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Atualizado: 4 de jan. de 2022

Por Carlos Douglas


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LIVRARIA DA TARDE

Instagram: @livrariadatarde

Telefone: +55 11 3064-9664

Whatsapp: +55 11 96383-1939


CD: Conte um pouco da história da Livraria da Tarde: Como surgiu? Quem são as pessoas que trabalham no projeto? Como é dirigir uma livraria independente?

Livraria da Tarde: Olá, eu sou a Mônica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde. Ela surgiu de um sonho meu, sempre fui apaixonada por livros e livrarias, especialmente as livrarias de rua. Como leitora eu sentia falta de espaços acolhedores e aconchegantes aqui em São Paulo, uma cidade que em geral é muito dura, as pessoas estão sempre com pressa, e com pouco tempo para se encontrarem.

Eu não venho do mercado livreiro, trabalhei muitos anos no mundo corporativo, em RH e desde 2010 me tornei sócia de uma consultoria de educação corporativa. Depois de quase 20 anos nesse mercado, resolvi realizar o sonho de trabalhar com cultura e literatura. Chamei uma amiga para ser minha sócia, mas acabou não dando certo a parceria e assumi o projeto sozinha. Abri a livraria em dezembro de 2019, e de lá para cá, depois do susto da chegada da pandemia, acredito que conquistamos nosso espaço e construímos uma identidade forte que tem nos dado muitas alegrias.

Nossa equipe é constituída por 3 livreiros, que são parte fundamental para o sucesso da livraria. Eles são grandes leitores, apaixonados por literatura, cultura e arte, e isso faz toda a diferença no atendimento ao cliente. São eles Zilmara Pimentel, Thamires Marins e Ageu Habacuque. Desde que abrimos nossa loja online, temos o apoio remoto também do Viktor Matts.

Fazer gestão de uma livraria independente tem dores e delícias como fazer gestão de qualquer negócio. O lado bom é poder escolher o acervo de acordo com a proposta de valor, com os clientes leitores, é ter liberdade para realizar ações que tenham a ver com a identidade da marca, conhecer muitos clientes pelo nome, receber muito carinho e afeto de muita gente. O lado desafiador é ter negociações mais duras com editoras, ter que provar que somos profissionais e sabemos fazer gestão do negócio.


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Mônica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde (imagem retirada do site da livraria).

CD: A livraria é muito atuante na internet, especialmente no Instagram, e aparece promovendo causas sociais, como a oposição à taxação dos livros. Qual a importância de uma livraria atuar nesse tipo de causa?

Livraria da Tarde: Acredito que temos um papel pedagógico em relação à conscientização das pessoas quanto ao papel do livro, da cultura e das livrarias na nossa sociedade. Uma livraria não é um comércio como outro qualquer, embora seja um negócio, precise dar lucro (muita gente não entende isso... mas como vamos pagar nosso aluguel, funcionários, fornecedores?), também é um espaço cultural, um local de fomento ao pensamento crítico e formação de leitores. Nas redes conseguimos levar essas ideias para um público maior. Na livraria falamos apenas com as pessoas que estão em SP, moradores ou visitantes. No Instagram e Facebook falamos com muito mais gente, pessoas que nunca nos visitaram, e muitas nunca nos visitarão.

Desde que abri a Livraria da Tarde procuro me envolver nas discussões e ações que são fundamentais para a sustentabilidade das livrarias e para o mercado do livro como um todo, seja por meio das entidades do livro, ou me associando a pequenos livreiros como nós. Já fizemos uma campanha contra a privatização dos correios, nos posicionamos contra a taxação dos livros, e atualmente estamos apoiando a criação da lei que regulamenta os descontos para lançamentos de livros, a fim de colocar limites ao leilão que se tornou a venda de livros pelas grandes lojas online como Amazon, Americanas e Magazine Luiza.

CD: Como é ser uma livraria de rua nos dias de hoje? Vocês consideram que a concorrência da Amazon e outros site de vendas online tem colaborado para a falência das livrarias físicas?

Livraria da Tarde: Ser uma livraria de rua é acreditar na força e potência dos livros e das livrarias como locais de encontro e fomento à leitura. Não é fácil, confesso que tem dia que é desanimador ver os clientes olhando os preços na livraria comparando pelo celular com as lojas online, e muitas vezes questionando os valores, como se nós estivéssemos colocando um sobrepreço, quando na verdade quem define o preço de um livro é a editora.

