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Por Aed Granja Dos Santos Vieira


A evolução das matrizes energéticas vem ocorrendo nas últimas décadas, mas mesmo diante de tanta evolução, caminhamos no sentido oposto. Seguindo de forma contrária ao mundo em abandonar a utilização de combustíveis fósseis para geração de energia, que por sua característica continuada, aumentada a degradação do meio ambiente, o presidente Jair Bolsonaro sancionou em 05 de janeiro de 2022 um projeto de lei que prorroga a contratação de termelétrica por mais 15 anos no complexo Jorge Lacerda, em Santa Catarina, sendo essa fonte uma das mais poluentes.


O carvão mineral é um combustível que vem sendo abandonado em todo planeta por ser um dos principais poluidores da atmosfera, mas ganhou uma sobrevida no Brasil, por via deste projeto de lei. O texto visa garantir a contratação de usinas térmicas movidas a carvão mineral até o ano de 2040, o que se torna um incentivo de forma prática, porque a tendência do mundo é gerar, transmitir e distribuir energia limpa e renovável. A associação brasileira de grandes consumidores de energia, “ABRACE”, estima que será acrescido um custo anual de R$ 840 milhões a todos os consumidores de eletricidade no país.


A manutenção dos incentivos para essa fonte acarreta efeitos negativos que vão além do elevado custo ao consumidor final, ela reduz a competitividade nacional em frente às outras nações tendo em vista o impacto causado ao meio ambiente.


Mesmo que a principal matriz energética do Brasil seja as Hidrelétricas, o sistema elétrico de fornecimento de energia em quase todo o país é interligado, formando uma grande e única malha. Dessa forma o elevado custo de geração apresentado nas termelétricas impacta diretamente todos os consumidores de energia no país.



O que são termelétricas?


As termelétricas não dependem diretamente de recursos hídricos para gerar energia, pois seu funcionamento é por meio da queima de combustíveis como carvão, gás natural e óleo combustível. A combustão destes materiais é realizada em uma caldeira, o calor liberado destas transforma em vapor a água localizada sob pressão nos tubos ao entorno da caldeira, a condição de alta pressão permite o movimento das turbinas em conjunto com o gerador de energia.


O processo de queima gera resíduos e gases poluentes que resultam na evolução da degradação ambiental.


Histórico de implantação.


A disseminação das termelétricas no Brasil foi iniciada em meio ao risco de apagão em 2001, quando o governo contratou 14 usinas movidas a gás natural. Desde a contratação podemos evidenciar o seu elevado custo, chegando a ser 5 vezes maior que o normal.


Entre 2020 e 2022 houve um período de estiagem em todo território e novamente as termelétricas assumiram o protagonismo na geração de energia, ao relacionarmos as contas de luz pagas pelos consumidores entre 2020 e 2022 observamos um aumento de 20%, devido aos altos custos de funcionamento apresentado por este modelo.


O incentivo sancionado pelo governo em ampliar a utilização destas usinas torna vulnerável o setor elétrico brasileiro e inviabiliza o acesso aos serviços básicos por parte da população, uma vez que, quanto maior for a dependência desta fonte maior serão os tributos e impactos ambientais.


LEI 14.299, de 05 de janeiro de 2021.


Além de observarmos os sérios impactos causados por esta lei, a perplexidade fica ainda maior quando em seu conteúdo apresenta como uma das causas principais da prorrogação de seu funcionamento, ser o não encerramento da exploração da extração de carvão mineral na região de forma “tempestiva”.


Conforme abordamos anteriormente, a queima, a exploração e queima do carvão mineral causam impactos relevantes ao meio ambiente. O processo de combustão para geração de energia produz efluentes extremamente tóxicos, com alta capacidade de destruir ecossistemas por completo quando entra em contato, como por exemplo, os metais pesados, vanádio, arsênio, chumbo entre outros. Dentro deste conjunto ocorre a liberação de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases causadores do efeito estufa e poluição da atmosfera.


Como apresentado no Art. 4° parágrafo 1°- a usina Jorge Lacerda não pratica o abatimento da emissão de gás carbônico, o que torna ainda mais grave a continuidade de seu fornecimento de energia, tendo em vista que todo o CO2 liberado pela queima em seu processo, não será compensado e não existe uma obrigatoriedade de compensação.


