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Atualizado: 13 de mai. de 2022

Por Romi Pereira


O ensino de filosofia está centrado na prática educativa ministrada pelo professor e na inter-relação do mesmo com os alunos. Essas relações de interação de professor e aluno ocorrem à necessidade do docente articular para obter as possibilidades da realidade vivida do discente.

O professor não deve intervir para acabar com os desejos e anseios do aluno, mais para libertá-los das correntes invisíveis que o cerca no seu cotidiano. Este artigo foi realizado com base em experiência vivida em sala de aula visando apresentar um panorama sobre as dificuldades enfrentadas no ensino de filosofia.

Podemos verificar que a formação inicial dos professores de filosofia é fundamental no desdobramento de sua prática, pois, como reflete Cerletti (2009), o professor de filosofia é construído dentro de uma academia e sob o processo de uma vida acadêmica, e é essa formação que, inicialmente, será o motor para a vivência em sala de aula, e não um fantasma a assombrá-lo, se a teoria for divorciada de sua prática, como pontua Ulhôa (1988).

Segundo Arendt (2016), a passagem das novas gerações pelas salas de aula não lhes possibilita fazerem parte, no futuro, de um espaço público compartilhado por outras pessoas que interagem através de relações harmoniosas. Consideramos ser oportuno pensar a construção de um ambiente favorável ao ensino filosófico, através da busca pela experiência da alteridade, por meio do conceito de Empatia proposto por Edith Stein (1964), e como consequência deste movimento em direção à experiência do Outro, possibilitar um ensino filosófico que motive os estudantes com o entusiasmo da vivência filosófica.

Propomos também, neste artigo, pensar sobre os avanços no ensino de filosofa, à luz do uso das novas tecnologias de informação e comunicação. Visto que, no contexto das relações sociais modernas, a internet é, ou se torna uma importante ferramenta na construção dessas novas vivências.



 
 
 

Por Ronaldo de Queiroz Lima


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Apresento aqui informações sobre os territórios ocupados por diferentes povos indígenas no Estado do Ceará. Tanto dados primários como secundários produzidos e colhidos, respectivamente, ao longo dos anos de 2016 e 2017, apontam para quantidade significativa de povos indígenas cearenses.

Segundo o Sistema de Atenção à Saúde Indígena (SIASI) – Distrito de Saúde Especial Indígena (DSEI), Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (SEASI), Ministério da Saúde (MS) - a população indígena que tem cadastro no DSEI/CE soma trinta e duas mil, quatrocentos e trinta e quatro pessoas de ambos os sexos e das diferentes faixas etária.

Há hoje no Ceará 14 povos organizados no movimento indígena. Essa é uma categoria nativa chave mobilizada por lideranças indígenas que administram o parâmetro de incorporação e participação nesse movimento social de minorias étnicas. Esta categoria modula inclusive a posicionalidade entre lideranças, o que é proporcional ao tempo de dedicação a causa indígena. Além disso, as lideranças indígenas classificam e organizam os grupos que expressam consciência como indígenas e que se dispõem a esta mediação. Isto se dá a partir da agência de associações indígenas de atuação estadual e da coordenação colegiada de juventude indígena: Federação dos Povos Indígenas do Ceará (FEPOINCE), Articulação das Mulheres Indígenas do Ceará (AMICE), Coordenação da Juventude Indígena do Ceará (COJICE), Organização dos Professores Indígenas do Ceará. Hoje, essas são as formas organizativas do movimento indígena do Ceará, as quais são agentes em termos de ideologia, agenda política e ações de defesa dos direitos dos povos indígenas cearenses.

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Os territórios ocupados por indígenas do movimento indígena estão localizados em 19 municípios cearenses. A seguir a configuração município/etnias: Acaraú/Tremembé; Aquiraz/Jenipapo-Kanindé; Aratuba/Kanindé; Boa Viagem/ Potiguara e Tubiba-Tapuia; Canindé/Kanindé; Caucaia/Tapeba e Anacé; Crateús/ Potiguara, Tabajara, Kalabaça, Tupinambá e Kariri; Itapipoca/Tremembé; Itarema/Tremembé; Maracanaú/Pitaguary; Monsenhor Tabosa/Potiguara, Tabajara, Gavião e Tubiba Tapuia; Novo Oriente/Potiguara; Pacatuba/Pitaguary; Poranga/Tabajara e Kalabaça; Quiterianópolis/Tabajara; Carnaubal/Tapuia-Kariri; São Benedito/ Tapuia-Kariri; São Gonçalo do Amarante/ Anacé; Tamboril/ Potiguara.

