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Em todos os álbuns do BK, acontece o mesmo comigo: suas letras se misturam às minhas memórias.


Não consigo deixar de escrever sobre elas, não consigo ficar de fora do jogo. Sempre me vejo como o personagem dessas histórias.



Essa é a mágica do rap para mim—sua marginalidade, seu pertencimento, seu lugar.

De artistas tão geniais que narram o cotidiano, exploram conceitos, questionam dogmas e reafirmam nosso desejo de ter voz ativa.


BK é revolucionário, e, pedindo licença, viajo entre suas músicas, suas batidas e letras, poesias que enriquecem minha escrita.


Espero que, de alguma forma, eu também consiga contribuir com esse trabalho lindo.



Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (2025) explicita ainda mais o tamanho desse artista que é Abebe Bikila.


Com uma seleção impecável de samples, participações e produtores, ele revisita a música brasileira, fala do seu íntimo, nos inspira, mexe com nossos sentimentos, bagunça os sentidos e faz experiências químicas com o amor.


Peço licença para chegar, avisando que misturo aqui letras das músicas do artista com histórias, reflexões e revoltas minhas.



Reitero: me coloco como protagonista da obra, mas com a humildade de alertar que nenhuma experiência é individual em matéria de negritude, pobreza e marginalidade.

Nossas histórias se confundem. Mesmo com nossas diferenças, somos parte do mesmo teatro, do mesmo sistema, que nos coloca nesse espaço de eterna superação.


Já que estão todos avisados. Vamos lá!

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“Só eu sei as esquinas por onde passei”.

A música do BK, Só Eu Sei, com participação do Djavan, me traz uma nostalgia. Quando ele canta que “tudo tem que começar de algum lugar”, eu volto lá para trás.



Na época em que uma das maiores preocupações era a chuva, aquele medo de chegar à escola com o pé sujo de lama.


A ingenuidade de não me alertar para outros perigos, que seriam bem mais trágicos do que olhares e piadinhas sobre o lugar onde eu morava.


Só eu sei dos perigos que passei, mesmo que algumas dessas experiências sejam coletivas para nós, irmãos de cor e CEP.


Um campo minado, onde soube, milagrosamente—e acredito que as orações da minha mãe me auxiliaram a me guiar—chegar até aqui.


E o que resta, como na canetada do BK, é olhar para o céu, dialogar com Deus e só falar: “me perdoe e obrigado”.

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O caminho foi perigoso, mas não tive tempo para chorar, para me lamentar.


Tive que correr atrás de algo que eu nem sabia o que era.


Mas a falta é catalisadora, ela te faz correr, mesmo que você não tenha um destino definido.


“Não adianta chorar, não adianta lamentar.”

Ninguém tem pena de um neguinho de quebrada. Somos adultizados, temos que ser duas vezes melhores, temos que engolir o choro.


E mesmo que a lágrima escorra no fim do dia, seque-a, porque se for vista, você será o vitimista.


“Você não é homem, não?”—mesmo que, naquele momento, você seja apenas uma criança.


"Peço desculpas para minhas lágrimas, estou sem tempo para elas, sem tempo para traumas e sequelas. Mas vou enfrentar o que sempre me afunda, porque parar de fugir sempre é a melhor fuga."

E você conseguiu? Eu sei que muitos dos que ficaram para trás você nem lembra mais.


As versões das histórias que sobrevivem ao tempo é dos vencedores, dos sobreviventes. Meus amigos morreram duas vezes: no material e no simbólico.


"Mas dedico a quem não está do meu lado", sempre.


É um mantra para mim.


Vivo por aqueles que não tiveram a sorte que tive, aqueles que ficaram no caminho.


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Toda vez que eu subia aquele morro, em Belford Roxo, me questionava se seria a última vez, se algo aconteceria. Viver na insegurança virou um hábito.


Fiquei metódico, buscava artimanhas para fugir do acaso.


Eu precisava continuar. Não tinha como parar.


Não existe história sem movimento, não existe roteiro onde o protagonista não faça nada.


Luz, câmera e ação.


"Medo de mim, medo, de mim?”
“Eu tenho que avançar, única lei que sigo nessa vida.”

Um jovem medroso que, por conta do advento de um racismo estrutural que nos coloca em posição de ameaça, teve que conviver por tanto tempo como algoz e vítima.


Uma dualidade enlouquecedora, uma identidade desafiada diariamente. Minhas armas eram a escrita. Escrevo, logo existo.


Cogito, ergo sum—uma espécie de Descartes da periferia, cria de Ferréz e Paulo Lins.

