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Relato em Poesia



Relato em poesia de uma conversa qualquer;

4 Participantes

25 de Fevereiro de 2026 

Praça do Cocotá (Pista de Skate), Ilha do Governador, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 

(Nomes alterados para preservação de anonimato)


Eu quero largar essa porra.

Quando foi sua primeira vez?

Eu tava cobrindo um cara na boca

Tava com sono, então usei


(todos os cachorros da praça

de rua mesmo, os caramelos,

deitam ao redor desses humanos

de cor... caramelo?)


Lembra de Gabriel? Que tinha uma mãe bem coroa

Lembro mermo. Mãe cascuda

Os 2 são catador de lixo

Sim. Tenho uma memória dele


Éramos crianças

Estávamos brincando

Ele esbarrou numa mesa de vidro

A mesa quebrou em mil pedaços



A dona da mesa falou algo tipo

"Tá tudo bem! Eu vi que foi sem querer"

Normal. Sim

Então. A mãe dele espancou ele


Na frente de todos nós

Caralho

Tu falou que odeia sua mãe

Não. Isso eu não falo


(noite quente e nublada

no céu do Cocotá,

a pista renovada,

melhor praça cá não há)


Eu gosto do Gabriel.

Eu também.

De alguma forma

Eu acho que tem a ver


O que a mãe dele fez com ele

E o que ele se tornou hoje

Mas a gente viu o outro lado dele

Sim


É meio que por isso, eu acho

Que você usa?

Sim

Todos nós né


Comecei com 18.

Também.

14.

Caralho.



(uma promessa desce a rampa

manobra limpa, no ar;

e os demais skatistas

alegres, a gritar)


Eu também tentei

Foi um dia chuvoso

Eu ia me pendurar

Sabe o que aconteceu?


Eu escorreguei e caí

Tentei subir na árvore de novo

Não consegui mais

Desisti


Coé mané, papo 10, para de rir kkkkkk

Porra mano kkkkk

Tu não morreu por sorte!

Ou azar né


É foda.

Sim.

Você tem medo de morrer?

Não. Todos vamos morrer.


Vô nessa. Se cuida

Tu também mano

Tamo junto

Demora...



(os caramelos estão dormindo,

e os humanos indo embora,

a vida planta e nasce,

a gente vai e só devora)


Daniel S. Lamim

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