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Belford Roxo não é cenário. É personagem. É a trama principal.


Quando MASKOTTE solta seu EP de estreia, Nota 10, não é apenas o nascimento de um novo nome no rap, no drill ou no grime brasileiro. É o grito de um território que, até ontem, só aparecia no noticiário pelo sangue na calçada, pelas enchentes crônicas, pelas chacinas invisibilizadas e pelas estatísticas da fome. Agora, entra pela batida.


Num papo reto e sem corte, o Pivete sentou pra trocar ideia com Maskotte — artista da Baixada que carrega no timbre, na letra e no olhar a urgência de quem veio pra dizer algo. Este texto é o resultado dessa troca: uma mistura de resenha, entrevista e crônica sobre uma cidade que transborda talento no mesmo pique que também o perde. É sobre potência criativa nascida da margem, sobre sobrevivência e arte, sobre quem insiste em criar mesmo quando o mundo tenta calar.


Foto: Wander Scheeffër
Foto: Wander Scheeffër

Maskotte é parte de uma geração que não só reivindica: toma. Se o espaço não é dado, a gente invade. Se o jogo da vida flui em torno do dinheiro, a gente vai pra rua financiar os próprios sonhos.


“Cara, então, o Maskotte, ele se cria, sabe? No começo era tipo um alter ego, mas com o tempo eu fui meio que me fundindo com ele. Hoje em dia, eu brinco dizendo que a gente é uma coisa só, tá ligado?” — conta em entrevista exclusiva à Menó.

MASKOTTE é cria de Belford Roxo, Baixada Fluminense — esse lugar onde o Estado chega tarde (quando chega), e onde o talento é medido pela cor da pele e pelo CEP.


Nasci e fui criado em Bel. Acho que a única vez que morei fora de Belford Roxo foi na Prata, ali entre Belford Roxo e Nova Iguaçu, atravessando a linha. No mais, foi tudo Belford Roxo mesmo, tá ligado?"

Aqui, onde a vida é barata e a cultura é rica, fazer arte não é só expressão. É sobrevivência. E Nota 10 é o retrato cru dessa caminhada: seis faixas que mandam o papo reto, jogadas na pista pra ver quem capta a visão.



Um EP forjado no corre


Nota 10 nasceu no cansaço. Foi composto depois do expediente, com o corpo moído de quem passou o dia todo em cima das duas rodas, rasgando a cidade em busca do pão. Nas madrugadas insones e nos sábados em que ninguém vê, a criação seguia firme.



“Motoboy”, uma das faixas mais diretas do EP, é quase um áudio de zap que virou música. Não tem filtro: é sobre suar no trânsito, fugir do tempo, driblar a fome, fingir que tá tudo certo e, mesmo assim, gastar a onda porque os crias não perdem a postura nem nos momentos mais difíceis. É nesse cansaço real que a poesia de MASKOTTE se firma — não como decoração, mas como denúncia.


“A ‘Motoboy’ fala mais da minha correria do dia a dia, que é ser motoboy. Fala sobre a minha área, sobre as dificuldades que a gente enfrenta no meio disso tudo, tá ligado? Tanto como artista quanto no trampo mesmo, sacou?”

Nada no EP é solto. Cada faixa parece parte de um rito.


“Cara, o conceito da parada é mostrar esse meu lado — tanto artístico quanto pessoal, tá ligado? Porque a “Nota 10” em si fala mais desse meu lado artístico. Já “Motoboy” fala mais da minha correria do dia a dia, que é isso mesmo: motoboy. “Belford Roxo” fala sobre a minha área e as dificuldades que a gente passa no meio disso tudo, tá ligado? Tanto como artista quanto na correria em si, no trampo, e tudo mais.”


Em “Nota 10”, música que dá nome ao trabalho, MASKOTTE homenageia o pai — músico local. A capa do disco, aliás, é inspirada em uma arte feita por ele.