E usei a escrita para superar meus medos. Chegava em casa e escrevia sobre tudo que passei. Não importava o horário, não importava o receptáculo. Era necessário apenas um espaço em branco para ser preenchido por palavras de revolta e medo.



"Eu quero ver" o que você vai responder quando eu desabafar sobre todos os meus medos e receios.


Quando perceber que, por ser preto, pobre e marginal, não consigo mergulhar no raso. Tudo é profundo, tudo é crítico e imediato.


Preciso ser revolucionário. Meus amores não podem ser plásticos.


Viver até aqui foi uma conquista, e “aqui não pode ser apenas mais um lugar para você”.


"Não precisa mentir que me ama."

Tenho amor até de sobra. Talvez tenha sido isso que me fez continuar, não parar de tentar.


"Não vê como domino as palavras? Nenhuma delas pode me iludir."


E, nessas tentativas, eu arrisquei. No amor e suas inúmeras paixões. Na vulnerabilidade que nos colocamos para o outro. No espaço que damos para o julgamento alheio. Na autoestima que, se não cuidada, é devastada.


Nas atitudes erradas que recebemos de herança. Foi tão difícil aprender a ser eu. Tão difícil entender que algumas dessas atitudes não me refletiam, eram apenas reflexo de outras imagens.


Foi difícil, mas superei.

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"Quem é o monstro?" Quem abusou de mim? O policial que me agrediu? O miliciano que matou meu amigo? Ou a mulher que me traiu? "Eu ou o tempo?"


Será que tudo passa? Será que tudo vira aprendizado? Será que o passado tem que ser sempre revisitado? Será que o tempo é meu aliado?


“Quem é o monstro? Eu ou o tempo?”


"Te devo nada." Quem disse que quero que me perdoem? Quem disse que quero fazer as pazes? Não me sinto mais culpado dessas andanças. Eu vivi, sobrevivi. Houve andanças e desandanças, mas estou aqui.


Mesmo na falta, na raiva, em ruas vazias, em céus iluminados por traçantes, com um alvo nas costas e o sol esquentando minha cabeça.



E ainda não cheguei onde quero chegar. São tantos obstáculos para ultrapassar, mas nunca serei covarde.


"Crescer foi uma prova de múltipla escolha." Pois "o que vocês chamam de má influência, eu chamei de escola".


"Eu consegui."


Não tudo que quero, "ainda estou lutando por mim", mas consegui chegar a um lugar confortável. Longe do subemprego, do crime e do caixão.


E foram todas essas "batalhas que lutei, e as que perdi, que me fizeram chegar até aqui."


"Amém, amém, feliz por mais um dia."


Acordo hoje com alegria, mas nem sempre foi assim.


"Que o papai do céu sempre abençoe a minha família."

E que um dia eu consiga retribuir tudo.

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E "abaixo das nuvens", sigo.


O mundo é grande demais, e eu quero desvendá-lo.


Não quero mais promessas de alcançar o céu.



Sei que já tenho asas. Não peço mais nada. Eu conquisto.


Se quiser vir comigo, me dê sua mão,

porque eu não a soltarei.



Estes são meus cacos de vidro e os mandamentos que carrego.


Ninguém, nunca mais, roubará minha paz.

 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 27 de jan.


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Lembro a primeira vez que soube sobre essa cidade.


Foi bem próximo do dia que a conheci: flashes, faróis como traçantes, desço a serra, descubro um novo mundo. Terra fundada por bandeirantes, antiga, com seus mais de quatrocentos anos.


Seu nome vem da língua tupi: "Moji" significa "rio das cobras", uma referência ao Rio Tietê, que passa pela região. Antiga terra de indígenas, seus verdadeiros donos, que foram capturados ou expulsos do seu território durante a expansão bandeirante.


Sua arquitetura colonial, suas igrejas, local de visita e morada de imperadores, importante rota de passagem entre o interior paulista e o litoral, o Caminho do Mar.


Nos seus centros, nas suas ruas, sangue indígena e negro, mãos não brancas te edificaram. Capela de São Benedito, santo dos escravizados.


Uma cidade que tenta esconder suas origens, tenta se embranquecer, mas sua negritude se explicita nos muros, nas estruturas, no seu passado.


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Mogi das Cruzes era um dos principais pontos de partida das bandeiras — expedições que capturavam indígenas para serem escravizados.


Os mogianos participaram ativamente dessas expedições, e os indígenas capturados eram levados para trabalhar em fazendas e construções na vila de São Paulo e arredores.



