top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Por Fijó



Como sugeriu o sociólogo francês Dominique Vidal, a demanda por igualdade, no Brasil, pode se expressar de forma complexa. (...). Ora, esta perspectiva parece mesmo bastante complexa, considerando a tradição ocidental dos países do chamado Primeiro Mundo, nos quais a igualdade se expressa justamente pela valorização das diferenças encontradas na sociedade. (...) Diferentemente das sociedades nas quais a diferença institui o conceito de igualdade – fazendo com que o conflito seja inerente à estrutura social –, no Brasil a solução para administrar diferentes interesses relaciona, a priori, o emprego de práticas repressivas (PIRES, 2011, p. 144).[1]


Dentro da Baixada Fluminense se escuta constantemente algo como: “eu preciso parar de estudar para trabalhar”. Geralmente, tal relato está relacionado à necessidade, ao precisar colocar comida à mesa e pagar contas, ao sentimento de aflição sentido quando o vencimento de um boleto está às portas e não sabemos como (ou se) “faremos” o montante para honrar com tal compromisso. Para as gerações anteriores (e, analisando o contexto atual, até hoje para grande parte da população), a ordem era “trabalhe para que não sinta fome”, tornando a busca por um “trabalho” (e não um “emprego”[2]) uma barreira para o desenvolvimento acadêmico da população de baixa renda, que tem como prioridade – inquestionável – investir seu tempo e sua energia em algo que dê retorno financeiro rapidamente devido às carências experenciadas.

Porém, ao adotarmos tal comportamento, esbarramos em outra questão: como ficam os sonhos e metas, de ambas as gerações, que almejam algo para além do “agora”, e que também se veem na escolha de abandonar seus sonhos em prol do “mas seu sonho não enche barriga”?

Vivemos em uma geração de profissionais emergentes. Além dos cursos profissionalizantes se espalhando por todo território brasileiro (o que é de fato uma melhoria se comparado à estrutura profissionalizante voltada para jovens anos atrás), vemos seres que têm uma visão de mundo bem particular e que a compartilham de forma única, seja através da pintura, da música, da pedagogia, do jornalismo ou da medicina. A criatividade tem sido o nome por trás de ideias inovadoras, muito mais até do que a tão falada pró-atividade. No entanto, a criação – e, portanto, a criatividade – demanda tempo. Uma ideia revolucionária, que pode mudar o mundo como conhecemos – de preferência, para melhor – não vem do dia para a noite, ou em uma hora de almoço, ou em duas horas de “descanso” em casa. Tais ideias precisam de um ponto de partida, além de um processo de maturação, da reunião dos recursos materiais e humanos necessários etc. Uma variedade de microprocessos que demandam energia, conversas e, acima de tudo, tempo.

A beleza das gerações mais recentes, na boca de quem cresceu em meio aos conflitos de gerações precedentes, é a tão famosa “facilidade” trazida pelos avanços tecnológicos e suas consequências em pequena e grande escalas. Entretanto, de nada vale tal “facilidade” (uso aspas pois sabemos que não foram unicamente abolidos os problemas de antigamente; mas também que novos problemas surgem conforme a sociedade passa por mudanças) se não existe tempo hábil para utilizá-la da melhor forma. Se não existe tempo hábil, ou tempo suficiente para construir algo novo, usando de novos conhecimentos que também demandam tempo para serem adquiridos. E, se tais processos não ocorrem, as ideias inovadoras que podem mudar o ambiente se tornam escassas. O problema central, de “vender o almoço para comprar a janta”, se transforma em “abrir mão de um futuro promissor – seja qual for o ramo almejado/sonhado – em prol do presente instável e sem perspectiva de mudança”.

A artista plástica e professora polono-brasileira Fayga Ostrower (1977) preconiza em sua obra Criatividade e Processos de Criação[3], que precisamos levar em consideração que uma realidade, ao existir, exclui outras realidades, ou pelo menos as impede de coexistirem e que, nesse sentido, “no formar, todo construir é um destruir” (p. 26).

Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É num aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites (ibid., p. 26).


Para que o nosso futuro continue sendo, ao menos à vista de gerações anteriores, “mais fácil” para quem por ele vem e nele nasce, precisamos destruir a ideia tecnicista de “trabalhe agora, sonhe quando e se puder”. Ainda que não possamos viver sem a realidade presente, sem suprir as necessidades do agora; sem sonhos, metas e objetivos não poderemos sequer desfrutar do futuro para o qual, ironicamente, perdemos o “agora” batalhando para não perder. Precisamos construir a ideia de que o ócio, mesmo que aparentemente seja inútil, pode ser sim chamado de Ócio Criativo (De Masi, 2000)[4].


[1] Pires, Lenin. Esculhamba, mas não esculacha! / Lenin Pires – Niterói: Editora da UFF, 2011. 171 p. (Coleção Antropologia e Ciência Política; 50). [2] Trabalho: do latim “tripalium”, um instrumento de tortura com três (tri) pedaços de madeira (palum). A palavra passou ao francês como “travailler”, significando “sofrer, sentir dor”, evoluindo depois para “trabalhar duro”. Emprego: vem do latim “implicare”, “unir, juntar, enlaçar”, formada por IN, “em”, mais PLICARE, “dobrar (como num tecido). Empregar uma pessoa é promover um envolvimento, uma reunião de interesses. Fontes: https://origemdapalavra.com.br/palavras/emprego/ https://origemdapalavra.com.br/palavras/trabalho/ [Grifos Nossos]. Acesso em: 28 jan. 2022. [3] OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação / Fayga Ostrower. - Petrópolis: Editora Vozes, 1977. 187 p. [4] DE MASI, Domenico. O ócio criativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. 328 p.