“E a capa do EP foi inspirada no som do meu pai. O significado de “Nota 10” é como se fosse a minha prova, tá ligado? E o meu professor, que seria o meu pai, com certeza me daria nota dez, de me ver fazendo essas paradas todas, seguindo o mesmo caminho que ele, tá ligado? Então é esse o conceito: como se fosse a minha prova e eu tivesse gabaritado, tirado nota dez, sacou?”

“Belford Roxo” é território. É memória coletiva. É a escola que marcou, o barro da rua, o vizinho que virou estatística, o hino da cidade, o amor e o ódio que se tem de onde se vem. A faixa traz sample de Baixada Cruel — o nome já diz tudo.


“Foi o Antônio (Antconstantino) que sugeriu o sample. Na hora que eu ouvi, eu sabia que era isso. É o som que resume tudo.”

Estética da quebrada: entre o mosh e o microfone


MASKOTTE cresceu ouvindo rock de banda local, colando em palco quando dava, pulando em roda punk e ouvindo as histórias de parentes sobre os bailes de corredor.


"Tipo, tem uma parceira minha, a Scarlet Wolf, que fazia uns shows. Ela cantava uma música e eu sempre subia no palco pra cantar junto. Eu já tinha esse flerte com o microfone, com essa parada, tá ligado? Só que eu nunca, de fato, tive uma banda. E também, pra ter uma banda, precisava de grana, né, pai? Bateria, guitarra… é foda. Mas eu sempre flertei muito com essa parada do palco, de estar ali, sentindo a energia, vibrando junto, tá ligado?"

Viveu o rock, o rap, o funk. Toda essa vivência virou matéria-prima de um estilo que se recusa a ser um só.


“Eu até brinco que sou tipo o Demônio da Tasmânia, tá ligado? Sou 220! E eu preciso de uma forma de extravasar isso. Porque, no dia a dia, na correria do trampo, às vezes a gente nem consegue. Então eu vou achar uns meios de soltar essa energia — a raiva, a alegria, tudo. É quase uma terapia, saca?”

Foto: Wander Scheeffër
Foto: Wander Scheeffër

Esse trânsito entre linguagens é também reflexo do que é ser cria da Baixada: você precisa ser mil versões de si mesmo pra conseguir existir num mundo que te quer moldado na hegemonia. Porque ser da Baixada é isso: é resistência criativa, é adaptação sem submissão. É construir identidade na encruzilhada, onde cada linguagem vira ferramenta de sobrevivência e afirmação.


“Você vai passando por ali como se fosse uma viagem, tá ligado? Vai adquirindo visão, tipo uma visão de agulha, bem precisa. Eu vejo minha carreira assim. Passei pelo funk, rock, conheci o grime, me aprofundei no raga, na cultura jamaicana... É tipo mergulhar em várias piscinas. Aí você pensa: ‘o que dá pra estudar aqui?’ Mistura tudo, faz uma receita e vê o que sai, tá ligado?”

E mesmo com toda essa potência, criatividade e coragem, Maskotte levou tempo para se reconhecer como artista. 


“Eu não conseguia me enxergar como artista. Eu não olhava pra mim e me via assim, mesmo com todo mundo ao meu redor falando: “Mano, você tem um bagulho diferente, você tem uma estrela diferente, do seu jeito, na sua comunicação, na sua interação com as pessoas.” E eu ficava tipo: “Tá, tá bom... deixa isso passar, tá ligado? Mas com o tempo, principalmente ali por volta de 2013, 2015, 2016, fui sendo influenciado pelos meus parceiros, vivendo aquele momento. Foi uma fase em que o rap estava pulsando, mas o rock também — que é de onde eu venho, porque eu nasci no rock. Aquilo tudo foi me aproximando mais, tá ligado? Me conectando com a arte.“ 

Talvez isso se deva à escassez, aos olhares que constantemente negavam essa possibilidade e ao lugar social historicamente questionado que é imposto a milhares de pessoas negras — um lugar marcado por uma violência subjetiva, mas profundamente real, sustentada por uma estrutura racista e covarde.