Com toda certeza a produção de energia é necessária para todos os consumidores do país pois suas inúmeras finalidades resultam na segurança, conforto e garantia dos meios de produção de todos os setores que abastecem a população. Mas esta condição não exclui o dever de um melhor planejamento do governo federal em apresentar propostas sustentáveis na geração de energia elétrica, tendo em vista toda evolução apresentada pelo setor nos últimos anos, onde é possível gerar energia limpa, renovável com baixo impacto ambiental e menores custos a longo prazo para o consumidor final.


Outro ponto importante a ser analisado está no Art. 6 parágrafo 2, onde fica claro que o funcionamento da usina em questão não é encarado como uma das fontes principais de fornecimento de energia ao Sistema Integrado Nacional, tendo seu contrato na modalidade de energia de reserva, ou seja, esta usina tem prioridade na geração quando estiver disponível ficando na base de despacho do Operador Nacional do Sistema Elétrico.


Em frente a toda degradação ambiental, os altos custos de funcionamento e o impacto causado pela exploração mineral, não existe vantajosidade em continuar a incentivar este modelo de geração de energia, sem a existência de um projeto de substituição do mesmo. Infelizmente este não é o único caso no Brasil, os municípios de Macaé, Campos do Goytacazes, São João da Barra e São Francisco do Itabapoana poderão abrigar nos próximos anos 17 termelétricas movidas a gás natural, sendo que 13 delas estão em construção. Vale ressaltar que o custo do gás natural está atrelado ao petróleo, com sua cotação em dólar, podendo ter seu valor 7 vezes maior.


Dessa forma podemos evidenciar o rastro de destruição e poluição deixados nos últimos anos por um governo que em todo seu legado buscou atacar diretamente o meio ambiente, em defesa dos interesses privados. Os danos acarretados após sancionar esta lei podem ser irreparáveis, haja vista, a prorrogação por mais 18 anos onde será mantido o processo de exploração mineral, emissão de gases que provocam o efeito estufa e efluentes extremamente tóxicos.


É preciso responsabilidade social e ambiental no desenvolvimento da infraestrutura das matrizes energéticas de um país, o planejamento visando melhorias reais para o bem-estar da sociedade deve ser colocado em primeiro lugar, porque toda decisão tomada no presente momento vai entregar resultados a médio e longo prazo que podem ser desfavoráveis.


Neste momento é fundamental desenvolver projetos sustentáveis, que tem como objetivo o uso de técnicas construtivas e operacionais que reduzem os impactos ambientais, implementando estratégias coordenadas de melhoria contínua e mitigação dos custos de produção. Esta visão pode corroborar com a diminuição da emissão do dióxido de carbono, a dispersão de metais pesados resultantes do processo de exploração mineral e resultar em maior economia para os consumidores finais.


 
 
 

Atualizado: 11 de abr.

Por Carlos Douglas Martins Pinheiro Filho


Certo dia, quando eu ainda era jovem, estava de férias da faculdade, desempregado, duro de grana, mas sem grandes preocupações. A ausência de compromisso valia muito mais para mim do que o conforto do dinheiro. Naquela época não tinha grandes ambições ou necessidades. Era fevereiro de 2001, não lembro o dia exatamente, mas era véspera de carnaval em plena virada do século quando um amigo me telefonou – as pessoas ainda telefonavam naquela época pedindo favor:

– Coé Dom! Preciso de um favor seu lek!

– Qual foi?

– Vai comigo na Mangueira buscar uma parada?

Uma pausa se fez entre as pessoas e aparelhos. Os cachorros latiam para as pessoas que passavam na rua. Automaticamente mão foi na testa com um leve tapa e a boca torceu, mas ele não percebeu meu descontentamento.

– Pô, cara, te falei que não quero subir favela pra buscar droga.

– Eu sei, mas você não vai buscar nada, só vai me acompanhar. Não quero ir sozinho.

– É véspera de carnaval, uzomi estão farejando dinheiro de viciado. Se liga, brown!

– Eu sei, mas vai dar tudo certo. Me ajuda aí, eu vou viajar, não quero ficar sem maconha.

– É por causa daquela mina né?!

Houve uma nova pausa dramática, acho que ele não esperava que fosse tão evidente. Passarinhos assobiavam nas árvores.

– É...

– Mas você vai pegar só maconha mesmo né? Por que se for pegar pó eu tô fora...

– Não, é só maconha, juro!

