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Tem filme que a gente assiste. E tem filme que assiste a gente de volta.


Memória, dirigido por Emanuel Sant e co-dirigido por NATÖ, é desses que não se contentam em ocupar a tela — ele atravessa. Atravessa gerações, tempos, linguagens e a própria ideia do que é fazer cinema no Brasil.


Mas não se engane: Memória não é sobre história com H maiúsculo, dessas que terminam em ponto final. Ele é sobre os fios soltos da história brasileira que continuam sendo costurados — por corpos, afetos, vozes, batalhas. É um filme que caminha entre o passado escravocrata, o presente de opressão e um futuro sonhado onde o afeto é a primeira política.


“O processo de Memória começa muito antes do filme”, conta Emanuel em um dos depoimentos do documentário making of que será exibido no lançamento. “Começa lá atrás, quando eu era uma criança da Baixada que via clipe no TVZ, sonhava com cinema, mas não sabia nem que dava pra estudar isso.”

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E não deu só pra estudar: deu pra fazer. Com um roteiro costurado por Victor Marino e NATÖ a partir da música “Memória”, o filme se constrói como uma narrativa transmídia — um híbrido de curta-metragem, videoclipe e manifesto poético. Uma mistura que faz sentido: a memória aqui não é lembrança congelada, é movimento, é montagem viva.


Quatro personagens atravessam o tempo no filme: um homem escravizado fugindo, um artista preto enfrentando a dureza do agora, uma criança ambulante vivendo em um Brasil igualitário do futuro, e uma professora indígena que ensina que a história do país é um filme ainda em processo. E todos eles — no correr dos séculos — estão dizendo a mesma coisa: nossa luta nunca foi passado.


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“A gente diz que Memória é filme, não é foto”, explica Emanuel. “Porque ele tem movimento, ritmo, tem o olhar daquela criança que queria contar suas histórias, o olhar do NATÖ tentando traduzir visualmente o que sente na música, o olhar do Marino escrevendo o roteiro e dizendo: ‘É isso’. Todo mundo botou um pedaço da própria memória ali.”

Mas Memória não se fecha no cinema. Como obra expandida, ele também vira grafite na rua — uma pintura em frente ao Viaduto Paulo Lins, em Duque de Caxias, homenageando figuras como Sílvia de Mendonça, Giordana Moreira, Malê, Dudu de Morro Agudo, Heraldo HB, Fábio Mateus e outros que mantêm viva a chama da cultura da Baixada Fluminense. Como quem diz: o território também é tela.


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“Esse filme é coletivo. Ele só existe porque antes da gente, pessoas abriram caminhos”, diz o diretor. “Meu pai sonhava, mas nunca viu a possibilidade. Eu também não via. Aí, um dia, apareceu uma brecha. E não foi sorte: foi luta. Foi a Encontrarte Audiovisual, foi Fábio Mateus. Então a gente faz esse filme por nós e por quem não pôde fazer antes.”

Do início ao fim, Memória se recusa a ser silêncio. Ele é grito suave, feito com afeto, suor e cinema de verdade. Um projeto que lembra que a gente tem direito a sonhar com a própria imagem na tela — e que a Baixada não só sonha: dirige, edita, roteiriza, grava, pinta e projeta.


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CHEGA MAIS: LANÇAMENTO DE MEMÓRIA


Por isso, esse texto é também um convite.


Queria muito te chamar pra prestigiar o lançamento do filme Memória — que, por acaso, tem como diretor estreante esse que vos fala! Vai ser uma noite bonita e cheia de camadas.


🗓️ Quinta-feira, 15 de maio 

🕡 18h30 

📍 Auditório do IFRJ – Campus Nilópolis


Além da exibição do curta, vai ter: 🎨 Exposição com artistas da Baixada 🎥 Exibição do documentário making of 🗣️ Roda de conversa com a equipe e convidados


É de graça, mas os lugares são limitados. Então o ideal é chegar cedo — pra garantir o seu assento e curtir a expo com calma.