Muitos indígenas foram levados à força para Mogi e outras cidades paulistas. Com o declínio da escravidão indígena no século XVII, a cidade passou a utilizar cada vez mais africanos escravizados.


Pretos, quase todos eles, à margem, forçados a construir algo que nunca iria ser deles. Sempre do lado oposto, sendo considerados obstáculos para o progresso, mesmo que suas mãos fossem efetivamente o motor dele.


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Minha Mogi das Cruzes, você me recebeu tão bem, mesmo que eu tenha demorado a me adaptar ao seu marasmo, tenha estranhado a tranquilidade e a sensação de segurança. Corpo já traumatizado de outras épocas, períodos em que o medo era companhia diária.


Nas suas ruas andei, nos seus bares tentei beber, nas suas festas me libertar. Mas, ao relógio zerar, as portas fecham, as ruas esvaziam, as praças são espaços de resistência, daqueles que buscam se deliciar com as oportunidades do luar.


Terra onde vi a busca por criar uma família, crescer, amadurecer, em um amor que deixo aqui no físico, mas no abstrato levo comigo.


Relacionamento esse que me edificou, que me ensinou a ser maior do que acreditava ser, a não ter medo de adentrar lugares que antes achava que não eram para mim.


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Uma continuação, uma construção, um ponto de fusão, de entendimento, que o Pivete é o Iago. Ao mesmo tempo, eles dois sou eu.


Minha Mogi, terra de imigração nipônica. Sua estética se vende japonesa, mas sua essência é negra e indígena. Cinturão verde, espero que volte a ver seu verde, tão ameaçado pelo cinza dos prédios, dos condomínios, que sobem a uma velocidade que se difere, talvez, da sua possível queda.


Morei acima de um antigo mangue, restinga, vegetação. No Parque Centenário, andei com a Andy, uma Border Collie que preencheu meu coração.


Igreja de Santana, Nossa Senhora de Sant'Ana, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, abençoe todos nós. Se a Baixada é mãe, Mogi foi avó. Levou a tranquilidade, o tradicionalismo e o pudor. Me alimentou, me deu carinho, oportunidades, tratou das minhas feridas.


A distância da minha família, amigos, conhecidos... Vim para esse lugar me baseando em amor. Me conectei com alguém de uma forma que nunca fiz antes.


Vivi tanto. Foi tão bom.


Mas acabou, com ofensas, desilusões. Mas mesmo assim, foi bom. Mesmo que termine, nunca deixarei de também ser um pouco daquilo que construímos juntos. Ali, na única Mogi.


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Terra de quilombos. Serra do Itapeti, morada da liberdade. Terra do caqui, seus maiores produtores se encontram aqui. Entre seus moradores ilustres, está Monteiro Lobato, que passou algumas temporadas. Como homenagem, criou o personagem Jeca Tatu, símbolo do homem do interior brasileiro.


Pedra do Lagarto, a Represa do Rio Jundiaí, Morro do Urubu e a Serra do Mar. São tantas as suas belezas, mas tão explícita sua feiura. Terra de grandes ruas, vazias em sua parte, sem sombra, sem árvore. Mas tem coisa linda. Mas fora do centro, nas margens.


Mogi, Mogi, você me deu abrigo, me deu carinho, me ensinou o que é amar. Olho para ti como seu netinho, já grande, tendo um mundo inteiro para vislumbrar.


Sei que foi pouco tempo que passei contigo, mas seus aprendizados para a vida vou levar.


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No Zé do Cabrito, vi seu samba, sua bamba, sua gente preta e quente.


Resistência. Não esqueça, Mogi, o que você tem de bonito está em suas margens.


Igreja Nossa Senhora da Paz. Estava na sua jurisdição acompanhado por uma pessoa linda, que quero levar sempre ao meu lado, mesmo que não rotulado, mesmo que já terminado. Eu fui feliz sendo iluminado por sua luz.


De olhos abertos, no estado, às margens da grande metrópole. Milhões de pessoas. Estação Estudantes, deslizando em sua complexa linha férrea.


Mooca, terra que me oportunizou ser parte da máquina paulistana. Já fiz parte de sua estrutura, nas linhas duras. Fui um explorado feliz.


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Grande quilombo urbano, terra de Aparelha Luzia, de Grow.


Aprendi a sobreviver nessa grande Babilônia. Se eu sei andar por SP, sei andar pelo país.


Mogi, obrigado por tudo que você me proporcionou, independente de grana, tempo ou amor.