A configuração de termos município/etnia no Estado do Ceará reflete a linguagem de lideranças indígenas cearenses que classificam cada povo em termos de etnia por município. No entanto, em termos demográficos, a etnia, neste contexto, significa uma predominância. Por exemplo, os Potiguara estão nos municípios de Monsenhor Tabosa, de Novo Oriente e de Crateús. No entanto, há Potiguara nas áreas indígenas em Aquiraz e Caucaia. Há Potiguara também no município de Caucaia morando com o povo Anacé. O Povo Indígena Tapeba ocupa território no município de Caucaia, no qual há indivíduos desse povo que residem em Quiterianópolis, Itapipoca e Maracanaú. Situação similar acontece com uma família Tremembé que vive no município de Aquiraz com o Povo Jenipapo Kanindé. As áreas indígenas ocupadas pelo povo Tremembé estão nos municípios de Acaraú, Itapipoca e Itarema. Estes exemplos não são a completude da realidade dos territórios indígenas cearenses, mas demonstram que a relação etnia/município não é absoluta.

Há áreas indígenas cuja regularização é requerida por mais de um povo. É o caso da Terra Indígena Serra das Matas onde vivem os Povos Potiguara, Tabajara, Gavião e Tubiba-Tapuia, cujo território está localizado nos municípios de Monsenhor Tabosa, Tamboril e Boa viagem. Parte desta área indígena está na zona urbana de Monsenhor Tabosa e é denominada pelas lideranças como periferia. Há também área indígena urbana no município de Crateús que também é nomeada pelas lideranças como periferia e é ocupada por cinco Povos Indígenas: Potiguara, Tabajara, Kalabaça, Tupinambá e Kariri.

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O fenômeno da multiplicidade étnica em territórios indígenas cearenses se dá, na maioria dos casos, pelo casamento interétnico. Por outro lado, o compadrio também é um fator importante que gera migração interétnica. Os territórios indígenas no Ceará são multiétnicos tanto em função do casamento como do compadrio.Por outro lado, o movimento indígenado Ceará compõe uma unidade cosmopolítica por meio de vínculo construído historicamente entre lideranças de diferentes gerações. Essas pessoas indígenas se vinculam à medida que vivenciam a experiência promovida pela agenda do movimento social do qual fazem parte. Os dois principais eventos são A Assembleia Estadual dos Povos Indígenas do Ceará e a Marcha pela Terra. A perambulação – movimentação - (INGOLD, 2015) das lideranças indígenas para os territórios indígenas e para diferentes arenas de poder do território cearense possibilita a construção social do vínculo interétnico. Este é reificado e atualizada a cada novo ano de atividades.

A espiritualidade indígena é um fator importante na geração do vínculo interétnico a partir da experiência gerada pelas organizações do movimento indígena do Ceará. Não é raro observar a invocação de encantados relacionados à Jurema, ao Mar, às Matas durante a execução do ritual sagrado do Toré que acontece em quaisquer atividades desse movimento social. Os encantados são não-humanos significados como biomas onde vivem os indígenas e como seus antepassados, que podem reencontrar seus parentes no presente da luta indígena por meio da dança ritual do Toré. Esse reencontro funde passado e presente, diferentes Povos Indígenas cearenses, reifica o vínculo interétnico numa temporalidade ritual própria, a qual é orientada para fortalecer a resistência indígena diante das violações de seus direitos e a presença multiétnica nas arenas de poder do território cearense. Esta análise pode também servir para se pensar configurações multiétnicas noutros territórios. Porém, é possível dizer que no caso do Estado do Ceará, a prática cosmopolítica dos Povos Indígenas cearenses é multiétnica e a sua forma organizativa é reflexo disso.

As lideranças indígenas do presente desenvolvem articulações próprias de cada etnia/município, as quais são cosidas com os fios das relações multiétnicas, casamento, compadrio, vínculo cosmopolítico. Essa realidade pluriétnica possibilita a vida social de diferentes movimentos. Passo a apresentar os agentes da cosmopolítica indígena nos diferentes territórios indígenas no território cearense.

