top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Por Coletivo Terral


A mudança causada pela pandemia na rotina dos estudantes e professores em todo país foi visível. No lugar de um ambiente físico, surgiu um espaço virtual que teria, segundo muitos teóricos das metodologias ativas, a possibilidade de maximizar o aprendizado dos estudantes. Entretanto, na prática docente diária, foi perceptível que toda essa empolgação tecnológica apregoada aos quatro cantos muitas vezes não passou de um canto de sereia, tendo em vista que, dentro de um espaço potencialmente disruptivo, as práticas arcaicas de educação foram reproduzidas, adquirindo uma performance ainda mais tradicional. Não houve mudança significativa na aprendizagem, porque a aula instrucionista – que não forma autores, pesquisadores, apenas memorizadores e repetidores – ainda é proeminente nas instituições de ensino. Acabam persistindo sistemas prontos, como caixas educacionais, nas quais o professor, como mero reprodutor de métodos autointitulados ativos, acaba por, em uma infinidade de mudanças, realizar o mais do mesmo educativo perpetuado por décadas na educação brasileira.

É sabido que vários problemas estruturais foram e ainda são detectados nesse novo cenário educacional, já existentes antes e durante a pandemia, a saber: a falta de internet e/ou a sua precariedade na casa de estudantes e docentes; o descaso do governo federal, em especial, em ajudar os estudantes a terem internet em seus lares; o trabalho em excesso de professores e alunos; a pressão sofrida pelos professores por mais produtividade; os casos de ansiedade, depressão e esgotamento mental e cognitivo decorrentes desse período dentre outros. Gostaríamos, entretanto, de direcionar nossa análise para um outro lugar muitas vezes não visto, porque é facilmente encoberto pela dura camada de verniz dada pelo ensino tradicional arcaico e obsoleto de ensino-aprendizagem: a aula instrucionista.

Possivelmente você esteja se perguntando por que razão a aula seria um problema, e não uma solução plausível diante do caos que estamos vivendo. A questão precisa ser colocada da seguinte forma: por quais razões precisamos da aula tal como ela é preconizada nos espaços institucionais? E, se precisamos de aula, de que tipo ela seria? Se formos assistir e participar da maior parte das aulas remotas que estão sendo dadas no país, em geral encontraremos um professor falando e alunos ouvindo. Qual o problema disso? Não seria assim que se aprende? Não é ouvindo o professor/tutor/orientador que os alunos vão aprender a matéria?

Na verdade, há um grave problema nisso. Ensinaram-nos que os saberes formais, consolidados, realmente se aprendem apenas na escola, que nela aqueles recebem tratamento pedagógico-didático necessários para a aprendizagem e que nela aprendemos a estudar – um erro gravíssimo, porque aprender e estudar são ações que praticamos intuitivamente desde a tenra idade, sem haver a estrutura formalizada e instrucional que o espaço escolar tradicional oferece. Mas de que tipo de estudo aqui estamos falando e de que tipo de forma de aprender? Estudar, na perspectiva da instrução, significa ouvir, copiar, memorizar as informações ditas pelo professor ou pela professora e transcrevê-las em uma avaliação escrita, uma prova, com o fim tão almejado de obter aprovação na disciplina. Nesses termos, o conceito-ação de estudar, que também se confunde com o conceito-ação de aprender, significa não faltar aula, ser assíduo, ser um ouvinte atento, ser participativo – mas dentro dos limites do ensino tradicional. No mesmo sentido, as avaliações se transformam em métodos de correção dos aprendizes, a régua pela qual é medida a aprendizagem. Mesmo se tratando a escola de espaço de educação formal, institucionalizada, e ainda havendo outros espaços de aprendizagem construídos em ecologias ou ecossistemas o mais das vezes mais orgânicos, menos formais e, por isso, menos instrucionistas, é o caráter meramente robótico, mecanicista, unidirecional dos espaços formais de educação, como o da escola em tempos de pandemia, que tem "cimentado" a prática de ensino-aprendizagem em termos teleologicamente instrucionais e corretivos: um saber-para, mas um “para” cuja ontologia é tão somente a aprovação, validação, diplomação da correção.