– Tu não se controla né?! Seu viciado do caralho!

– Pô, vamos lá, ajuda teu amigo...

– Beleza, irmão, eu vou contigo de companhia, mas vê se não me bota em furada. E outra: tô duro, não tenho dinheiro pra passagem.

– Claro que não, deixa comigo. Tem dinheiro pra chegar nas barcas?

– Deixa eu ver...

Abri a carteira e tinham três notas de R$ 1,00. Havia feito uns bicos no final do ano anterior e aquelas notas eram toda dignidade que tinha sobrado. Demorei uns segundos a mais para responder digerindo esse pensamento.

– Tenho sim, mas vou precisar do dinheiro da volta.

– Demorou, nos encontramos nas barcas...

Jovens como nós eram enquadrados frequentemente pela PM. Tomávamos dura no meio da rua. Eles nos revistavam, interrogavam e, caso encontrassem alguma droga ilícita, queriam um “cafezinho”. Não era incomum surgir uma droga misteriosamente no bolso durante a dura, mesmo que a pessoa não tivesse comprado droga alguma. O problema todo era esse: eu não tinha dinheiro nem para a droga nem para o "cafezinho".

Me arrumei e saí. Paguei o ônibus para as Barcas. Cheguei antes dele e fiquei esperando sozinho alguns minutos... Que merda que eu estou fazendo?! As ruas estavam meio vazias, mas algumas pessoas circulavam com bolsas. Debaixo da árvore um morador de rua dormia profundamente a sombra de um calor insuportável.

Vindo do terminal surge a figura: um sujeito magro, alto, calvo e com uma cara natural de chapado. Estava sempre com um cigarro na mão e um refrigerante na outra. Dizia não gostar de água porque não tem gosto de nada, então preferia beber refrigerante. O cara era doido.

– Valeu mesmo por vir.

– Tô com um mal pressentimento, bró, mas já que estamos aqui, partiu.

Pegamos as barcas para o Rio. Era início da tarde. Xitus pagou minha passagem como combinado. Naquela época a barca era aberta e ele foi fumando que nem uma chaminé durante toda travessia. Filei alguns cigarros para passar o tempo, mas aquilo sempre me dava dor de cabeça.

– Qual foi do desespero? Tu sabes que essa época é arriscado à vera...

– Eu vou viajar com a Camy, preciso de maconha.

– Que urgência é essa, irmão? Dá um tempo!

– Não dá, cara. Ainda mais com ela...

– Já é, mas se uzomi enquadrar é tudo contigo mesmo.

– Claro, deixa que eu resolvo.

A cidade estava completamente morta e vazia. Nenhuma alma viva. Naquela época os blocos de rua não tinham voltado e o Viaduto da Perimetral ainda figurava como um monumento grotesco acima das nossas cabeças na Praça XV. No mergulhão, tomamos o ônibus sentido Maracanã e descemos perto da UERJ. Caminhamos até a Visconde de Niterói, pulamos a mureta na altura do Viaduto Dona Zica e fomos em direção rua onde ficava o Buraco Quente.

A entrada da favela estava completamente deserta. Estranhamente deserta. Estava tudo quieto demais. Um senhor negro sem camisa de chinelo, bermuda e chapéu panamá de fita vermelha passou por nós, sorriu e sumiu em uma das vielas que sobe o morro. Quando entramos, onde estaria normalmente a boca de fumo não tinha uma alma viva.

– Bora maluco, não tem nada. Até os bandidos estão escaldados.

– Espera, vamos entrar nessa rua...

Ele não ia desistir facilmente. Entramos na viela estreita e metros depois caminhando uma voz jovem e rouca falou de cima de uma casa.

– Ei, que são vocês? O que vocês querem?

– Eu sou viciado, quero maconha.

O sujeito nos olhou de cima a baixo, mas a gente não tinha pinta nenhuma de P2. Xitus tinha aquela cara natural de chapado, sorriso largo, bobo e amarelado, e eu estava todo descabelado, de óculo, bermudão, camiseta e chinelo, uma mistura de nerd e vagabundo.

– Chega aí!

Xitus olhou para mim e deu uma piscadela. Um gesto de vitória antecipada. São gestos assim que provocam o universo a cobrar seu peço. Enfim, a coisa estava para acabar. Logo poderia ir para casa sem deixar o amigo sozinho na furada.