No município de Monsenhor Tabosa há o Movimento Potygatapuia e o Conselho Político Tabajara, na zona rural, e o Movimento Potijara, na zona urbana. O movimento promovido pelo Conselho dos Índios Tremembé de Almofala (CITA) através de seus delegados costura articulações por meio do cacique e do pajé junto a lideranças na terra do aldeamento de Almofala e nos territórios Tremembé Córrego João Pereira, em Santo Antônio e Camundongo, todos esses no município de Itarema, e em Queimadas, no município de Acaraú. Os Tremembé da Barra do rio Mundaú têm articulação independente das anteriores e não legitima a figura do cacique e do pajé.

O Povo Tapeba movimenta-se a partir das lideranças indígenas que compõem a Associação das Comunidades Indígenas Tapeba (ACITA), a qual articula 14 das 17 comunidades indígenas no território Tapeba no município de Caucaia. O Povo Pitaguary se movimenta através de quatro caciques, um pajé e de lideranças nas aldeias dos municípios de Maracanaú e de Pacatuba. O povo Jenipapo Kanindé se articula através de três caciques mulheres e um pajé no território indígena denominado como Lagoa da Encantada. O povo Anacé da Japuara e Santa Rosa, em Caucaia, se articula através de dois caciques, enquanto os Anacé de São Gonçalo somente com lideranças.

O Povo Indígena Kanindé se movimenta a partir do cacique e das lideranças da aldeia Sítio Fernandes em Aratuba e da aldeia Gameleira em Canindé. Em Crateús, na periferia, há cinco povos que se articulam através de caciques, pajés e lideranças, coletividade essa que também exerce o domínio sobre território indígena rural nas aldeias de Mambira e Nazário. Os Tapuia-Kariri, nos municípios de Carnaubal e São Benedito, movimentam-se através da caciqua, do pajé, e de lideranças. Os Tabajara e Kalabaça de Poranga, movimentam-se a partir de seus respectivos caciques, pajés e lideranças.

É possível dizer que o movimento indígena do Ceará move-se a partir das perambulações de caciques, pajés e lideranças nos territórios indígenas cearenses – nas aldeias e comunidades indígenas. Parte importante disso é a logística necessária ao deslocamento e comunicação entre os agentes desse movimento social, quando se aciona as associações indígenas, os conselhos indígenas e até mesmo as Escolas Indígenas.

Por outro lado, em diferentes arenas de poder no território cearense, os agentes da cosmopolítica do movimento em tela desempenham diferentes funções na interlocução com servidores e autoridades do Estado brasileiro. Exemplo disso são os agentes indígenas de saúde indígena, o de endemias, os conselheiros locais e distritais de saúde indígena, como também a representação no conselho nacional de saúde indígena; os conselheiros das escolas indígenas, os delegados das conferências de educação escolar indígena; os membros do grupo interinstitucional de educação escolar indígena (em transição para ser um comitê estadual de educação escolar indígena); os membros do comitê de política cultural para povos indígenas, instância da Secretaria de Cultura do Ceará (SECULT); No campo da educação diferenciada os professores indígenas, gestores e servidores; Lideranças indígenas representantes movimento indígena do Ceará junto à Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA); no campo do poder público municipal, o exercício do controle social em conselhos municipais de diferentes áreas, como educação, saúde, cultura e agricultura.

Há também a relação histórica entre indígenas e sindicatos rurais, partidos políticos e instituições religiosas de diferentes orientações que também diz sobre a perambulação dos agentes da cosmopolítica dos Povos Indígenas cearenses em território cearense e até mesmo no território nacional. Essa movimentação é constitutiva dos agentes do movimento indígena do Ceará, e por isso influencia na cosmopolítica dos indígenas que exercem liderança. Outro fator importante desse movimento social é a influência exercida por um Povo Indígena sobre outros. Os povos Tapeba, Tremembé, Pitaguary e Jenipapo Kanindé influenciam de modo significativo a forma de organização dos demais povos. Atualmente, o Povo Indígena Tapeba é a principal influência cosmopolítica no movimento indígena do Ceará.

Então, a perambulação dos agentes da cosmopolítica dos Povos Indígenas do Ceará que se dá nos territórios indígenas, no território cearense e até no território nacional através de relações com servidores e autoridades do poder público municipal, estadual e federal, é o que constrói o vínculo pluriétnico capaz de movimentar as aldeias e comunidades indígenas cearenses. Os territórios indígenas cearenses também são plurais em função do casamento e do compadrio interétnico. A cosmopolítica dos Povos Indígenas cearenses reflete a realidade social multiétnica. A pluralidade se dá também em relação aos agentes da cosmopolítica, cacique, pajé e indígenas que exercem liderança em suas aldeias e comunidades, como também em relação às diferentes funções que podem ocupar na relação com o Estado brasileiro, tais como agente de endemias e professor, por exemplo. Esta relação de poder, ora de equilíbrio, ora de subjulgação, está muito para além do órgão indigenista legal.