O ensino tradicional é, pois, resultado de sistematizações datadas desde a Idade Média, mas sua didática foi consolidada e forjada aos moldes da sociedade disciplinar, típica do século XIX, após a Primeira Revolução Industrial desenvolvendo a urbanização e conseguinte processo maciço de escolarização das grandes cidades europeias. É importante situar a conjuntura social e política para compreender esse fenômeno: para o contexto da sociedade disciplinar e das políticas de dominação dos corpos (como ressalta Foucault em seus estudos sobre novas formas de governamentalidade e biopoder/biopolítica), a educação tradicional foi uma proposta disruptiva e bastante inovadora. Concebendo a educação como repasse do conhecimento desenvolvido em cascata, havia, portanto, método definido, tampouco didática. O método tradicional, naquele contexto, trouxe a construção de um paradigma moderno, tal qual a introdução das máquinas à vapor na construção de produtos têxteis. As formas disciplinares de poder, como nesse tipo de escola, contudo, não desapareceram na passagem dos séculos XX e XXI, mesmo com tentativas de superá-las, mas antes se colocaram como camadas adicionais de regulação dos corpos, ao pôr em funcionamento a amplificação do instrucionismo.

Se pensarmos todos os desdobramentos técnicos, científicos e epistemológicos, a escola se manteve como uma tecnologia de época. A escola, numa perspectiva tradicional, é a reprodução de um modelo esgotado em si, que reproduz um condicionamento psicossocial de dois séculos passados. A questão central do debate é: apesar de toda inovação tecnológica, na educação prevalece a mesmice de compreensão da construção do conhecimento ainda vigente. O tradicionalismo é uma prática anacrônica, que não leva em consideração diversos contextos de ensino e aprendizagem. Pior que isso, com a ascensão da tecnologia, uma compreensão reflexiva recuou mais ainda: o novo tecnicismo criou pacotes prontos de modelos educacionais replicáveis, tais como uma comida "fast food". Quando se degusta, o gosto é artificializado, repetido, sem o verdadeiro sabor de comer - e aqui, de educar.

Relevante notar que, em momento algum, foi colocado em foco a aprendizagem do estudante e do professor (sim, ele ou ela aprende durante o processo, negar isso é assumir a ideia de que o docente deve apenas transferir informação). Mais ainda: repare que não foi dado destaque para qual tipo de educação queremos para a nossa população. O que basta nesse modelo de ensino é dar conteúdo para dizer que aquilo foi visto em sala e, mais à frente, ser cobrado e mensurado com o intuito de dar uma nota e parametrizar os aprendizes. Criam-se, desse modo, formas programadas de hábito e repetição.

E qual o real valor dado para a aprendizagem? Aparentemente nenhum. O mercado e as escolas preparatórias para vestibulares convenceram a sociedade de que a melhor escola ou faculdade para estudar é aquela que faz o estudante passar em um processo seletivo; é preciso deixar muito claro, entretanto, que educar não se limita a essa pequena parte de um todo um processo complexo que é formar alguém para a vida, a cidadania, o trabalho, a política, os direitos humanos, dentre outras dimensões da vida humana e não humana. Sim, você leu corretamente: não humana. Porque não há como acreditar que nós, humanos, nos bastamos e que o planeta Terra, por exemplo, está ao nosso bel-prazer.

Uma forma de deformar o estudante, e por consequência sua família e a sociedade, é enchê-lo de aula, uma após a outra: de 7h às 12h45, de 13h às 18h45, se quiser à noite também, o freguês escolhe. Só não pode escolher tempo para imaginar, pensar, pesquisar, transgredir, romper ideias, isso a escola não pode oferecer, já que a interatividade possivelmente latente que o espaço oferece circunscreve o aprendiz a uma habituação a um conjunto de rotinas e tarefas cuja finalidade nunca é a longo prazo, como um objetivo crítico-reflexivo de transformação do indivíduo pelo conhecimento. Aula, nessa concepção bancária, como dizia Paulo Freire, significa estar exposto a ouvir alguém, o aluno pode até falar, mas não muito, porque atrapalha a aula, e aula é tempo, e tempo é dinheiro, e dinheiro é o que importa no capitalismo. É a economia aplicada à educação: uma acumulação primitiva de conteúdos que serão investidos em determinados momentos-chave para o estudante, que almeja alguns objetivos utilitários - o sucesso em processos seletivos, cada vez mais exigentes e excludentes. Sabe-se cada vez mais para aplicar determinado tipo de informação aplicada (construção de meros conhecimentos de técnicas de realização de provas) cada vez mais complexas. Neste sentido, a educação serve mais à imposição de comportamentos homogêneos, habituais, predispostos a objetivos mercadológicos, transformando-se em forma de controle direto sobre os indivíduos. Como diria Jonathan Crary, a respeito das modalidades de ação 24/7 (“24 horas por 7 dias” da semana), típicas do capitalismo pós-fordista, a pretensão de valorizar a educação e a participação cívica, crítica, reflexiva, muitas vezes se esgota na medida em que a cidadania, o protagonismo e a agência do aprendiz são suplantadas pela condição de espectador e do professor, pela de transmissor.