Eu não sou contra a concorrência das vendas online, pelo contrário, acho que elas são fundamentais para os livros chegarem às cidades que não têm livrarias (e são muitas). O que não dá e acaba impactando muito no mercado de livrarias físicas são esses descontos absurdos que muitas dão apenas para ter os dados dos clientes em sua base abrindo mão da margem. Como são empresas poderosas, elas não se importam com a margem de lucro do livro, porque sabem que venderão outros produtos com margens maiores e vão compensar.

Não sei dizer se essas vendas online têm colaborado para a falência das livrarias físicas. Acho que tem muitos outros fatores que tem contribuído, além desse, obviamente. Não ter uma gestão financeira, controles e uma equipe bem formada podem levar à quebra de qualquer negócio.

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Interior da loja (imagem retirada do site da livraria).

CD: Como é ser uma livraria independente? Como as livrarias têm conseguido sobreviver nesse contexto desfavorável de ataques à cultura e pandemia?

Livraria da Tarde: Estamos lutando como a maioria dos outros negócios, e temos contado muito com uma comunidade de leitores que valorizam as livrarias de rua, que sabem da importância das livrarias para que as cidades fiquem mais ricas culturalmente e para a formação de novos leitores. Ter um governo contrário à cultura não significa ter um povo que pensa igual. E nós brasileiros sabemos o valor da nossa cultura, a importância da arte para nossa sobrevivência. A pandemia só aumentou essa percepção. O que seria de nós sem as lives do Gil, do Milton e do Caetano? Sem as conversas com escritores, teatros online? Imagine passar uma pandemia sem ter um livro para ler?

CD: Qual o futuro das livrarias, na visão da Livraria da Tarde?

Livraria da Tarde: Penso muito no que estamos cultivando hoje e vamos colher no futuro. Temos investido muito em clubes de leitura como lugar de formação de leitores, em breve voltaremos com os eventos para o público todos os públicos e especialmente o infantil, nossos leitores mirins amam ouvir histórias e participar delas. Eles são importantíssimos, porque serão leitores adultos. Já estamos vendo as pessoas voltarem a frequentar a livraria, e serão cada vez mais o lugar de encontros significativos com outros leitores, autores, livreiros e com os próprios livros. Um lugar de afeto, troca de experiências, conhecimento e percepções.

CD: Qual a mensagem que vocês deixam para todas as pessoas que amam livros e conhecimento?

Livraria da Tarde: Ocupem os espaços culturais da cidade! Sejam as livrarias, bibliotecas, teatros, centros culturais. A rua é nossa, a cidade é nossa, a gente precisa se apropriar para ter uma vida plena. Quanto mais gente nesses espaços, menor a violência, mais gente engajada em apoiar projetos, mais empregos, mais renda. Conversem com livreiros, aproveitem essa troca para conhecer diferentes autores, estilos, linguagens, é uma viagem barata comprar um livro que nenhum algoritmo pode te indicar!


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Atualizado: 2 de jan. de 2022

Por Thiago Sento Sé


Permitam que eu possa me apresentar. Meu nome é Thiago e me tornei professor do ensino médio e fundamental em um país de terceiro mundo que despreza a educação. Onde vivo, para um professor como eu ter um mínimo de dignidade é preciso trabalhar em três ou quatro escolas diferentes, correndo de um lado para o outro, é isso que eu faço para sobreviver. No meu segundo ano de formado pela faculdade de Artes Visuais, passei em um concurso público que me garantiu estabilidade financeira, já que essas escolas que mais parecem empresas vivem mandando os professores para o olho da rua quando estão prestes a completar os três anos de casa e tem um aumento salarial garantido por lei.

A história que eu vou contar agora é muito conhecida nas paradas das estradas, cafés e todo tipo de entretenimento que se possa ter ao longo das rodovias entre as rodas de conversa de rodoviários. Mas naquela época, eu ainda não frequentava essas paradas tanto quanto a sala da minha casa, e nunca tinha ouvido falar. Talvez vocês não a conheçam também, mas ela é real.

