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Não é normal, sigo enterrando meus amigos. Não está no jornal, os corpos invisibilizados seguem sendo jogados no asfalto quente da Baixada, pois é assim que a sociedade mata o morto.

Este texto foi escrito em 2018, quando eu tinha 22 anos e cursava licenciatura em Ciências Sociais. Ao revisitar escritos antigos, reencontrei essas palavras, carregadas de uma dor que nunca deixou de estar presente. Publico agora na Revista Menó como um ato de memória, para lembrar os corpos esquecidos pela política de extermínio do Estado. 


Porque esquecer é permitir que essa lógica continue, e lembrar é resistir.

A Baixada Fluminense é considerada uma das regiões mais inseguras do Rio de Janeiro, marcada por altos índices de roubos e homicídios. Ser um jovem negro na Baixada significa conviver com o risco iminente de ser morto pelo tráfico, pela milícia ou pela própria polícia.

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O sofrimento dos parentes e amigos desses jovens vitimados pela violência confronta-se continuamente com a invisibilidade imposta pelo silêncio da dor e pelo silenciamento promovido pelo judiciário e pela mídia. A morte física não encerra a existência do sujeito; ela se prolonga no simbólico, perpetuando-se na luta por justiça e pela tentativa de "limpeza moral" da vítima.


Esse esforço se ancora na crença de que aquele jovem não "merecia" morrer.


Ele morreu mais de uma vez, não ressuscitou, não abriu mais os olhos, nem quando a família chorou, nem quando os amigos postaram sua foto, nem quando a vizinhança murmurou um "mais um". Mesmo com a falência dos órgãos biológicos, trataram de matar ele mais uma vez, e dessa vez foi no campo das lembranças.

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A cidade mais perigosa do mundo


A Baixada Fluminense é composta por 13 municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com uma população de aproximadamente 3,7 milhões de pessoas, o que equivale a cerca de 22% da população do estado. Cidades como Belford Roxo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias e São João de Meriti são conhecidas pela frequente ocorrência de assaltos, disputas territoriais entre facções criminosas, violência das milícias e homicídios. Como resultado, a região concentra 34% das mortes violentas do estado.


É comum que os moradores tenham algum amigo, conhecido ou parente que foi assassinado, muitos desses casos sequer chegam ao noticiário ou às instâncias de investigação. A falta de visibilidade facilita a manutenção dos altos índices de violência, silencia as vozes de amigos e familiares das vítimas e perpetua a impunidade.


Nascido e criado na Baixada Fluminense, vivi por décadas em São João de Meriti, cidade conhecida como "o formigueiro das Américas" por possuir uma das mais altas densidades demográficas do continente, segundo o IBGE. Posteriormente, mudei-me para Belford Roxo, que já foi considerada a cidade mais perigosa do mundo devido à brutalidade dos grupos de extermínio formados durante a Ditadura Militar, os quais seguiram atuando até a redemocratização. 

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Nos anos 1980, a ONU alertava para os alarmantes índices de homicídios na região. Mais de três décadas depois, pouco mudou: os grupos de extermínio deram lugar à milícia, ao tráfico e à polícia, sendo esta última a mais preocupante, pois, ao categorizar certas mortes como resultado da eliminação de "inimigos internos", legitima a violência como política de segurança.


O número de mortes por intervenção policial mais que dobrou em cinco anos no Rio de Janeiro, entre 2013 e 2018, mesmo sob intervenção federal na segurança pública. Somente em janeiro de 2018, foram contabilizadas 157 mortes, evidenciando a letalidade do Estado na produção de violência, justificada pela lógica da militarização, que vem pautando não apenas as políticas de segurança do Brasil, mas de vários países ao redor do mundo.


Nesta lógica de guerra, em que certos indivíduos são construídos como "inimigos internos" e, portanto, passíveis de extermínio para garantir a segurança nacional, algumas vidas são lamentadas e dignas de luto público, enquanto outras são ignoradas.


Para estas, resta apenas o silêncio da comunidade nacional, que ora as enxerga como ameaças a serem eliminadas, ora como vidas desprovidas de qualquer humanidade compartilhada, como vemos em “Sobre lutos e lutas: violência de estado, humanidade e morte em dois contextos etnográficos” (2015) de Sanjurjo e Feltran.