Por onde andará a (co)criação, a justiça social, a inventividade, a proteção ao meio ambiente, a imaginação, a consciência cidadã, a participação política no processo de educar alguém? Nesse tipo de escola não há espaço para isso nem nunca haverá. Para os tecnocratas da educação, isso não interessa, o que vale, de fato, é saber se o estudante vai acertar as questões das provas e, assim, fazer daquela escola uma referência nos números governamentais.

Nesse sistema, como se pode ver, o que importa é dar e receber aula, e muita aula. Entupir os sentidos dos estudantes até estourá-los. Exaurida: é assim que uma criança do 1º ano do ensino fundamental já começa a se sentir quando inicia a vida enquadrada nas escolas. É bastante comum as crianças desse período reclamarem que a escola deixou de ser um espaço de alegria para um ambiente de tédio em que se copia, soletra, conta. O que a escola fez com a curiosidade científica das nossas crianças? O que a escola fez com a arte? Além do mais, se desaprende a ter um conhecimento espontâneo e livre e se inicia a “catequização” em categorias e cosmovisões fechadas, herméticas e não contraditórias. Mas o que é a vida sem a contradição? Paulo Freire indaga que o diálogo pode ser comunicativo, mas também dialético e epistêmico, além de ser um sintoma saudável de sociedades democráticas e não autoritárias. A curiosidade infantil pode se tornar a curiosidade epistêmica. E caminhos diversos não se coadunam no instrucionismo. Há apenas um, e aquele é o único possível.

Já podemos vislumbrar como esse estudante chegará no ensino médio. Possivelmente sua cognição estará completamente deformada, imaginando que aprender se resume em duas ações: ouvir alguém falando por horas e horas e saber demonstrar o que ouviu e leu em testes padronizados de larga escala para passar nas provas. Será que saber pensar se tornou "démodé"? Essa mentalidade mudará nos quatro ou mais anos de universidade? Possivelmente não. A não ser que ele encontre docentes comprometidos com a sua educação e aprendizagem, o que significa tornar o aprendiz em alguém curioso que pesquise e produza conhecimento, e não apenas deposite informações descobertas por outros cientistas nas provas.

E aqui fica a pergunta: onde está a produção de conhecimento da escola? Certamente ali não se constitui apenas como um ambiente para se assimilar conhecimento morto, consolidado; mas, sobretudo, para dar continuidade ao que já foi descoberto por outros inventores, pesquisadores e cientistas. Não se assiste a aulas apenas para ficar repetindo e memorizando o que foi descoberto; assiste-se a aulas para continuar criando, errando, imaginando, inventando como todo e qualquer aprendiz faz; no entanto, nesse tipo de ensino instrucionista, não há espaço para invenção, para a construção em conjunto de novas formas de existências. A escola é uma preparação para desafios futuros, e não apenas entendimento de desafios já passados, debatidos e institucionalizados. É fundamental ter espaço para a criação genuína, para a criatividade de construção de óticas das múltiplas realidades dos viventes. O pensamento enciclopédico é bom, mas inócuo e por muitas vezes sem sentido para o preenchimento de questionamentos éticos, existenciais e dos devires que a vida nos coloca.

Enquanto tivermos escolas, institutos, faculdades e universidades com a mentalidade "auleira", não teremos espaço para inventividade, pesquisa, curiosidade nem para desenvolvimento de pensadoras e pensadores em nosso país. Serão apenas espaços de treinamento, normalização e acumulação de conhecimentos. Apenas curadoria de conteúdos que, com o avanço das tecnologias de Inteligência Artificial e de algoritmização da educação, em breve o professor pode ser substituído por plataformas interativas com os estudantes, distribuindo conteúdos e instruindo de forma bastante eficaz, dentro deste modelo tradicional-instrutivo-tecnicista.