Eu sempre serei feliz de ter descido aquela serra, sentindo seu frio e seu calor, sua chuva repentina, sua ausência de sombra, os escassos “bom dia”.


Entre suas cobras, nesse caminho para o mar, eu me conheci, me reconheci.


Sou você também.


Obrigado, Mogi.


 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 25 de jan.
  • 6 min de leitura

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Fiquei pensando, qual é meu castelo de um quarto só. O teto de amianto que me protege do tempo ruim, do sol, das balas…


Quando eu estava sentado no banheiro de casa, apavorado, com medo das balas que cortavam o ar, você sente, tá ali, o barulho, e logo após o silêncio, do nada, outro estrondo.


Aqueles azulejos foram meus anjos da guarda, me protegiam, enquanto eu pensava sobre uma realidade alternativa, onde o estalo do tiro não me encontrasse.



Quando fui morar em Belford Roxo, lembro muito bem, meus pais foram primeiro, eu ainda fiquei alguns dias na casa de um familiar.


Eu realmente não sabia nada daquela cidade, era uma espécie de não lugar, longe dos meus poucos amigos, da rua onde cresci, da escola onde estudava, da lan house onde passava horas só assistindo outros crias jogar.


Chorei quando desci do ônibus, ao me perder naquele morro ainda sem asfalto, aquelas casinhas, aquela realidade, não tão mais distante, mas não menos chocante para um jovem medroso e ansioso como eu.


Foi difícil se adaptar, demorou para nossa casa ter muros, por muito tempo meu computador ficava ao léu, sem um teto de amianto para proteger nem meu PC, nem minha cabeça.


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Meu Castelo de um Quarto Só


Aquele cômodo era meu castelo de um quarto só. O lugar onde descobri tanta coisa com a ajuda da tecnologia. Teve seus prós e contras, mas não mudaria nada.


Eu não conhecia Belford Roxo, não tinha amigos lá, só tinha medo. Medo de morrer jovem, de não conseguir conquistar meus sonhos, de minha mãe não voltar para casa, de meu pai, ao colocar o rosto para fora da janela durante um tiroteio, encontrar uma bala.


Eu vivia mais em São João de Meriti, do que em Belford Roxo, especificamente vivia em minha querida escola, Ciep 175 José Lins do Rego, um lugar que me transformou.


Lembro de subir aquele morro tantas vezes, mas todas às outras vezes, quando eu descia, eu era alguém melhor. Entrei naquelas salas em contextos diferentes, minha formação política está lá.


Se gosto de cinema, é muito por participar de uma oficina de cinema lá, do projeto “Mais Educação” do governo federal.

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Teatro, gincana, biblioteca, cinema, rádio escola, grêmio estudantil… Esse último foi um grande aprendizado. Criei amizades que levo para a vida, fui presidente, não me reelegi, vi uma figura política que respeito muito se construindo e se tornando uma referência na cidade.


Depois, voltamos como pré-vestibular social, um sonho concretizado: centenas de alunos aprovados, amizades, experiência e a beleza de ajudar jovens negros a ingressar no ensino superior.


Nelson é uma inspiração de diretor, um ótimo gestor, um exímio professor e historiador, uma referência na Baixada Fluminense, transformando uma escola no Jardim Bonifácio, São João de Meriti, em referência na cidade e, quiçá, no estado.

“Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete”


Essa música de Vinicius Silva de Souza veio em um momento que se encaixou tão bem, virou uma espécie de trilha sonora do que estou vivendo.


Acho que surgiu o passarinho verde da esperança, e quem diria que quem luta incessantemente alcança?


Nesses balanços das andanças, aprendi a sobreviver.


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E esse novo samba de Marcelo, visto em “Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete” (2024), que parece ter achado a fórmula da batida perfeita — após tanto procurar — o álbum é uma revisitação ao tradicional, do antigo ao novo.


Cuíca ancestral do Mestre Quirino, pandeiro e os tradicionais repique e tantã do Cacique de Ramos, somados à bateria eletrônica 808.


Também uma homenagem à sua mãe, que faleceu em 2021.


Essa escolha de “Castelo de um Quarto Só” para o repertório foi ótima.


Música essa, já eternizada há cinco anos na voz de Renato da Rocinha, um som de esperança, resiliência e força.


Prefiro a versão do Marcelo D2 por ser mais rápida e ter esse eletrônico e orgânico. Além disso, sou fã do cara. Mas não estou fazendo juízo de valor, só justificando por que comecei falando de uma versão e não da outra.