Ia ser um prazer enorme te ver por lá.

Afinal, essa história também é sua.


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MEMÓRIA: HISTÓRIA É FILME, NÃO É FOTO


Gênero: Ficção Histórica / Drama Social

Direção: Emanuel Sant

Roteiro: Victor Marino e NATÖ

Coordenação: Laura Gonna

Elenco Principal: Paulo D’Souza, Rita Niza, Fernando Lúcio, Miguel Queiroz.

Duração: 17min

Ano de produção: 2024/2025

Formato: 4k, Colorido

Status atual: Em Estreia


Memória: História é Filme, Não é Foto é um curta-metragem que propõe uma nova forma de

olhar para a história brasileira — não como um retrato congelado no tempo, mas como um

filme em constante montagem. Dirigido por Emanuel Sant, inspirado na música homônima

de NATÖ, artista de Duque de Caxias, o filme entrelaça passado, presente e futuro.


Ficha Técnica


Direção: Emanuel Sant

Co-Direção: NATÖ

Roteiro: Victor Marino, NATÖ

Direção Criativa: Victor Marino

Asst de Direção: Guilherme Leopoldo

Asst Criativo: João Vieira

Coordenação de Projeto: Laura Gonna

Direção de Fotografia: Herbert “Jomboh” Cardoso

1° Asst de Câmera / Foquista: Gabriel Vitiello

2° Asst de Câmera: MaCla Oliveira

3° Asst de Câmera: Isa Costa

4° Asst de Câmera: Vitor Dias

Gaffer: Yuri Veriato

Asst de gaffer : Felipe Gaygher

Logger: Marques

Direção de Arte: Luciana Nobre

1° Asst de Arte: Mariana Anddrade

2° Asst de Arte: Lorena Pires

3° Asst de Arte: Bruno Fernandes Monteiro

Figurinista: Bia, a.k.a. Imperatriz

Assist de Figurino: Marianna Baptista

Maquiagem Caracterizadora: Rebeca Frazão

Direção de Produção: Vio Anchieta

1° Asst de Produção: Wargus

2° Asst de Produção: Luana Ferreira

3° Asst de Produção: João Queiroz

Produção Executiva: Laura Gonna

Produção e Preparação de Elenco: Paulo D’Souza

Direção de Som: Lucio Perpetuos

Still: Marina Maux

Making Of: Higor Cabral

Grafite: Bea Simões

Elenco: Paulo D’Souza, Fernando Lucio, Miguel Innocencio, Rita Niza

Tratamento de Roteiro: Pedro Fonseca, Emanuel Sant, Laura Gonna, Guilherme Leopoldo,

João Vieira.


Edição, Cor e Finalização: Jomboh

Design: Jomboh

Pesquisa: Carolina Gonçalves, Lucas Moura

Coordenação de Pesquisa: NATÖ

Mídias Sociais: Higordão

Assessoria de Imprensa e RP: Bernadete Travassos

Apoio: Fazenda da Taquara, Disconildo, Ela Shopping, Midori Pub, Patronato.


Assessoria / Informações Gerais

Instagram: @memoriaofilme

   



 
 
 

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Bom, francamente, tudo começou há uns dois ou três anos. Eu scrollava a página inicial do MFC e vi ela com a tag de NEW — pela mini janela de prévia, pude ver seu cabelo laranja escorrendo em mechas como lava sobre o espartilho de couro que ela usava na época. Ela fazia a linha dominatrix — foi antes de se encontrar no branding. Enfim, decidi pagar para ver — não literalmente, é claro. Antes, eu precisava saber do que aquilo se tratava. Dava pra ver que ela era nova, estava nervosa, desesperada para se encaixar em algum nicho, ter alguma identidade. Daí o espartilho de couro, que, francamente, parece mais coisa de filme. Esse desespero, esse nervosismo, esse sorriso tenso, a voz tímida. Bom, ela parecia alguém que podia contar com um empurrãozinho. Tinha o quê, uns 10–15 caras na sala, a maioria só olhando e o restante dizendo palavras até que encorajadoras — mas ninguém gastava um tostão.