Ele pegou o bagulho, pagou o traficante e fomos embora. Na descida, fui na frente para olhar e ver se estava tudo limpo na via principal. Não tinha nenhuma viatura da PM à vista... Chamei, ele desceu com o bagulho no bolso e tomou a frente.

– Vamos pular a mureta e voltar por onde viemos...

– Bora!

Pulamos a mureta e chegamos na calçada da rua Visconde de Niterói, paralela à linha do trem.

– Conseguimos! Não te falei?! Foi tranquilo.

– Não canta vitória antes da hora...

Assim que eu terminei a frase dois sujeitos mal-encarados saíram de um Vectra 2.0 – um carrão na época – e nos cercaram na calçada. O negro de óculos escuros colou em Xitus e o outro veio para o meu lado.

Eles meteram a mão no bolso e sacaram distintivos da polícia.

– Polícia! Cadê a droga?

– Que isso, senhor?

– Que isso é o caralho! Nós vimos vocês entrarem e saírem da favela, não adianta mentir. Cadê a porra da droga?

Com a feição pálida e transfigurada da alegria anterior, Xitus meteu a mão no bolso e entregou o tablete de maconha para o policial. O fortão pegou Xitus pelo ombro. Fiquei sem reação, ainda processando aquela reviravolta do destino.

– Entrem no carro... Você vai atrás comigo.

Naquela época não tinha essa de usuário, viciado ia preso que nem traficante. Eu tinha ouvido várias histórias trágicas sobre usuários que iam preso e na cadeia eram obrigados a escolher uma facção, obrigando-os a ingressar no mundo do crime involuntariamente. Imagina: ir fumar um baseadinho e terminar preso em Bangu como traficante do CV, ADA ou TCP.

Assim que entramos no carro, assumindo uma postura hostil, o fortão começou um interrogatório no banco de trás. Xitus parecia assustado.

– De quem é a droga? Você é traficante?

– É minha, senhor, ele não tem nada a ver com isso, só veio me acompanhar.

– Que furada heim? É seu amigo?

– É sim, senhor.

– E você o meteu nessa furada?

Xitus não respondeu, estava atônito.

– Mas ele não é traficante, senhor, é só viciado, não devia ter vindo aqui.

– Devia ter ouvido seu amigo, meu chapa...

O fortão no banco de trás tirou os óculos e estufou o peito.

– E aí, qual vai ser? Levo vocês para delegacia? Você assina por tráfico e você vai ser a testemunha.

– Mas senhor, eu não sou traficante. Não tem outro jeito de a gente resolver?

Xitus a essa altura já suava copiosamente. Seu sorriso largo parecia caído e mais amarelado do que de costume.

– Como?

– Não sei... Eu não sou bandido não, senhor. Sou apenas um viciado.

– Aonde você quer chegar?

– Se eu pagar um cafezinho o senhor deixa a gente ir embora?

– Quanto é esse cafezinho?

– 50 reais? É tudo que eu tenho...

– Toca pra delegacia, esses caras estão de sacanagem!

– NÃO! Por favor! Quanto o senhor quer?

– 200, no mínimo!

Xitus fez uma cara de desespero... Nem eu nem ele tínhamos aquele dinheiro todo. Na época, 50 reais era bastante dinheiro, 200 era uma pequena fortuna. Pelo menos para a gente...

– Eu não tenho esse dinheiro aqui... Posso ligar para um amigo?

– Liga logo, porra!

Discou um número no telefone... Fiquei pensando que poderia ser o anjo salvador. Só podia ser Lobato...

– Lobato? Tudo bem? Cara, tô enrascado... Os PMs me pegaram aqui na...

– PM é o caralho! Polícia Civil, porra!

– Tu ouviu... Estamos ferrados, amigo. Estamos eu e Dom dentro da viatura. A gente estava saindo da Mangueira. Eles querem R$ 200 pra liberar a gente... Tá bom, nas barcas em 40 minutos.

– E aí? Qual vai ser?

Olhei para o banco de trás e Xitus não parava de suar.

– Ele tem o dinheiro, mas está em Niterói. Deve chegar na Praça XV em 40 minutos.

Na mesma hora o semblante dos policiais mudou. O fortão abriu um sorriso e colocou os óculos novamente.

– Relaxa, filho. Agora vocês são nossos clientes.

– Escolhe uma música!