A vida social dos territórios indígenas cearenses se dá na vivência de experiências multiétnicas, as quais refletem na cosmopolítica do movimento indígena do Ceará. A meu ver, esta é a característica principal que torna este movimento social permanentemente ativo mesmo diante da realidade imposta pelo Estado brasileiro de apenas um território indígena ter sido regularizado, no território cearense. Isto implica nas políticas públicas de etnodesenvolvimento, de saúde, de educação, de proteção e conservação do ambiente necessário à vida desses povos no presente e no futuro.

As informações sobre as áreas indígenas no Ceará que foram requisitadas a regularização fundiária são do ano de 2015, salva a situação da Terra Indígena (TI) Tapeba. Esse conjunto de dados apresenta 26 demandas, organizadas por ordem cronológica. Desse conjunto, 23 áreas são reclamadas por povos indígenas que estão vinculados ao movimento indígena do Ceará. Esse último número expressa a força organizativa do movimento indígena na luta pela demarcação de suas terras no Ceará.

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A morosidade na demarcação de terra indígena não é um processo exclusivo do Ceará, segundo lideranças indígenas, mas nesta unidade federativa está o caso emblemático desse atraso. O caso Tapeba, em 2017, foi levado para a Organização dos Estados Americanos (OEA) pela Defensoria Pública da União. Isso porque naquela ocasião havia um atraso de trinta e três anos. As consequências da morosidade em se demarcar terras indígenas são inúmeras, o que merece um texto a parte. Todavia, esse atraso intensifica conflitos fundiários entre indígenas e não indígenas, inviabiliza a proteção do ambiente necessário à reprodução física e cultural dos grupos, coloca as áreas indígenas em indefinição de jurisdição no que se refere à segurança pública, como também deixa vulnerável à grandes empreendimentos, para além da insegurança alimentar.

A intenção em se construir uma tabela que forneça o ano de início da demanda por demarcação e a sua situação fundiária atual é para tornar explícita a realidade de violação do direito originário sobre a terra que tradicionalmente ocupa um dado povo indígena – o território indígena.

O texto constitucional garante que as demarcações de terras indígenas devem acontecer em cinco anos, contados da data de promulgação daquele[2], o que nos fornece um parâmetro para avaliar cada um dos casos acima. Retirando as demandas sem providências, o tempo menor de morosidade é de 8 anos em procedimentos que estão em fase preparatória. O caso de maior morosidade ultrapassa três décadas. O povo Tremembé de Almofala aguarda uma decisão de primeira instância há 22 anos. Além do caso dos Potiguara de Paupina, não há impedimentos legais aos demais casos que não têm andamento. Por fim, há uma terra indígena homologada que teve 11 anos de procedimento administrativo, TI Tremembé Córrego do João Pereira, e uma Reserva Indígena, reserva Taba dos Anacé, que aguarda publicação do resumo do Relatório de Criação no Diário Oficial da União e demais registros oficiais, o que já dura 16 anos.

Não há na razão jurídica ou na razão administrativa justificativa para a morosidade na demarcação de terras indígenas descrita na tabela acima. Fora da razão jurídica e administrativa, na análise do processo histórico no qual está inserido o conjunto de demandas por áreas indígenas no Ceará contemporâneo se encontram outros fatores de explicação da violação ao direito originário à terra indígena tradicional como às outras modalidades de áreas indígenas.

A elite econômica brasileira exerce forte pressão contra a regularização fundiária de territórios indígenas. É a bancada dos ruralistas, juntamente com os seus aliados, quem vem exercendo pressão política contrária à demarcação de terras indígenas e a favor da ampliação da exploração mineral em territórios indígenas. Uma quantidade significativa de projetos de lei, de emendas constitucionais, de portarias e de resoluções produzidas pelo poder legislativo, executivo e judiciário nacional demonstra um plano de ações anti-indígena. Isso significa que a questão étnica em nosso país não só é negligenciada, tornada menor, mas inadmissível para essa elite ruralista, assim como é a posse indígena de terras tradicionais e outras modalidades de terra.