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Os indivíduos que compõem esse último grupo são, em sua maioria, jovens negros das periferias. Suas mortes não recebem visibilidade midiática nem respostas judiciais; apenas a dor de seus amigos e familiares, que muitas vezes só tomam conhecimento do ocorrido por meio de postagens nas redes sociais. Em momentos de luto, uma frase surge recorrentemente em diferentes formatos: "Ele era trabalhador, não merecia morrer".


Essa expressão revela um mecanismo discursivo que reforça a lógica estatal de que algumas vidas merecem ser preservadas e outras, eliminadas.


O esquecimento é cova rasa, sepultado sem luto, sem velas, sem nome. A cidade segue viva, indiferente, a morte caminha mascarada entre os vivos.

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Sua segunda morte foi social.


Fico triste e continuo caminhando, respiro a fumaça preta da cidade, trago a fumaça que adquiri com o que me resta. Sento e faço uma leitura subversiva, e ganho força para gritar mais um pouco pelos meus iguais. Mas sei que a voz do gueto é ruído, e se incomoda, será silenciada. Não sei se terei forças amanhã, não sei se me deixarão vivo dessa vez. Só sei que o peso que aceitei carregar me impede de sorrir toda vez que a alegria me felicita com sua presença.
Me encontro no silêncio dos bons, no escândalo dos maus e proibido de gritar. Se eu me atrever a abrir a boca, há risco de acordar esse povo, povo que está cansado de apanhar, de morrer, explorado por uma elite que cospe no chão que acabou de ser limpo. O medo é câmera de segurança, acompanha cada movimento, cada esquina. Quem denuncia se torna alvo, quem chora se torna estatística.
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Ele não "merecia" morrer


O conceito de "merecimento" remete à ideia de possuir as condições desejáveis ou necessárias para algo. Distintos discursos constroem o imaginário sobre quem atende a esses critérios, delineando, ao mesmo tempo, aqueles que são considerados "excluídos" ou "marginais". Esses indivíduos, vistos como desimportantes pelo poder, são percebidos como vidas passíveis de correção ou sequer dignas de existência. Para eles, a morte não é apenas aceita, mas considerada necessária.


Esse discurso encontra eco na adesão crescente à retórica da violência letal, explicitada pela popularização de lideranças conservadoras como Jair Bolsonaro, que, ainda durante sua campanha, declarou ao "Jornal Nacional" que criminosos não eram "seres humanos normais" e que policiais deveriam atirar "10, 15 ou 20 vezes" em cada um deles. Essa fala evidencia a construção do "inimigo interno" e a legitimação de sua eliminação como estratégia de segurança nacional.


Neste contexto, os moradores das periferias frequentemente sentem a necessidade de provar que são "cidadãos de bem". Ao justificar a morte de um jovem negro periférico pela sua condição de trabalhador, tenta-se reconfigurá-lo como vítima e não como inimigo eliminado. Essa busca por uma "limpeza moral" reflete um esforço de contestar a lógica estatal que determina quem merece viver e quem deve morrer.

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Sua terceira morte foi política.


Tiros interrompem o silêncio da madrugada, logo após o último estalo, o silêncio novamente grita entre os becos e vielas. Não é duradouro o silêncio e nem a alegria, o choro de uma mãe castiga o coração de quem tem o mínimo de empatia. Mais um menor foi baleado, jogado no asfalto quente, envolto dos braços desolados de uma mãe que chora, e molha aquele corpo já sem vida.

Seu nome agora está numa camisa, estampado numa arte improvisada nos muros da comunidade. Seus amigos seguem, mas nunca os mesmos, a cidade engole suas histórias e finge que nunca existiram.

Necropolítica: quem tem direito à vida?

A realidade da Baixada Fluminense dialoga diretamente com o conceito de necropolítica, cunhado por Achille Mbembe.


O autor argumenta que o poder contemporâneo não se limita apenas a governar os corpos, mas a decidir quem deve viver e quem deve morrer.

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No contexto da Baixada, essa lógica se materializa na forma como o Estado, através de suas forças policiais e políticas de segurança pública, estabelece quem merece ser exterminado. Meus amigos, meus conhecidos, jovens negros de periferia, foram vítimas dessa política macabra, tendo suas vidas descartadas pelo aparato estatal ou pela ausência dele.


Viver na Baixada é entender que algumas mortes não geram comoção pública. Algumas vidas são choradas, lamentadas e dignas de luta, enquanto outras recebem apenas o silêncio.