O motorista jogou uma pasta com CD’s no meu colo. Revirei a pasta e escolhi o CD “Sobrevivendo no Inferno”, do “Racionais MC's”.

– Ah, vocês gostam quando eles chamam a gente de verme, né?

– Não senhor...

O motorista deu uma gargalhada, pegou o CD e colocou no aparelho de som do carro. "Jorge sentou praça na cavalaria. E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia...".

Aquele som ficou ecoando sem mais nenhuma palavra. Eles ficaram rodando pela Tijuca, estacionaram para comer um salgado numa lanchonete e nos ofereceram um lanche.

– Quer comer alguma coisa? Pode aceitar, vocês são nossos clientes... Não é essa polícia que Garotinho quer? Eles não querem a gente pegando viciado na rua?

Recusamos. Eu não tinha fome alguma, imagino que Xitus menos ainda. Um sujeito que comia uma coxinha não parava de olhar na nossa direção, uma mulher passou com o filho em frente à lanchonete. Tocava sambas enredo no autofalante da birosca.

Na hora combinada fomos para a Praça XV. Estacionaram o carro no mergulhão.

– Liga logo pra esse seu amigo.

Xitus discou o número.

– Onde você está? Beleza!

– E aí, magrelo?

– Ele está desembarcando...

– Vamos lá!

Xitus saiu logo atrás. Quando eu ia sair o motorista meteu a mão na minha perna.

– Nã, nã. Você fica por precaução, caso seu amiguinho esteja mentindo. Você vai levar tudo sozinho quatro olho.

Tirou uma PT da cintura e colocou no colo. Gelei na hora... Que furada eu tinha me metido. Ele olhava para o retrovisor e os ônibus passavam. Alguns poucos paravam, quase nenhum passageiro. Depois de uma eternidade o fortão desceu as escadas sozinho e fez um sinal para o motorista. O sujeito olhou para mim e abriu o porta-luvas do carro.

– Pode pegar a parada do seu amigo...

O tablete de maconha de Xitus estava junto com várias outras drogas: brizolas de cocaína, dolas de maconha e frascos de loló. Ao que parece a caçada tinha sido promissora, nós não tínhamos sido as únicas presas do dia.

Peguei o lance e saí do carro sem olhar para trás. Quando subi o mergulhão encontrei os dois amigos conversando.

– Eles te libertaram, ainda bem!

– Toma, eles devolveram a tua parada. Custou caro...

– Cara, como vocês se meteram nessa furada? Dura no carnaval...

– É uma longa história, Lobato...

 
 
 

Por Coletivo Terral


Com a chegada à administração federal do bolsonarismo, em 2018, temos simultaneamente assistido a uma escalada de discursos anticientíficos nas redes sociais e até mesmo em meios de comunicação tradicionais, como o rádio e a TV, incluindo nisso emissoras com anos de tradição e presença no cotidiano dos brasileiros. Não faltam exemplos, não faltam nomes, de gurus a programas, que têm feito o trabalho de divulgação de notícias falsas e de ideias que desafiam a lógica científica e racional.


Porém ninguém mais se engana que isso se trata de um fenômeno não apenas brasileiro, mas sobretudo global. Se continuarmos na mesma linha de parâmetro, entre ascensão de discursos negacionistas e políticos de direita, temos à primeira vista a recordação de Donald Trump; um pouco mais longínquo, mas sempre no mesmo recorte, o primeiro-ministro húngaro, que, dia 24 de julho de 2022, anunciara um dos corolários das “democracias iliberais”: o da xenofobia, ao defender uma Hungria sem mestiçagem. “Falando em raça, muitas espécies diferentes povoam nosso planeta. Mas há apenas uma espécie que vive nesta terra andando, trabalhando, falando e, às vezes, pensando: Homo Sapiens Sapiens. Esta espécie é una e indivisível”, teria dito Viktor Orbán, num daqueles clichês racistas que temos com frequência ouvido por aqui.


