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Ser preto é sinistro. Desde pequeno, me fizeram acreditar que minha cor era um peso, um problema, um aviso de perigo. Cresci ouvindo que eu não chegaria longe, que meu futuro já estava traçado: criminoso, pai precoce, peão de obra, morto antes dos 25. Eu queria ser branco. Queria escapar desse destino que os outros já tinham decidido pra mim.


Na escola, era o cabelo que incomodava. Na loja, era a pele que fazia o segurança me seguir. No passeio com a turma pra um bairro de playboy, era minhas roupas que entregava:


“Aqui não é a favela de onde vocês vieram”, eles diziam, com aquele olhar de superioridade.
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A mensagem era clara: preto não pertence.


O mundo não precisava nem falar, só mostrava. Televisão, jornais, livros – tudo reforçava o mesmo papo. Como Beatriz Nascimento denunciava lá nos anos 70, até na TV infantil o preto era sempre o bobo, o medroso, o serviçal. Crescemos sem referências que nos empoderem, sem ver nossas histórias sendo contadas com respeito. Muniz Sodré sacou isso faz tempo: a mídia brasileira sempre botou o preto no canto, marginalizado, reduzido a um estereótipo.


Dentro de casa, o discurso era o mesmo. Como Lilia Schwarcz explica, o embranquecimento sempre foi um projeto – e não só do Estado, mas dentro das próprias famílias negras.


"Casar com alguém mais claro para melhorar a cor dos filhos" era um papo comum, quase regra.
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Esse era o sonho que vendiam: embranquecer era subir na vida.


Mas aí, mano, veio o choque. No ensino médio, trombei com uns livros na biblioteca – aquela que mal abria por falta de funcionário. Lélia Gonzalez tava lá dizendo que educação crítica é chave para desmontar essa estrutura colonial. Foi ali que a chavinha virou. Comecei a entender que o problema nunca foi minha cor, e sim o sistema que insistia em me apagar.


No final, as cotas foram minha porta de entrada para a universidade. Como Kabengele Munanga defende, ações afirmativas são necessárias para quebrar desigualdades históricas. Mas a real é que entrar foi só o começo. Dentro da faculdade, a branquitude não queria dividir espaço, e a burocracia estava sempre pronta para barrar.


Só que tem uma coisa que eles nunca entenderam: a gente nasce astuto. Como Maria Aparecida Bento diz, a branquitude não enxerga nossos pactos, nossa resistência, algo que não alcança seus pactos narcísicos. Crescemos no corre, na urgência, na fome de tudo. Aprendemos desde cedo a driblar, a se virar, a seguir.

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E foi isso que me trouxe até aqui: a certeza de que ser preto é potência, é história, é resistência.

Hoje, eu carrego minha cor com orgulho. Sei de onde vim. Sei quem veio antes de mim. E sei que a luta continua – mas dessa vez, de cabeça erguida.


O despertar da consciência racial na universidade


Ingressar na universidade vai além da sala de aula e dos livros. Para muitos jovens negros, é o primeiro contato real com discussões que desconstroem os mitos raciais que a sociedade brasileira perpetua. Gabriel, 23 anos, estudante de Ciências Sociais, relata como sua percepção sobre o que é ser negro no Brasil mudou completamente ao ter acesso a debates e leituras acadêmicas.


"Eu sabia que era negro, mas não sabia o que isso significava socialmente", reflete.
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Essa experiência também marcou Julia, estudante de Estudos de Mídia, que encontrou na bolsa de pesquisa a oportunidade de se sentir parte do ambiente universitário. Antes, percorria longas distâncias para estudar e sentia na pele as desigualdades que separam estudantes negros e brancos.


Assim como Gabriel e Julia, milhares de jovens negros brasileiros vivenciam essa realidade: a descoberta da própria identidade racial dentro da universidade, um espaço que, historicamente, os excluiu.