Nesse sentido, é que nós, do Coletivo Terral, acreditamos que não é necessário preencher os estudantes com aulas instrucionistas em nossos ambientes de aprendizagens, solapando o espaço, enquanto lócus de construção do conhecimento, pelo tempo (quanto assiduidade e tempo na aula, melhor); precisamos, sim, de espaço e tempo para estudo, imaginação, pesquisa, produção, autoria docente e discente, interação, tudo isso visando tendo o bem comum. Como se pode ver, portanto, educar vai além de ensinar e aprender. Educar é um processo mais amplo. Educar é, por exemplo, cuidar para que cada um, humano ou não, se sinta parte da trama da vida.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Por Romi da Silva Pereira [1]


O ensino de geografia está centrado na prática educativa ministrada pelo professor e na inter-relação do mesmo com os alunos. Essas relações de interação entre professor e aluno, ocorre a necessidade do docente articular para obter as possibilidades da realidade vivida pelo discente. O professor não deve intervir para acabar com os desejos e anseios do aluno, mas para libertá-lo das correntes invisíveis que o cercam em seu cotidiano.

Tendo em vista a importância do ensino de geografia e suas limitações no que diz respeito ao ensino de nível médio e fundamental, é preciso antes de tudo analisar os aspectos de âmbito, social, cultural, político, e principalmente a relação da realidade vivida entre alunos e professores.

Nesse sentido, significa dizer que o processo de construção do ensino de geografia é transformado mediante as características de produção e reprodução do espaço social. A sociedade moderna constitui um cenário que liga entre si as relações entre o homem e a natureza, que modifica os espaços vividos, que os mesmos também se transformam em espaços de contradição social e cultural. Mas é preciso ver além dessas contradições para que possamos precisamente chegar a uma sociedade de bem estar social, político, econômico e cultural.

O espaço sociocultural conduz reflexões sobre a realidade vivida da sociedade, ou seja, a ação da humanidade como processo de construção do espaço geográfico a partir das transformações antrópicas sobre o meio natural. Nessa perspectiva é preciso verificar as formas de dominação, exploração e exclusão que predominam no sistema capitalista. O ensino/ aprendizagem de geografia crítica proporciona realizar elementos essenciais para projeção da formação de cidadãos críticos para transformar o espaço vivido.

Aprender é um exercício dinâmico e complexo principalmente quando pensamos o espaço vivido da sociedade. Esse processo de ensino/aprendizagem na geografia crítica para compreender a realidade vivida por todos os discentes. Podemos verificar como um dos maiores desafios da educação na atualidade é trabalhar com a capacidade crítica e reflexiva do educando, a fim de prepará-lo para a luta e o enfrentamento das desigualdades sociais presentes na sociedade atual, totalmente articulada no sistema capitalista.

Nessa perspectiva observamos que o ensino de geografia é bastante amplo e por isso devemos trabalhar com a transdisciplinaridade principalmente com a sociologia, história e filosofia, mas também com várias áreas de ensino que têm objetivos da construção da realidade vivida das economias, políticos e culturais dos discentes. A ciência geográfica tem que apresentar temáticas para promover debates em nossa prática como pensadores revolucionários para transformar o ensino tradicional, por novas abordagens dos ensinos críticos e reflexivos para existir a integração do meio sociocultural, político e econômico

Em outras palavras, a educação como prática de liberdade não pode apenas estar preocupada com a cultura individual que a sociedade capitalista impõe e modela o comportamento do espaço vivido. A proposta de uma pedagogia libertadora, a partir dos problemas enfrentados pelo aluno no seu cotidiano, faz com que ele possa entender e compreender a realidade vivida de sua classe social, e possa também obter o senso crítico na medida em que o processo do sistema capitalista evolui.

O ensino de Geografia como forma do saber epistemológico, parte do princípio de que tanto o conhecimento tradicional como os novos métodos (a pedagogia neo-tecnicista em moda atualmente), proporcionaram diversas interpretações da realidade, isto é, o conhecimento tem por objetivo a adaptação do indivíduo ao meio social, e acaba por vezes a condicionar os alunos a aceitarem como natural as desigualdades sociais. O relacionamento entre professor e aluno em muitos casos é predominante de forma autoritária do professor que exige uma atitude receptiva dos alunos e impede qualquer comunicação entre eles no decorrer da aula, o professor transmite o conteúdo na forma de verdade a ser absorvida: em consequência, a disciplina imposta é o meio mais eficaz segundo o sistema educacional para assegurar a atenção e o silêncio.

Isto ocorre devido a práticas pedagógicas conservadoras e dos meios econômicos e políticos que existem em muitos casos para a transmissão de conteúdo ao aluno, e não identificam que esses conteúdos partem das relações de interesses do capitalismo.