A crise de confiança pela qual tem passado a ciência, neste cenário, se soma a uma onda política de extremismos e conservadorismo. Isto, aliado à popularização e difusão de meios digitais de comunicação, com seus próprios códigos de conduta (complacentemente antidemocráticos às vezes) e políticas comunitárias internas (por outras), nos dá margem para pensar que não são situações externas uma à outra, mas pertencem ao mesmo caldo e – por que não? – projeto de poder. E o que tem feito a resistência ao negacionismo científico, às fake news, ao alt right? Usando as mesmas ferramentas digitais (complacentemente...), num trabalho de lutar contra o anticientificismo com mais cientificismo. Crê que o que tem faltado é divulgar mais, popularizar a ciência, ser pragmaticamente mais ordinário, “falar a língua do povo”, “traduzir in Vulgata” como diz uma antiga locução. Nisso pipocaram nas plataformas digitais perfis e contas destinadas à bonita, inspiradora e honrada missão de popularização dos saberes científicos. Mas é isso o que tem faltado de fato?


Para conhecer o entendimento da população da importância e do papel da ciência e tecnologia (C&T), o relatório Wellcome Global Monitor, elaborado pelo Instituto Gallup a pedido da organização britânica Wellcome Trust e publicado em julho de 2019, demonstrou que a desconfiança entre os brasileiros relação à ciência residia em 73% ao passo que 23% não viam conexão entre a produção científica e o desenvolvimento econômico e social do país. Essa percepção e (des)confiança, no caso do Brasil, eram motivados por questões de ordem religiosa, seja porque a ciência ia contra suas convicções, seja porque entre uma e outra prefeririam a fé. Paralelo a isso, neste contexto, não podemos ignorar a aliança explícita que tem ocorrido durante todo o governo Bolsonaro com as grandes igrejas neopentecostais e com líderes religiosos de matizes conversadores. E o que podemos tirar disso? Que, se tem uma fonte de descrédito em relação à ciência, essa fonte, no projeto de poder em curso hoje no Brasil, tem nascituro nas mesmas igrejas aliadas do governo. Vocês podem se perguntar? E as igrejas têm sido fonte disso mesmo? E rebatemos: o que muitas delas foram durante a pandemia de coronavírus, senão o ponto de resistência à vacinação e aos protocolos sanitários recomendados pela OMS?!


O mesmo relatório, contudo, chama a atenção para outro fato importante: a percepção atrelada a condições socioeconômicas. Quanto mais desiguais os países, maior descrédito tem a ciência. Isso leva à compreensão de que a relevância da ciência como campo do saber se vincula à confiança que se nutre pelo governo e suas instituições, incluindo nisso a Justiça, a Imprensa e a Universidade. Não soa familiar que, sob o governo bolsonarista, sejam justamente essas as instituições mais atacadas pelo presidente e seus aliados? Daqui, ressaltemos uma coisa, ao menos, da percepção da população: a ciência como instituição, como estrutura de saber e poder.


Em outro estudo, feito pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) sob demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), chamado Percepção pública da C&T no Brasil 2019 e realizado desde 2006, revela um aumento do descrédito em relação à ciência, ao demonstrar que percentual de indivíduos que consideram que C&T só trazem benefícios para a humanidade caiu de 54%, em 2015, para 31%, em 2019. Essa diminuição também ocorreu entre aqueles que consideram os cientistas úteis para a sociedade. Mas um aumento tivemos: de pessoas que creem serem os cientistas pessoas que servem a interesses econômicos privados. E aqui resulta numa nova interrogação sincera: se o descrédito no Brasil vem se dando por achar que a ciência serve a interesses privados, por que o mesmo descrédito não ocorreria para o negacionismo científico? Estaria este ileso dessas relações escusas? Vamos concluir, sim, que também estão a serviço. Mas por que razão uma dialética ralé como esta não é o suficiente para equiparar a luta de divulgadores da ciência à luta pelo descrédito dela? Voltamos a uma questão levantada mais acima: porque esta última é uma luta por um projeto de poder. A divulgação, neste caso, torna-se uma arma ingênua, uma funda diante de um foguete balístico. Por isso mesmo, desnecessária? Não, mas também muito insuficiente.


Sobre a ocupação de espaços de visibilidade ordinários por pessoas que enunciam do campo discursivo da ciência ou dos estudos acadêmicos, como alternativa à mão para enfrentar o engajamento das pessoas contra a ciência, devemos acrescentar mais algumas coisas. É fato que falta a compreensão, e há forte desconhecimento, de conceitos básicos de ciência, por exemplo, sobre vírus versus bactéria, um dos grandes embates biológicos durante a batalha da (des)informação no Brasil-pandemia. E talvez isso seja outro motivo que incentiva os divulgadores científicos instragramáveis a permanecerem na luta. Mas aqui voltamos a outra questão.