São os corpos descartáveis, aqueles que a necropolítica define como não pertencentes à humanidade comum. A Baixada é um território onde o Estado se faz presente quase exclusivamente para matar, seja pela ação direta da polícia, pela omissão que permite a atuação do tráfico e da milícia ou pela precarização das condições de vida que empurra muitos para a informalidade e para a criminalidade.

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Sua primeira morte foi física.


Não é história, não considero isso nem uma poesia, é um relato de vinte e dois anos de tragédias presenciadas e sofridas. Falo em ambientes elitizados, tento lembrar sempre que aquilo não é a realidade, não é a minha vida. Peço perdão aos meus amigos, que já perderam suas vidas. Rezo por aqueles que estão no risco diário, e por aqueles que só querem viver em paz. Busco um dia que não haverá mais mortes nessas linhas, que eu possa ser um poeta, poetizar sobre amor e fantasias, quero um trago de tranquilidade, não quero ter que chorar por mais vítimas, não quero ser uma vítima.

A dor do luto


A dor física que permanece, que não se encerra no instante da morte, é também a dor do luto, da negação, da ausência imposta, da falta que resiste.


O corpo que some não desaparece por inteiro, ele persiste nas lembranças, nos espaços que ocupava, nos afetos que deixou. Mas preservar essa memória é um ato de resistência, porque a necropolítica não mata só no momento do disparo, da tortura ou do abandono – ela se estende no esquecimento, na desumanização posterior, na criminalização da vítima.

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Na Baixada Fluminense, essa lógica de descarte se faz cotidiana. São muitos e tão rápido. Não há tempo para velar, para lembrar, para exigir justiça. A cada novo corpo que cai, há uma tentativa de apagar os que vieram antes.


Um ciclo onde a morte se acumula, mas a memória é sempre interrompida. Meus amigos, aqueles que ontem riam comigo, dividiam sonhos e projetos, hoje são números em estatísticas que ninguém se importa. E se importar, se recusar ao esquecimento, se recusar a aceitar que eles eram descartáveis, se recusar a seguir o jogo, é um ato de enfrentamento, um ato político.


A necropolítica de Mbembe se manifesta aqui com uma brutalidade visceral. O Estado define quem pode viver e quem deve morrer. Mas não é só sobre a morte em si – é sobre quais vidas importam, quais são dignas de luto, quais têm o direito à memória.

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O jovem negro da Baixada não só morre, ele é silenciado antes e depois da morte. E quem ousa lembrar, quem ousa sentir essa dor e contestá-la, carrega o peso de um luto que não tem espaço para ser reconhecido.


Escrever sobre isso é também uma sessão de terapia. Mas diferente das sessões convencionais, essa não busca apenas elaborar a dor individual – ela precisa encontrar formas de impedir que essa dor continue sendo produzida. 


Porque aqui jaz mais do que vidas interrompidas: jaz um projeto de futuro negado, jaz uma juventude que poderia ter sido, mas não foi.




 
 
 
  • Foto do escritor: Rosola
    Rosola
  • 12 de mar.
  • 5 min de leitura


Fotos por moskow
Fotos por moskow

Achei que ainda não teria superado os traumas do carnaval passado. Na época, tinha começado a namorar um homem medíocre que se julgava entendedor de Carnaval, mas que se absteve propositalmente de passar o carnaval comigo. Ele queria a independência dele.


Já tentei brincar em inúmeros carnavais, mas confesso certa inabilidade para isso. Tenho uma coleção de histórias ruins sobre perrengue e assédio e nenhuma história sobre um bom romance.


E esse ano já tinha calibrado minha fúria, estava pronta para encarar o carnaval sozinha, bem melhor dessa vez, esperando o primeiro grupo de amigos me dar aquela carona. Marcos, um amigo, estava nesse grupo.


Fotos por moskow
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Incentivador dos meus projetos artísticos, ele me viu uma vez tocando um groove simples de bateria nos stories, e me chamou pra fazer uma banda com minha melhor amiga justo na época onde estava eu guardando rancores do meu namorado — até naquele momento — que era simplesmente incapaz de tocar qualquer coisa comigo mesmo tendo um estúdio de música na casa dele, aiai.