Vi que a situação foi ficando mais desesperadora quando ela sacou, finalmente, os peitões do espartilho numa tentativa final de conseguir alguns tokens. Pele branca, pintinhas, mamilhinhos rosas. Não aguentei. Tive que pagar pela chamada privada.

— Escuta — eu disse —, escuta... eu sei que você é nova, percebi que você tá meio nervosa, mas você precisa definir exatamente qual é o seu modus operandi nas salas públicas. Se você vai tirar a roupa, tudo bem, eu acho ótimo, inclusive achei seus seios lindos. Mas não faça isso achando que vai convencer alguém a abrir a carteira, porque não vai. Se você dá o que eles querem de graça, então por que eles deveriam pagar? Você tem que provocar, tem que saber provocar esses caras. Não mostra tudo de uma vez. Agora, coloca o espartilho outra vez. Quero ver você abrindo o zíper devagar e brincando com os seus mamilos pra mim.


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Bom, ela era perseverante, forte essa danada, porque continuou streamando dia após dia — fizesse chuva ou sol, ela tava lá. E, com o tempo, foi se encontrando. Eu, claro, sempre dava algumas dicas nas nossas sessões privadas. Fomos nos tornando amigos. E, bom, percebi que estava me apaixonando. Eu não sou burro, sei que essas mulheres, no fundo, são atrizes, e a gente não passa de carteiras ambulantes aos seus olhos. Mas o coração quer o que o coração quer.


Francamente, eu não sabia dizer se ela me via só como amigo ou se era recíproco, ou o quê. No começo, não importava — estava tão orgulhoso do progresso que ela vinha fazendo, das suas conquistas. Ela finalmente estava se encontrando. Tinha largado o espartilho de couro e percebeu que podia streamar usando simplesmente uma camiseta de banda velha, sem sutiã, as tatuagens nos braços e os seios balançando debaixo do algodão, com os mamilos saltando.


Bom, não pude deixar de reparar, certa vez, num detalhe no fundo do frame: pendurada na maçaneta da porta do quarto dela, vi uma camiseta vermelha. Não consegui identificar de cara do que se tratava, mas achei de bom grado printar pra analisar melhor depois. Dei um zoom na imagem e notei que era a camisa da atlética da faculdade — não vou dizer qual o curso, pra respeitar sua privacidade. Achei interessante, porque jamais imaginaria ela fazendo aquele curso. Mas, pensando bem, até que fazia sentido.


Minha mãe veio me encher o saco agora e eu esqueci do que tava falando. Ela fica me dizendo de fulano de tal que tem feito muito dinheiro postando vídeos e que eu também devia postar meus vídeos com as minhas percepções e observações sobre o mundo. E eu fico tipo: "não, mãe, eu não quero ser um escravo do meu celular, muito obrigado". Ela acha que é uma fórmula pra ficar rico fácil. Ela não vê que você tem que trabalhar todo dia com isso, tem que postar todo dia, se promover todo dia, produzir todo dia — e eu não quero isso. Ela nunca vai entender.


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Enfim. Bom, ela encontrou seu nicho. Por exemplo, fazia essas lives em que encomendava comida e atendia a porta completamente pelada. Eu sempre achei isso meio desrespeitoso com os entregadores, mas enfim. Até falei pra ela uma vez. Acontece que reparei, certa vez, que a embalagem da pizza que ela pediu era bem específica — nada daquelas caixas de papelão genéricas. Entendo o porquê da minha mãe querer que eu compartilhe meus pensamentos, porque de fato sou muito observador. Mas enfim, são outros quinhentos.