Há, de um lado, pessoas, no espectro mesmo da esquerda, que crê ser necessário que os próprios cientistas, pesquisadores, pessoas do campo discursivo da ciência ocupem esses espaços virtuais, para não dar margem para pilantras o façam, como um Olavo de Carvalho e inúmeros outros pretensos portadores de “notório saber”, mesmo sem estes terem pisado por um segundo espaços tradicionais de produção conhecimento científico.

Vamos dar um exemplo. Outro dia, em uma dessas divulgações pró-ciência, contudo num contexto do mercado de cursos livres de filosofia ministrados por pessoas sem formação acadêmica, uma doutoranda em filosofia, por uma universidade brasileira, excelente pesquisadora, estudiosa da obra de Michel Foucault, rebateu, em uma postagem no Facebook, muito bem a deslegitimação feita por acadêmicos de espaços de produção de saberes não acadêmicos, como as redes sociais e as plataformas de streaming, onde são ofertados tais cursos. E realmente a academia não é o único espaço de construção de saber, porém espaço de produção de saberes acadêmicos, ao menos isso ela é. Entretanto, a moça equipara o espaço acadêmico e o espaço não acadêmico (as redes sociais, por exemplo) como equivalentes na produção e difusão de saberes, sejam estes acadêmicos ou não. E nisso reside uma falsa analogia, por achar que o saber acadêmico, propalado em espaço não acadêmico, seja equiparável ao saber acadêmico elaborado em espaço acadêmico e por julgar que, por tal, devem os acadêmicos dialogar e ocupar tais espaços. Ou seja: supõe que se trata apenas de uma retextualização, ao destravar o saber acadêmico para divulgação em espaço não acadêmicos.


Agora isso tem uma questão a ser considerada. Porque dizer isso tem uma consequência muito grave para o contexto do desmonte, precarização e empreendedorização do cientista, do pesquisador, da academia como um todo. Na medida em que você confia que, nesses espaços não acadêmicos, é possível divulgar saberes científicos de igual ou superior valor aos saberes científicos produzidos em espaços acadêmicos, você abre margem para dizer que a universidade é substituível. Que ela é prescindível.


O que falta é entender que existe dentro da universidade, além de pesquisa, um campo de atuação entre universidade e sociedade chamado extensão e que é justamente a extensão que tem feito esforços contínuos de levar ou elaborar um saber acadêmico (ou não) sob a vivência de pessoas não acadêmicas, do povo lá fora, da vida lá fora etc. Cremos ser válido que cheguem até os espaços não acadêmicos saberes acadêmicos, mas mediante um elo com a universidade, como os projetos e programas de extensão têm feito.


Agora, fazer esse saber chegar lá fora “por meio de um curso”, em geral pago, quando não por uma “mentoria”, aí já soa como a empreendedorização do pesquisador. Não somos daqueles que acham que o que falta à ciência é divulgação, que o anticientificismo está aí porque a ciência não soube fazer seu papel na divulgação.

Se formos partir do que descreve Bruno Latour, em Ciência em ação: Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora, sobre as composições, as associações, os coletivos entre ciência e política, por exemplo, podemos dizer que, se a anticiência hoje está em voga, é porque ela está aliada com outros poderes, outras instâncias, sendo a adesão do público, a reprodução da ciência na sociedade apenas a fase final do circuito. E temos visto claramente como a anticiência está aliada com o tradicionalismo e a extrema direita, justamente porque, para boa parte de neoconservadores utópicos, a ciência retirou do homem a cosmologia que antes a religião e a nobreza nutriam e naturalizavam nas relações sociais.


Pasolini, em um de seus Escritos Corsários, no artigo “A primeira, verdadeira revolução de direita”, uma de muitas de suas acusações contra o que ele tem chamado de “mutação antropológica”, “neocapitalismo”, “revolução conformista” – acusações essas contra uma classemedicização, uma padronização cultural e hedonista da sociedade italiana e europeia na década de 1970, em um contexto de avanço de novas tecnologias e homogeneização estética –, o diretor de cinema italiano faz uma crítica ferrenha à adesão embevecida da esquerda à nova relação instituída pela tecnologia:


