Relato em Poesia
- Daniel Lamim

- 9 de abr.
- 2 min de leitura

Relato em poesia de uma conversa qualquer;
4 Participantes
25 de Fevereiro de 2026
Praça do Cocotá (Pista de Skate), Ilha do Governador, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
(Nomes alterados para preservação de anonimato)
Eu quero largar essa porra.
Quando foi sua primeira vez?
Eu tava cobrindo um cara na boca
Tava com sono, então usei
(todos os cachorros da praça
de rua mesmo, os caramelos,
deitam ao redor desses humanos
de cor... caramelo?)
Lembra de Gabriel? Que tinha uma mãe bem coroa
Lembro mermo. Mãe cascuda
Os 2 são catador de lixo
Sim. Tenho uma memória dele
Éramos crianças
Estávamos brincando
Ele esbarrou numa mesa de vidro
A mesa quebrou em mil pedaços

A dona da mesa falou algo tipo
"Tá tudo bem! Eu vi que foi sem querer"
Normal. Sim
Então. A mãe dele espancou ele
Na frente de todos nós
Caralho
Tu falou que odeia sua mãe
Não. Isso eu não falo
(noite quente e nublada
no céu do Cocotá,
a pista renovada,
melhor praça cá não há)
Eu gosto do Gabriel.
Eu também.
De alguma forma
Eu acho que tem a ver
O que a mãe dele fez com ele
E o que ele se tornou hoje
Mas a gente viu o outro lado dele
Sim
É meio que por isso, eu acho
Que você usa?
Sim
Todos nós né
Comecei com 18.
Também.
14.
Caralho.

(uma promessa desce a rampa
manobra limpa, no ar;
e os demais skatistas
alegres, a gritar)
Eu também tentei
Foi um dia chuvoso
Eu ia me pendurar
Sabe o que aconteceu?
Eu escorreguei e caí
Tentei subir na árvore de novo
Não consegui mais
Desisti
Coé mané, papo 10, para de rir kkkkkk
Porra mano kkkkk
Tu não morreu por sorte!
Ou azar né
É foda.
Sim.
Você tem medo de morrer?
Não. Todos vamos morrer.
Vô nessa. Se cuida
Tu também mano
Tamo junto
Demora...

(os caramelos estão dormindo,
e os humanos indo embora,
a vida planta e nasce,
a gente vai e só devora)
Daniel S. Lamim
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