Com um pouco de trabalho investigativo, descobri que aquela pizzaria era uma cadeia regional, então não foi difícil achar sua cidade. Mais especificamente, em que parte da cidade ela vivia. Para descobrir seu prédio, foi fácil — questão de mapear a paisagem da janela com a ajuda do Google Maps. Então pensei bem e achei que a única forma de saber se o que a gente tinha era real seria perguntando pessoalmente. Sei como essas coisas são pela internet. Ah, rapaz, já tive minha cota de decepções. Mulheres que dizem uma coisa por texto, mas, na verdade, estão fazendo outra. Não é nem culpa delas — não sou desses que ficam dizendo que "mulheres são isso ou aquilo" — a culpa é do funcionamento das coisas. A única forma de sobreviver na internet é não se comprometendo. Mas na realidade, não.


Na verdade, ela morava a umas quatro horas de viagem de mim, uns 350 km de distância. Eu precisava pegar um ônibus na rodoviária que me deixaria na sua cidade. Depois disso, mais dois ônibus municipais até chegar no prédio dela. Digamos que ela morava numa cidade grande. Morava.


Eu não sou de usar perfume, meu nariz é muito sensível, mas eu tinha uma colônia que minha mãe me deu de aniversário, frasco nunca aberto, e decidi: “bom, melhor garantir que vou estar cheiroso”. Então passei no pescoço e nos pulsos. Depois me senti idiota por estar tentando ser o que não sou e tomei banho de novo pra tirar o perfume de mim. Nisso, me atrasei umas duas horas e achei melhor cancelar a viagem.


Fiquei bem mal por uns dias, mas acabei pensando comigo mesmo: “rapaz, só se vive uma vez”, e francamente, a única forma de saber se ela sente o mesmo que você é perguntando. Como dizem por aí, o não você já tem! E, francamente, eu achava que tinha boas chances de conseguir um sim.


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Ela moveu a cabeça levemente e, pelo canto do olho esquerdo, me encontrou no fundo da sala. Eu devia estar espumando pela boca, porque ela se virou inteira e me olhou como se eu fosse um doido. E talvez eu fosse mesmo. Ela ficou me encarando por uns bons segundos antes de puxar o celular do bolso e digitar qualquer coisa, imagino que tenha mandado uma mensagem para alguém. Fiquei tenso, achei que fosse chamar a segurança. Pensei até em sair dali antes que virasse escândalo, mas me recusei. Aquilo era a vida real. Eu tinha viajado, gasto dinheiro, preparado tudo — até o perfume eu tinha passado, mesmo que depois tenha lavado —, e ela ia me ignorar daquele jeito? Eu me recusei.


A aula começou. O professor falava alguma coisa sobre metodologia, eu acho, mas era tudo barulho branco. Eu olhava para a nuca dela. Para o jeito como mexia no cabelo. E lembrava da primeira vez que a vi — o cabelo laranja, o espartilho, o nervosismo, a voz tremendo. Ela não era uma atriz pra mim. Era uma pessoa. Uma pessoa real, que eu acompanhei crescer, mudar, encontrar o próprio estilo, descobrir a própria potência. Eu tava lá o tempo todo, enquanto todo mundo só olhava, eu investi nela. Em tempo, em atenção, em dinheiro. E ela tinha me deixado no meio da rua, com um buquê na mão, como um palhaço.


A aula terminou. Ela levantou rápido e saiu, e eu fui atrás. Segui ela pelo corredor, mantendo uma certa distância. Esperei ela sair do prédio e a alcancei do lado de fora. Chamei pelo nome de usuário dela, de novo: — Ei, SlutQueen17...

Ela parou. Virou. Me olhou. Dessa vez me reconheceu direito. E disse, baixo, mas firme: — Me deixa em paz.


Foi só isso. Me deixa em paz.


E virou as costas e foi embora.


Eu fiquei parado. As palavras ecoando na minha cabeça. Me deixa em paz. A voz dela não era como nas lives. Não era tímida. Era dura, como uma porta batendo na sua cara. Eu senti como se estivesse nu no meio do campus. As pessoas passavam por mim como se eu não existisse.

Me deixa em paz.


Aquele “me deixa em paz” se repetiu na minha cabeça por dias.