Para isso é necessário desenvolver práticas educativas em que os alunos possam ver a realidade vivida como o processo de transformação social, cultural e política, garantindo que o aluno desenvolva o senso crítico quando o mesmo se depara com o conhecimento tradicional a possibilidade de novos conhecimentos. A questão da identidade sociocultural, de que faz parte a dimensão individual e a de classe dos educadores cujo respeito é algo fundamental na prática de um educador. Nesse sentido podemos perceber que a educação é mais que um processo meramente científico, sendo preciso entender e interpretar a realidade vivida dos alunos em seus modos culturais, econômicos e sociais em que vivem.

É preciso refletir sobre o ensino de modo que possamos analisar a realidade socioespacial do sistema educacional e apostar no reconhecimento do ensino de geografia, caso contrário, corremos o risco de interpretar seu objeto de estudo de forma ingênua e perigosa para o ensino. Nesse sentido, o espaço vivido deve ser incorporado e utilizado em novas práticas educativas, por isso os conteúdos assimilados constituem em dominação de conhecimento relativamente incorporada pelos professores que reflete as realidades sociais dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

A valorização do ensino de Geografia como instrumento libertador e crítico do saber é o melhor serviço que se presta aos interesses sociais e culturais do espaço vivido. A própria escola pode contribuir para eliminar a relação da seletividade imposta pelo sistema de ensino burocratizado e tornar-se mais democrática a serviço do social. A motivação depende da força de estimulação do problema e das disposições internas e externas do aluno. Assim o processo de aprendizagem se torna uma atividade de descoberta, é uma auto-aprendizagem e que também se incorpora estruturalmente os princípios sociais e pessoais deles.

Portanto, é preciso saber dialogar com cada aluno para se obter uma melhor concordância na dialética que existe entre professor e aluno. Ensinar geografia no ensino fundamental e médio requer uma postura diferenciada frente aos alunos, devido a maneira como cada um interage no meio social frente ao seu espaço vivido. Nesse processo temos várias dificuldades que precisam ser superadas, para que o processo educacional se torne de maneira prazerosa e não como uma tortura mental como o que acontece em grande parte dos sistemas de ensino.


[1] Professor da rede municipal de Poção e Serra Talhada/PE. Graduado em Geografia pela Universidade Regional do Cariri (URCA), e Especialista em Ensino de Geografia, História e Filosofia.

Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Atualizado: 4 de jan. de 2022

Por Lorena Izabele Lima de Almeida[1]


“Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma”. George R. R. Martin.

Inicio com esta epígrafe do George R. R. Martin que, apesar de clichê, traduz exatamente o que é ser um leitor. Além do mais, eu não conseguiria explicar tão perfeita e sucintamente o significado, então utilizar uma frase que adoro de um autor que gosto muito me pareceu uma boa maneira de começar esse ensaio.

Dito isso, como todos sabem, a pandemia que se deflagrou no Brasil no início de 2020 deu uma grande reviravolta nas nossas vidas e, assim como a muitos, ela me afetou bastante, mas, apesar de todas as adversidades, algo que se tornou muito especial na minha vida acabou (res)surgindo.

No entanto, vou recuar mais um pouco para falar sobre o tema deste artigo. No ano de 2016 se deu aquilo que podemos chamar entre os leitores de ressaca literária. Isto ocorreu após o processo do término do Ensino Médio e ENEM, quando fiquei extremamente sobrecarregada e acabei ficando saturada de ler qualquer coisa que não fosse necessária para minha formação acadêmica.

A ressaca literária é um período de hiato em que você não consegue ler nada. O termo faz total sentido quando relacionado a um dos significados para a palavra “ressaca” no dicionário: “indisposição sentida por quem para subitamente de consumir uma droga da qual é dependente”. Felizmente, o vício em leitura não tem nada a ver com dependência química, mas o termo pareceu adequado e acabou se popularizando entre os leitores.

Desde a minha pré-adolescência eu lia assiduamente e quando isso mudou achei que nunca mais fosse voltar a ler como antes e que a magia dos livros havia acabado para mim. Contudo, ainda bem que estava enganada, pois logo no início da quarentena, no mês de maio de 2020, para ser mais precisa, eu voltei a ler numa intensidade consideravelmente alta e há muito não vista.