 
 
 
  • Foto do escritor: Dimas
    Dimas
  • 7 de mai. de 2022
  • 1 min de leitura

Por Dimas


Começo no compasso de um verso... "Eu penso"

E tropeço na própria estrutura da sentença.

A palavra que pensa?

Faço o que quero. No desvio poético, há algo de raro e um outro louco.

Que brinca com essa opaca liberdade.


O real disso é que estou no ônibus.

Já se faz a vez: às 21:53.

Hora que trepida com a questão: que é no lugar em que está o movimento?

Metamorfose, em que os pontos passam. Como se fossem todos destinos.

Alinho:

1- Eu penso: É Niteroi e vou pra casa.

Ainda assim, não nego a sentença das horas, pois faço ver.

Está aí, eu penso: está aí. Existe a máquina.

Vibram os seus motores.

Com eles trepidam sobre as rodas, corpos malemolentes que esparramam o couro nos bancos. Amam os bancos. Por isso chamo-os educativamente de bancários.

Observo os que (vão-vem) na máquina.

Não desgostam. Aceitam.

Estão aí para o aparelho. Modelam-se nele como assentados.

E emparelham o aparelho, as janelas, que são janelas para apoiar a cabeça, sonhar, e janelas para refletir os olhares dos que habitam sob o mesmo ar condicionado.

A máquina vibra, por fora: o mundo se agita no caminho da passagem. Por dentro, nada penso na palavra, está aí. Há passagem e um aparelho.

Não há então um verbo para pôr em movimento, todo o resto do mundo?

O lado de fora aparece é um ponto, e outro ponto, além do mais.

Faz 22:14... e lá já vai outro, ponto..........

E neste, lembro, havia sinal para um-descer-o-corpo.

Som da parada.

Para

Abrem-se portas.

O final... eu penso, é apenas hora de dizer com sinceridade:

Valeu moto!!!


 
 
 

Por Gabrielle Venancio da Silva (Skia)


Todos sabemos – em número, gênero e graus divergentes – que o Brasil é um dos países com maior influência da diáspora africana no mundo. Este fato se apresenta de várias formas, seja pela nossa história, cultura ou questões étnicas-raciais (me refiro aqui somente a aparência, real ou estereotipada pelos gringos). O ponto de reflexão que gostaria de apresentar aqui, no entanto, é: Como um país com tamanha influência africana renega e deturpa uma de suas raízes tão severamente?

Além do racismo estrutural, que se estampa e se mascara no cotidiano, e da intolerância religiosa que, quase sempre, tem foco nos cultos de matriz africana, o preconceito que exclui a existência de corpos pretos que apresento para vocês pode ser para alguns, a princípio, uma questão vazia de identitarismo. Mas, prometo que essa questão, que tanto incomoda muitas pessoas pretas, retintas e não retintas- não é vazia - assim como não são os movimentos identitários: Representação.

Enquanto uma pessoa preta (não retinta), que desde a infância foi cercada pelos ritos das religiões de matriz africana - umbanda e candomblé, sobretudo, umbanda - eu sempre me questionei porque os Orixás, deuses com histórias (ou mitos, se preferir) tão ricas quanto os deuses do Olimpo ou de Asgard, não eram vistos com bons olhos, nem no dia a dia, nem no imaginário apresentado em livros e telas do cinema de Hollywood ou do Brasil.

Essa frustração se enraizou em meu ser e hoje, com 23 anos, faço dessa a minha missão enquanto estudante de filosofia, livreire e possível future escritore.

No entanto, para alcançar meu objetivo de dar espaço a cosmogonia yorubá, preciso de muito estudo e vivência. Nesse caminho, encontrei algumas figuras que iniciaram essa jornada e me servem de inspiração, no ramo fictícios: Eberton Ferreira, Hugo Canuto,e PJ Pereira.

Decidi falar aqui sobre a obra de PJ Pereira, “O livro do Silêncio”, volume um da “coleção Deuses de Dois Mundos'', que li recentemente e me cativou e provocou uma série de reflexões sobre seus personagens (os orixás e New, o protagonista), sua escrita e sua pessoa.

Em 277 páginas, o autor nos apresenta um enredo de aventura e investigação, dividindo a narrativa entre o eixo das histórias dos orixás, e o eixo de New, um jornalista mauricinho de São Paulo no início dos anos 2000.

Me apaixonei pela jornada dos 7 heróis de Orum que buscam restabelecer o equilíbrio do mundo em busca do odus sequestrados pela Iyami Osoronga! No entanto tive um pouco de dificuldade de tragar a narrativa de Newton, devido a uma série de questões relacionadas à cor, raça e classe…, mas, enfim, o fato é: PJ criou uma ótima representação dos orixás e da cosmogonia Yorubá (digna de ser roteirizada por streamings como a Netflix, ouso dizer), tal como Rick Riordan com Percy Jackson e Os olimpianos. E ainda sim, seu livro é pouco conhecido e/ ou tido como desinteressante pelo público consumidor de cultura pop. Tenho certeza que isso não ocorre por seu protagonista de carisma duvidoso ou pela obra. E sim por racismo, racismo epistêmico, racismo estrutural, intolerância/ racismo religioso.

Cidade Invisível ganhou destaque com os folclores da cosmogonia indígena, no entanto seu elenco era, majoritariamente, branco. Então, lanço a pergunta: Quando as histórias, mitos e cosmogonias não eurocentradas serão bem recepcionadas e representadas pelo mundo Pop? Espero ver isso se concretizar – em grande escala, assim como todas as outras mitologias – e quem sabe, que eu ajude a fazer essa realidade acontecer. Conto com isso…

 
 
 
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page