Raízes históricas do racismo estrutural


O Brasil construiu sua identidade racial com base em teorias como o embranquecimento e o mito da democracia racial. No século XIX, o ideal de que a miscigenação apagaria as marcas da ancestralidade africana foi promovido por intelectuais como João Baptista de Lacerda, que via na imigração europeia uma estratégia para "aperfeiçoar" a população.

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A obra Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ajudou a consolidar a ideia de um país sem racismo, celebrando a miscigenação como sinal de harmonia. No entanto, a realidade dos negros no Brasil seguiu marcada pela marginalização econômica e social.


Como destaca o sociólogo Guerreiro Ramos, a branquitude se mantém como um pacto silencioso que preserva os privilégios brancos. Esse pacto se reflete na ocupação dos espaços de poder, na menor representatividade negra em cargos de liderança e na dificuldade de ascensão social para a população afrodescendente.


A construção de uma identidade negra


O processo de formação da identidade negra no Brasil foi historicamente atravessado pela necessidade de resistência. Autores como Neusa Santos Souza e Abdias do Nascimento destacam como a população negra, sem referências positivas de si mesma, muitas vezes busca no embranquecimento uma ilusória ascensão social.


Essa pressão social pela negação da própria identidade impõe um dilema cruel: conformar-se à branquitude para ser aceito ou reafirmar sua negritude e enfrentar o preconceito estrutural.


O conceito de contínuo racial, apresentado por Carlos Antonio Costa Ribeiro, propõe uma nova maneira de entender as identidades no Brasil: não como categorias fixas, mas como uma escala fluida.

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Essa visão explica por que a autodeclaração racial nas cotas universitárias se tornou um tema polêmico.

Para o Movimento Negro Unificado, negro é todo aquele que sofre discriminação racial e vivencia as desigualdades impostas pelo racismo estrutural. A própria experiência universitária desses jovens os coloca diante da realidade da exclusão, revelando um sistema que, mesmo com avanços, ainda carrega marcas profundas da desigualdade histórica.


A universidade como espaço de transformação


A política de cotas ampliou o acesso de estudantes negros ao ensino superior, refletindo um avanço na busca por equidade. Entre 2010 e 2019, o número de alunos negros no ensino superior cresceu quase 400%, segundo dados do IBGE. Essa mudança representa uma conquista, mas também um desafio: a inclusão não se resume ao ingresso, mas também à permanência e ao sentimento de pertencimento.

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Além das barreiras financeiras, estudantes negros enfrentam o racismo institucional dentro das universidades. A ausência de professores negros, o currículo eurocêntrico e a falta de políticas de permanência tornam a experiência acadêmica um desafio constante. Muitos desses alunos precisam conciliar estudos com longas jornadas de trabalho, lidam com a falta de apoio psicológico e enfrentam o isolamento dentro de um ambiente que, muitas vezes, não reconhece suas demandas.


A experiência universitária de Gabriel e Julia é um reflexo do impacto transformador que o conhecimento pode ter. Quando a juventude negra se reconhece e compreende seu papel histórico, abre-se caminho para um futuro onde as desigualdades raciais sejam questionadas e combatidas.


Lutar pela manutenção das políticas de ação afirmativa é garantir que mais jovens negros possam ocupar esses espaços, transformando suas realidades e, consequentemente, a sociedade brasileira. Mas, além das cotas, é essencial que haja suporte financeiro, psicológico e acadêmico para garantir que esses alunos concluam seus cursos.


A luta não pode ser apenas pelo acesso, mas pela permanência e pelo protagonismo negro dentro da academia e além dela.
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A Universidade como Ponte para o Futuro


Nascer e crescer na periferia impõe desafios que vão além da sobrevivência. Para mim, morador da comunidade Gogó da Ema, em Belford Roxo, a educação foi a chave para romper esse ciclo. Hoje, como Mestre em Antropologia, minha trajetória é marcada por resistência, militância e a luta por justiça social.