Não dava pra ser assim. Não depois de tudo. Ela devia, no mínimo, uma conversa. Uma explicação. Foi o que fiquei matutando no hotel. O hotel era vagabundo. Não quero entrar em detalhes, mas foi isso o que pensei: ela me devia uma explicação. Porque aquilo já não era mais a internet. Aquilo era a vida real, e na vida real a gente precisa se comprometer. E se ela não estava pronta para se comprometer, então ao menos me dissesse isso olhando nos meus olhos. Naquela noite, ela não streamou.


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Na manhã seguinte, eu estava decidido. Tracei uma rota até o campus da sua universidade, felizmente só precisei pegar um único ônibus. Eu sabia que aos sábados ela tinha aula de manhã. Sim, era um desses cursos puxados, mas aqui estava o problema: eu não sabia qual sala ela estava. O site da faculdade era impreciso quanto a esses detalhes. Mas o campus, eu sabia qual era. Na verdade, torcia para que fosse o campus certo, porque só quando entrei no ônibus percebi que havia mais de um campus pela cidade. Mas àquela altura, eu já estava nas mãos de Deus.


Cheguei no campus e comecei a perguntar a esmo para alunos, seguranças, faxineiros, qualquer um que passasse na minha frente: "Você sabe onde é a aula tal?" Foram uns 30 minutos nisso até que, de todos os especialistas no lugar, a única pessoa que realmente me deu a informação correta foi uma tia da limpeza. E a aula ainda nem tinha começado. Peguei um lugar no final da sala e esperei. O pessoal começou a entrar aos poucos. A turma foi se enchendo. Uma gorda me olhou de cara feia quando me viu sentado. Acho que tinha pegado o lugar dela. Mas aí eu pensei: "Problema? Isso é uma universidade, não o jardim de infância. Cada um senta onde quiser." Enfim, isso não importava.


Duas ou três pessoas me notaram, mas ninguém pareceu realmente se importar. Dez minutos depois, o professor entrou, e cinco minutos depois dele, ela passou pela porta, meio esbaforida, e se sentou umas três fileiras na minha frente. Congelei. Meu sangue parou de circular na hora. Era engraçado porque eu tinha passado a noite anterior ensaiando um discurso inteiro na minha cabeça, mas na hora H, nada. Francamente, me parecia um pouco dramático demais causar uma cena no meio da sala de aula, então achei melhor apenas esperar. E esperei. Não podia acreditar que era ela. Como alguém pode ser tão caloroso com você num dia e, no outro, fingir que não te conhece? Nunca entendi isso. Diria que beira a sociopatia.


O sangue foi lentamente descongelando nas minhas veias, e minhas têmporas começaram a ficar cada vez mais quentes. Eu estava com raiva. Percebi que meus olhos se encheram de água. O sangue correndo dentro de mim queimava como cachaça descendo pro estômago. Senti meus lábios tremendo. Era como se eu estivesse preso no fundo do mar, vendo as pessoas nadando na superfície, e a pressão da água me esmagasse os pulmões.


Então ela moveu a cabeça levemente e, pelo canto do olho esquerdo, me encontrou no fundo da sala. Eu devia estar espumando pela boca, porque mal terminou de virar a cabeça e ela disparou pela sala afora. Devo ter desmaiado, porque quando acordei, estava sendo carregado por dois seguranças para fora do campus.

Dois dias depois, uma mulher passou pelo seu apartamento, abarrotada de caixas. Ela nunca mais streamou.



 
 
 
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Um grito do Parque Juriti para o mundo


No dia 3 de dezembro de 2023, o Parque Juriti, em São João de Meriti, era palco de um evento que celebrava a cultura, a identidade e o protagonismo negro da Baixada Fluminense: o “Quem Sou Eu? BXD”. Voltado para o público infantil, o festival promovia arte, memória e autoestima nas quebradas. Mas o que era para ser uma tarde de celebração foi brutalmente interrompido por uma ação violenta da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que invadiu o local com armas apontadas e revólveres disparados em meio a crianças e famílias.