Esse estado de coisas é aceito pela esquerda [...]. Daí o genérico otimismo das esquerdas, a tentativa vital de se incorporar ao novo mundo – totalmente diverso de qualquer mundo precedente – criado pela civilização tecnológica. Os esquerdistas vão ainda mais longe então ilusão (arrogantes e triunfalistas como são) atribuindo a essa nova forma de história criada pela civilização tecnológica uma potencialidade milagrosa de recuperação de regeneração. Eles estão convencidos de que este plano diabólico da burguesia que tende a reduzir a se universo inteiro, incluídos os operários, acabará por levar à explosão dessa entropia, e a última fagulha de consciência operária será capaz então de fazer ressurgir de suas cinzas aquele mundo explodido (por sua própria culpa) em uma espécie de palingênese (velho sonho burguês-cristão dos comunistas não operários).


Diante desse quadro, a fala da doutoranda em filosofia encontra, nos mesmos flancos de professores pesquisadores no Brasil, resistência incisiva, exatamente porque tem havido forte empurrão de pesquisadores para esses espaços não acadêmicos mediados pelas plataformas de big tech, as mesmas responsáveis e coniventes pela permanência e compartilhamento complacente de comentários e textos antidemocráticos e fascistas em suas redes, principalmente quando moderadas por seus algoritmos e as formações de bolhas ideológicas, as quais poucos conseguem furar. Isso tudo é uma pequena projeção do que tem se tornado a colonização das redes sociais por acadêmicos (ou não) e pesquisadores (ou não).


Se de um lado tem ajudado no compartilhamento da ciência ou de saberes acadêmicos, por outro tem levado ao arrefecimento da universidade como espaço de produção e divulgação de saberes. E podem atestar que poucos são aqueles divulgadores da ciência dessas plataformas que atrelam a discussão que fazem ao seu vínculo institucional, a seus projetos de pesquisa, às suas ações científicas acadêmicas, ou seja, a projeção ali do “eu” é mais forte do que a projeção da universidade ou de suas atividades de pesquisa, por exemplo.


Importante destacar que essa projeção do “eu” não se trata simplesmente de uma ação egoísta isolada, mas que faz parte de uma nova compreensão do mundo ancorada na relação sujeito-empresa. No caso da divulgação científica na internet, por exemplo, o indivíduo, em geral, não se coloca como um pesquisador filiado a instituições e grupos de pesquisas, mas, sim, como uma empresa. Mais que um cientista, ele é um empreendedor! Se no início suas postagens tratavam de esclarecer dúvidas e desfazer mitos, logo em seguida, via de regra, o sujeito passa a vender nas redes sociais seus os conhecimentos através de palestras, e-boos, cursos, mentorias, workshop etc.


Peguem qualquer perfil que promove debate de resistência ao negacionismo científico: a gente sabe que um é físico, outro é biólogo... Mas qual a instituição? Quem são seus professores? Se vinculam a que programas de pesquisas? É o influencer pelo influencer, e basta.


Em suma: o que estamos assistindo é a uma transformação profunda da universidade, que está deixando de ser espaço de produção de saber, cedendo seu espaço para as plataformas virtuais, ao acreditarem que o combate ao negacionismo científico deve ser feito com mais “positivismo científico”, usando as mesmas ferramentas que são compassivas e cúmplices com o esfarelamento das instituições e, por conseguinte, da ciência. Isso se continuarmos a ignorar a necessária vinculação entre o que se faz nessas plataformas quando da divulgação e a universidade onde se situam os divulgadores; isso se continuarmos a promover a desvinculação entre ambas, ao promover o perfil A e o perfil B, os stories de A e as postagens de B; isso se continuarmos a individualizar a produção do saber atrelando o pesquisador influencer ao seu alcance social.


A crença de que os espaços dessas plataformas, tanto as redes sociais, quanto as de streaming, devem ser ocupados por pesquisadores acadêmicos só reforça a ideia de que as ações da universidade estão defasadas, não se modernizaram, se afastaram da população, quando o que está em cena não é tanto a aproximação entre ciência e sociedade, mas as alianças cada vez mais orgânicas entre extrema direita e igreja, em seus ataques sempre mais furiosos contra as instituições democráticas. A pandemia, enquanto ambiente de guerra, foi um laboratório perfeito para o biopoder e, portanto, para as universidades, que vão se mostrar extinguíveis se continuarmos a defender engajamento de suas pesquisas engolfando-as nas plataformas do capitalismo digital.

 
 
 
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