Mas Marcos presenciou muitas histórias mesmo de sofrimento que passei. E olha que nessa época eu nem o conhecia pessoalmente, era somente um amigo de uma amiga, uma simples postagem nos stories criou uma amizade e uma banda.

Deus sabe como fiquei feliz por poder tocar com minha melhor amiga, por eu ter simplesmente um espaço pra desenvolver meu aprendizado, pois eu, burra velha, artista visual, já não considerava ter mais tempo de aprender algo novo como música no estilo tradicional de aulinha-casa-aulinha-casa-aulinha-casa.


Fotos por moskow
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Eu precisava de PESSOAS, da emoção de tocar junto, de aprender, fazendo me perder e me encontrar e, nesse caso, é sempre ótimo estar acompanhada de alguém que realmente é um artista musical há 10 anos, e que sabe tudo sobre harmonias, acordes, escalas musicais, dó, ré, mi, fá, sol, la, si, dó.


Marcos tinha me convidado para ir ao Boi Tolo, bloco que acabei não indo nesse Carnaval, mas devo confessar que foi esse convite que me cravou a certeza e me deu a última dose de coragem que me faltava para afirmar “sim, eu vou encarar esse carnaval, não vou sucumbir aos meus medos de passar perrengue e ser assaltada”.


Era o primeiro dia de carnaval e estávamos Marcos, Tonhão, uma desconhecida e eu a caminho do NOVA BAD, bloco que até o momento eu jamais tinha tido o conhecimento mas que todos meus amigos artistas estavam falando que iriam nesse bloco.

Fotos por moskow
Fotos por moskow

Não tinha como dar errado; se seus amigos artistas estão indo no bloco, esse é o bloco certo. Afinal de contas, Carnaval é sobre MÚSICA, sobre ARTE, ao menos era o que eu buscava, como sempre busco em qualquer coisa que faço na vida. E indo no mesmo bloco que Marcos estava indo, eu estava tranquila sobre sua qualidade musical, mesmo que nas postagens de Instagram o bloco claramente anunciava o seu fim nesse carnaval, então estava eu indo no último ato desse bloco, no enterro da NOVA BAD.


Achei poético.

Com um repertório de músicas internacionais e nacionais sobre a bad vibes, sofrência de amor e tudo mais, a NOVA BAD se apresentava. Imponente eram seus pernas de pau com meninas desnudas, amarradas só por uma cordinha preta ou branca, pois as cores do bloco eram o preto e o branco, anjos espectrais de ida ventura, de característica gótica e sensibilidade envolvente, a maioria das fantasias trazia olhos chorosos e maquiagem manchada, uma estética uniforme contagiava a banda e todos os que estavam em volta, me sentia passeando pelo cemitério da Consolação, véus negros estavam em toda parte assim como lagrimas de sangue, pérolas branquíssimas e um rastro de brilho prateado que fazia o preto reluzir ainda mais sob as ruas da Avenida Chile naquele sol a pino, atmosfera surrealista para aqueles acostumados com um típico carnaval carioca. Nesse momento eu sabia que estava no lugar certo.


Lembrei de um amigo que riu da minha escolha de bloco, falando “Nova Bad? Isso é engraçado, tendo em vista a sua situação atual”.

Fotos por moskow
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A situação atual a que ele se referia eram os três meses atrás que meu ex-namorado havia terminado comigo, demorei um pouco pra entender porque de fato já não era mais algo que permeava tanto meus pensamentos. Não tinha me dado conta do significado por trás do nome do bloco. É como se estivéssemos em busca sempre da próxima bad que iremos sofrer.


Mas a mensagem do bloco é clara: já sofremos ela antes, já superamos ela diversas vezes, vamos continuar superando; tratava-se de um bloco para “chorrir”, e me tocou profundamente esse viés poético destinado ao carnaval, época da ditadura da felicidade e da curtição, época de ignorar os problemas sociais e financeiros que estamos vivendo. Que liberdade era poder ser triste também.


Porque, como eu disse uma vez ao meu amigo Marcos, a quem aproveito o momento aqui para dar feliz aniversário, a vida é feita de felicidades e tristezas, e ainda bem.