O caminho até a universidade foi longo e árduo. Enfrentei seis horas diárias de transporte público, operações policiais frequentes e o medo constante da violência urbana. Para quem nasce na Baixada Fluminense, chegar ao ensino superior não é apenas uma questão de esforço individual, mas de um sistema que historicamente exclui e dificulta o acesso da população negra e periférica.


O ingresso na UFF, por meio do sistema de cotas raciais, foi um divisor de águas. "A universidade abriu portas que eu sequer sabia que existiam", reflete.
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Educação e Militância: O Caminho da Transformação


Minha relação com a militância começou cedo. No ensino médio, atuei na União Meritiense dos Estudantes e na luta pelo Passe Livre no Rio de Janeiro. A mobilidade urbana sempre foi um dos maiores desafios para estudantes da periferia, e eu vivi essa realidade na pele. Quando entrei na UFF, essa luta se expandiu para a defesa da permanência estudantil e equidade racial dentro da universidade.


Como pesquisador, participei de projetos de iniciação científica voltados para as políticas de ação afirmativa e suas implicações burocráticas. Acompanhei processos de matrícula de cotistas e integrei comissões de heteroidentificação, analisando como a burocracia pode ser uma barreira adicional ao acesso ao ensino superior.

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O Desafio das Cotas e a Construção da Identidade Racial


As bancas de heteroidentificação, criadas para evitar fraudes, trouxeram novos dilemas. O pertencimento racial, muitas vezes subjetivo, se tornou objeto de análise administrativa.


"Para muitos, era a primeira vez que precisavam justificar sua identidade", observo.

A aplicação das cotas não é apenas uma questão documental. Ela carrega um peso histórico: a luta contra o racismo estrutural. Mas a burocracia imposta aos cotistas, como a exigência de uma série de documentos que candidatos da ampla concorrência não precisam, se torna um entrave significativo.


Muitos estudantes sequer têm acesso facilitado a essas documentações, enfrentando processos exaustivos apenas para garantir um direito que deveria ser garantido de forma menos excludente.


A universidade pública ainda é um espaço elitizado, mas os dados mostram avanços. Entre 2010 e 2019, o número de alunos negros no ensino superior cresceu quase 400%, segundo o IBGE. No entanto, a permanência desses estudantes continua sendo um desafio.


Além das dificuldades financeiras, há barreiras invisíveis, como o racismo institucional, a falta de representatividade docente e a necessidade de um suporte psicológico adequado para aqueles que vivem a pressão constante de provar seu pertencimento nesses espaços.

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O Futuro da Educação e da Inclusão


Hoje, como professor da educação básica, continuo minha missão: garantir que a universidade seja um espaço de transformação real para estudantes negros e periféricos. A luta pelas cotas não pode se encerrar na aprovação de uma política, mas deve se estender para garantir que esses alunos concluam seus cursos e ocupem espaços de decisão.


A pesquisa acadêmica tem um papel fundamental nessa batalha. Precisamos continuar documentando e analisando os impactos das ações afirmativas, combatendo retrocessos e propondo melhorias que tornem a universidade mais acessível.


O sonho de me tornar doutor está cada vez mais próximo, e para além do título, ele representa um compromisso com minha comunidade e com todos aqueles que ainda veem a educação como um caminho de resistência e ascensão social.
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A mudança precisa ser coletiva. O acesso à educação transforma vidas, mas a luta não pode ser solitária. A universidade precisa se adaptar às realidades de seus estudantes, oferecer suporte e, acima de tudo, reconhecer que conhecimento e resistência andam lado a lado.


Meu objetivo é continuar nessa luta, porque sei que, ao abrir caminhos, outros também poderão trilhar esse percurso rumo a um futuro mais justo e igualitário.




 
 
 

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As questões de reconhecimento e redistribuição, e as demandas por “reconhecimento da diferença” dão combustível às lutas de grupos mobilizados sob as bandeiras da nacionalidade, etnicidade, raça, gênero e sexualidade. 