A escola pública a que fui designado a trabalhar ficava em outra cidade, no interior do estado, em um vilarejo ainda mais afastado. Com os 183 quilômetros de distância entre minha casa e o trabalho, e com a estabilidade do concurso, o meu sonho de comprar um carro se tornou uma necessidade, inclusive porque no turno noturno, os ônibus já nem rodam naquela região. Os dias foram se passando e as primeiras impressões que tinha à priori, de uma escola antiga e caindo aos pedaços, deram lugar ao carinho e receptividade daquelas pessoas carentes de tudo. Me viam chegar no ronco do meu carro vermelho esportivo, ou quase isso, vestindo minhas roupas modernas, tal como um E.T. chegando em seu disco voador. Perguntavam-me como era a capital e como se vivia numa cidade violenta. Em contrapartida, me falavam sobre cavalos, suas raças e tipos de marchas, falavam de passarinhos cantores e o quanto eles poderiam ser valiosos. Perguntavam se eu andava de skate. Ouviam animados minha gaita de boca, como se fosse um verdadeiro show, quando eu chegava animado pela adrenalina causada pela velocidade da estrada.

Uma coisa que desde o primeiro dia não mudou, era o prazer de ir e vir por aquela velha rodovia interestadual, perigosa e mal sinalizada, mas quando se é jovem, pouco ligamos para esse tipo de coisa. Antes de sair de casa era um ritual, tomar um refrigerante energético e fumar aquele cigarrinho, você sabe, para fazer a cabeça. Já na estrada uma parada para encher o tanque, almoçar e pista!

Trabalhava no turno da tarde e no turno da noite, com educação de jovens e adultos. Após dez tempos de 50 minutos e um intervalo entre turnos, era hora de partir. Tomava um balde de café e voltava para a estrada, cansado, mas feliz. Algum som da segunda metade do século XX ligado ao moderno aparelho de som, compunha a trilha sonora da jornada. O vidro aberto servia para me manter acordado ao mesmo tempo em que respirava o sereno da noite, misturando o ar puro daquela estrada rural.

Pois foi justamente em uma noite dessas que tudo aconteceu. Àquela altura já havia decorado boa parte dos perigos potenciais da estrada, curvas traiçoeiras e radares de velocidade. Acelerava seguro, porém alerta. O ar entrava gelado pela janela do carro. O peito fechado em uma jaqueta, assim como a garganta, boca e nariz por uma faixa de tecido. Um gorro na cabeça completava o traje. No rádio a voz de uma falecida cantava um spiritual, o painel de instrumentos do carro marcava 23:43. Alguns antigos postes de luz de mercúrio alaranjada iluminavam espaçadamente a beira da estrada de interior, onde começava a se formar uma névoa. A noite estava escura, sem lua ou estrelas.

Antes de entrar na interestadual, ainda na zona rural, no final de uma grande reta, que se podia sentir a potência máxima do motor, reduzi para 100km/h devido a uma grande curva que se aproximava, que dava em uma ponte sobre um córrego. Nesse momento, enquanto contornava a grande curva, as luzes de led super branca dos faróis, iluminavam uma mulher agitada no acostamento, quase saltando na frente do carro, desesperada para que eu parasse. Com o vento entrando pela janela e a velocidade, pude apenas identificar o pedido de socorro por meio do choro e de palavras indefinidas. Parei rapidamente o carro no acostamento, a uns dez metros depois de passar pela pequena ponte, sem desligar o motor, sai do carro. A mulher vinha correndo em minha direção. Aquele tipo de mulher que chama nossa atenção, você sabe, naturalmente, apesar da forma simples como se vestia, blusa branca, calça jeans e o longo cabelo preso em um rabo de cavalo. Mas não foi nada disso que chamou minha atenção, e sim, seus olhos arregalados e seu rosto pálido e angustiado.