Referências:

INGOLD, Tim. 2015. “Terra e Céu”. P.215-229 In: _______Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. São Paulo, Editora Vozes.

Distrito Sanitário Especial Indígena do Ceará (DSEI-CE).


[1] Transcrição do enunciado do documento: “Solicitante: Representante da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão no estado do Ceará. Ementa: Estado Atual das Demandas Referentes à Demarcação de Terras Indígenas no Estado do Ceará”. [2] Ver artigo 67 em Ato de Disposições Transitórias.

 
 
 

Por Débora K. Fofano, Carlos Frederico Costa e Raquel R. Rocha


A maioria de nós descobriu os podcasts pela vontade de conhecer mais sobre um determinado assunto, de ouvir o que outras pessoas têm a dizer sobre algo, de distrair a cabeça com outros assuntos para além daqueles que povoam as mídias tradicionais. Muitos de nós também ouvimos porque queremos simplesmente estar mais informados, mas sem cair naquelas formas didáticas de aprender algo. O podcast se tornou uma companhia agradável e, especialmente durante a pandemia, criamos até um elo afetivo com os podcasters, além de uma rede de novas amizades a partir de grupos criados a partir dos podcasts. Além disso, é um formato que nos convida a simplesmente ouvir, algo que podemos fazer enquanto também executamos outras tarefas mecânicas, como caminhar, lavar louça, se deitar no sofá ou ficar apenas se balançando em uma rede.

Neste pequeno artigo partimos do princípio de que os leitores pelo menos já ouviram esse nome: podcast! Isso porque se você está em 2022, certamente já ouviu um, senão pelo menos sabe do que se trata e consegue conceber mais ou menos sua definição. Mas se não sabe, não tem problema, vem com a gente que te ensinamos e aí sim, seu 2022 vai começar de verdade!

De acordo com os números apresentados nas plataformas agregadoras de podcast, existe uma grande chance de muitos leitores terem um programa de podcast ou de pelo menos ter participado de um. A brincadeira na cena podcaster é de que todo ano é “o ano do podcast”, em especial após a inclusão desta mídia nas principais plataformas de áudio (como Spotify), que vem investindo pesado em programas exclusivos ou adquirindo direitos de exclusividade de programas de sucesso, sem falar nos podcasts de veículos da mídia tradicional como a Folha de São Paulo, Rádio CBN, dentre outras.

Independentemente do formato ou temática, o grande atrativo desta mídia é, sem dúvida, sua linguagem (com exceção dos programas de narração de histórias, de estilo próximo às radionovelas, por exemplo). E assim, pela paixão por esse formato de comunicação maravilhoso, que percebemos um potencial enorme de levar a filosofia (outra grande paixão nossa) de forma leve e descontraída pelos sete cantos da podosfera.

– Amo podcast, quero ter um, mas só sei falar de filosofia! – Disse a Débora para o Freddy no começo de 2020. A primeira preocupação que tivemos foi sobre como criar um programa para abordar filosofia de uma forma acessível, mas sem perder o rigor do pensamento, ou melhor: sem perder a profundidade da filosofia e sem perder o bom humor. É aí que entra a ideia de pensar um projeto que usasse a cultura pop como desculpa para falar de filosofia, que conseguisse ser mais profundo em suas análises do que trabalhar em cima de opiniões, mas sem criar uma sensação de aula. Por isso, a dinâmica de uma conversa aparentemente informal nos soou mais natural e atrativa, evocando mais à atmosfera dos bons encontros com amigos em torno do café ou de um barzinho para debater sobre as coisas que a gente gosta, como filmes, literatura, músicas e atravessar isso com filosofia de forma até despretensiosa. Assim surgiu o Perdidos na Paralaxe[1], cujo nome do programa já nos remete a um conceito filosófico (paralaxe) e a ideia de que perdidos nesse conceito podemos juntar a cultura pop, filosofia e outros temas aleatórios que fazem parte do nosso cotidiano.

Por falarmos sobre filosofia, é comum que, em um primeiro momento, associem o programa a um formato de programa que lembra a sala de aula. A ideia de um podcast ser a extensão da sala de aula existe e é até interessante, sendo aplicada muito bem em outros programas, mas não foi o nosso foco. Há uma dicotômica interessante que as artes em geral enfrentam, elas podem ensinar muito quando não pretendem fazer isso, uma vez que desconstroem os paradigmas didáticos e metodológicos que o rigor acadêmico exige. Aprendemos muito a partir das experiências estéticas, com filmes, séries, peças, músicas, assuntos debatidos nas redes sociais. No entanto, caso essas experiências tivessem a objetiva intenção de ensinar, talvez não nos apetecesse tanto.