No entanto, para entender essas perspectivas políticas, usaremos a autora, norte-americana, Nancy Fraser que distingue esse reconhecimento em duas formas: injustiças econômicas e injustiças culturais. Como resposta, propõe dois tipos de remédios: os transformativos e os afirmativos.


Para a autora, as injustiças econômicas e culturais são duas dimensões distintas, mas interligadas, das desigualdades sociais.


  • Injustiças econômicas dizem respeito à exploração material e à desigualdade na distribuição de recursos. São causadas por processos estruturais que limitam o acesso de certos grupos a bens e oportunidades, como salários dignos, educação de qualidade e segurança econômica.


O capitalismo, segundo Fraser, gera e perpetua esse tipo de injustiça, afetando desproporcionalmente grupos marginalizados.

  • Injustiças culturais, por outro lado, se referem ao desrespeito, à marginalização simbólica e à desvalorização de certos grupos sociais. Isso inclui desde a negação de identidade e voz política até a imposição de estereótipos que reforçam hierarquias sociais.

Em 2022, durante o governo Bolsonaro, manifestantes em todo o Brasil denunciaram o retorno da fome e o aumento exorbitante dos preços dos alimentos - Chokito/Divulgação.
Em 2022, durante o governo Bolsonaro, manifestantes em todo o Brasil denunciaram o retorno da fome e o aumento exorbitante dos preços dos alimentos - Chokito/Divulgação.

Ela propõe dois tipos de soluções para essas injustiças:


  • Remédios afirmativos, que buscam corrigir desigualdades sem alterar a estrutura social subjacente, como ações afirmativas que aumentam a diversidade sem mudar a lógica do mercado.


  • Remédios transformativos, que visam mudanças estruturais para eliminar as causas das desigualdades, como políticas que combinem redistribuição econômica e reconhecimento cultural de forma radical.


Ouço muitos discursos que, em grande parte, se restringem à política de reconhecimento, combatendo injustiças culturais com remédios afirmativos.

Pautas como apropriação cultural e colorismo são encaradas como prioridade, muitas vezes ignorando questões econômicas e se limitando à esfera cultural. 


Enquanto isso, temas como o genocídio da população negra e pobre e as oportunidades desiguais entre negros e brancos são colocados em segundo plano.


A identidade se tornou a prioridade, e, em contrapartida, o mercado se apropriou de nossas lutas.

Asad Haider, em Armadilha da Identidade, crítica como a identidade, ao se tornar um fim em si mesma, perde sua potência revolucionária.

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Para ele, a luta contra o racismo não pode ser desvinculada da luta contra o capitalismo, pois é a estrutura econômica que perpetua a exploração racializada.


No Brasil, onde a pobreza tem cor, não se pode negar a questão econômica.

Um jovem negro de classe média na zona sul não enfrenta o mesmo racismo que um negro periférico. Embora compartilhem a mesma discriminação cultural, a desigualdade econômica define experiências e oportunidades. O racismo brasileiro é formado por questões econômicas, sociais e culturais, e tratá-lo apenas pelo viés cultural é enxugar gelo.

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Um autor que aborda essa distinção é Jessé Souza, especialmente em obras como A Elite do Atraso e A Ralé Brasileira. Ele argumenta que o racismo no Brasil está profundamente ligado às desigualdades econômicas e que a classe social influencia diretamente a forma como o racismo é vivido. 

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Para Souza, a discriminação racial afeta todos os negros, mas um negro de classe média tem proteções sociais que um negro periférico não tem, pois a questão econômica modula suas experiências e oportunidades.


Ele critica a visão que trata o racismo apenas como um problema cultural, sem considerar sua relação estrutural com a desigualdade econômica.
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A ideia de descolonização do saber é necessária, mas, quando se rejeita um conhecimento apenas por sua origem eurocêntrica, sem uma análise crítica e honesta, adota-se uma postura dogmática. 


Já vi colegas rejeitarem Marx apenas por ser um pensador branco e europeu, ignorando que sua teoria da luta de classes fornece ferramentas essenciais para compreender a exploração racializada.