“Não só com a arte em si, mas com outros artistas também. Gente que estava fazendo a parada de forma independente, colocando a cara pra fazer acontecer. E foi aí que comecei a me relacionar de verdade com a arte, com a música. Foi ali que a ficha começou a cair.”

É um processo árduo construir uma identidade artística quando a sociedade insiste em invisibilizar seus talentos e limitar seus horizontes. Ainda assim, Maskotte resistiu, criando a partir das frestas, transformando dor em linguagem e presença em afirmação.


“Tá ligado? Por mais que eu já tivesse uma bagagem de família, foi naquele momento que eu pensei: “Mano, acho que eu vou começar a fazer essa parada.” Tipo, antigamente eu sempre falava: “Não, é só brincadeirinha. Não sou MC, não sou músico, não sou artista.” Só que teve um dia em que eu olhei pra mim mesmo e falei: “Caralho, mano... eu sou artista. Eu tô fazendo arte, tô fazendo música. E foi isso. Foi nessa virada que o Maskotte se fundiu ao Marlon. E hoje em dia, tamo aí.

O som de MASKOTTE mistura grime, drill, rock, funk, R&B e a estética cortante do que se cria com pouco. Tudo isso com produção 100% da área: Taleko, Fugitive 99, Antconstantino, Clara Ribeiro, Wander Scheeffe e Diogo Queiroz. 


“O coletivo é essencial, tá ligado? Eu levo a ideia meio crua, meio bruta… E a rapaziada chega junto pra lapidar. Tipo a Clara Ribeiro, o Wander, o Diogo. Cada um soma com a sua visão. Porque às vezes uma cabeça só não dá conta de tudo. Eu ajo muito no coletivo — e aprendo demais com isso.”

Foto: Wander Scheeffër
Foto: Wander Scheeffër


“BOMPO”: clipe, Barilândia e o jogo da vida


O single de pré-lançamento do EP foi “BOMPO”, e o videoclipe mergulha na estética do território. Gravado na Barilândia, lendário parque de diversão de Belford Roxo, o clipe mistura drill com visual de videogame e sample de Metal Slug X, clássico dos fliperamas.


“Mano… um bagulho que eu acho foda é o carinho que os moleques têm com cada detalhe. Na mixagem e masterização estavam o NMS e o Antônio. Eu colava, ouvia, dava uns toques. E via o cuidado com cada barulho, cada vocal, cada dobra… Tipo, às vezes eu nem percebia, mas eles mudavam um detalhe e o som batia diferente. Isso me dá vontade de estar sempre junto, produzindo, participando, porque é um carinho com a minha arte também.”


“BOMPO” é gíria, neologismo, código. É a forma de MASKOTTE existir: urgente, inventada, própria. O clipe tem direção de Diogo Queiroz e fotografia de Wander Scheeffer. É visual bonito — mas com verdade. E aqui, verdade é o que não falta.


“(O Clipe de ) Belford Roxo, especificamente, o Wander tinha falado pra mim: “Mano, você consegue deixar essa produção na minha mão?” Eu falei: “Mano, fica à vontade.” E ele foi lá e ficou literalmente à vontade, né? Pintou e bordou!”

Belford Roxo é resistência


Na reta final da entrevista, a pergunta vem: O que é a Baixada pra você?  


MASKOTTE nem pensa:


“Cara, Belford Roxo, minha área, a Baixada Fluminense, significa resistência, tá ligado? Pelo tanto que eu já vi, o tanto que eu já vivi… Vários bagulhos que a gente chega no limite, mas ainda arruma força pra correr atrás das paradas. Desde coisas simples, tipo sair daqui pra curtir uma praia e passar perrengue, até lidar com enchente, atravessar com vara no meio do bagulho… A gente sempre resiste. Então, pra mim, é isso: resistência. E é isso — pé na porta, porque nós também vai dominar tudo, tá ligado?”