Gesticulava enquanto falava de um acidente terrível. Na direção que ela apontava, na saída da curva e pouco antes da ponte, pedaços de carro indicavam o local. Tentando manter a calma, me apressei até a ribanceira e pude ver as luzes de freio do carro acionadas em meio a escuridão, e o carro enfiado entre as pedras do pequeno córrego. Enfiei a mão no bolso a procura do meu celular, para chamar a emergência, enquanto me aproximava, então percebi que o havia deixado dentro do carro. Quando me virei para ir buscá-lo, não vi mais a mulher na beira da estrada, resolvi seguir até o acidente e avaliar as condições. O mesmo rabo de cavalo, dessa vez desfeito pelo impacto, a mesma camisa branca, dessa vez lavada em sangue vivo e os mesmos olhos arregalados. O mesmo rosto angustiado, agora só existia a metade do nariz para cima, todo o resto se resumia a um buraco de carne e sangue, pedaços de ossos e dentes em repouso morto ao volante.

Ainda em choque, enquanto me virava para pedir socorro, percebi algo se mexendo no chão escuro do carro, assustado percebi que entre os bancos havia uma criança atordoada, tentava se levantar. O mesmo rabo de cavalo, o mesmo olhar angustiado, mas dessa vez em uma versão infantil, começou a pedir socorro e chamar pela mãe. As horas seguintes foram de telefonemas, ambulância, polícia, hospital e intermináveis horas até que o avô da criança chegasse para assumir tudo e eu pudesse seguir com minha vida, da forma como alguém segue depois de passar por uma história dessas, passando todos os dias pelo mesmo lugar.

Talvez, assim como eu, você não seja um rodoviário. Talvez você frequente as estradas apenas nos feriados e finais de semana, e talvez você também nunca tenha ouvido falar dessa história. Mas o fato é que muitas vezes quando paro na ida ou na volta, escuto essa velha história da estrada, contada por velhos motoristas. Algumas pessoas dão risada, ou confundem com entretenimento. Mas a verdade é que todos os dias, milhares de espíritos se perdem de seus corpos nas longas estradas desse mundo, e perdidas pedem socorro.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Atualizado: 1 de jan. de 2022

Por Marcelo Sophos


Essa noite me pareceu um conto do nosso querido velho maldito Charles Bukowski. Estava em casa tentando assistir pelo computador, via online, ao espetáculo do Rock n´Rio. Esse era o ano de 2011 e ainda morava em Cabo Frio, região dos lagos, interior do Estado do Rio de Janeiro. Havia passado num concurso de professor e acabei me mudando para lá. Como não havia amizades locais ainda, me distraia como podia, geralmente nas belas praias e no álcool a noite, para me aquecer longe da família e de meus velhos amigos irmãos, menos quando precisava trabalhar é lógico. Voltando, a conexão de internet dessa época era péssima, no auge do seu um megabyte, deixando a imagem quadriculada e a todo momento perdendo o sinal. Me levantei impaciente e resolvi ir para um bar de rock conhecido, na orla da Praia do Forte, que se chamava atrativamente de Tocaia.

Como as coisas são curiosas, se eu tivesse ficado em casa e visto mal e porcamente pela tv e depois dormido, não teria essas rápidas histórias malucas para escrever dentro de uma outra história que é a minha. A vida é movimento, ou devir como dizia Heráclito. Bem, tomei uma dose extra de whisky Chivas dezoito anos que ganhei de aniversário do meu cunhado, a vida naquela época não era tão difícil com a continuação do governo de esquerda. Enfim, tomei mais uma dose saboreando aquela delícia de ouro líquido enquanto fumava um baseado. Quando terminei de me arrumar, nada elegante, de bermuda e chinelo, afinal era um bar descontraído e aberto para a rua, na cara da praia, me adiantei e sai. Parti em direção ao bar, sentido orla, não era distante, apenas uma meia dúzia de quarteirões. Sozinho pela noite, numa cidade estranha para mim, desconhecida e aberta de possibilidades e de pensamentos, tudo podia acontecer, desvelando-se potencialidades infinitas.

Solitário em ruas desertas, segui em direção ao mar, é muito bom caminhar em direção a ele, sempre tenho boas vibrações é como se o vento mostrasse sua aproximação com seu cheiro salgado, nos purificando. Até que avistei o boteco mais rock ‘n’ roll da cidade, pelo menos era, e foi por um tempo. Me contaram que ele já teve seu auge, assim como o próprio rock contestador, que felizmente ou infelizmente, nos dias de hoje, sua raiz permanece viva nos guetos dos guetos, e não esses falsos coroas boomers do rock em suas motos barulhentas e seus bares bacaninhas que ostentam a bandeira do brasil, vivendo em seu mundo distorcido e fascista. Claro que não são todos, nunca são todos. O rock é liberdade, anárquico e contestador, um dia ele volta, ele sempre voltará, pois, a rebeldia é o grito da alma humana contra esse sistema podre e falido.