Ao terminar a escola, fiquei meio sem chão, sem referência. Fui trabalhar na C&A, mas em pouco tempo, vi como o subemprego iria cercear meus sonhos. Agradeço meus pais por insistirem para eu seguir meus estudos, me dando força para conquistar meu lugar. 


Meus irmãos da Demolay estavam entrando na faculdade. Fiz como eles, fiz pré-vestibular comunitário aos sábados, prestei o Enem, passei na 6ª chamada em Licenciatura em Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense.


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Quem tenta incessantemente alcança.


E nesses balanços, eu aprendi realmente a viver. Fui bolsista em várias bolsas de pesquisa, gabaritei as possibilidades de sobreviver na universidade — tem lá no meu LinkedIn.


Também me envolvi, participei, vivi a universidade de todas as formas. Nunca o aluno exemplar, mas imersivo, proativo e envolvente.


Fiz documentários, entrei no mestrado, dei palestras, ministrei aulas, viajei o Brasil com o grupo de pesquisa Ginga UFF, organizei eventos — meu Lattes que o diga. Mas para que falar tudo isso? Só para explicitar que fui insistente.


Em meio a tudo isso, tinha o calor, a violência, a falta, os amores, as dores e, às vezes, a tensa volta para casa.

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Minha mãe saindo às quatro da manhã para trabalhar todos os dias, em busca de uma vida melhor para seus filhos. Sem folga, cobrindo plantão. A distância existe, mas é curada pela abundância que se materializa no seu amor, em nos alimentar.


Valei-me, poderoso Deus, olhai esse pobre aprendiz e todos os meus irmãos que continuam vivendo essa vida dura, achando que a culpa é deles. Não entendo a lógica daqueles que só veem a gente como corpos prontos para exploração ou descarte.

É tudo pela minha Baixada Fluminense. 


Sinto tanta falta da Baixada Fluminense. Ter que ficar distante para conseguir fugir da lógica do medo dói, e como dói. Me sinto em exílio. Sinto falta da minha terra. Vou escrever “Mogi, Mogi”, assim como Caetano escreveu “London, London”.



“...I'm wandering round and round, nowhere to go

I'm lonely in London, London is lovely so

I cross the streets without fear

Everybody keeps the way clear…” 


“...Estou vagando por aí, sem ter para onde ir

Estou sozinho em Londres, Londres é adorável, então

atravesso as ruas sem medo

Todo mundo mantém o caminho livre…”

London, London

Caetano Veloso


Que saudade do samba. Talvez seja por isso que me encantei tanto com esse álbum do Marcelo. Uma mistura dos sons que estou ouvindo com a minha ancestralidade. Falta de uma terra que nunca foi minha, mas é tão minha, mesmo que muitas vezes tenha sido hostil comigo.


Talvez seja por isso que estou em São Paulo, que, olha só, me recebeu tão bem. Consegui um trabalho. Mesmo penando, aprendi a mexer no LinkedIn e vi a máfia dos sites de emprego. Meu Deus, nunca fiz tanto cadastro, nunca preenchi tanto currículo.


Podia ser tudo integrado, é cansativo esse capitalismo tardio. Por que as coisas têm que ser assim?

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Trabalhei em uma agência, foi um desafio. Lá na Mooca. Tenho trauma de CPTM, indo e voltando espremido. Redução de velocidade, olha chuva. A volta para casa sempre foi incerta para mim. Conheci gente maravilhosa, me conectei, recebi elogios, aprendi com meus erros, vivi tudo aquilo. Saí mais forte e certo de que a única criação de conteúdo que gosto de fazer é da minha revista e demais projetos.


Passarinho verde da esperança.


Talvez meu castelo de um quarto só não seja aquele quarto sem teto em Belford Roxo. Seja essa cabeça que carrego por aí. Esse teto de amianto, que protege do sol, do tempo ruim, mas também pode ser perigoso para a saúde, para o mundo ao redor.


Fica tranquilo, troquei para Argila, uma alternativa resistente e durável, além de sustentável. 
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Vou me balançando por aí, sigo em busca de alcançar meus sonhos, incessantemente, sem tempo para desistir. Sendo um eterno aprendiz de um mundo que tem muito a me falar ainda. E eu estou disposto a ouvir.


No chão da escola, vou buscar esse passarinho verde da esperança, que às vezes está guardado num guarda-roupa de uma gaveta só, no coração dos meus alunos e alunas.

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Posso não ter dinheiro, um carro maneiro, nem saber sambar direito, mas tenho a história que construí — e isso me basta, me faz feliz.









 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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