Nota 10 não é vitrine. É espelho. Não é produto pro mercado — é documento de memória. MASKOTTE escreve sua história com beat e verso, mas também com saudade, raiva, amor, dor e fé.


“Não é só sobre fazer música e se sentir bem, suave… Mas quando você vem da periferia, quando você é preto e tá fazendo qualquer trampo com cultura negra, isso tem peso.

É importante inspirar a rapaziada também. É trocar de roupa, de vocabulário, de postura, dependendo do ambiente. É saber circular da viela pro palco, da escola pública para reunião formal, da gíria pro discurso articulado — sem perder a essência.


Eu penso muito nisso, inclusive nos mais novos que ouvem minhas músicas. Até palavrão eu evito, pra deixar o bagulho mais leve. Porque eu falo muito, tá ligado?”

É um som que vem da margem, mas não pede licença. Porque, como o próprio artista diz:


“Nós também é cultura. Nós também é potência. E quem não entendeu ainda… vai ter que engolir.”

Foto: Wander Scheeffër
Foto: Wander Scheeffër

Quem inspira quem também é cria


Tem muito disso, né? De você ser influência pra outras pessoas... Mas e as suas influências? Quais são?


"Do rock ali, a influência no meu método é inegável. Mas os pilares mesmo vêm do hip-hop. Eu escuto muito Tyler, escuto muito Kendrick, tá ligado? Bateu muito nas minhas caixas. Da música eletrônica, eu curto muito o General, que faz uma parada mais de jungle, massive original, tá ligado? No grime, tem o Guedes, o Messi... essa rapaziada mais agressiva, com presença, com imposição na voz, sabe?"

Boa! Agora vamos filtrar: artistas da Baixada Fluminense?


"Da Baixada... primeiro, meu pai — não tem como negar, tá ligado? Curto muito a galera do Rappa também. E meus amigos — não posso deixar passar — a KBrum, o Antconstantino, tá ligado? E tem uma rapaziada vindo forte aí também: Ana, a Clara Ribeiro... Essa galera que tá chegando e quebrando tudo. E o mais louco é que a maioria dos meus parceiros são minhas maiores inspirações. A gente tá ali, vivendo o dia a dia junto, trocando ideia, criando junto... É o tipo de coisa que me deixa feliz de estar por perto, tá ligado?"

Próximos passos…


“Mano, então... o próximo passo é o lançamento. Eu já estava — aliás, ainda tô — pensando nisso. Não sei se isso pode mudar daqui pra frente ou não, mas a ideia é fazer um trampo, tá ligado? Com algumas referências, uma parada mais bem embolada ali no drum and bass. Pode ser que outras influências entrem também, pra complementar, mas quero ter cuidado pra não exagerar, pra manter a essência, tá ligado?”

E o desejo de incluir mais verdades a partir de outras perspectivas.


“Essa ideia já tá comigo faz um tempinho. Quero fazer uma parada com mais colaborações também, até porque o Nota 10 não teve, né? A meta mesmo é fazer o EP rodar, bater de verdade, conseguir circular por alguns cantos do Brasil fazendo show, tá ligado? Divulgar a arte, ver a rapaziada cantando, sentindo o som. E aí é isso: um passo de cada vez, pra não tropeçar no corre, tá ligado? Uhum.”

Nota 10 é só o começo. 


Mas o recado já foi dado:


“Mano, ouçam Nota 10, compartilhem e fica ligado aí que eu tô com uns projetinhos pra soltar também. Não posso parar, não — talvez ainda não esteja 100%, mas é isso. Acompanha nós aí, Leigo Records! E vamo pra cima!”



 
 
 

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É debaixo do sol da Baixada, entre sirenes, madrugadas e salas improvisadas, que a Enfermagem de Belford Roxo faz milagre todo dia. Milagre de acolher, curar, costurar feridas da carne e da alma.