O clima estava agradável, sentei para tomar minha primeira cerveja, bem gelada por sinal, no telão full HD do bar, rolava o final da apresentação da banda Snoll Patron. O dono do estabelecimento, de cabelos brancos estava trincado no pó e não parava de falar, estava numa animação desmedida, pois iria no final de semana, melhor dizendo, domingo, 25/09/2011 para o mega espetáculo elitista Rock In Rio, ver sua banda favorita, o Metallica, ou seja, hoje, dia que escrevo esse conto.

Eu estava em paz, pleno e satisfeito com minha trajetória de vida até ali, não era todo dia que nos sentimos assim. A brisa fria da orla que entrava refrescava o calor, via meu rock de boas refletindo sobre o mundo. Próximo a mim, na minha esquerda, havia outro coroa, estava tentando ganhar uma quarentona muito louca de goró. As minhas costas, um rapaz tocava “ao vivo”, baixinho para o lado de fora, apenas para as moscas, era quinta-feira de madrugada, e havia apenas, sei lá, umas cinco pessoas, sem contar o dono atendente e sua “fiel” esposa. Dizem que ela tirou o cabaço de muito moleque roqueiro da cidade, se é verdade eu não sei, mas já vi ela dando muito mole para alguns, inclusive para um ex-aluno meu, foi até meio surreal, levantando a saia e mostrando a bunda, mas isso é uma outra história que testemunhei na vida boêmia. E como um amigo me falou certa vez: “porque se mostrou, é o seguinte...conselho de um pai velho...cheio de cabelos brancos hétero cis normativo. Melhor você dizer que comeu. Porque se uma mulher te mostra a bunda, você tem que comer. Não importa o quão feia e nojenta ela possa ser...”.

O show mais aguardado, aquele que encerraria a noite, era da banda muito querida pela geração dos anos 90, o Red Hot Chilli Peppers, particularmente não achei muito bom, talvez estivesse cansado, ou realmente o som não estava legal. De repente, chegou um senhor aparentemente louco, ou era apenas um artista bêbado de cachaça que dançava em troca de algumas moedas ou cigarros por sua performance, o problema é que ele dançava sem pedir e ficava puto, pois ninguém lhe dava dinheiro, apenas uns varejos, e não demorou muito para ele chegar até mim. Dançou, fez sua graça, e até que o velho dançou relativamente bem, para quem não se aguentava em pé, mas não iria dar dinheiro para ele é claro, primeiro porque não tinha sobrando, segundo porque não cobrei por uma aula de filosofia indireta, então ficou tudo quitado.

Conversamos um pouco, ele me mostrou uns CDs próprios que ele vendia em búzios por trinta reais cada, para eu, um professor, eram apenas dez reais, como sou professor de filosofia caiu para cinco reais. Curioso, será que ele achou que somos mais pobres que os outros professores ou foi por respeito ao pensamento filosófico? Ele acabou por me convencer, fiquei até surpreso com esse artista inesperado, fui comprar um dos CDs, mesmo não gostando muito do estilo de música, que era forró, e para minha surpresa, não tinha dinheiro, apenas o suficiente para duas cervejas e o cartão, bem, o bar não aceitava cartões o que foi um problema. Infelizmente não pude dar uma força para senhor dançarino, músico e poeta, um artista completo, então ele rodou um tempo por ali com suas danças e rodadas de chapéu e se mandou para búzios, para mais shows de rua, muito louco. Para mim ficou uma lição que havia esquecido, não subestimar os doidos e bêbados de ruas, eles ainda carregam aquela alma do velho romantismo alcoólatra, das gerações beatniks, verdadeiros “vagabundos iluminados” como diria Jack Kerouac.