Fotos por moskow
Fotos por moskow

Tristeza e felicidades se encontravam catarticamente naquele bloco que não se limitava a trazer somente música e excelentes fantasias que enchem os olhos, mas também belíssimas performances artísticas por parte dos componentes, seja cantando “você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer e te querendo, vou tentando te encontrar” e vendo todos os trompetistas se jogarem no chão, seja no belíssimo trompetista principal com sua maquiagem borrada de choro sincero e fiel sentado em uma mesa de bar no meio da banda e do bloco, bebendo vinho barato e fumando cigarros atrás de cigarros, trazendo a mais pura performance da agonia e do sofrimento.


É lindo ver o sofrimento passar na passarela, e ele ali se misturava também com o sofrimento pelo fim do bloco, a última vez que aquele chafariz humano de emoções se encontrava sob o estandarte da NOVA BAD, com os dois olhinhos chorando, agora era hora de chorar de verdade, de saudade desse carnaval.


Achei lindo toda essa relação entre forma e conteúdo, como que a proposta poética do bloco acontecia viva de verdade encarnada nas pessoas, e senti vontade de chorar arrepiada ouvindo os foliões cantarem durante os silêncios que a bateria fazia.

Fotos por moskow
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Em nenhum momento o sofrimento cessou a euforia, a alegria de estar vivo sendo um ser sensível e passível de ser atingido pelo outro, humanidade para fora da casca, tudo nu como muitos foliões que entregavam alma e carne para a festa continuar seguindo, como quem coloca todos os demônios para fora e celebra esse momento, somente a espera do próximo pesar e luto que teremos que encarar.


Foi quase mas não chorei junto com o bloco, não pensei em nenhum passado e nenhum rancor, era impossível, tudo era uma única coisa e o sofrimento de todos era igual e banal, todos estavam transparentes e por isso beijei Marcos antes que o bloco acabasse naquele empurra empurra clássico que deixa a gente sem espaço pessoal, uma massagem humana híbrida que impossibilita a passagem, mas quem se importa com a passagem naquele momento?


Fotos por moskow
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Poderia ficar lá para sempre, sentindo ser todos e ninguém ao mesmo tempo, e comprando mais uma skol beats já torpe dos sentidos, sendo capaz apenas de, em um gesto rápido como um gato, roubar um gelo do ambulante que abriu seu isopor em um milésimo de segundo e ter como prêmio esse mesmo gelo passado pela extensão da minha nuca e costas para me tornar esse corpo que já não se importava mais de estar abandonado ao sol de meio dia, coberto de tesão e se mostrando incapaz de segurar os instintos nem mesmo para mijar no meio fio como de costume.


 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 11 de mar.
  • 4 min de leitura

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Antes de começar, quero falar sobre essa minha necessidade de escrever sobre certos trabalhos que me atravessam.


Letras, instrumentais, conceitos, estéticas... Nem me prendo necessariamente a isso.

Para quem chegou agora, a Resenha do Pivete é realmente uma resenha — mas não no sentido clássico, como um texto que apenas analisa e descreve uma obra.


É mais na pegada de uma resenha de rua, como no Arrocha de J Eskine ou na Resenha A Firma é Forte — MCs Frank, Tonzão, Juninho da Dez, Tikão e Buret sabem bem do que estou falando.


Quando escrevo sobre um álbum, sobre artistas que me surpreendem e me cativam, não é só porque gosto do som.


Muitos deles vêm de contextos que conheço de perto. Nossas experiências, mesmo individuais e diferentes, são coletivas.

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E isso é algo que sempre busco ressaltar nas linhas. Não quero só dissecar beats, métricas ou referências. Me pego refletindo sobre muita coisa além do convencional. Não é só como o artista fez, mas o que ele tentou dizer — ou melhor, o que eu consegui interpretar.


E assim eu começo. Com pouca informação sobre o artista Matchola — até mandei mensagem para ele no Instagram — mas sem conseguir segurar a ansiedade de escrever sobre seu quarto álbum: Ok Tchola (2024).


Um disco com 14 faixas de pura diversidade, que vai longe. Dialoga com ritmos distintos, gêneros variados, atravessa caminhos sonoros que só reforçam seu caráter inventivo, criativo e livre. Ele é rapper, cantor, produtor musical. Baiano. Criado e moldado por essa terra.



Na bio do Spotify, ele já dá o papo: sua música é um caldeirão de gêneros misturados ao rap, tudo produzido por ele mesmo. Seu estilo principal? RAP ALTERNATIVO.


No corre, lançou quatro álbuns e ainda uma versão DELUXE do último projeto, Ok Tchola.

É agora, vamos nessa?


