveis. Porém, a maioria das livrarias trabalha com percentual bem menor, que varia segundo o acordo firmado entre editoras, distribuidoras e autores independentes, que pode chegar até 20%. Sem falar dos próprios custos de manutenção da livraria física ou virtual, como é nosso caso. Por isso, em nosso país considero nossa iniciativa um movimento de resistência, pelo e para o povo do Axé.

RM: Quem são as pessoas que estão por trás da Livraria?

LA: Atualmente, a equipe é formada por duas pessoas, ambas, mulheres negras. A proprietária é Ana Cristina Dutra, responsável pelo atendimento direto nas mídias sociais, exceto no Instagram. E Bárbara Canedo, gerente comercial, encarregada do contato com os parceiros e releases do Instagram. Embora aconteça essa separação, tudo é discutido e resolvido entre nós.

RM: Qual a importância de uma livraria especializada em africanidades, religiões afro-brasileira e negritude? Como vocês conciliam a questão comercial com o ativismo social?

LA: A base de nossa proposta está firmada em dois alicerces primordiais: a vontade de espalhar o conhecimento sobre as religiões tradicionais e contribuir para a diminuição do preconceito e do racismo religioso. Não podemos esquecer que estas mesmas religiões são demonizadas há muito tempo, algumas de suas entidades e deuses são associadas a Demônios cristãos. A começar pelo catolicismo dos colonizadores, até, nos dias de hoje, essas religiões tornarem-se alvos dos movimentos neopentecostais, baseados em crenças enraizadas no racismo estrutural da nossa sociedade. Já sofremos uma dessas investidas, enquanto empresa, prontamente denunciada.

Nosso ativismo social vai desde resistirmos enquanto empreendimento voltado para o povo do Axé, em suas multifacetadas expressões, até sermos reconhecidas pelo público em geral como especialistas dessa literatura. Tal como um quilombo urbano, divulgamos e incentivamos autores – e artistas – que tratem sobre tais assuntos no nível da ficção ou não.

RM: Qual mensagem vocês deixariam para os leitores da Revista Menó?

LA: Primeiro agradecer a todos que contribuíram e contribuem para que sejamos um espaço de divulgação das obras de autores relacionados à cultura negra do nosso país e da África na Diáspora.  E por último, mas, não menos importante, reafirmar a importância de todos os leitores apoiarem iniciativas como as nossas, de forma orgânica, divulgando nosso trabalho, ou comprando nossos produtos. Assim, você garante a manutenção de empreendimentos pequenos e familiares, ajudando na melhor distribuição de renda.

Por Carlos Douglas Martins

E-mail: cdouglasmartins@gmail.com

Instagram: @cdouglasmartins

Twitter: @cdouglasmartins

 
 
 
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