A pandemia, apesar de tudo de ruim que trouxe consigo, conseguiu fazer com que eu resgatasse minha paixão pela leitura, a qual, sem dúvidas, teria continuado adormecida por um bom tempo, pois minha vida andava em um ritmo tão acelerado que voltar a ler não estava nos meus planos imediatos.

Quando a quarentena teve início, eu comecei a trabalhar no home office, mas tinha muito tempo livre, já que a Universidade havia suspendido as atividades em prol do isolamento social requerido pelo período atípico de pandemia. Diante dessa situação, me vi extremamente entediada ante a enorme quantidade de tempo ocioso que tinha à minha disposição.

Sendo assim, decidi que era um excelente momento para retomar o hábito de leitura e embora não tivesse nenhum livro em mente, sabia que deveria iniciar por um gênero que gosto e que, de forma geral, é de fácil compreensão e entretenimento. Portanto, escolhi um romance e logo me vi envolvida na trama e comecei a buscar histórias similares, depois passei para a leitura de livros do meu gênero favorito, que é fantasia. Após dado esse pontapé inicial as leituras começaram a fluir em um ritmo acelerado.

A retomada do hábito trouxe consigo uma enorme vontade de compartilhar minhas leituras. A ideia surgiu após ler um livro que me deixou ansiosa para recomendá-lo a outras pessoas. Sempre tive vontade de criar um blog e a ideia me parecia muito interessante, então acabei criando um blog literário e comecei a compartilhar conteúdos relacionados a livros e às minhas leituras.

Não houve um projeto prévio para que a ideia fosse posta em prática, tampouco um planejamento do que eu iria postar depois que começasse, qual seria a frequência e quais conteúdos eu gostaria de produzir, apenas criei o blog e comecei a compartilhar minhas experiências literárias.

Posteriormente, percebi que deveria ter planejado melhor a coisa, verificado se a plataforma seria interessante e viável para o fim que eu almejava, e se haveria um público interessado no que eu estava fazendo. Essa ausência de planejamento e o impulso de querer criar imediatamente o blog foi sentida pouco tempo depois do seu início, quando os acessos começaram a cair e a interação era quase nula, posto que a maioria das pessoas que acessava o blog eram meus amigos e nem eles se mantiveram interessados no que eu estava produzindo. Parecia mais que eu os estava forçando a consumir um conteúdo numa plataforma que eles não acessariam normalmente.

Eu fazia a divulgação das publicações do blog por meio do meu perfil pessoal do Instagram, plataforma que, atualmente, quase todo mundo usa e que é uma das melhores formas de compartilhar conteúdo. Devido a isso, acabei criando um perfil exclusivamente para fazer a divulgação das postagens.

Contudo, o Instagram só permitia o compartilhamento de links através dos stories se o usuário tivesse mais de 10 mil seguidores, de modo que, para redirecionar o público da plataforma para o blog, era necessário que eu inserisse o link na biografia do meu perfil para que o usuário pudesse acessá-lo através dele. Talvez percebendo o quanto os usuários estavam insatisfeitos com isso, a plataforma passou a fornecer uma ferramenta nos stories para que todos possam compartilhar links, sem a limitação de ter 10 mil seguidores para fazer isso.

Todavia, na época, exatamente por essa “dificuldade”, percebi que não estava sendo viável manter o blog, pois notei que havia uma indisposição geral para seguir todos esses passos e que as pessoas estão interessadas em conteúdos entregues “de bandeja”, algo rápido e fácil de ser consumido, coisas que não demandam qualquer tipo de esforço e sejam imediatas.

Com isso em mente, mas ainda muito ligada a ideia do blog, porém um pouco frustrada por não estar dando certo e relutante por abandonar algo que eu queria tanto manter, decidi compartilhar minhas leituras e outros conteúdos literários exclusivamente através do Instagram.

Entretanto, assim como no blog, não houve particularmente um planejamento da minha parte, apenas deixei o blog de lado e segui com o Instagram, postando como podia, ainda sem uma identidade visual definida, sem saber utilizar corretamente as ferramentas para criar os posts, sem uma frequência adequada e sem conseguir captar novos seguidores que se interessassem pelo conteúdo a ponto de interagirem com o perfil.

O início do meu bookgram [2] foi bem conturbado, eu não sabia o que estava fazendo direito, ainda estava bastante ligada ao blog e acabava por produzir um conteúdo que não era usualmente consumível pelo público do Instagram, já que tinha textos muito longos e a maioria das pessoas não tem interesse em algo tão extenso. Os usuários das redes sociais querem posts curtos e rápidos, com informações sucintas, fáceis de digerir e que sejam visualmente agradáveis.