Milagre de estar de pé — mesmo sem ter o que comer em casa, mesmo devendo o aluguel, mesmo com o salário congelado e o coração em frangalhos. Agora, mais uma vez, essa gente que cuida de todo mundo é deixada pra trás.

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Desde janeiro de 2025, os profissionais de enfermagem do município não veem um centavo sequer do que deveriam estar recebendo pelo Complemento Salarial Retroativo, garantido por lei. Dez parcelas em aberto. Isso mesmo: dez meses de atraso em repasses que a União faz regularmente para a Prefeitura, e que estão devidamente lançados no sistema InvestSUS, com CPF, carimbo e tudo.


A pergunta que ecoa nos corredores dos hospitais é simples: Cadê o dinheiro da Enfermagem?
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Uma luta que não começou agora


O piso nacional da Enfermagem foi uma conquista arrancada com suor, greve e lágrima. Depois de anos de mobilização, veio a Lei 14.434/2022, que fixou o piso para enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras. Mas, como de costume no Brasil, a história não termina na assinatura da lei. Começou aí a disputa pelo cumprimento.


Em 2023, após decisões judiciais e muito empurra-empurra entre os entes federativos, o Ministério da Saúde começou a repassar os valores — inclusive os retroativos. Para isso, criou a Portaria GM/MS nº 4.155/2024, com critérios técnicos para distribuição do dinheiro aos estados e municípios. A norma determina que os gestores públicos façam o repasse diretamente aos profissionais, de acordo com listas já homologadas.

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Só que, em Belford Roxo, o dinheiro chega… e some. Não há nota pública, não há prestação de contas clara, não há justificativa. Há só o silêncio — e a dor de quem depende desse salário para sobreviver.


A Enfermagem sangra


Enquanto a burocracia se arrasta, a Enfermagem sangra. São profissionais adoecendo por estresse, por sobrecarga de trabalho, por insegurança financeira. Gente que segura a barra do SUS com a mão e o coração, mas não consegue segurar a própria vida.

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“Não dá mais pra trabalhar no limite e ainda ter que implorar pra receber. O dinheiro vem, mas pra onde ele vai? A gente quer só o que é nosso, o que foi prometido e assinado”, denuncia uma técnica de enfermagem que, como muitos colegas, teme represálias por falar publicamente.

Não é só uma questão de salário. É sobre dignidade, reconhecimento, respeito. É sobre garantir que profissionais da saúde não tenham que escolher entre botar comida na mesa ou pagar a condução pra ir trabalhar. É sobre cuidar de quem cuida.


Não é só em Belford Roxo

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O caso de Belford Roxo é sintoma de um problema nacional. Segundo a matéria do portal Brasil61, muitos profissionais da Enfermagem seguem sem receber os valores retroativos, mesmo com os recursos em caixa. A alegação de parte dos municípios é a falta de regulamentação detalhada ou de repasses complementares, mas os dados oficiais mostram outra realidade.


A Confederação Nacional dos Municípios aponta que cabe aos prefeitos “organizarem os pagamentos”. O Ministério da Saúde afirma que a responsabilidade agora é local. No meio disso tudo, quem perde é a categoria que mais segurou as pontas durante a pandemia — e que hoje carrega a saúde pública nas costas.

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De luto, mas não calados


A Enfermagem de Belford Roxo está de luto. Luto por promessas não cumpridas. Por direitos negados. Por vidas que cuidam de outras vidas enquanto as suas são deixadas de lado. Mas não está calada.


Lutar não é escolha, é necessidade.

Lutar é viver.


E essa luta não é só por salário. É por visibilidade. Por respeito.

Por políticas públicas comprometidas com quem mora nas periferias, com quem atende no pronto-socorro da madrugada, com quem vê de perto o sofrimento do povo e não desvia o olhar.

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Enquanto os repasses federais seguem caindo nas contas da prefeitura sem chegar aos profissionais, a gente pergunta de novo:


Onde está o dinheiro da Enfermagem?