Ao mesmo tempo, esses mesmos colegas, paradoxalmente, absorvem de forma acrítica as ideias do movimento negro americano, sem considerar as diferenças históricas e estruturais entre Brasil e EUA.


Não podemos importar mecanicamente uma luta contra a segregação racial americana para um país onde o racismo opera por outros mecanismos.
A marca de lingeries Duloren divulgou uma campanha, em 2012, em que uma mulher negra, de lingerie, aparecia segurando um quepe ao lado de um policial branco desacordado.
A marca de lingeries Duloren divulgou uma campanha, em 2012, em que uma mulher negra, de lingerie, aparecia segurando um quepe ao lado de um policial branco desacordado.

O mercado percebeu essa confusão e se aproveitou dela. Basta ligar a TV para ver o investimento pesado em “marketing que respeita a diversidade”


A representação é importante, mas até que ponto transforma a vida do povo preto? Se o desrespeito às diferenças é o motor dos conflitos sociais, será que uma representatividade superficial não desmobiliza e esvazia nossas lutas? 

A marca de cosméticos Nivea foi acusada de divulgar uma campanha racista, em 2011.
A marca de cosméticos Nivea foi acusada de divulgar uma campanha racista, em 2011.

Haider alerta que, ao nos contentarmos com uma política de reconhecimento desvinculada da redistribuição, nos tornamos cúmplices de um sistema que apenas nos inclui enquanto consumidores, mas não enquanto sujeitos políticos capazes de transformar a realidade.


Remédios afirmativos para injustiças culturais apenas criam formas de valorizar identidades dentro da estrutura existente, sem questioná-la.


 Como Fraser aponta,


“esse tipo de multiculturalismo propõe compensar o desrespeito por meio da revalorização das identidades grupais injustamente desvalorizadas, enquanto deixa intactos os conteúdos dessas identidades e as diferenciações grupais subjacentes a elas”.

Em contraposição, os remédios transformativos, segundo Fraser,


“...compensariam o desrespeito por meio da transformação da estrutura cultural-valorativa subjacente". “Desestabilizando as identidades e diferenciações grupais existentes, esses remédios não apenas elevariam a autoestima dos membros de grupos marginalizados, mas também transformariam o sentido de identidade de todos”.
Manifestação do Movimento Negro Unificado contra a Lei Afonso Arino e Caminhada por Zumbi nas ruas do centro de São Paulo, em 1980. Foto de Jesus Carlos.
Manifestação do Movimento Negro Unificado contra a Lei Afonso Arino e Caminhada por Zumbi nas ruas do centro de São Paulo, em 1980. Foto de Jesus Carlos.

É preciso ver as pautas negras como uma política de redistribuição e reconhecimento com um viés transformativo. Não basta se sentir representado dentro de um sistema que nos oprime – é necessário desconstruir essa estrutura racista. 


Não queremos apenas ser incluídos no mercado como consumidores ou representações simbólicas; nosso objetivo é reconfigurar as relações de poder de maneira estrutural.


O caminho não está em aceitar cotas na publicidade ou celebrar a presença de mais atores negros nas novelas da Rede Globo como se fossem conquistas definitivas. 

A TV surgiu no Brasil em 1950, mas o país só foi ter sua primeira protagonista negra de uma telenovela 46 anos depois, em 1996, com Taís Araújo à frente de Xica da Silva, de Walcyr Carrasco, na extinta TV Manchete.
A TV surgiu no Brasil em 1950, mas o país só foi ter sua primeira protagonista negra de uma telenovela 46 anos depois, em 1996, com Taís Araújo à frente de Xica da Silva, de Walcyr Carrasco, na extinta TV Manchete.

Precisamos ir além da representatividade superficial e exigir políticas públicas universais que enfrentem as raízes da desigualdade.

Isso significa lutar por uma educação pública de qualidade, acesso a oportunidades reais e a construção de uma sociedade que não apenas nos reconheça, mas nos permita existir com dignidade e autonomia.