Não vou seguir uma ordem aqui, nem falar um pouco de cada som que tive a honra de proporcionar aos meus ouvidos, mas sim falar sobre a obra em si.


Tanto que vou começar pelo fim. Tanto Faz é, para mim, o conceito do álbum condensado em uma faixa: um grande "tanto faz" para a sociedade, para críticas, egos, gostos, gestos, comportamentos, indústria e todas essas coisas que deveriam ser secundárias.



Para mim, a arte deveria ser protagonista, principalmente quando o cerne da discussão é ela mesma.

Se em Eletrolove!, nosso rapper alternativo puxa um Miami bass para falar de um amor meio "tanto faz, tanto fez" — quem falou que eu quero que você me ame? Sei que mexeu com minha cabeça, mas meio, tipo, nem tanto assim — talvez o álbum inteiro seja um espaço de desapego em si.


Mas não um desapego apenas amoroso, e sim um desapego das regras e padrões que temos que seguir nessa vida sem sentido.


Dos sentidos que consideramos importantes versus aqueles que, mesmo tentando, não conseguimos colocar no nosso hall de prioridades.


Menti. Talvez eu siga uma ordem sim. Pelo menos por enquanto. Porque olha essa sequência, olha esse instrumental, olha as ideias do mano. Falei Nada é um desabafo? Um relato? Uma crítica?


Sei lá. Mas o compromisso de não gostar, de questionar e repensar a forma imediata com que vemos a vida me pega com gosto.


Olha como a gente se pega em contradição no processo de escrita. Faço questão de deixar essa contradição aqui no texto final. Eu vou ter que seguir essa ordem.


Equalité é uma crítica bem-humorada a esses princípios que parecem ter ficado lá na Revolução Francesa. Ou eu estou me enviesando no meu papel de professor de história? Como essa ideia de igualdade, fraternidade e liberdade se perdeu em um mundo onde a benevolência virou atalho para receber mais likes e compartilhamentos?



Vou dar uns pulos, avançar um pouco e chegar em Perdóname. Viu? Sem ordem.


Um desabafo de raça, classe e outras cositas más que atravessam nosso amigo Marchola.

Todo o álbum é nessa pegada: um pouco de tanto faz, mas um outro tanto político, questionador e romântico.



Você quer o meu contato é meio que nesse pique: romântico, mas sem perder a criatividade e o humor característico do artista. Um som que dialoga muito com o meu momento, entre amores, dureza e consciência de classe.


"Te deixei no vácuo, me desculpa, chapei Não quero ser chato e você também Às vezes não tenho empatia a ninguém"


Tudo dialoga muito sobre o desejo de ter uma subjetividade que possa existir sem ser enquadrada ou reduzida por normas sociais.


Muitos dos textos de Entre Máscaras e Desejos: Ensaios Sobre Solidão, Afeto e Identidade são fruto de reflexões que tive a partir do trabalho de Marchola.


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E isso é lindo, rico e complexo.


Esse álbum consegue exprimir tanta coisa que é necessário sair do raso e mergulhar.

Suco de Frutas Jones, Quente são caminhos para além dos estereótipos impostos. Sons que mostram que Marchola precisa ser enquadrado no alternativo porque o padrão não dá conta de sua arte, de sua potência e de como ele pode surpreender até o chato de maior repertório.



Mesmo sem querer, tô terminando.

Mesmo buscando não ser redundante, mesmo tentando não encher linguiça. Mas a escrita flui que é uma maravilha, ainda mais ao som de Perverso.


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Olha o calibre desse som: porrada no instrumental, nas letras, nas participações.


Outro desabafo, outra crítica, a separação entre nós e eles.

Mas não preciso tomar uma posição explícita. Me finjo de desentendido e deixo eles se fuderem por conta própria. Perverso.



Com participações de Caio Bud, Tazin, Praia de Minas, KiD The Correria e Zilladxg, esse incrível álbum se encaminha para o fim com sua penúltima música Truman!.


Nessa constante sensação de estar sendo vigiado e coagido, somos forçados a atuar nesse teatro social, onde temos que adotar certas atitudes para não perder o papel que nos deram e sermos colocados na geladeira.


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A música encapsula essa paranoia moderna, essa inquietação de saber que estamos sempre sendo observados, julgados e, muitas vezes, controlados.


E no fim, é tanto faz.


 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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