A parte do visual foi uma das que mais me deram problema, juntamente com a extensão dos meus textos, pois sempre gostei de escrever muito e não conseguia resumir minha opinião sobre determinado livro em três ou quatro parágrafos, como também não tinha a menor ideia de como tirar fotos de livros que chamassem atenção.

Hoje eu sinto que evoluí bastante no visual do meu perfil, mas ainda preciso melhorar no que diz respeito à extensão dos posts. Consegui diminuir consideravelmente o tamanho das resenhas e repassar outros conteúdos de maneira mais eficiente, mas ainda sinto que não é o suficiente. Fui me aprimorando nisso através, principalmente, da observação de outros perfis do mesmo nicho para me inspirar, analisando o que parecia dar certo e o que não era tão interessante, e, da tentativa e erro, testando o que agradava mais ao meu público leitor.

Destarte, entendo que se adequar aos anseios do seu público alvo é de extrema importância para atingir um número maior de pessoas, mas, pessoalmente, não me agrada muito a ideia de mastigar tanto uma opinião ou comentário sobre algo a ponto de torná-los quase inexistente, motivo pelo qual embora eu tenha diminuído o tamanho das minhas resenhas sobre os livros que leio, procuro não deixar o texto tão diminuto que não expressará de fato o que penso sobre a obra.

Por outro lado, com exceção das resenhas, aprendi a entregar os demais conteúdos (indicações de livros e dicas relacionadas a leitura) de maneira mais rápida e concisa, bem como consegui me reinventar na forma de repassá-los, explorando as possibilidades que a plataforma oferece e buscando deixá-los o mais atraente possível, com a ajuda de aplicativos e sites voltados à produção de conteúdo.

Ainda estou lutando com a plataforma para conseguir me estabelecer de forma satisfatória, passei por diversos problemas relacionados a bugs e aos algoritmos do Instagram, os quais me desanimaram bastante e fizeram com que meu perfil não tivesse o crescimento que eu esperava, mas aprendi a criar estratégias para contornar alguns deles e sigo tentando fazer dar certo.

Uma das estratégias para contornar essas situações foi aumentar a quantidade de posts semanais, já que antes eu não tinha um planejamento e só postava quando dava. Assim, passei a tentar postar um dia sim e um dia não, alternando entre posts de resenhas, dicas sobre livros, indicações de leituras e reels cômicos sobre livros e leitores. Percebi que isso melhorou muito o engajamento do meu perfil, pois o que a rede social quer é usuários ativos e que se dediquem a ela, postando com frequência e utilizando todas as ferramentas que deixa à disposição deles.

Uma das coisas mais importantes que aprendi com toda essa experiência foi que o planejamento é algo fundamental quando se começa um novo projeto. Sem um planejamento adequado dificilmente algo que você pensou dará certo, por mais bacana que pareça ser na sua mente, até mesmo porque nem o planejamento garante o sucesso, mas é o primeiro passo para que você chegue lá.

Organização e a imposição de limites a si mesmo também é indispensável, já que não adianta fazer um planejamento que você não vai seguir no final porque não se organizou para colocá-lo em prática, ou porque está além do que você pode fazer no momento. Aprendi que o ideal é começar aos poucos e ser realista consigo mesma quanto ao que você pode fazer e o que você está disposto a fazer.

Produzir conteúdo para o Instagram tem me mostrado que, apesar de você amar o que faz, inevitavelmente você irá se estressar e terão momentos que vai pensar em jogar tudo pro alto e desistir daquilo. Porém, no final, você desiste de desistir, se é que isso faz qualquer sentido, e continua fazendo aquilo porque é algo tão gratificante que vale a pena enfrentar as adversidades para continuar fazendo.

Ler e falar sobre minhas leituras também tem me ajudado a encarar outros pontos de vista, entender outras realidades, refletir sobre temas que normalmente eu não refletiria e aprender coisas novas com cada personagem e cada história. É fundamental essa reflexividade acerca de ações literárias e suas relações com as ações do nosso cotidiano, pois a arte imita a vida tanto quanto a vida imita a arte e sempre temos algo a aprender com os livros. Por isso a frase do Martin faz tanto sentido para mim, de fato, você vive mil vidas na pele de outras pessoas, aprende com os erros e acertos de cada uma, passa por diversas situações, boas e más, que sempre tem algo a ensinar, tudo isso em lugares que você poderia jurar que já esteve, porque foi transportado para lá através da leitura.