“Indignação, revolta e tristeza. Pois estava um dia lindo e íamos fechar com chave de ouro tendo apresentações de artistas de diversas localidades”, relatam Kallía e MC Carina. “Mas o Estado impediu que levássemos mais cultura pros moradores do bairro.”


Dessa violência brotou arte, dor convertida em ritmo. E assim nasceu “Conexão”, o novo clipe das artistas, um encontro poderoso entre duas vozes da favela que não aceitam calar. Com batidas de Drill produzidas por L4moglioBeatzz, a faixa é uma verdadeira denúncia sonora, marcada por rimas afiadas e um beat agressivo que escancara a exclusão cultural, a repressão e a resistência do povo preto periférico.


@pess_fotografia
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Vozes que resistem



MC Carina e Kallía se conheceram no Festival Terra do Rap, em 2023. Desde então, construíram uma amizade forjada na luta e no compromisso com o fortalecimento da cultura de favela. “Terra do Rap foi o nosso elo. Nos conhecemos em 2023 na imersão do Festival, onde aprendemos muito sobre nossas carreiras e dividimos vivências. Foi ali que começou nossa admiração e conexão”, explicam.


@pess_fotografia
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A ideia de transformar o episódio do Parque Juriti em música partiu de Kallía. “Ela usou sua revolta como combustível pra criatividade e me convidou para darmos início à nossa parceria”, relembra MC Carina.


A música, mais do que tudo, é um manifesto. Carrega nos versos a denúncia das balas perdidas que encontram corpos pretos, a ausência de políticas públicas para cultura nas favelas e a potência de quem resiste fazendo arte. Antes mesmo de seu lançamento oficial, a faixa já reverberava além-mar, recebendo apoio da coletividade angolana Lord’s Realezas e sendo acolhida por artistas da diáspora africana.


@pess_fotografia
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“A recepção foi ótima desde antes do lançamento, e significa muito pra gente. É um público que está sempre abraçando nosso trabalho, nos dando uma força que às vezes não recebemos de quem está no nosso próprio país”, afirmam. “Conseguimos enxergar o real valor do nosso trabalho e o quanto ele é importante pras pessoas que nos acompanham.”

Da música ao cinema: o documentário da Revista Menó


O episódio do Parque Juriti também é tema do documentário “Quem Sou Eu BXD: Quando o Parque Juriti virou palco, o Estado respondeu com fuzis”, lançado pela Revista Menó. A produção retrata com sensibilidade e indignação o momento em que a polícia militarizou a infância e tentou calar os tambores da resistência. O filme é um registro urgente, que eterniza os olhares de quem viveu aquele trauma e decide narrar por si a violência do Estado.



“O documentário nos dá voz quando sentimos que somos diariamente caladas. E, ao mesmo tempo, mostra que não podemos desistir. Aprendemos a tirar coisas boas de situações ruins, fazendo de tudo uma oportunidade de seguir em frente e correr atrás dos sonhos”, dizem as artistas.

O clipe de “Conexão”, portanto, não vem sozinho. Ele é desdobramento direto de uma cena que já está sendo contada em outras linguagens — no audiovisual, na imprensa negra, nas rodas de conversa. É parte de uma mesma conexão: de mulheres pretas, artistas, ativistas e faveladas que não aceitaram o silêncio.


@pess_fotografia
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“Queremos que crianças sintam esperança”


A música, apesar da origem dura, é também afeto e semente. “Queremos que crianças e jovens da favela sintam esperança e vontade de seguir atrás dos seus sonhos ao ouvir ‘Conexão’”, afirmam.


@pess_fotografia
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E essa conexão ainda vai render frutos.


“Esperamos trabalhar juntas por mais vezes. Em breve virão mais colaborações e mais conexões”, anunciam, deixando claro que o grito que ecoou no Parque Juriti não se calou — se espalhou em beat, clipe, verso e voz.

 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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