Debruçado sobre o balcão do bar, limitado a apenas uma cerveja, fui sorvendo lentamente o ouro liquido, enrolava em cada gole para tentar chegar até ao final do Red Hot antes de pedir outra. A quarentona bebaça, do nada, xingou alto e se estressou, saindo fora do coroa, indo para o seu grupo de amigos do outro lado, o cara ficou muito puto; pelo que eu entendi, ele falou alguma merda para mulher, não estava prestando muita atenção nesse momento, mas nas conversas anteriores percebi o perfil do cara. O típico macho escroto, provavelmente pensou que por ela estar alterada de cerveja, que ele arrumaria uma transa fácil, vulgarizando a mulher por suas roupas curtas e coladas, ela não quis ficar com esse babaca. Ele ficou lá, nem se abalou, devia estar acostumado a ser rejeitado, devia até se orgulhar de ser tosco, olhava sem pudores para as partes intimas das minas enquanto falava gracinhas machistas com o dono do bar.

Enquanto assistia a televisão, apareceram uns jovens que marcaram poucos minutos, tomando seus vinhos baratos, foram comprar uns cigarros a varejo, havia um punk entre eles, todo descolado com seu moicano e suas roupas rasgadas, todos jovens. O “futuro da nação”, pensei, não de forma pejorativa, acredito na liberdade dos indivíduos de traçar seu próprio destino e respeitava demais o estilo de vida de cada um, pé na estrada baby. Foram chegando outras pessoas, do lado de fora, nas mesas ficaram a turma do punk, outro grupo jogando cartas que voavam com o vento, um casal que assistia o rapaz tocar, e uma mesa próxima do balcão que me encontrava estavam duas gatas conversando sobre algum papo cabeça ou de suma importância, pois o mundo não exista para elas ao seu redor.

Tudo tranquilo, perguntei para a mulher do bar se iriam estar aberto na hora do metal, no domingo, quando chegou uma moto barulhenta no estilo Harley-Davidson, não entendo de motos, era tipo aquela do Exterminador do Futuro. O cara chegou com seu jaquetão de couro preto no melhor estilo dos motoqueiros, conhecia o dono do bar, pediu uma cerva que entornou praticamente de primeira e foi direto para o banheiro dar um teco, uma cheirada, voltando transtornado e com a cara torta. Pediu outra rodada, e só depois foi olhar ao seu redor, quando me viu, ali silencioso vendo à TV, estava na cara que ele queria falar, se comunicar, pois a onda bateu forte. Eu estava seco, havia tomado toda minha última latinha, sem grana, apenas com meu cartão, que de nada serviria.

Não demorou muito para o cara puxar assunto, trocamos algumas ideias aleatórias: “como está o rock?”, “e esse rock n rio como tá?”, “sai do trabalho só agora”, essas coisas. Ele percebeu que eu não estava bebendo e perguntou se eu queria tomar uma, expliquei a situação e ele apiedou-se dessa alma alcoólatra e me pagou umas quatro cervejas. O foda que com isso teria que dar atenção ao cara, mas tudo bem, ele era gente fina e estava prestando um favor a ele, ter que aturar sua loucura de pó. Falou que trabalhava pesado numa plataforma petrolífera em Macaé e como era explorado em seu trabalho terceirizado. Entrei com o discurso marxista, luta de classes, alienação essas coisas, para buscar esclarece-lo do necessário levante popular para uma real melhoria da sociedade. Foram conversas doidas, íamos da revolução industrial aos illuminatis, naquela altura da bebedeira, tudo fazia certo sentido, consegui caminhar pelas loucuras do pensamento do sujeito e também talvez ele das minhas, quem sabe...

O show do Red Hot estava chegando ao final. O rapaz da porta parou de tocar suas músicas. Outro grupo chegou ao bar, um jovem com quatro gatinhas, não era lugar pra eles, o bar era muito alternativo, aqui na terrinha a massa é pagodeira ou funkeira, após uma rodada de bebidas, partiram. Tomei minha quarta cerveja, agora que tinha percebido que o cara era gaúcho, tinha ido novamente ao banheiro dar seu tequinho. Aproveitei a deixa, decidi voltar para casa, deviam ser umas três horas da madrugada, ainda cedo, mas já estava bom, chega de aturar gente doida. Voltei tranquilo, sentindo o cheiro da brisa, o vento novamente me livrando das vibrações estranhas que esses bares carregam, encostos perdidos, sejam vivos ou mortos.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 
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