São viagens curtas e longas que servem como um escape da realidade, ao mesmo tempo em que ajudam a encará-la de uma forma diferente, melhor, com mais indulgência e sensibilidade. Ler se tornou um hábito de puro prazer, é o momento no qual mergulho na história e realmente fujo um pouco da realidade, emergindo em outros universos a ponto de esquecer um pouco do meu, mas sempre voltando deles com múltiplos ensinamentos e contribuições.

De certa forma, estas atividades me deram o prazer de construir um espaço destinado aos livros e que vem se ampliando cada vez mais. Um espaço não só virtual, mas também físico, já que venho ampliando meu perfil literário tanto quanto a minha coleção de livros desde 2020. Confesso que este último tem sido um sonho meu desde a adolescência, e poder fazê-lo agora me deixa extremamente feliz.

Ademais, sinto que minha escrita melhorou bastante desde que passei a ler e escrever mais, meu vocabulário tem se ampliado e meus textos ganharam maior fluidez e coerência. Isso vem me ajudando profissionalmente no meu estágio, onde realizo a produção de peças jurídicas, já que a escrita é minha principal ferramenta de trabalho, e ver que ela está se aprimorando em decorrência de algo que adoro fazer me deixa muito feliz e me faz perceber o quão enriquecedora está sendo essa experiência.

Isto porque, quanto mais você lê, melhor, maior e mais rico vai ficando o seu vocabulário, deixando sua escrita mais coesa e clara. Adicione-se a isso que, como dito anteriormente, a leitura nos deixa sensíveis a outras realidades e é uma excelente forma de ter contato com culturas e pensamentos distintos dos nossos, para que possamos exercitar no senso crítico e sermos mais complacentes.

Para criar um hábito de leitura é importante começar aos poucos, levando em consideração sua rotina para que consiga estabelecer um momento adequado a ser dedicado a isso. Você pode começar separando 20 minutos do seu dia para ler, ou ler nos finais de semana, ler entre suas atividades diárias, como, por exemplo, durante o trajeto para a escola ou trabalho, o importante é começar de alguma forma e evitar distrações durante esse momento, principalmente o celular.

O ideal é iniciar com livros de gêneros que você acha que irá gostar, o que pode ser aferido através das suas preferências de filmes e séries, já que a maioria deles toma por base obras literárias. É interessante também estabelecer metas de leitura alcançáveis, tais como determinada quantidade de páginas ou capítulos a serem lidos. Contudo, nada de se pressionar para ler mais em vez de ler melhor, a leitura deverá ser prazerosa e não se transformar em uma obrigação, portanto, leia da maneira que é mais confortável para você.

Sou do tipo que acha que se alguém diz que não gosta de ler é só porque não achou o livro certo ainda. Eu acredito que todo mundo poderia gostar de ler se tentasse da maneira correta, e qual é essa maneira somente a pessoa poderá dizer, pois depende das peculiaridades de cada um, mas seguir as dicas que eu dei pode ser um bom caminho se você não faz ideia de como começar.

Voltar a ler representou um resgate de quem eu era, assim como me ajudou em momentos bem difíceis, levando-me a criar algo em torno disso que vem se tornando bastante especial na minha vida. Portanto, ter criado um ambiente voltado ao compartilhamento das minhas leituras está sendo uma experiência maravilhosa e, a despeito das dificuldades, é algo que me engrandece e que pretendo continuar fazendo. A leitura se tornou algo essencial na minha vida e não me vejo mais sem ela, tenho aprendido e crescido muito com os livros e espero que este ensaio inspire alguém a dar início a este hábito ou a retomá-lo, e que se torne tão especial para vocês quanto é para mim.

Quem quiser indicações de livros para ler e dicas relacionadas à leitura pode me seguir no meu bookgram @bookstanobcecada, lá vocês encontrarão diversos conteúdos bacanas relacionados a livros, em um espaço totalmente dedicado a essa minha paixão e criado especialmente para compartilhá-la.

[1] Criadora de conteúdo digital literário no Instagram @bookstanobcecada, graduanda em Direito pela UFERSA. [2] Termo utilizado no mundo literário para denominar um Instagram voltado à produção de conteúdo relacionado a livros. “Book” significa livro, em inglês, e “Gram” vem de Instagram.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page