Porque quem cuida também adoece.

Quem cura também precisa ser curado.

E ninguém solta o bisturi de ninguém.


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Um apelo pela valorização da Enfermagem de Belford Roxo


Nós, profissionais da Enfermagem do Município de Belford Roxo, viemos a público pedir respeito, dignidade e justiça. Exercemos uma das profissões mais essenciais para a sociedade — cuidamos, acolhemos, salvamos vidas, muitas vezes colocando a nossa própria saúde em risco. Trabalhamos com dedicação, mesmo diante de estruturas precárias, jornadas exaustivas e salários defasados.


Infelizmente, o Complemento Salarial Retroativo da Enfermagem, repassado regularmente e em Dia pela União à Prefeitura de Belford Roxo, NÃO TEM CHEGO EM NOSSAS MÃOS, está há meses atrasado. Já são ao todo 10 parcelas em aberto ao todo.

Desde o início de 2025, nenhum valor destinado a esse Complemento foi pago, mesmo com os repasses federais devidamente realizados e visíveis no sistema InvestSUS.


Exigimos transparência e uma posição oficial do poder público. Não estamos pedindo favores, estamos cobrando um direito legal, fruto de uma luta histórica por valorização. Queremos apenas receber o que é nosso por direito. Queremos viver com dignidade. Queremos continuar cuidando da população sem ter que sofrer pela insegurança financeira todos os meses.


A Enfermagem de Belford Roxo pede socorro.

Estamos de luto, mas não em silêncio.

Lutamos pelo que é justo.



 
 
 

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Até onde o Hip Hop é respeitado?


Renascimento, Classicismo, Impressionismo, Surrealismo, Modernismo…

Ouvimos falar de vários movimentos artísticos que, mesmo sem entender muito bem do que se tratam ou em que período histórico aconteceram, atribuímos a eles, involuntariamente, uma legitimação. Afinal, o(a) professor(a) citou em algum momento na aula de Artes ou História, certo?


Então, esse movimento artístico existiu e é valorizado — e tão respeitado — a ponto de estar incluído nos currículos escolares e nas grades de cursos superiores.
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A gente sabe (ou deveria saber) por que isso não acontece com o movimento Hip Hop. Além da resposta óbvia e triste — o racismo estrutural — isso também tem um nome científico: epistemicídio.


O termo se refere ao genocídio de determinados conhecimentos com base em sua origem étnica-racial, o que traz severas consequências para a autoestima intelectual de grupos tidos como “minoritários”. Uma ciência ignorada, deturpada ou apropriada passa por um processo de apagamento histórico, através da hierarquização de saberes.

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Sueli Carneiro, doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo, utiliza o termo “epistemicídio” para evidenciar uma das muitas práticas de diminuição (ou anulação) da potência intelectual de povos colonizados e escravizados. Isso se reproduz no Brasil, principalmente nas escolas, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, influenciando a autocompreensão de pessoas pretas e pardas como produtoras de conhecimento.


Essa discussão vai muito além de como povos colonizados e escravizados são retratados nos livros de História, onde são lembrados somente nos períodos de colonização e “libertação”, por meio de imagens que ficam em nossas mentes — como A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, em que inúmeros indígenas estão passivamente sentados ouvindo a missa dada por Padre José de Anchieta. 

E não preciso nem comentar as inúmeras imagens de negros escravizados pintadas pelo artista francês Jean-Baptiste Debret.
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Não pretendo aqui fazer um julgamento de valor — afinal, a história foi retratada, querendo a gente ou não —, mas a forma como essas imagens são lançadas em nossas mentes desde a infância influencia, e muito, nossa autopercepção sobre quem somos.


E é aí que o Hip Hop entra.