É isso que muito pretensiosamente tentamos fazer nos nossos episódios: falar de coisas interessantes sem pretensão didáticas, porém, sem dúvida, trazemos muito conteúdo filosófico e aleatoriedades que nos fazem pensar e conhecer um bocado de coisas. Encontramos na podosfera a paralaxe ideal para nos perdemos com a filosofia, a cultura pop e os vários assuntos aleatórios que conversamos com nossos amigos. Nesse caso, adotamos a vontade de fazer um podcast que é a extensão de um encontro entre amigos.

Achamos interessante tensionar isso, para diferenciar o trabalho do podcaster do trabalho do professor. Porque fazer podcast é muito trabalhoso e não podemos exigir que agora o professor tenha mais essa prerrogativa como uma atribuição sua. Podcast e sala de aula são espaços diferentes, que podem, de fato, se somarem enquanto experiência estética-educativa, mas não podemos normatizar que um podcast se coloque lado a lado com o papel da sala de aula na vida das pessoas. Até porque assim como programas de rádio e televisão, o podcast está dentro de uma esfera do entretenimento que pode ou não alienar o seu público, pode ou não promover debates mais instrutivos, do ponto de vista educacional.

Todavia, não se engane! Embora não exista aparentemente uma proposta pedagógica em nosso programa, possuímos um método para construir os episódios, o que nos faz gastar muitas horas por semana em um trabalho, diga-se de passagem ainda incipiente, do ponto de vista da remuneração. Para produzir os episódios e nortear a discussão, precisamos elaborar uma pauta que é construída coletivamente entre o elenco fixo e convidados. A pauta normalmente inicia com a definição do tema, que pode ir de uma obra literária a um release de um filme ou ainda o contexto histórico do assunto a ser abordado. A partir daí, é preciso construir a imagem do assunto até para aqueles que não o conhecem, permitindo que todos possam ouvir o programa sem se sentir à parte na questão. Em seguida pesquisamos exaustivamente sobre o tema, marcamos o dia e nos encontramos virtualmente para gravar o episódio. Depois vem toda a parte de pós-produção, que inclui edição, revisão e distribuição. Procuramos divulgar bastante, na intenção de romper a nossa bolha meramente acadêmica, pois nosso grande objetivo é falar de filosofia de modo que a sociedade em geral compreenda e para isso, nada melhor que a cultura pop.

Nesse sentido, voltamos ao assunto da linguagem. Partindo do princípio de que somos escutados por um público heterogêneo, curioso e que não necessariamente possui conhecimento filosófico prévio, há uma preocupação sobre como explanar questões complexas e como quebrar algumas ideias preconcebidas de que a filosofia é assunto para poucos. A ideia é que os conceitos jogados ao ar sejam explicados pelos participantes e explorado durante o episódio ou caso algum passe algum conceito despercebido, inserimos o quadro “Qual é o conceito?” no momento da edição para que tudo fique explicadinho. Dúvidas ao fim do episódio são normais, mas não queremos que elas não sejam geradas por floreios conceituais confusos. Aliás, são as dúvidas e sugestões que fazem a gente pensar em mais episódios (e não é assim com a própria filosofia?!) e também despertam o interesse de quem está nos ouvindo.

Acreditamos que de fato, é possível aprender com podcasts, mas no nosso caso, este não necessariamente é o objetivo, tampouco o resultado. O principal e mais importante feedback que recebemos dos ouvintes é sobre quererem saber mais sobre os assuntos, a procura pelos textos, livros ou filmes que indicamos, tudo que complemente e enriqueça sobre os tópicos que levantamos. A consequência é o despertar do interesse filosófico, a geração de debates, o estímulo à leitura e à pesquisa e isso nos deixa muito satisfeitos. É assim, Perdidos na Paralaxe de temas, ideias, filosofias e cultura pop que nos encontramos na podosfera e procuramos nos conectar com quem nos ouve. Ao entrar na vida das pessoas através do podcast queremos que elas tenham a mesma satisfação e companhia afetiva que temos com os podcasts que aprendemos a amar.


[1] A nossa página no instagram é: @perdidosnaparalaxe

 
 
 
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