Como Haider sugere, só ao rejeitarmos a armadilha da identidade e articularmos uma luta antirracista com um projeto anticapitalista poderemos construir uma transformação real.


 
 
 

Atualizado: 18 de mar


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Falar de Davzera e de sua obra musical é sempre um desafio.


Sua sonoridade é um oceano profundo, carregado de sentimento e reflexão.


Sucinto, sem redundâncias ou proselitismo, ele condensa camadas de significado em faixas curtas, transmitindo ideias como quem solta uma brisa, uma onda, um fluxo de consciência.


Referências, lirismo, flow e beat: tudo trabalha a favor da comunicação singular que ele estabelece com seu público.



Essa resenha vai ser rápida, porque não me proponho a dissecar faixas ou letras.

A experiência de ouvir Davzera é muito particular, tanto para ele quanto para quem se permite mergulhar no seu universo.


Sou suspeito para falar, pois acompanho seu trabalho faz tempo e muitas de suas músicas se tornaram trilha sonora de momentos marcantes da minha vida.


Elas são memórias em looping, sempre presentes na minha caminhada por essa terra.



Ainda assim, fui pego de surpresa pelo lançamento de PROFUNDHI (2024).


O álbum saiu no ano passado e traz 15 faixas meticulosamente construídas, refletindo um olhar mais introspectivo do artista.


Pelo que absorvi, é um trabalho de imersão no "eu" e nos atravessamentos do cotidiano.

Como o próprio Davizera descreve, é uma experiência feita com muito amor, um retorno ao coração dos ouvintes.



O projeto é também uma colaboração intensa, com a contribuição essencial de beatmakers e artistas que somaram ao disco, como Apollo____808 (responsável pela mixagem e masterização), Tricenapoli, Pedrvso, Lvksound, Pg4oo, Jucerockoficial, Sergioestranho e Darioinerente, além das boas energias que fortaleceram a criação do álbum.


Destaque também para a artista @mandada__, que assinou a capa com uma estética impecável.


Baiano, dono de uma discografia consistente, Davzera é um dos grandes cronistas do rap nacional.

Seu storytelling foge da linearidade, sua forma de brincar com palavras e flows imprime uma estética própria.


Desde Vale do Silício (2019) — lar de faixas essenciais como "Nagual" e "Tropiqal" (com Victor Xamã) — até o projeto Beirando o Teto, que foi minha porta de entrada para sua sonoridade alternativa, ele constrói um repertório que destoa do convencional.



Em PROFUNDHI, uma faixa de apenas 1 minuto e 42 segundos me fez parar para refletir. Corredor do Ritmo me encontrou nas aleatoriedades do Spotify e, quando tocou, eu parei. O título chamou atenção, o som já era reconhecível.


Como em todo o álbum, a faixa se apresenta como conversa, desabafo ou simples observação, sem obviedades nem pretensão de mastigar conceitos.


Davzeira nos entrega suas ideias com aquela complexidade acessível: nada fácil demais, nada inalcançável.


Não vou me estender. Ouça PROFUNDHI (2024), mas não pare por aí.


Volte para Cozinha Marginal (2022), Low Carb (2020), Nauzeainc, Vol. 0 (2019) e, claro, meu favorito Vale do Silício (2019).


Um debut potente, que já carregava a energia lá de Beirando o Teto.

Não sei muito sobre a história pessoal de Davzeira, mas sua música me dá um vislumbre imagético de sua trajetória.


Sua caminhada se revela na forma como ele molda palavras e constrói melodias que traduzem marginalidade e inventividade.



Seus sons expressam reflexões que não são fáceis, nem simples: estão lá as contradições, as revoltas, as angústias, os amores e as crônicas de Salcity.


E pra quem já está na sintonia, vale ficar de olho nas novidades: em breve, a coleção Profundhi de camisetas será lançada pela @nauzeainc, expandindo essa experiência para além do som.


Que Davzeira nunca pare de compartilhar suas reflexões com a gente.


Que continue Profundhi.



 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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