O Hip Hop é um movimento imenso, com diversos elementos que o compõem: o Graffiti, o MC/RAP, o DJ, o Break e a cola disso tudo, que pra mim é o principal: o conhecimento. Uma cultura que, daqui a alguns anos, quando eu e você estivermos velhos (assim seja), se tornará centenária!


Esse conhecimento que une todo o Hip Hop tem sua própria forma de fazer pedagogia, sua maneira de manter a cultura viva e resgatar a história do próprio movimento ao longo dos anos.


Também tem uma forma única de se adaptar às novas formas de fazer arte — como o surgimento de tecnologias de produção musical, redes sociais para divulgação e novos espaços de publicação de texto — como fazemos aqui na Revista Menó.

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Tudo bem que estamos numa época em que YouTube, Instagram e outras redes sociais expandiram a cultura, e até em cidades pequenas do interior do Brasil há rodas de rima que podem ser facilmente encontradas nessas plataformas. Mas, novamente, estamos aqui discutindo uma palavra-chave: legitimação.


O Hip Hop é um exemplo de sobrevivência cultural — assim como o Funk, o Samba e outros movimentos e espaços de produção de conhecimento que, apesar de serem populare$, por nascerem nas periferias e favelas, não são legitimados como movimentos artísticos. 


Principalmente nas escolas, onde, quando não são ignorados, aparecem como algo “alternativo”.

A cultura Hip Hop, que só cresce, é um exemplo de tecnologia social. Ela nos ensina, sobretudo, sobre pedagogia, malandragem, e como lidar com um sistema que suga da cultura popular — especialmente no contexto carioca. Vou até parafrasear Thiago Elniño na música Pedagoginga, quando ele diz:


O Hip-Hop me falou de autonomia, Autonomia que a escola nunca me deu A escola me ensinou a escolher caminhos Dentro do quadradinho que ela mesma me prendeu” - Pedagoginga (part. Sant e KMKZ)
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O que um movimento cultural e histórico tão f#d@ como esse está fazendo fora da educação básica de crianças e adolescentes que têm sua potente intelectualidade e autoestima destruídas de todas as formas — até dentro da sala de aula?


Ultimamente, o Hip Hop tem entrado nas escolas por meio de Graffiti, Rodas de Rima e Break, através de iniciativas de secretarias públicas da educação, geralmente com apoio de editais que convocam artistas para apresentações e oficinas culturais.

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Mas isso tudo ainda é alternativo demais. São poucas horas de teoria e prática sobre o movimento — isso quando dá tempo de apresentar. E algo muito maior é necessário. A validação da cultura não pode se dar somente através desses meios.


Uma apresentação superficial do que é considerado “alternativo”, mesmo que faça parte da vivência de muitos estudantes, é sugada e apagada por anos de uma formação que insiste em julgar uma cultura como superior à outra. Voltemos, novamente, ao Cubismo, ao Modernismo, à Arte Contemporânea — expressões muitas vezes abstratas demais para nossa realidade periférica tão concreta.


A escola não quer e não precisa de “Senhoritas Morellos”. A educação básica precisa reconhecer saberes que não podem mais ser tratados como alternativos, reproduzindo uma hierarquização dentro das disciplinas que ignora a realidade da população periférica e favelada.
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E não é como se o Hip Hop precisasse ser “oficializado” pelo Estado ou pela população. O Hip Hop existiu e sempre existirá, independente de quantos “nãos” ele receba. Porém, o respeito precisa ser estimulado dentro de uma estrutura que achata todos nós — e em todos os espaços.


Essa provocação vai além da educação básica e nos faz perguntar: Por que não há uma maior oferta de formação em produção musical nas instituições públicas para produtores de funk e beatmakers? Por que não incluir técnicas de spray e Graffiti nas aulas de pintura, sem deixar de lado a pintura a óleo (tão supervalorizada)?


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As respostas, a gente já sabe. E a luta é contínua.


O Hip Hop não precisa da escola para existir. Mas a escola precisa do Hip Hop se quiser existir para além do colonialismo.


 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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